Capítulo 2

A água da chuva batia com força no para-brisas do carro, o som era ensurdecedor.

Lá fora, a rua transformou-se num rio de água barrenta e furiosa, arrastando caixotes do lixo e detritos.

O meu carro estava parado, o motor tinha morrido há dez minutos.

A água já subia pelos meus tornozelos dentro do carro.

Eu estava grávida de nove meses, a minha barriga enorme pressionava o volante.

O pânico começou a instalar-se, frio e rápido.

Peguei no telemóvel com os dedos a tremer e liguei ao meu marido, Léo.

A chamada demorou a ser atendida, cada toque parecia uma eternidade.

Finalmente, a voz dele soou, impaciente.

"Eva? O que se passa? Estou ocupado."

"Léo, preciso de ajuda," a minha voz saiu trémula, "O carro avariou na Avenida da Liberdade, a rua está completamente inundada, a água está a entrar no carro."

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi a voz da sua meia-irmã, Sofia.

"Léo, o Miau está tão assustado com os trovões, não me deixes sozinha."

A voz dela era chorosa, mas soava segura, abrigada.

"Eva, ouve," disse Léo, a sua voz tornou-se dura, "A Sofia está em pânico, o gato dela não para de miar. Estou a tentar acalmá-la. Não te podes desenrascar sozinha? Liga para os bombeiros."

"Léo, eu estou a ligar para ti! Estás a cinco minutos daqui! Os bombeiros não vão chegar a tempo, a água está a subir muito depressa. Por favor."

Eu estava a implorar, o que era algo que eu raramente fazia.

"Eu não posso simplesmente deixar a Sofia," ele respondeu, a irritação clara na sua voz, "Ela precisa de mim. És uma mulher adulta, Eva. Resolve isso. Tenho de ir."

"Não, Léo, espera..."

Mas ele desligou.

O som do "tu-tu-tu" foi mais violento do que a tempestade lá fora.

Olhei para a minha barriga. O nosso filho. O filho dele.

Tentei ligar outra vez. E outra. E outra.

A chamada ia sempre para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.

As lágrimas misturavam-se com a água suja que agora me chegava aos joelhos.

O carro balançou violentamente. Um contentor de lixo bateu contra a porta do condutor com um estrondo metálico.

A janela estilhaçou-se.

A água gelada entrou de rompante.

A minha última visão foi a da água a subir rapidamente em direção ao meu rosto.

Depois, tudo ficou escuro.

Capítulo 3

Acordei com um som constante de um "bip".

O cheiro a antissético enchia as minhas narinas.

Abri os olhos lentamente, a luz branca do teto magoava-me a vista.

Estava num quarto de hospital.

A minha mãe, Clara, estava sentada numa cadeira ao lado da cama, o rosto dela estava inchado de tanto chorar.

"Mãe?" a minha voz saiu rouca, um sussurro.

Ela levantou a cabeça de um salto, os seus olhos vermelhos encontraram os meus.

"Eva! Oh, minha filha, graças a Deus."

Ela agarrou a minha mão, a pele dela estava fria.

Tentei sentar-me, uma dor aguda atravessou o meu abdómen. Olhei para baixo.

A minha barriga.

Estava vazia. Plana.

Onde estava o meu bebé?

"O bebé... Onde está o meu filho?" perguntei, o pânico a voltar com toda a força.

A minha mãe começou a chorar de novo, soluços que lhe abalavam o corpo todo.

"Eva, querida... Houve um acidente..."

Um médico entrou no quarto nesse momento, o seu rosto era sério.

"Senhora Eva, sou o Dr. Martins. Você foi trazida pelos bombeiros. Esteve submersa durante algum tempo, o seu coração parou."

Ele fez uma pausa, olhando para os seus papéis.

"Tivemos de fazer uma cesariana de emergência para tentar salvar o bebé. Ele era um menino forte."

Um menino. O meu menino.

"Mas," continuou o médico, a sua voz suave, "ele sofreu demasiado tempo sem oxigénio. Fizemos tudo o que podíamos. Lamento imenso."

As palavras dele pairaram no ar.

Lamento imenso.

O som do monitor cardíaco era a única coisa que eu ouvia. Bip. Bip. Bip.

O meu filho estava morto.

O meu corpo estava vazio. O meu mundo estava vazio.

Não chorei. Não gritei.

Senti apenas um vazio imenso, um buraco negro onde o meu coração deveria estar.

"E o Léo?" perguntei, a voz sem emoção. "Onde está o meu marido?"

A minha mãe limpou as lágrimas, o seu rosto endureceu.

"Ele não está aqui. Ninguém da família dele está aqui."

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED