Capítulo 2: Território Inimigo
Aurora Frost
A mansão dos Volkov não era uma casa; era uma fortaleza de mármore e vidro encravada no topo da montanha mais alta do Norte. Enquanto eu seguia Kael pelos corredores infinitos, o eco dos meus próprios passos parecia me lembrar da minha solidão.
As paredes eram adornadas com retratos de Alfas antigos, homens com olhos tão impiedosos quanto os de Dominic, que pareciam me julgar por ousar pisar naquele solo sagrado sendo apenas uma Ômega "vazia".
- Não ligue para os quadros, senhora. Eles estão mortos, mas a arrogância costuma sobreviver por aqui - Kael comentou, tentando quebrar o gelo. Ele carregava minhas duas malas baratas com uma facilidade irritante, contrastando com o terno impecável que vestia.
- Eu não sou "senhora", Kael. Sou apenas um contrato assinado - respondi, minha voz ecoando no hall de entrada monumental.
Ele parou diante de uma porta de carvalho duplo, ricamente entalhada com o brasão da alcateia: um lobo uivando para uma lua de sangue.
- Para o mundo, você é a Luna. E eu recebo ordens do Alfa para garantir que você seja tratada como tal. Pelo menos, enquanto estivermos sob este teto.
Ele abriu as portas e eu perdi o fôlego por um segundo. O quarto era maior do que a casa onde cresci. Uma cama king-size com dossel dominava o centro, coberta por sedas em tons de prata e azul escuro. Havia uma lareira de pedra já acesa, lançando sombras dançantes pelas paredes.
- Maya! - Kael chamou, e uma garota jovem, com cabelos castanhos presos em um coque apressado e um uniforme simples, saiu de um dos closets.
Ela tinha olhos grandes e expressivos, que brilharam ao me ver. Diferente de todos naquela casa, ela não exalava poder ou ameaça. Ela cheirava a lavanda e sabão.
- Finalmente você chegou! - ela exclamou, mas logo se recompôs, fazendo uma pequena reverência. - Peço desculpas, senhora. Sou a Maya. Fui designada para ser sua assistente pessoal... e o que mais precisar.
Kael assentiu para mim e saiu, fechando as portas e me deixando sozinha com a garota. Maya se aproximou, e percebi que ela me observava com uma curiosidade genuína, mas sem o desprezo que eu esperava.
- Você é muito mais bonita do que as fotos que o conselho enviou - ela sussurrou, começando a abrir minhas malas. - E cheira tão bem... é como se a floresta tivesse vindo com você.
- Maya, eu sou uma Ômega sem loba. Você sabe disso, não sabe? A maior parte das pessoas me olha como se eu fosse um erro da natureza.
Ela parou o que estava fazendo e me olhou nos olhos.
- Eu sou humana, Aurora. Para os lobos daqui, eu sou apenas parte da mobília. Mas eu vejo as coisas. E o que eu vi hoje, quando o Alfa passou pelo corredor depois de sair da biblioteca... - ela hesitou, baixando a voz. - Ele estava com o cheiro alterado. Dominic Volkov nunca perde o controle, mas o rastro que ele deixou atrás de si era de um macho em alerta.
- Como consegue perceber cheiros se é humana? - perguntei curiosa e ela deu de ombros como se aquilo não fosse nada.
- Do mesmo jeito que você que não tem loba desperta, acho que por costume ou convivência.
Suspirei em derrota pela lógica dela.
- Eu tenho loba, às vezes pareço senti-la. Mas ela nunca despertou.
Maya me olhou não com pena, mas com carinho e compreensão e gostei daquele olhar.
Eu me sentei na beirada da cama, sentindo o peso das palavras dela. Se Dominic estava em alerta, era por raiva de ter sido forçado a esse contrato, não por causa de uma Ômega insignificante como eu.
- Ele me odeia, Maya. - falei por fim - E eu não o culpo. Fui empurrada goela abaixo dele por causa de uma dívida de jogo.
- O ódio e a paixão usam a mesma porta, senhora - Maya piscou para mim, tentando me animar. - Agora, vamos tirar esse vestido de viagem. O jantar será servido em uma hora e, embora o Alfa tenha dito que não haveria recepções, temos uma "visita" que não quis ir embora.
Senti um frio na espinha.
- Quem?
- Sasha Petrov. A filha do Alfa da Alcateia do Sul. Ela acredita que a coroa de Luna pertence a ela. Prepare o seu espírito, Aurora. Ela morde, e não é de um jeito amigável.
