Ponto de Vista de Hana Évora:
Minhas palavras pairaram no ar, ácidas e cruas. Uma onda de suspiros varreu o teatro. A fachada elegante do lançamento do podcast se estilhaçou, substituída por um zumbido frenético.
Flashes estouraram como fogos de artifício enquanto repórteres, sentindo sangue na água, começaram a se agitar. Sussurros se transformaram em gritos.
— É ela mesmo?
— A sobrevivente do sequestro?
— Ela está dizendo que é mentira?
A multidão era uma entidade viva, respirando, seu humor mudando de adulação para confusão, depois para hostilidade aberta.
O apresentador, um homem polido acostumado a controlar narrativas, gaguejou:
— Senhora, por favor, este não é o fórum apropriado para...
— Apropriado? — Eu o cortei, minha voz ganhando força. — Você acha que isso é apropriado? Explorar meu trauma, distorcer minhas palavras, me transformar em uma vilã para o seu entretenimento?
Comecei a andar, cada passo deliberado, meus olhos fixos em Érico. O palco de repente parecia a quilômetros de distância, depois aterrorizantemente perto. Seguranças em ternos pretos impecáveis se moveram, tentando me interceptar, mas a massa crescente de repórteres e membros curiosos da plateia criou um escudo humano. Seus microfones foram empurrados em minha direção, suas perguntas uma barragem de ruído.
— Srta. Évora, do que você está acusando eles?
— Essas alegações de farsa são verdadeiras?
— Quem deu a eles suas informações privadas?
Suas vozes eram um borrão, mas nada podia abafar a memória do toque de Érico, suas palavras que uma vez me costuraram de volta. *Você está segura comigo, Hana. Eu sempre vou te proteger.* Ele tinha dito isso quando eu ainda estava em carne viva e quebrada, um pássaro frágil sob seus cuidados. Ele era a única pessoa que realmente entendia os pesadelos, os ataques de pânico, a dor constante do medo. Ele tinha sido minha âncora, minha esperança. Meu tudo.
Agora, enquanto eu estava diante dele, as luzes do palco cegando, eu o via como ele realmente era. Uma fachada polida, um traidor. Ele estava congelado, seus olhos arregalados e vagos, uma fina camada de suor na testa.
— Érico — eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, mas ecoou no silêncio repentino. — O que você disse a ela? Sobre os sequestradores? Sobre mim?
Ele apenas olhou, os lábios ligeiramente entreabertos, mas nenhum som saiu. Suas mãos, que uma vez seguraram as minhas com tanta ternura, agora tremiam ao lado do corpo.
Dei um passo mais perto, invadindo seu espaço pessoal. A respiração dele falhou.
— Você disse a ela que eu era manipuladora? Você disse a ela que eu orquestrei tudo? — Minha voz subia a cada pergunta, um crescendo de dor e fúria. — Responda, Érico!
Bianca, vendo a paralisia de Érico, deu um passo à frente, a mão no braço dele, um gesto possessivo.
— Srta. Évora, entendo que você esteja chateada. Mas estamos simplesmente apresentando uma nova perspectiva. As percepções do Dr. Nogueira foram inestimáveis. — O tom dela era paternalista, projetado para me descartar como uma mulher emocional.
Afastei a mão dela com um tapa, meu olhar ainda travado em Érico.
— Não se atreva a tocar nele — eu sibilei.
Então, me virei para Bianca, minha voz ecoando pelo silêncio atordoado da sala.
— E vocês querem saber o que realmente está acontecendo? Esse "Dr. Nogueira" a quem vocês estão tão endividados? Ele é meu noivo.
A revelação caiu como uma bomba. O sorriso confiante de Bianca desapareceu, substituído por um choque de boca aberta. Seus olhos dispararam de mim para Érico, procurando confirmação, uma negação.
Érico, no entanto, não conseguia encontrar o olhar dela. Ele desviou o olhar, o maxilar tenso, sua traição exposta para o mundo ver.
