Ponto de Vista: Liana Peres
Nosso relacionamento existia em um equilíbrio delicado, um ecossistema frágil construído sobre anonimato e telas. Então, em uma terça-feira, eu explodi tudo com um vídeo clicado por engano de um gato caindo de uma estante.
Eu pretendia enviá-lo para minha irmã. Em vez disso, em um momento de descuido por falta de sono, enviei para C.A.
Meu sangue virou gelo quando vi o tique de "Entregue" aparecer ao lado do vídeo em nosso chat. Bati freneticamente na tela, tentando cancelar o envio, mas era tarde demais. Os dois tiques azuis apareceram. Ele tinha visto.
Uma onda de mortificação me invadiu. Era uma coisa tão estúpida e pouco profissional de se enviar. Eu deveria ser sua consultora de branding afiada e espirituosa, não uma garota que lhe envia vídeos bobos de gatos. Uma pontada de culpa me atingiu; eu tinha sido tão fria com ele ultimamente, cortando suas tentativas de qualquer coisa pessoal. Este vídeo acidental parecia uma rachadura na minha armadura cuidadosamente mantida.
Antes que eu pudesse digitar um pedido de desculpas, a resposta dele chegou.
C.A.: Esse gato é seu?
Eu: Não. Foi um acidente. Desculpe.
C.A.: Entendi. Eu estava me perguntando do que você gosta.
A pergunta me pegou de surpresa.
Eu: Do que eu gosto?
C.A.: Sim. Percebo que sei muito pouco sobre você, pessoalmente. Você sabe que eu gosto de dias chuvosos e música clássica. Não sei nada sobre suas preferências.
Antes que eu pudesse formular uma resposta evasiva, uma nova mensagem apareceu. Era um vídeo. Minha curiosidade superando minha cautela, toquei para reproduzir.
O vídeo estava tremido, claramente filmado por ele mesmo. Era um close-up das mãos de Cristiano enquanto ele trabalhava um pedaço de madeira em um torno. A câmera subia lentamente, demorando-se nos músculos de seus antebraços, tensos com o esforço, depois subindo para o peito, o tecido fino de sua camiseta cinza grudado nele. Ele estava suando, um leve brilho na pele. Ele olhou para a câmera por uma fração de segundo, suas bochechas corando levemente, antes de desviar o olhar, um sorriso tímido, quase envergonhado, tocando seus lábios. Ele parecia... incrível. Humano. Real.
O vídeo terminou. Fiquei olhando para a tela preta, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas.
Eu: Mande mais desses.
C.A.: Mais do quê? Vídeos de marcenaria?
Eu: Não. Vídeos de você. Com essa aparência.
Os três pontinhos apareceram instantaneamente. Alguns momentos depois, outro vídeo chegou. Desta vez, ele estava em uma academia, levantando pesos. Claramente era depois do expediente; o lugar estava vazio. O ângulo da câmera era um pouco estranho, mas fazia um trabalho muito bom em mostrar como os músculos de suas costas se moviam sob sua regata. Ele parecia poderoso e focado, mas quando viu seu próprio reflexo no espelho da academia, o mesmo rubor tímido coloriu suas bochechas.
Minha boca secou. Este era um lado de Cristiano Alcântara que o mundo nunca via. O autor intimidador era, em particular, um homem tímido que corava ao se filmar malhando.
E eu era a única que podia ver isso.
Pela primeira vez, admiti para mim mesma: eu estava atraída por ele. Profundamente. Não era mais apenas sua mente brilhante ou seu humor seco. Era o pacote completo.
Ele era viciante.
Aquela noite marcou uma mudança. Nossas conversas se aprofundaram, tornando-se mais íntimas. A linha profissional se desfez até desaparecer completamente. Não éramos mais consultora e cliente. Éramos duas pessoas solitárias que se encontraram no éter digital.
Uma noite, após uma longa conversa que se estendeu até tarde, ele colocou as cartas na mesa.
C.A.: Eu quero ficar com você, Liana.
Meu nome em seus lábios, mesmo digitado, me deu um choque.
