Após o almoço vou para área na parte de atrás da casa, as vezes quando fico ansiosa, ou com os sentimentos a flor da pele me expresso pintando ou desenhando, chegando lá noto pequenas pernas escondidas junto com as minhas latas de tinta.
— Felícia, o que está fazendo aí escondida ? — Pergunto me abaixando e ficando agachada junto com a minha irmazinha mais nova. Felícia é a caçulinha da casa tem apenas 5 anos, é a mais mimada por todos nós, uma menina doce, e de uma alegria contagiante, por isso estranho seu semblante triste e cabisbaixo.
— Sabe irmãzona eu estou um pouquinho "tisti".— Ela diz com seu jeitinho infantil, meio fungando.
— Por que Fefe ? O que aconteceu que te deixou triste assim? — Digo ficando preocupada, quando olho para seus olhos e vejo que ela está chorando, Felícia nunca foi de fazer dramas, então algo realmente há entristeceu.
—É que você passou naquela escola de "artes práticas" e agora vai embora e eu vou ficar com sudade de você. Eu vou sentir muita falta da irmãzona. — Agora entendo o por que dá tristeza dela , Felícia é muito inteligente e sabe que minha faculdade fica em outra cidade. Eu também vou morrer de saudades deles , minha família é tudo que tenho.
— O nome é "artes plásticas", e Fefe, você sabe que este é o sonho da irmãzona, não sabe ? — Digo tentando acalma-lá olhando em seus lindos olhos castanhos claros , limpando as lágrimas que escorrem por eles. Então ela concorda com a cabeça atenta no que eu irei dizer.
—Então...Um dia você também vai ter um grande sonho, assim como eu, e quando você estiver prestes a realizar ele eu vou estar com você, torcendo por você, seja qual sonho for. Por que por mais longe que a irmã possa ir o meu coração vai continuar aqui com vocês sempre.
— Mas o que eu vou fazer quando estiver com muita sudade de você Flora. — Ela me questiona de um jeito indignada e até meio brava cruzando os braços.
— Você pode me ligar Fefe, pode me mandar mensagens, quando a irmã conseguir um serviço quem sabe você pode ir passar as férias comigo lá na capital. — Digo para ela dando um sorriso sincero. Ela abre um sorrisinho pela primeira vez desde que me agachei perto dela.
— Isso seria muito legal neh Flora, a gente ia poder passear um montão, e a mamãe, o papai, a Nanda e a Flavinha iriam junto.— Ela diz já toda empolgada, olhando pra mim e seus olhos brilham de alegria.
— Claro que sim Felícia, todo mundo junto, lá em São Paulo tem muito lugares legais pra conhecer, museus, shopping, zoológico.— Digo levantando e oferecendo as mãos para ela levantar também, já que ela já não está mais chorando e já parece mais alegre.
— Uau isso ia ser muito "malaviloso" irmãzona.— Ela diz olhando pra mim.
— Então agora chega de chorar ok! — Digo dando um beijo nela e ela logo concorda e sai procurando Flávia para brincar.
Passo a tarde adiantando algumas encomendas de quadros que tinha para terminar. E quando vejo já é final da tarde quase anoitecendo, sigo e entro dentro de casa para tomar um banho e tirar toda tinta. Saio do meu quarto já pronta de pijama quando vejo meu pai sentado no sofá com uma cara cansada.
— Oi pai! Que carinha é está?— Digo observando-o atentamente.
— Nada demais filha, o serviço que é cansativo as vezes só isso. — Ele diz de um jeito bem exausto. Meu pai, sempre trabalhou como padeiro, sempre quis subir de cargo e ser chefe da padaria, porém como não tem estudo e terminou apenas o ensino fundamental, nunca deram oportunidade.
— Pai, já não está na hora de tirar suas férias, elas já venceram neh? — Digo para ele.
— Sim filha ! Mas seu Mota falou que agora não tem como, pois estão com desfalques no nosso setor.— Entendo a situação, com desfalque de funcionários sobram mais serviços pra ele e os outros, que tem que dar conta de tudo com a equipe desfalcada.
— Ai pai! Não sei como o senhor aguenta, quando eu for trabalhar, quero trabalhar em algo que eu ame, para não me estressar tanto assim ! — Fernanda diz do seu jeito meio maluquinha de ser, ela está deitado no sofá com a cabeça no colo do meu pai enquanto ele passa as mãos pelos longos cabelos castanhos dela.