A sala estava totalmente silenciosa. Sem flashes, sem murmúrios. Cada olho no teatro estava fixo em nós três — a sobrevivente traumatizada, o psiquiatra renomado e a podcaster implacável — presos em um quadro de humilhação pública e segredos crus e expostos. O conflito, tão profundamente pessoal, havia explodido em um espetáculo, e não havia como voltar atrás.
Ponto de Vista de Hana Évora:
A voz de Bianca era um sussurro trêmulo.
— Seu... seu noivo?
Os olhos dela, arregalados de descrença, piscaram para Érico.
Érico engoliu em seco, a garganta trabalhando.
— Bianca, é complicado — ele rouquejou, a voz seca e oca. Ele não negou, mas definitivamente não afirmou. Ele estava tentando minimizar, se distanciar de mim, mesmo agora.
Uma risada amarga e quebrada escapou dos meus lábios.
— Complicado? — ecoei, o som áspero e feio. — Essa é boa.
Bianca, vendo a falta de uma negação completa de Érico, pareceu recuperar uma lasca de sua compostura. Ela zombou, um som desdenhoso.
— Srta. Évora, acho que seu trauma, combinado com uma óbvia dependência emocional, está nublando seu julgamento. O Dr. Nogueira tem trabalhado incansavelmente para ajudá-la a processar seu passado. Talvez você esteja projetando. — A voz dela endureceu. — Por favor, não o arraste para o seu... teatro.
Minha mão, ainda segurando o microfone, apertou. Minha voz, geralmente suave, de repente ressoou pela sala atordoada.
— Teatro? Você acha que isso é teatro? — Cada palavra era uma marretada. — É teatro quando um psiquiatra, um homem que jurou ajudar, usa os medos mais profundos de sua paciente, suas confissões mais confidenciais, para criar uma história sensacionalista? É teatro quando ele entrega as fitas de terapia privadas e os diários dela para a ex-namorada, sabendo que serão distorcidos, editados e transformados em arma contra ela?
Inclinei-me no microfone, minha voz tremendo com uma mistura de raiva e dor crua.
— Ele não apenas abriu velhas feridas, Bianca. Ele pegou um bisturi, as rasgou ainda mais, e então deixou você jogar sal nelas para consumo público! Ele vazou meu sigilo médico! Ele manipulou minha história! Ele traiu minha confiança! Cada sessão confidencial, cada entrada no diário, cada lágrima que derramei acreditando que ele estava me ajudando a curar... ele usou tudo!
Meus olhos queimaram nos de Érico. Ele estava visivelmente encolhendo, o rosto agora cinza doentio.
— Você está com medo, Érico? Você está finalmente com medo? — Minha voz era um sussurro irregular, mas cortou o silêncio como uma lâmina. Era um grito das profundezas da minha alma, misturado com sangue e lágrimas.
O teatro estava totalmente imóvel, o ar denso com acusações não ditas. Érico não conseguia encontrar meu olhar. Ele olhou para os sapatos, os ombros caídos. A plateia, antes cativada, agora parecia perplexa, muitos olhando com horror crescente para Érico.
Ele murmurou, a voz quase inaudível:
— Eu... eu pensei que ajudaria você. Terapia de exposição. Ajudar a Bianca... a colocar a verdade para fora.
Repeti as palavras dele, um eco zombeteiro.
— Me ajudar? Terapia de exposição? — Outra risada amarga escapou de mim, soando mais como um soluço. — Me pintando como uma mentirosa? Fazendo meus sequestradores parecerem jovens inocentes que eu seduzi por dinheiro e atenção? Essa é a sua ideia de "ajudar"?
Dei outro passo mais perto, minha mão ainda segurando o microfone, forçando-o a olhar para mim.
— Olhe para mim, Érico! Olhe nos meus olhos e me diga, de verdade, isso foi para o meu bem? Ou foi tudo pela Bianca? Pelo podcast dela? Pela carreira dela? Pelo seu ego?
Minha acusação, embora não dita explicitamente, pairou pesada no ar. Foi tudo por ela, não foi? Sua namorada da faculdade. Aquela que você nunca superou de verdade. Você me sacrificou, sua noiva, pelo sucesso dela. O pensamento era uma cobra venenosa, se contorcendo no meu estômago.