A mensagem veio de um número de Florianópolis.
*Meu nome é Davi Bernardes. Acredito que sou seu irmão.*
Irmão.
Por um momento, uma esperança selvagem e impossível surgiu em mim. Passei minha vida inteira no sistema de lares adotivos, acreditando que era órfã, uma garota sem passado. Depois do acidente de carro que levou minhas memórias quando eu era adolescente, não havia ninguém.
Agora, isso.
Rapidamente digitei uma resposta, meus dedos tremendo.
*Como você me encontrou?*
Esperei, meus olhos grudados na tela. Mas nenhuma resposta veio.
Afastei meu café da manhã, a torrada com gosto de papelão. O silêncio na mansão era ensurdecedor. Cada tique-taque do relógio de pêndulo no corredor ecoava o vazio no meu peito.
O dia todo, eu esperei. Por uma resposta do misterioso Davi. Por uma ligação do meu marido.
Nenhuma das duas veio.
Ao cair da noite, a esperança que havia piscado pela manhã morreu lentamente. A luz em meus olhos diminuiu com o sol poente.
Heitor não voltou para casa.
Eu vaguei pela nossa casa perfeita, um fantasma na minha própria vida. Lembrei-me de todas as vezes que ele chegou em casa mais cedo só para jantar comigo. O jeito que ele me abraçava na cozinha enquanto eu cozinhava, o queixo apoiado na minha cabeça.
Tudo isso parecia uma vida inteira atrás. Agora, havia apenas silêncio. Apenas solidão.
Os dias seguintes foram os mesmos. Heitor era uma sombra. Ele saía antes de eu acordar e voltava muito depois de eu ter caído em um sono agitado, o espaço ao meu lado em nossa cama king-size frio e vazio.
A dor dentro de mim crescia, uma dor pesada e constante. O homem que costumava notar se eu mudasse o esmalte das unhas agora mal parecia me ver.
Eu sabia que precisava falar com ele. Eu não podia viver assim, neste estado suspenso de miséria.
Esperei por ele uma noite, sentada na sala de estar escura. O relógio marcou duas horas antes de eu ouvir sua chave na fechadura.
Ele entrou, parecendo exausto. Afrouxou a gravata, os ombros caídos.
— Elara? Por que você ainda está acordada? — Ele parecia cansado, não com raiva, mas a distância estava lá.
— Precisamos conversar, Heitor.
Mantive minha voz firme, embora meu coração estivesse martelando contra minhas costelas.
— O que está acontecendo com você e... e ela? Com o Léo?
Ele hesitou, passando a mão pelo cabelo.
— É complicado.
— Eu amo você, Elara. Só você. Você sabe disso.
Ele disse as palavras, mas elas soaram ocas. Ensaiadas.
— Eu tenho que assumir a responsabilidade pelo Léo — ele continuou. — Vou dar à Carla o que ela quiser financeiramente para garantir que ele receba o melhor tratamento. Mas é só isso. É só dinheiro e responsabilidade.
Eu o encarei, procurando em seu rosto. Vi o cansaço, a culpa. Mas também o vi se afastando, construindo um muro em torno de uma parte de sua vida que não me incluía.
— Você já teve sentimentos por ela? — A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la, pequena e crua.
Minha respiração ficou presa na garganta. Observei seu rosto, aterrorizada com a resposta.
— Não — ele disse, finalmente encontrando meus olhos. — Foi um erro. Uma coisa de uma noite. Nada mais. Minha vida é com você, Elara. Só com você.
Uma onda de alívio me invadiu, tão poderosa que quase me deixou tonta. Eu acreditei nele. Eu queria acreditar nele.
Levantei-me e peguei sua mão, puxando-a para minha barriga lisa. Eu estava prestes a contar a ele, a compartilhar a única boa notícia no meio dessa bagunça.
— Heitor, eu...
Um toque agudo e insistente cortou o silêncio. O celular dele.
Ele puxou a mão para atender, sua expressão mudando imediatamente para uma de puro pânico.
— O quê? Estou a caminho.
Ele desligou, já se movendo em direção à porta.
— A febre do Léo está subindo. Eles acham que ele pode estar rejeitando o tratamento. Eu tenho que ir.
Ele estava indo embora. De novo.
— Vá dormir, Elara — ele disse por cima do ombro, a mão na maçaneta. — Seja uma boa menina.
Ele se foi.
Fiquei sozinha na vasta e vazia sala de estar, minha mão ainda na barriga.
— Estou grávida — sussurrei para o espaço vazio onde ele estivera.
As palavras foram engolidas pelo silêncio. Uma única lágrima traçou um caminho pelo meu rosto. Algo dentro de mim sabia, com uma certeza arrepiante, que nosso mundo perfeito havia rachado, e talvez nunca mais voltasse a ser inteiro.