—Sabe filha, por mais que você encontre o serviço dos seus sonhos, vai ter dias que você não vai amar ele tanto assim. Você vai estar cansada, ou até mesmo entediada. Mas isso não é relevante, o que importa é que nesses dias, você faço o melhor que puder e de o melhor de si. Volte para casa respire fundo, e outros dias melhores surgirão.—Ele diz dando um sorriso singelo e ela concorda pensando no ele falou.
— E você minha filha já sabe quando vai fazer a matrícula, e começar a arrumar suas coisas. — Ele olha para mim de um jeito entusiasmado. Dou um grande sorriso e lhe digo.
— Tenho trinta dias para fazer a matrícula, e mandar os documentos, vou começar a ajeitar minhas coisas na semana que vem e espero ir daqui 2 semanas.— Digo de forma empolgada.
— Vou sentir tanto sua falta Flora, mais estou muito feliz por você sei que vai tirar de letra a faculdade. — Fernanda diz olhando mim e dando um sorriso doce.
— Também vou sentir saudades Nanda, de todos vocês na verdade, mas nós vamos conversar por telefone todo dia tah bom. — Digo para ela e meu pai.
— Venha aqui filha! Venha sentar aqui com a gente um pouco, quero minhas meninas pertinho de mim enquanto ainda posso — Meu pai diz e me chama para perto onde ele está com Fernanda. Sento-me com eles e não demora até mamãe vir com um pote de pipoca com Flávia e Felícia junto. Sentamos todos amontoados no sofá e assistindo a algum filme que passa na Tv, mas nem noto qual é, a única coisa que reparo é em como irei sentir falta de cada um deles e desses momentos, desses programas em família todos juntos, então decidi guardar tudo na mente e no coração, por que sei que alguns pequenos momentos não voltam mais, e mas tarde só nos resta recordar .
As semanas passam voando, eu nem acredito que faltam apenas 3 dias para eu finalmente dar início ao meu sonho, com as malas prontas e os documentos guardados para entregar na reitoria, sigo apenas esperando, já comprei a passagem de ônibus para SP. O certo seria eu fazer a matrícula e retornar para casa, pois as aulas só vão começar daqui mais um mês porém vou usar este um mês para procurar um trabalho, e um lugar para ficar uma kitnet algo assim, já que a princípio irei ficar num hostel. Graças a Deus, consegui juntar um bom dinheirinho com as vendas dos quadros e desenhos que fiz e vai dar pra me aguentar até arrumar um trabalho.
Saio do meu quarto e sigo para cozinha, onde minha mãe está tomando café da manhã com minhas irmãs, hoje é sábado por isso estamos todas em casa apenas papai está no trabalho.
— Bom dia Família! — Digo assim que chego.
— Bom dia Flora.— Elas dizem, me sento junto delas a mesa e ficamos alguns minutos conversando, quando o telefone da minha mãe toca.
— Alô, sim, é ela.—Minha mãe diz e seu semblante alegre e despreocupado muda totalmente.
— Ooo..que ? Como assim ? Pelo amor de Deus, qual hospital moço. — Minha mãe começa a falar alto e eu entro em alerta , minhas irmãs entram em desespero. Tento acalmar minhas irmãs que estão aflitas e então vejo que minha minha mãe encerrou a chamada.
—Mãe, o que aconteceu ? — pergunto temerosa
— O João, passou mal no trabalho, me ligaram pra avisar que levaram ele para o hospital das clínicas.— Ela solta a bomba e minha pernas parece que pesam uma tonelada, e eu fico estática sem saber o que dizer ou falar.
— Mas foi alguma coisa grave mãe?— Nanda questiona, muito preocupada enquanto eu permaneço em silêncio observando as reações da minha mãe. Minhas irmãs mais novas já estão chorando de preocupação nesse momento e eu só consigo ficar calada, nenhum som sai da minha boca.
— Ainda não sei filha, mas tudo indica que sim, fizeram primeiros atendimentos aqui no hospital da cidade, porém já encaminharam ele com urgência para capital do estado.