Maya me ajudou a tomar um banho demorado e escolheu um vestido de seda verde-esmeralda que realçava meus olhos. Eu me sentia como uma impostora, uma boneca sendo arrumada para um dono que não me queria. Quando terminamos, ela me guiou até a sala de jantar formal.
O ambiente era gélido. A mesa de jantar era tão longa que parecia um campo de batalha. Dominic estava em uma das pontas, já servido com uma taça de vinho tinto. Ele não usava mais o paletó, apenas a camisa social branca com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes e tatuagens tribais que subiam pelos seus punhos.
Mas ele não estava sozinho.
Sentada ao lado dele, quase colada ao seu braço, estava uma mulher deslumbrante. Cabelos loiros platinados, lábios pintados de um vermelho provocante e um vestido tão justo que parecia uma segunda pele. Sasha. Imaginei.
Quando entrei, o som do meu salto no mármore fez os dois olharem. Dominic apenas apertou o cristal da taça, seus olhos cinzentos fixos nos meus, sem qualquer expressão de boas-vindas. Sasha, por outro lado, exibiu um sorriso que não chegou aos olhos.
- Então esta é a "solução" para o seu problema, Dom? - Sasha perguntou, sua voz era como seda sobre vidro quebrado. - Eu esperava algo... mais substancial. Ela parece que vai quebrar se o vento soprar mais forte.
- Sente-se, Aurora - Dominic ordenou, ignorando o comentário de Sasha. Ele apontou para a cadeira na outra ponta da mesa, a quilômetros de distância dele.
Eu caminhei com a cabeça erguida, ignorando o nó que queimava na minha garganta. Maya puxou a cadeira para mim.
- Boa noite - eu disse, com a voz gélida.
Sasha soltou uma risada anasalada, debruçando-se sobre a mesa para me analisar.
- Me diga, querida, quanto o seu pai cobrou para te entregar? Eu ouvi dizer que as contas dele no cassino estavam ficando altas demais até para uma loba de linhagem baixa.
- Sasha, chega - a voz de Dominic foi um aviso baixo, mas a loira não recuou.
- Ah, Dom, não seja tão protetor. Ela precisa saber onde se pisa. - Ela voltou o olhar para mim, as pupilas brilhando com um dourado perverso. - Você pode ter assinado um papel, Aurora, mas nesta alcateia, o respeito é conquistado com sangue e força. E você não tem nenhum dos dois. Você é apenas um útero de aluguel caro. Quando você entregar o herdeiro, eu estarei aqui para assumir o meu lugar ao lado do meu Alfa.
Eu respirei fundo, sentindo o veneno dela circular no ar.
- Se o seu lugar é ao lado dele, senhorita Petrov, por que foi o meu nome que ele escreveu no contrato? Talvez a "força" que você tanto preza não seja o que ele realmente precisa.
Sasha se levantou bruscamente, as garras começando a despontar nas pontas dos dedos perfeitamente manicureados. Ela caminhou até mim, parando às minhas costas. Senti o hálito dela perto do meu ouvido.
- Você é corajosa para alguém tão frágil. Mas vamos ver quanto tempo essa coragem dura quando você estiver sozinha nos corredores desta casa. Lobos costumam caçar ovelhas por diversão, Aurora.
Dominic bateu a taça de vinho na mesa, o som estalando como um tiro. Ele se levantou, a aura de Alfa Supremo inundando a sala, fazendo até Sasha vacilar. Ele caminhou lentamente em nossa direção, parando entre nós duas.
Ele não olhou para Sasha. Ele olhou para mim.
- O jantar acabou - Dominic sentenciou. Ele se inclinou sobre mim, uma mão apoiando-se na mesa e a outra no encosto da minha cadeira, exatamente como fez na biblioteca, mas desta vez o cheiro dele era mais agressivo, mais denso.
Sasha cruzou os braços, bufando.
- Você vai mesmo deixar essa coisinha falar assim comigo?
Dominic virou o rosto levemente para ela, a voz saindo como um rosnado vindo das profundezas do peito.
- Saia da minha casa agora, Sasha. E não volte sem ser convidada.
- Dominic! - ela protestou, chocada.
- Saia! - O comando de Alfa reverberou nas paredes, fazendo as janelas vibrarem.
Sasha empalideceu, pegou sua bolsa e saiu da sala pisando duro, mas não antes de me lançar um olhar de puro ódio que dizia que isso estava longe de acabar.