C.A.: Eu sei que você não está pronta para nos encontrarmos. Eu entendo. Mas não posso mais fingir que isso é apenas uma amizade. Deixe-me ser seu namorado. Podemos ser o que você quiser, desde que estejamos juntos.
Eu encarei a mensagem, minha mente a mil. Era uma loucura. Um relacionamento com um homem que eu nunca conheci, cuja voz real eu nunca tinha ouvido. Mas também parecia... certo. Ele me via. A verdadeira eu, aquela que se escondia atrás de 'Pixel_Perfeito'. Ele não apenas tolerava minha ansiedade; ele a entendia. Ele me fazia sentir segura.
Eu: Ok.
C.A.: Ok?
Eu: Ok. Podemos tentar. Mas há regras.
Eu as estabeleci, um escudo contra meus próprios medos.
1. Apenas online. Sem ligações, sem videochamadas. Apenas mensagens e fotos ou vídeos pré-gravados ocasionais.
2. Sem detalhes pessoais. Sem sobrenomes (embora ambos já soubéssemos), sem endereços, sem falar em nos encontrarmos.
3. Se um de nós quiser terminar, terminamos. Sem perguntas.
Ele concordou, embora com relutância. E assim, eu tinha um namorado secreto, anônimo e online que por acaso era um dos autores mais famosos do mundo.
Por dois anos, foi perfeito. Nosso relacionamento era uma bolha protegida, um mundo de fantasia onde minha ansiedade não podia me tocar. Eu o ajudei a navegar por sua fama crescente, e ele se tornou meu maior incentivador, encorajando-me a aceitar projetos freelancers mais ambiciosos. Ele era meu confidente, meu melhor amigo, meu amante. Eu estava feliz.
Até que a editora o forçou.
C.A.: Minha editora está me forçando a fazer uma turnê de lançamento. Pelo país inteiro. Preciso te encontrar.
A mensagem estilhaçou nossa bolha perfeita. O mundo real estava invadindo nosso espaço seguro, e eu entrei em pânico.
Eu: Não podemos. Essa era a regra.
C.A.: Eu preciso de você, Liana. Não sou bom com pessoas. Você sabe disso. Não consigo fazer isso sozinho. Apenas um jantar. Por favor.
Meu peito se apertou. Ele não entendia. Para ele, era apenas um jantar. Para mim, era um pesadelo. A ideia de sentar à sua frente, em carne e osso, sem ter onde me esconder... me deixava fisicamente doente. A mulher brilhante e confiante que ele conhecia seria substituída por uma bagunça gaguejante e desajeitada. A fantasia acabaria.
Eu: Não. Eu não posso.
C.A.: Por que não? Você tem vergonha de mim? Ou está escondendo algo?
Suas palavras, nascidas do desespero, pareceram um tapa.
Eu: Isso não está funcionando. Queremos coisas diferentes.
C.A.: O que isso significa? Liana?
Eu: Então talvez a gente devesse terminar.
Joguei meu celular no sofá como se estivesse pegando fogo. Ele ligou. Eu ignorei. Mensagens inundaram minha tela, uma torrente de pânico e confusão da parte dele. Silenciei minhas notificações, meu coração doendo com uma dor tão aguda que me roubou o fôlego. Esta era a única maneira de me proteger. De proteger nossa história de amor perfeita e impossível da dura realidade de quem eu realmente era.
Na manhã seguinte, entrei no escritório da editora que me contratou para um contrato freelancer de longo prazo — a mesma editora que representava Cristiano Alcântara — sentindo-me oca por dentro. Genoveva Guedes, a ambiciosa assessora de imprensa responsável pela campanha de Cristiano e meu principal ponto de contato, estava de péssimo humor.
"Ele está sendo impossível", ela estalou, sem nem mesmo levantar os olhos de sua mesa quando entrei em seu escritório. "Cristiano está ameaçando cancelar toda a turnê. O maior lançamento de sua carreira, e ele decidiu se tornar ainda mais recluso. É um desastre."
