Capítulo 2

O cheiro forte de desinfetante hospitalar invadiu as minhas narinas.

Abri os olhos, a luz fluorescente do teto magoava-me a vista.

A minha sogra, Dona Isabel, estava sentada numa cadeira ao lado da cama, a olhar para o nada.

"Acordaste, Sofia?"

A voz dela era fria, distante.

Tentei sentar-me, uma dor aguda atravessou o meu abdómen.

Lembrei-me. O sangramento, a corrida para o hospital, o médico a dizer "Lamento, perdemos o bebé."

O nosso bebé. O bebé que eu e o Miguel tanto queríamos.

"Onde está o Miguel?" perguntei, a voz rouca.

"Ele teve de ir."

"Ir para onde?"

Dona Isabel suspirou, como se eu fosse um fardo.

"A Clara precisava dele. O carro dela avariou no meio da estrada, coitadinha."

Clara. A irmã do Miguel. A menina dos olhos da minha sogra.

Senti uma raiva fria a crescer dentro de mim.

Eu tinha acabado de perder o nosso filho, e o Miguel foi socorrer a irmã por causa de um carro avariado.

"Ela não podia chamar um reboque?"

"Sofia, não sejas assim. A Clara estava assustada, sozinha."

Sozinha. E eu? Eu não estava sozinha, a passar pela pior dor da minha vida?

As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, quentes e silenciosas.

Dona Isabel olhou para mim com impaciência.

"Não chores. Estas coisas acontecem. És nova, podes tentar outra vez."

Tentar outra vez. Como se fosse trocar uma peça de roupa que não serviu.

Fechei os olhos, o cansaço e a tristeza tomaram conta de mim.

O meu casamento já não estava bem há muito tempo.

A sombra da Clara pairava sempre sobre nós.

O Miguel nunca me defendia, nunca me colocava em primeiro lugar.

Talvez esta perda, esta dor imensa, fosse o sinal que eu precisava.

O sinal para acabar com tudo.

Capítulo 3

Dois dias depois, recebi alta do hospital.

O Miguel veio buscar-me. Não sozinho, claro.

A Clara estava com ele, no banco da frente do carro.

"Olá, Sofia. Estás melhor?"

A voz dela era falsamente doce.

Não respondi. Entrei no carro e fechei a porta.

O silêncio no carro era pesado.

O Miguel tentou puxar conversa.

"A mãe disse que cuidou bem de ti."

"Sim," respondi, seca.

A Clara virou-se no banco.

"Sofia, não fiques assim. Eu sei que é difícil, mas tens de ser forte. O Miguel precisa de ti."

Precisa de mim? Ou precisa de alguém para culpar em silêncio?

Chegámos a casa. O nosso apartamento parecia frio, vazio.

O quarto do bebé, que tínhamos começado a decorar, estava de porta fechada.

Não consegui olhar para lá.

O Miguel deixou as minhas coisas no quarto e saiu.

Ouvi-o a falar ao telefone na sala, a rir.

Provavelmente com a Clara.

Sentei-me na cama, o corpo dorido, o coração em pedaços.

Lembrei-me do dia em que descobrimos a gravidez.

O Miguel parecia feliz, abraçou-me, fizemos planos.

Mas essa felicidade durou pouco.

A Clara começou com os comentários.

"Tens a certeza que queres isto agora, Miguel? Um bebé dá tanto trabalho."

"Sofia, vais ter de deixar o teu emprego, claro."

E a Dona Isabel, sempre a concordar com a filha.

O Miguel nunca as contrariou. Apenas sorria, desconfortável.

A alegria dele foi-se esvaindo, substituída por uma preocupação constante com o "bem-estar" da irmã.

Levantei-me e fui até à sala.

O Miguel desligou o telefone rapidamente quando me viu.

"Estava a falar com quem?"

"Com ninguém importante."

"Era a Clara, não era?"

Ele suspirou, irritado.

"Sim, era. Qual é o problema?"

"O problema, Miguel, é que eu acabei de perder o nosso filho. E tu pareces mais preocupado com a tua irmã do que comigo."

"Não digas isso, Sofia. Claro que me preocupo contigo."

Mas as palavras dele soavam vazias.

"Então demonstra," pedi, a voz embargada.

Ele aproximou-se, tentou abraçar-me, mas eu recuei.

"Não me toques."

"Sofia, por favor..."

"Eu preciso de ficar sozinha."

Voltei para o quarto e tranquei a porta.

Deitei-me na cama e chorei até adormecer.

O divórcio parecia cada vez mais a única saída.

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