O silêncio que ficou para trás era carregado de eletricidade. Dominic permaneceu inclinado sobre mim. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele, a tensão nos seus músculos. Ele levou uma das mãos ao meu queixo, me forçando a olhar para cima. O toque dele queimava como brasa.
- Não ache que eu te defendi por carinho, Aurora - ele sussurrou, a voz rouca e perigosa. - Eu apenas não tolero que ninguém desrespeite o que me pertence sob o meu teto.
Eu tentei me afastar, mas ele apertou o aperto no meu queixo, os olhos prateados queimando com uma intensidade que me deixou sem ar.
- Eu não sou um objeto, Dominic.
- No papel, você é - ele retrucou, aproximando o rosto do meu até que nossas pontas de nariz se tocassem. - E o contrato diz que precisamos de um herdeiro. Eu não sou um homem de esperar.
Ele soltou meu queixo abruptamente e segurou meu pulso, me puxando para cima com uma força que não me dava opção.
- Vamos para o quarto. Agora.
Capítulo 3: O Lobo e a Mentira
Dominic Volkov
O cheiro dela estava impregnado em cada centímetro daquela biblioteca. Chuva, terra molhada e algo doce, como flores silvestres que só crescem no auge da primavera. Era um aroma que eu nunca deveria ter sentido, um aroma que meu lobo reconheceu no instante em que ela cruzou o batente da porta.
COMPANHEIRA.
A voz do meu lobo rugiu dentro da minha mente, uma força selvagem tentando romper as correntes do meu autocontrole.
Eu queria ignorar. Eu precisava ignorar. Eu passei trinta e dois anos construindo um império baseado na lógica e no sangue, acreditando que o "laço de alma" era uma lenda para lobos fracos que precisavam de uma desculpa para serem guiados pelas fêmeas.
E agora, o destino, ou o azar de um apostador desgraçado como o pai dela, jogava Aurora Frost no meu colo.
Eu a observei enquanto ela subia as escadas com Kael. Ela tentava manter a postura, a cabeça erguida, mas eu via o tremor sutil nos seus ombros. Ela estava com medo. E o pior: o cheiro do medo dela me dava vontade de destruir qualquer coisa que a fizesse se sentir assim, inclusive a mim mesmo.
- Você está perdendo o controle, Dom - a voz de Kael me trouxe de volta à realidade enquanto ele descia as escadas, alguns minutos depois. - O seu rastro está tão pesado que até os humanos lá fora devem estar sentindo.
- Cale a boca, Kael - rosnei, sem olhar para ele. Eu estava parado no pé da escada, minhas mãos fechadas em punhos tão apertados que minhas garras cortavam a palma da minha pele. - É apenas o contrato. Eu preciso de um herdeiro e ela é a ferramenta. Nada mais.
- Uma ferramenta que cheira a parceira de alma? - Ele parou ao meu lado, a voz baixa e séria. - Você sabe o que isso significa. Se você não a marcar, se você tentar lutar contra isso, o seu lobo vai acabar enlouquecendo. E ela... ela é uma Ômega, Dom. Ela não vai aguentar a pressão de um Alfa Supremo se você não der a ela a proteção do laço.
- Ela não terá marca nenhuma - sentenciei, voltando para a sala de jantar onde Sasha me esperava. - Eu não vou me tornar escravo de um instinto. Ela cumpre o contrato e vai embora. É o melhor para ela e para a alcateia.
Mas a teoria era muito mais fácil que a prática.
Durante o jantar, ver Sasha destilar veneno sobre Aurora me deu uma náusea que eu mal conseguia esconder. Sasha era a escolha lógica. Poderosa, filha de um aliado, uma loba que sabia lutar. Mas quando ela encostou no meu braço, eu senti uma repulsa imediata. Minha pele queimava para ser tocada pelas mãos trêmulas da Ômega sentada à minha frente, não pelas unhas afiadas de Sasha.
Quando Aurora respondeu à altura, um lampejo de orgulho atravessou meu peito. Ela tinha fogo. Debaixo daquela fachada de fragilidade, havia uma mulher que não se dobrava facilmente. E foi ali, vendo o brilho de desafio nos olhos dela sob a luz do lustre, que eu soube que estava perdido.
Expulsei Sasha com uma fúria que até eu desconhecia. Eu precisava que ela saísse antes que meu lobo decidisse que o desrespeito dela com a nossa companheira merecia uma punição sangrenta.
Agora, eu arrastava Aurora pelo corredor em direção ao meu quarto. O pulso dela era fino sob meus dedos, a pele macia como seda. O toque enviava descargas elétricas pelo meu braço, fazendo meu sangue ferver. Eu estava agindo como um bruto, eu sabia, mas era a única forma que eu conhecia de esconder o fato de que eu queria cair de joelhos e esconder o rosto no pescoço dela.
Abri a porta do meu quarto com um chute e a puxei para dentro, depois a fechei com força excessiva.
Aurora se soltou do meu aperto, cambaleando para trás. Ela me olhava com uma mistura de pavor e indignação.
- Você não pode simplesmente me arrastar assim! - ela gritou, a voz falhando. - Eu assinei um contrato, não uma sentença de escravidão!
- Você assinou um contrato para me dar um herdeiro, Aurora - eu disse, minha voz saindo mais rouca do que o normal. Eu comecei a caminhar em direção a ela, desabotoando os botões da minha camisa branca. - E eu não tenho paciência para jogos. Se vamos fazer isso, faremos agora.
- Agora? - Ela recuou até bater as costas na parede. - Eu acabei de chegar! Eu nem conheço você!
- Você não precisa me conhecer para engravidar - retruquei, parando a centímetros dela. O cheiro dela aqui, no meu território, era uma tortura. Eu podia ouvir o coração dela batendo rápido, como o de um pássaro enjaulado. - O contrato começa no momento em que a tinta seca. E o meu tempo é caro demais para ser desperdiçado com preliminares que não significam nada.
Eu apoiei as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a. Eu podia ver o brilho das lágrimas nos olhos dela, e aquilo cortou meu peito como uma faca. Mas eu não podia recuar. Se eu fosse gentil, se eu mostrasse a ela um pingo de humanidade, eu acabaria contando a verdade. E se eu contasse que ela era minha companheira, eu a condenaria a uma vida de ser o alvo número um de todos os meus inimigos.
Eu preferia que ela me odiasse e estivesse segura, do que me amasse e morresse por causa disso.
- Olhe para mim - ordenei.
Ela hesitou, mas acabou erguendo o rosto. Aqueles olhos... eles me despiam de toda a minha autoridade.
- Você me odeia tanto assim? - ela sussurrou, uma única lágrima escorrendo pelo seu rosto.
Aquela pergunta quase me destruiu. Eu não odeio você, Aurora. Eu odeio o fato de que eu morreria por você sem pensar duas vezes.
Em vez de responder, eu me inclinei e capturei os lábios dela em um beijo que não tinha nada de carinhoso. Era faminto, desesperado, uma explosão de necessidade reprimida. Eu esperava que ela lutasse, que me empurrasse, mas o que aconteceu foi pior.
No momento em que nossas bocas se tocaram, um uivo mudo ecoou por todo o meu ser. A conexão foi instantânea e devastadora. Aurora soltou um gemido baixo contra a minha boca e, por um segundo, suas mãos subiram para o meu peito, agarrando o tecido da minha camisa.
Eu a peguei no colo, sem quebrar o beijo, e a joguei sobre a cama. O vestido verde-esmeralda subiu pelas suas coxas, e a visão daquela pele pálida contra os meus lençóis escuros quase me fez perder a razão.
Eu me posicionei sobre ela, a vendo ofegar sob mim. Eu queria marcá-la. Meus caninos latejavam, implorando para perfurar a pele macia do seu pescoço e selar o que o destino já tinha decidido.
- Lembre-se, Aurora - eu disse, minha voz sendo apenas um rosnado animal enquanto eu enterrava meu rosto na curva do seu pescoço, sentindo o pulso dela acelerado. - Isso é apenas um negócio.
Eu puxei a alça do vestido dela para baixo, mas antes que eu pudesse avançar, um grito agudo de dor ecoou do lado de fora do quarto, seguido pelo som de algo pesado quebrando no corredor.
Eu parei instantaneamente, meus sentidos de Alfa entrando em alerta máximo. Aurora se encolheu, cobrindo-se com os braços.
- Fique aqui - ordenei, me levantando da cama e sacando a arma com bala de prata que sempre mantinha na gaveta da mesa de cabeceira.
Abri a porta do quarto com um solavanco e vi Maya caída no chão, com o rosto ensanguentado, enquanto dois homens encapuzados tentavam arrombar a porta do final do corredor.
- Dominic! - Aurora gritou atrás de mim, tentando sair do quarto.
Eu a empurrei de volta e apontei para o chão.
- Tranque a porta e não saia por nada! - gritei, antes de disparar contra o primeiro invasor.