Depois da ligação, tudo passou como um borrão, decidimos que eu iria com a minha mãe até o hospital que fica em Curitiba, enquanto Nanda ficaria com as mais novas até eu ou mamãe voltarmos. Da nossa cidade até a capital leva cerca de 1h .
Da janela do ônibus vejo as árvores passando rápido, penso em como nossa vida é nada, lembro de cada detalhe do rosto do meu pai, suas risadas, seu cheiro, suas palavras doces e cheias de sabedoria. Uma lágrima escorre do meu rosto e me sinto sufocada. Sinto minha mãe tocar em minhas mãos, num sinal claro de conforto e que vai ficar tudo bem.
A viagem foi difícil e inquietante, chegamos ao hospital e caminhamos apressadas para Recepçao, querendo informações.
— Olá bom dia, gostaria de informações sobre meu pai, João Alberto Casanova.— Digo meio apressada. A Recepcionista me olha e nos indica uma salinha dizendo que o médico responsável pelo meu pai já irá nos atender. Chegamos na sala aguardamos mas alguns torturantes minutos, até que o médico chega com uma cara séria.
— Olá bom dia , sou Dr Marcus responsável pelo paciente João Alberto Casanova, vocês são parentes?— Ele diz se apresentando e no questionando.
— Olá Dr. sou a Ana, esposa do João e essa é nossa filha Flora.— O Dr. nos cumprimenta e volta a falar.
— Então dona Ana, seu esposo deu entrada no hospital com um quadro de AVC, acidente vascular cerebral, ele foi atendido e nós fizemos os procedimentos necessários para
estabiliza-lo — Ele nos informa de forma direta e minhas pernas parecem que pesam uma tonelada.
— Meus Deus. — Digo levando minha mão a boca , minha mãe começa a se desesperar e chorar e eu tento a calma-lá.
— Mas como ele está agora Dr, meu pai está bem ? — Digo aflita tentando me manter firme, pois sei que minha mãe precisa de mim.
— Agora ele está estabilizado...— Sentimento de alívio me toma pois tudo que quero é meu pai bem, conosco novamente, mas esse sentimento não dura muito pois logo em seguida ele completa.
—Porém o AVC que ele teve deixou algumas sequelas, e é isso que quero explicar para vocês. — Ele diz nos olhando com pesar, meus pensamentos voam longe, onde vejo meu pai bem saindo de casa feliz. Isso tudo parece um pesadelo.
O médico nos explica que AVC é quando os vasos que levam sangue ao cérebro entopem ou se rompem, provocando a paralisia da área cerebral que ficou sem circulação sanguínea. O que meu pai teve, foi do tipo Isquêmico, quando ele chegou já não era possível entrar em processo cirúrgico para reverter o quadro, por isso que só puderam aplicar medicamentos para que diminuíssem os coágulos e entupimento nas veias . Porém mesmo assim ficaram sequelas.
—Seu João acordou com dificuldades de fala, paralisia facial de um lado do rosto e dificuldades de locomoção. Ele conclui após nos explicar o que aconteceu.
O Doutor explica que ele está emocionalmente abalado, e que precisa fazer acompanhamento psicológico, neurológico e também de fisioterapia. Ele também nos informa que alguns outros sintomas só poderão ser identificados mais tarde, com o tempo.
Após o médico nos esclarecer tudo que é preciso, vamos visitar meu pai. E nunca vi ele tão frágil e impotente, seguro suas mãos enquanto minha mãe chora, ele nos olha meio desorientado e confuso. O lado esquerdo da sua face se encontra meio torta, ele tenta falar porém não consegue, apenas grunhidos saem de sua boca. Vejo seu olhar de tristeza, e desânimo e aquilo me dói, me rasga por dentro, ele vira a cabeça para o lado oposto em que estamos, cansado como se não quisesse nosso olhar de pena. E eu não aguento, lhe dou um beijo na testa e caminho para fora do quarto deixando minha mãe com ele. Já do lado de fora desabo num choro dolorido, de dor, revolta, tentando encontrar sentido em tudo isso que estamos vivendo e querendo acordar do pesadelo que está sendo aquele dia.