Acordei na manhã seguinte com uma caixa de presente na minha mesa de cabeceira. Dentro havia um colar, um lindo pingente de diamante. Havia um bilhete.
*Me desculpe, Elara. Vou compensar você. Com amor, H.*
Uma pequena parte de mim amoleceu. Ele estava tentando. Ele ainda era o meu Heitor.
Fui até minha caixa de joias para colocá-lo. E então eu vi. O colar exatamente igual, aninhado em uma caixa de veludo. Um presente do Natal passado.
Ele nem tinha percebido que me comprou a mesma coisa duas vezes.
O pequeno calor no meu peito se transformou em gelo. Não era um presente pensado. Era um gesto de culpa, comprado por um assistente, uma solução rápida de um homem que não estava mais prestando atenção.
Como se fosse um sinal, meu telefone tocou. Era Cristina, a mãe de Heitor.
— Elara, querida. — A voz dela era como aço polido. — Fiquei tão surpresa ao saber da... situação do Heitor.
Fiquei surpresa por ela estar me ligando. Cristina Vasconcelos nunca me aprovou, a órfã sem sobrenome.
— Tem sido um momento difícil — eu disse com cuidado.
— Sim, bem — ela fungou. — Eu sempre disse que o Heitor precisava de um herdeiro. É uma pena que você não tenha conseguido dar um a ele. Mas agora ele tem um filho! Um neto para mim. Você precisa ser solidária, Elara. Vá ao hospital. Mostre um pouco de bondade à Carla e àquela pobre criança. É o mínimo que você pode fazer.
A linha ficou muda.
Fiquei ali, as palavras dela ecoando em meus ouvidos. *O mínimo que você pode fazer.*
Minha mão foi para a minha barriga, uma sensação amarga e oca se espalhando por mim. Pensei no bebê sobre o qual Heitor e eu conversamos por dois anos. Ele sempre dizia que não tinha pressa, que me queria só para ele por mais um tempo.
Agora, ele tinha um filho. Um filho doente que precisava dele. E eu era apenas... a esposa. A esposa estéril.
Mas eu não era estéril.
Eu estava carregando o filho dele. E ele nem sabia.
Inquieta e magoada, dirigi até o único lugar que costumava ser meu: "O Alquimista", o bar chique no centro da cidade onde eu fiz meu nome como mixologista antes de conhecer Heitor. Eu precisava do barulho familiar, do tilintar de copos, do zumbido de conversas que não tinham nada a ver comigo.
Deslizei para um banco no canto do bar, a madeira polida fria sob minhas mãos.
— Ora, ora. Veja quem está aqui.
Eu olhei para cima. Era Carla Barbosa. Ela estava atrás do bar, limpando o balcão, usando um uniforme barato e apertado demais.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, confusa.
Ela me deu um sorriso cansado.
— Pagando o aluguel. Os trabalhos de design gráfico estão fracos, e as contas médicas do Léo... são muitas.
A presença dela aqui parecia uma invasão. Este era o meu santuário.
— Quero uma água com gás e limão — eu disse, engolindo a irritação.
Ela assentiu, seus movimentos lentos enquanto preparava minha bebida.
— Eu sei quem você é, sabe. Ou quem você era. Elara Bernardes. A melhor mixologista da cidade. O Heitor me falou de você.
Suas palavras eram casuais, mas pareciam calculadas. Eu não queria saber o que mais Heitor tinha contado a ela. Eu só queria ficar sozinha.
— Isso foi há muito tempo — eu disse, tomando um gole da minha bebida.
Ela se apoiou no balcão, sua voz baixando para um sussurro conspiratório.
— Ele estava tão sozinho naquela noite no Rio. Ele me disse que estava cansado das mulheres superficiais que só queriam o dinheiro dele. Ele queria algo real.
Eu enrijeci. Eu não queria ouvir isso.
— Ele foi tão gentil — ela continuou, um olhar sonhador em seus olhos. — Eu estava passando por um momento difícil. Meu pai estava doente. Ele apenas ouviu. Ele me fez sentir segura.
Cada palavra era uma torção deliberada da faca. Eu sabia o que ela estava fazendo. Ela estava pintando um quadro de uma conexão profunda e emocional, não apenas um erro de bêbado. Ela estava tentando me fazer sentir como a outra mulher.
E estava funcionando.
A raiva e o ciúme que eu vinha reprimindo subiram pela minha garganta. Mas eu não podia explodir. Porque ela era a mãe do filho dele. Ela tinha um direito sobre ele que eu nunca teria. De uma forma distorcida, ela vinha primeiro.
