Capítulo 2

Conhecendo Ayla

Me chamo Ayla Martin, tenho 19 anos, pele clara, cabelos loiros e olhos castanhos. Sou magra e não tenho atributos como as moças da minha idade.

Fui criada praticamente presa dentro da nossa fortaleza. Meu pai é o líder de um clã chamado Lobos Cinzentos, uma organização ultra-nacionalista, neofascista e islamita turca. Já ouvi conversas dele falando que seu clã estava sendo acusado de terrorismo em diversos países. Meu pai é rival de uma organização chamada Cosa Nostra. Existem territórios do lado de cá que eles querem pegar e territórios isolados de lá que meu pai quer assumir.

E no meio dessa guerra estamos eu e minha mãe. Tenho que aguentar o mau humor e as humilhações do meu pai. Nunca fui à escola e também nunca tive nenhuma amiga. Fui criada isolada do mundo e educada em casa. Tive várias professoras que me ensinaram da forma mais rígida etiqueta, línguas, matemática, tudo que as crianças aprendem na escola, eu aprendi em um escritório.

Fui educada dentro dos costumes porque sempre fui domesticada para ser mulher de mafioso, embora isso não me atraia e nem me encha os olhos. Tudo o que eu mais queria na vida era ser livre, poder fazer escolhas e ditar a minha própria vida.

Durante toda a minha vida, fui a poucas festas. Essas ocasiões raras eram as únicas oportunidades que eu tinha de sair do meu isolamento, mas mesmo assim, eu nunca me sentia à vontade. Quando meu pai dava jantares para os amigos, eu tinha que ficar presa dentro do quarto. Ele não queria que eu tivesse qualquer contato com seus aliados ou que eu ouvisse suas conversas. Isso me deixava ainda mais isolada e solitária.

A estilista vinha até a fortaleza para tirar minhas medidas e entregar os vestidos que eu usaria nessas poucas festas. O sapateiro também fazia visitas regulares para garantir que eu tivesse sapatos adequados para cada ocasião. Era tudo tão mecânico e sem vida, como se eu fosse uma boneca sendo preparada para um desfile. Eu não tive qualquer contato com o mundo exterior, não sei o que acontecia fora dos muros da fortaleza. As poucas pessoas que eu via eram aquelas que vinham a serviço de meu pai ou que eram trazidas para dentro da nossa prisão dourada.

Toda essa falta de contato com o mundo exterior fez de mim uma jovem infeliz. Eu via as outras meninas da minha idade se divertindo, estudando e fazendo amigos, mesmo que apenas pela televisão, e isso só aumentava minha sensação de aprisionamento. Eu me sinto como um pássaro engaiolado, sonhando com a liberdade que parece sempre fora de alcance. A cada dia, a minha vontade de sair dessa vida e descobrir o mundo cresce mais e mais. Eu quero poder conhecer pessoas de verdade, ter amigas, ir a faculdade, sentir o vento no rosto sem a sensação de estar sendo vigiada o tempo todo.

As festas que meu pai organizava não eram para mim. Eram para ele, para seus amigos e aliados. Eu era apenas um adereço, algo para ser exibido quando conveniente e trancado quando não. Isso me machuca profundamente. Eu quero ser vista e ouvida, queria que alguém se importasse com meus sonhos e desejos. Mas no mundo de meu pai, minhas vontades não tem lugar e a minha mãe não tem coragem de lutar nem por ela vai lutar por mim.

Às vezes, eu fico acordada à noite, olhando para o teto do meu quarto, imaginando como seria minha vida se eu pudesse fazer minhas próprias escolhas. Sonho com o dia em que eu poderei sair dessa fortaleza e viver uma vida normal, longe das garras de meu pai e de suas ambições criminosas. Sonho em ser livre.

Um pouco antes de completar meus 18 anos, decidi tentar fugir de casa. Sentia-me sufocado pelas regras e pelas tensões familiares que pareciam insuportáveis. Meu pai chegou a espancar minha mãe, batendo em seu rosto. Naquela noite escura, corri pelas ruas, o coração batendo forte, pensando que a liberdade estava ao alcance dos meus passos. Mas, minha esperança logo se dissipou quando ouvi os latidos dos cães e os passos pesados dos soldados se aproximando. O medo tomou conta de mim enquanto eles me alcançavam, a luz dos holofotes revelando minha tentativa fracassada. Fui levado de volta para casa naquela noite, minha rebelião silenciada, me fez pagar caro.