Ela suspirou dramaticamente, finalmente olhando para mim. Genoveva era o tipo de mulher que era profissionalmente encantadora e pessoalmente implacável. Ela havia deixado claro que considerava Cristiano não apenas seu cliente estrela, mas seu projeto pessoal. Sua obsessão por ele era um segredo aberto no escritório.
"O humor dele é veneno", ela continuou, esfregando as têmporas. "Não consigo nem falar com ele ao telefone. Liana, preciso que você cuide disso. Leve as provas finais da campanha até o escritório particular dele. Ele é contratualmente obrigado a aprová-las hoje."
Meu corpo enrijeceu. "Eu? Por que eu?"
"Porque", disse ela, sua voz escorrendo uma doçura falsa, "eu não quero que ele arranque minha cabeça, e você é sangue novo. Ele pode pegar leve com você."
Eu sabia o que ela estava realmente fazendo. Ela estava me jogando aos lobos, evitando um confronto que não queria ter. A ideia de encarar Cristiano — o Cristiano real, que respirava, que estava atualmente de coração partido por minha causa — me deu uma onda de pânico. Eu não podia fazer isso. Eu tinha que manter a barreira entre minhas duas vidas.
"Não acho que seja uma boa ideia", eu disse, minha voz mal um sussurro. "Sou apenas a designer."
O sorriso de Genoveva se apertou. "E você vai fazer o que lhe foi mandado. Ele está no último andar. Não demore."
A pasta que ela empurrou pela mesa parecia pesar uma tonelada. Eu tinha que encará-lo. O homem que eu amava, que pensava que eu tinha acabado de arrancar seu coração. E ele não tinha ideia de que era eu.
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Ponto de Vista: Liana Peres
Minha mão parou na porta do escritório de Cristiano, o carvalho pesado e frio sob meus dedos trêmulos. Meu coração era um tambor frenético contra minhas costelas. Eu não podia entrar ali. Não assim.
Peguei meu celular, meu polegar pairando sobre o contato dele. Eu tinha que consertar isso, pelo menos o suficiente para sobreviver aos próximos dez minutos. Engolindo o nó de pânico na minha garganta, digitei uma mensagem.
Eu: Me desculpe. Eu exagerei. Fiquei com medo. Não vamos terminar. Mas, por favor, sem mais conversas sobre nos encontrarmos. Ainda não.
A resposta foi instantânea, como se ele estivesse olhando para o celular, esperando.
C.A.: Graças a Deus. Liana, eu estava com tanto medo. Pensei que tinha te perdido. Sinto muito. Nunca mais vou te pressionar. Eu prometo. O que você quiser. Só não me deixe.
O alívio me invadiu, tão potente que fez meus joelhos fraquejarem. A crise foi evitada, pelo menos por enquanto. Respirando fundo e de forma trêmula, bati duas vezes na porta.
Um "Entre" abafado e ríspido respondeu.
Empurrei a porta e entrei. O escritório era vasto, com janelas do chão ao teto oferecendo uma vista deslumbrante da cidade. Livros cobriam todas as paredes. No centro da sala, Cristiano Alcântara estava de costas para mim, olhando pela janela.
Ele se virou lentamente enquanto eu fechava a porta atrás de mim. Minha respiração ficou presa. As fotos não lhe faziam justiça. Pessoalmente, sua presença era avassaladora. Ele era mais alto do que eu imaginava, com ombros largos em um suéter preto simples. Os olhos cinzentos e tempestuosos que eu conhecia das fotos estavam avermelhados, seu rosto bonito marcado pela miséria.
Ele esteve chorando.
A percepção me atingiu com a força de um golpe físico. O autor poderoso e intimidador esteve chorando por minha causa. Porque ele pensou que a garota anônima da internet o havia deixado.
"Posso ajudar?", ele perguntou, sua voz rouca. Ele pigarreou, um leve rubor subindo por suas bochechas como se estivesse envergonhado por ser pego em tal estado.
Eu não conseguia encontrar minha voz. Apenas fiquei ali, segurando a pasta contra o peito como um escudo.