A dor era uma coisa sólida e imóvel no meu peito.
Virei-me, encarando as luzes piscando na pista de dança, tentando respirar.
E então eu o vi.
Heitor.
Ele estava parado na entrada, seus olhos percorrendo o salão. Meu coração deu um salto. Ele veio por mim.
Mas seus olhos não pousaram em mim. Eles encontraram Carla.
Ele caminhou direto até ela, o rosto marcado pela preocupação. Ele nem me viu, sentada a poucos metros de distância.
— Carla, o que você está fazendo aqui? — ele disse, a voz suave, cheia de uma ternura que ele não me mostrava há dias. — Você deveria estar descansando. O Léo precisa de você.
Meu coração afundou. Ele não estava aqui por mim. Ele estava aqui por ela.
Ele costumava me encontrar em qualquer multidão. Seus olhos sempre encontravam os meus, uma pequena conexão privada em uma sala cheia de pessoas. Agora, eu era invisível.
Os olhos de Carla piscaram na minha direção, um pequeno brilho triunfante em suas profundezas. Foi só então que Heitor seguiu o olhar dela e me viu.
Ele pareceu surpreso, depois sua testa se franziu em desaprovação.
— Elara? O que você está fazendo em um lugar como este? Você deveria estar em casa.
A ironia amarga era tão espessa que eu podia prová-la. Ele era um bilionário que possuía metade da cidade, mas meu mundo havia encolhido para as quatro paredes de nossa casa. O mundo dele, no entanto, havia se expandido para incluir uma família inteira.
Forcei um sorriso tenso e frágil.
— Estava com saudades.
Engoli a mágoa e me levantei, movendo-me para trás do bar. As ferramentas familiares pareciam sólidas em minhas mãos.
— Deixe-me fazer uma bebida para você. Pelos velhos tempos.
Era o nosso ritual. Minha maneira de amá-lo.
Ele hesitou, seu olhar se deslocando para Carla.
— Não posso. Tenho que levar a Carla de volta ao hospital.
A desculpa era fraca. Ele tinha um motorista de plantão 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Minhas mãos pararam sobre a coqueteleira. Lembrei-me de todas as vezes que ele me disse que minhas bebidas eram as únicas que ele sempre quereria. Que ele era meu maior fã.
— Você realmente não vai me deixar fazer uma bebida para você? — perguntei, minha voz pequena.
— Elara, agora não é hora para isso — ele disse, a voz tensa de impaciência. — O Léo está doente. Você precisa descansar.
Era sempre sobre o Léo. Sempre sobre a minha saúde. Como se eu fosse uma boneca frágil para ser guardada em uma prateleira enquanto ele lidava com sua vida real.
Meu entusiasmo desapareceu. Coloquei a coqueteleira na bancada com um clique silencioso.
Heitor pareceu sentir minha decepção. Ele se aproximou, colocando as mãos nos meus ombros.
— Me desculpe, Elara. Eu prometo, assim que o Léo melhorar, vamos fazer uma viagem. Só nós dois. E eu vou lidar com a Carla. Ela não estará em nossas vidas. Eu prometo.
Suas promessas pareciam palavras vazias, destinadas apenas a me apaziguar.
Eu não respondi.
Do outro lado do bar, Carla havia trocado de uniforme. Ela se aproximou, seus olhos pousando nas mãos de Heitor em meus ombros. Um lampejo de ódio cruzou seu rosto antes que ela o escondesse atrás de uma máscara de preocupação.
Ela sabia que Heitor me amava. Mas isso não importava. Ela tinha o filho dele. Ela tinha a alavanca final, e ela me ressentia por ter a única coisa que não conseguia: o coração dele.
— Heitor, devemos ir — ela disse, a voz urgente. — O hospital ligou de novo. O Léo está perguntando por você.
Heitor suspirou, suas mãos caindo dos meus ombros. Ele parecia dividido, mas apenas por um segundo.
— Você está certa. — Ele se virou para mim, a voz suavizando novamente. — Vá para casa, Elara. Eu te ligo mais tarde.
Ele se virou e foi embora com ela, deixando-me ali, uma relíquia de uma vida que não existia mais.
Eu os vi partir, minha visão embaçada pelas lágrimas. Eu entendi. Ele estava cansado. Ele estava estressado. Tentei encontrar desculpas para ele.
Peguei a coqueteleira e fiz sua bebida favorita, um Old Fashioned complexo e defumado. Coloquei-a no bar, o líquido âmbar brilhando sob as luzes.
Então eu saí.
Ele havia prometido que nunca deixaria uma bebida que eu fiz para ele intocada.
Naquela noite, ela ficaria.