Retorno para casa, e mamãe fica no hospital, como meu pai está estável o médico nos informa que provavelmente nos próximos dias receberá alta. Do hospital ligamos para Nanda para dar notícias, agora já noite entro em casa o silêncio chega ser ensurdecedor, encontro Fernanda no quarto das meninas fazendo-as dormir, sigo para o chuveiro tomo um banho e troco do roupa chego a sala e Nanda está com uma cara péssima. Sento-me ao seu lado e ela deita a cabeça no meu colo, seu choro me atinge e doi ver ela assim. Faço carinho em sua cabeça repetindo que tudo vai ficará bem, e que vamos todos ficar bem, mas a realidade é que nem eu mesma sei como vamos ficar .
***
Dois dias se passam, meu pai já se encontra em casa , ele está arredio, triste, e pensativo. Flávia e Felícia tentaram animar ele porém nem com elas ele não demonstra animação, só fica deitado ou sentado na varanda. O Médico nos disse que era importante talvez levarmos ele para dar uma volta e espairecer, porém como ele está com a muito dificuldades de locomoção precisaria de uma cadeira de rodas e não temos uma. Sento-me ao seu lado na varando e ele me olha de um jeito triste então lhe digo .
— Oi pai, sei que não está sendo fácil para o senhor, para nós também não. Mas eu preciso que o senhor lute e reaja, preciso que dê tudo de si. Nós precisamos da sua força pai. — Digo a ele com olhos cheios de lágrimas e vejo um simples manejar de cabeça, resmungos saem da sua boca e eu sei que ele vai lutar por nós, assim como eu lutarei por ele .
Acordo pela manhã, olho para meu quarto e vejo minhas malas que estão arrumadas a algumas semanas, como a vida é engraçada em uma semana estávamos tão felizes. Sabendo bem o que tenho que fazer, passei a noite em claro pensando e repensando nessa viagem e no propósito dela, no meu sonho. Me arrumo e sigo em direção a mesa do café da manhã , mamãe já está sentada com uma xícara na mão , pensativa com um olhar distante. Nanda e Flavia já foram para escola, Felícia ainda está dormindo pelo jeito.
— Bom dia mãe! — Digo para ela assim que me sento. Ela me da um olhar triste e diz.
— Bom dia filha !
— O pai não vai tomar café mãe? — Ela me olha com pesar e diz que ele não estava bem e que não quis sair do quarto e ficou dormindo. Entristeço na mesma hora.
—Então filha, já separou todos os documentos que precisa levar para SP.? — Ela me questiona, tentando mudar pra um assunto mais leve, nesse momento respiro fundo e lhe digo .
— Na verdade mãe, eu não vou mais. — Digo de forma séria.
— O QUE??— Ela grita me olhando de forma assustada.
— Mãe ...— Tento dizer mas ela me interrompe.
— Não Flora , você não pode fazer isso, largar tudo assim filha.— Diz olhando pra mim com tristeza.
— Mãe eu não vou conseguir ir, a senhora sabe.
— Filha é seu sonho você lutou por isso estudou se dedicou, você sabe que seu pai não vai aprovar isso, se for por causa dele a gente pode dar um jeito . — Ela fala com firmeza, porém já estou decida.
— Desculpa mãe, mas essa decisão é somente minha. E que jeito mãe ? Hã — Digo olhando para ela e dando um sorriso triste.
— Mãe, o papai não vai poder voltar pro trabalho. Como vai fazer pra manter a casa, você sabe que vai ser difícil mãe , ele vai precisar de cuidados e se a senhora quiser trabalhar como vai fazer com as meninas? Fernanda estuda e não pode largar a escola para cuidar delas. Não da mãe, eu já tomei minha decisão não vou voltar trás. Inclusive já pesquisei uma cadeira de rodas e um carrinho velho para comprarmos, vamos precisar dos dois para locomoção dele.
—Filha , mas esse é o dinheiro que você juntou...é o seu sonho Flora...— Ela diz porém sua voz sai meio embargada pelo choro.
— As vezes mãe há sonhos que simplesmente não foram feitos para serem realizados e está tudo bem. Eu amo vocês mãe, vocês são tudo pra mim, e não há sonho mais importante que um de vocês!— Digo olhando-a de forma firme e decidida , por que sei que fiz a coisa certa. E agora tudo que eu quero é ver meu pai bem, tudo o que preciso é da minha Família unida, mesmo que eu ainda não saiba o que o futuro nos reserva.