"As provas da campanha", finalmente consegui sussurrar, minha voz soando estranha e pequena no escritório cavernoso. "Genoveva me enviou para sua aprovação."
Ele piscou, sua expressão indecifrável. "Certo. Coloque-as na mesa."
Corri para a enorme mesa de mogno, colocando a pasta como se fosse uma bomba. Eu podia sentir seus olhos em mim, e o escrutínio fez minha pele arrepiar. Eu só queria desaparecer.
"Pode ir", disse ele, dispensando-me, virando-se de volta para a janela.
Eu praticamente corri para fora da sala, meu coração batendo nos meus ouvidos. Enquanto fugia pelo corredor, senti uma estranha sensação de alívio. Ele não me reconheceu. Meu segredo estava seguro. Seu humor, que estava "venenoso" segundo Genoveva, parecia ter melhorado um pouco depois da minha mensagem. A ironia era sufocante.
Meu alívio, no entanto, durou pouco. Uma hora depois, Genoveva apareceu na minha mesa, jogando a pasta de volta com um baque.
"Ele as rejeitou", disse ela, sua voz tensa de irritação. "Notas vagas. 'A paleta de cores está muito fria.' 'A tipografia não tem inspiração.' Refaça-as. E preciso delas até de manhã."
Eu encarei as páginas cobertas de tinta vermelha. Sua caligrafia era tão nítida e precisa quanto sua prosa. Era uma reformulação completa. Isso levaria a noite toda.
Trabalhei enquanto o escritório se esvaziava lentamente. Cristiano saiu às seis em ponto, passando pela minha mesa sem um segundo olhar. O resto da equipe de design o seguiu logo depois, oferecendo olhares de simpatia que eu não consegui retribuir.
Logo, todo o andar estava silencioso, exceto pelo zumbido dos computadores e o clique frenético do meu mouse. A recepcionista, uma garota gentil chamada Clara, enfiou a cabeça no meu cubículo por volta das nove.
"Você ainda está aqui? Você nunca vai para casa?"
"Prazos", murmurei, sem desviar os olhos da tela.
"Bem, estou de saída. Não se esqueça de trancar tudo."
"Pode deixar. Boa noite, Clara."
As horas se misturaram. Meus olhos ardiam, e uma dor surda se instalou na base do meu crânio. Eu estava tão absorta em alinhar caixas de texto que não ouvi a porta principal do escritório se abrir. Não ouvi os passos suaves no carpete.
Só percebi que não estava sozinha quando uma sombra caiu sobre minha mesa.
Eu gritei, girando na minha cadeira tão rápido que quase caí dela.
Cristiano Alcântara estava ali, segurando uma sacola de comida para viagem, parecendo tão assustado quanto eu.
"Sinto muito", disse ele, dando um passo para trás. "Não quis te assustar. Esqueci meu caderno. Não percebi que ainda havia alguém aqui."
Meu coração estava tentando sair do meu peito. "Está... está tudo bem."
Ele franziu a testa, seu olhar caindo na minha tela, que estava cheia das provas que ele havia massacrado mais cedo. "Você ainda está trabalhando nisso?"
Eu queria gritar: Sim, porque você as odiou! Em vez disso, apenas assenti docilmente. "Precisam estar prontas para amanhã."
"A paleta de cores ainda está errada", disse ele, aproximando-se. "Precisa evocar uma sensação de pavor silencioso, não apenas... azul."
Minha mente entrou em parafuso. Minha conversa pessoal com C.A. ainda estava aberta em uma aba, minimizada na parte inferior da tela. Nossa conversa, cheia de emojis de coração e promessas de nunca nos deixarmos, estava a um clique acidental de ser exposta.
"Deixe-me mostrar", disse ele, estendendo a mão para o meu mouse.
Pânico, frio e agudo, me dominou. "Não!", gritei, minha mão voando para cobrir o mouse, meu corpo instintivamente protegendo a tela. Eu praticamente me joguei sobre minha mesa para bloquear sua visão.
A ação foi tão súbita, tão bizarra, que o fez parar. Ele congelou, sua mão pairando no ar, um olhar de profundo espanto em seu rosto.
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