O jantar na casa dos meus sogros era para ser uma celebração, o nosso primeiro anúncio oficial da gravidez para a família.
O cheiro do risoto de camarão que a minha cunhada, Sofia, colocou na minha frente era delicioso, mas meu coração gelou.
"Sofia, você sabe que eu sou alérgica a camarão", eu disse, a minha voz um pouco trémula.
Ela sorriu, um sorriso que não alcançou os seus olhos.
"Claro que sei, cunhadinha. Este é de frango. Fiz especialmente para você."
Confiei nela.
Confiei no meu marido, Mateus, que estava sentado ao meu lado, rindo de uma piada que o seu pai, Ricardo, contou.
Dei uma garfada.
O sabor era bom, mas em segundos, uma comichão começou na minha garganta.
Uma comichão que se transformou em aperto.
"Acho... acho que tem camarão aqui", consegui dizer, a minha voz já rouca.
Sofia olhou para o meu prato, com os olhos arregalados em falsa surpresa.
"Oh, meu Deus! Devo ter usado a colher errada para te servir! Que desastrada!"
O pânico começou a subir. A minha respiração ficou curta.
"Mateus", chamei, a minha mão a agarrar o seu braço. "A minha caneta de epinefrina... está no carro."
Ele olhou para mim, a sua testa franzida em aborrecimento, não em preocupação.
Naquele exato momento, Sofia soltou um grito agudo e caiu da cadeira, agarrando o seu tornozelo.
"Ai! O meu pé! Acho que o torci!"
Toda a atenção na sala virou-se para ela.
Mateus soltou o meu braço e correu para a sua irmã.
"O que aconteceu? Deixa-me ver", disse ele, a sua voz cheia da preocupação que ele não me deu.
"Eu preciso... do hospital", sussurrei, mas a minha voz perdeu-se no barulho.
Ricardo, o meu sogro, estava a ajudar Mateus a levantar Sofia.
"Vamos levá-la para o pronto-socorro, pode ser uma fratura."
Eu estava a sufocar. A minha visão estava a ficar turva nas bordas.
Ninguém olhou para mim.
Com a pouca força que me restava, levantei-me e tropecei em direção à porta.
Cada passo era uma luta contra o meu próprio corpo.
O meu rosto estava a inchar, os meus pulmões ardiam.
Agarrei no meu telemóvel e disquei o número de Mateus.
Ele atendeu no terceiro toque, a sua voz impaciente.
"Clara, o que foi? Estou a levar a Sofia para o hospital, o tornozelo dela está horrível."
"Mateus... eu não consigo... respirar", forcejei para dizer. "É o camarão."
Houve uma pausa. Pude ouvir Sofia a choramingar no fundo.
"Você não tomou o seu anti-histamínico antes de vir? Você sabe que tem que ter cuidado. Tente beber um pouco de água. Estou quase a chegar ao hospital com a Sofia, não posso voltar agora."
A sua calma era mais cruel do que qualquer grito.
"Eu preciso... da minha... epinefrina", a minha voz era um fio. "Vou ter um choque anafilático."
"Não exagere, Clara. Você sempre fica um pouco ofegante. Ligue para uma ambulância se for tão mau assim. Tenho que desligar, preciso de me concentrar na estrada."
Ele desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel na minha mão, o ecrã a brilhar com o seu nome.
Ele desligou.
O meu marido, o pai do meu filho ainda não nascido, escolheu um tornozelo torcido em vez da minha vida.
O desespero deu-me uma última onda de adrenalina.
Saí para a rua, acenando freneticamente para o primeiro carro que vi.
Uma mulher parou. O seu rosto era um borrão de preocupação.
"Pelo amor de Deus, moça! O que aconteceu com você?"
"Hospital", foi a única palavra que consegui dizer antes de o mundo ficar preto.