Meu pai me bateu, e quando a minha mãe tentou me defender, apanhou ainda mais. Fiquei trancada no quarto por dias, apenas uma empregada que vinha me entregar as refeições. Aceitei o meu martírio viver nessa fortaleza longe de tudo e de todos para sempre.

No dia em que completei 19 anos, minha vida mudou para sempre. Enquanto as velas tremulavam sobre o bolo, que foi servido após o jantar, recebi a notícia devastadora: eu estava prometida a Klaus, o herdeiro da Cosa Nostra. O nome ressoava em meus ouvidos como um sino badalando.

Meu coração afundou no peito, um misto de medo e descrença. Klaus é um estranho para mim, um homem cujo nome eu ouvira apenas em sussurros temerosos entre os homens que servem ao meu pai. Ele representava tudo o que eu temia no mundo de meu pai: o poder implacável, a violência justificada pela honra distorcida, a prisão de uma vida que não escolhi.

Enquanto sorrisos e parabéns ecoavam ao meu redor, minha mãe e o meu pai estava em felizes, e eu lutava para manter a compostura. Minha mente era um turbilhão de perguntas sem respostas, de um futuro que se desenrola diante de mim como um precipício. Seria Klaus como meu pai, cujo desprezo pela minha mãe era tão palpável quanto seu controle tirânico?

A imagem de minha mãe, seus olhos cansados e suas palavras sussurradas de conforto, me assombrava. Ela sacrificou sua própria vida para manter a paz na família, pagando um preço que nunca mereceu. Eu não podia imaginar seguir o mesmo caminho, presa em um casamento que prometia tudo menos felicidade.

No silêncio do meu quarto, eu me pergunto se ha uma maneira de escapar desse destino indesejado.

Capítulo 3

KLAUS NARRANDO

Hoje tive uma missão fora de Istambul, mas combinei com a Cristina que assim que eu voltar para a cidade vamos passar a noite juntos. Eu não esperava que fosse rápido; quando cheguei, os soldados já haviam executado a maior parte do plano. Para mim, restou apenas capturar o líder dos soldados que estavam atacando nosso território. Nosso clã é unido e não aceita perder território para nenhuma outra organização.

Pelo menos dessa vez não foram os Lobos Cinzentos. Desde que meu pai fechou esse bendito acordo de me casar com a filha do líder deles, eles pararam de atacar nosso território.

Cheguei à periferia da vila inimiga com cautela, observando cada movimento. Ele estava em um acampamento no fim da vila, nos movemos silenciosamente pelas ruas estreitas, fechando o cerco. Quando percebeu nossa presença, já era tarde demais tentou resistir, mas acabou rendendo-se diante da superioridade numérica e da estratégia bem planejada. Segurei firmemente, olhando nos olhos dele enquanto sussurrava:

— Seu tempo acabou, agora você é nosso prisioneiro — Amarramos ele, e levamos para nossa acampamento.

Entrei em contato com meu pai. Ele mandou que o levasse para nossa sede em Istambul. Eu queria extrair as informações dele naquele momento, mas devo obediência e fiz o que me foi ordenado.

Sobrevoamos novamente para Istambul. O helicóptero pousou no terraço da nossa sede. Desci arrastando o homem com os pés e as mãos amarradas, entreguei-o a um carrasco e mandei prendê-lo na masmorra.

Fui direto para a sala do meu pai, que já me aguardava. Nico, filho da minha madrinha e meu melhor amigo, que é meu conselheiro e secretário, estava à minha espera e me acompanhou até lá.

— Missão cumprida, meu pai. O prisioneiro já está devidamente preso na masmorra. Aguardo suas próximas instruções e as cumprirei ao pé da letra — falei, beijando sua mão e recebendo sua bênção.

— Vamos deixá-lo refletir um pouco naquele ambiente agradável — meu pai disse, e nós sorrimos.

A escuridão da masmorra é sufocante , o frio penetra nos ossos. As paredes de pedra áspera e úmida são cobertas de musgo, Cada passo dado naquele lugar ecoa pelos corredores estreitos, onde a luz é fraca das tochas.

O ar lá embaixo é denso, impregnado de um odor de umidade e desespero. As celas são sombrias, alinham-se ao longo dos corredores, grades de ferro enferrujadas.

Impossível fugir da fortaleza e um ótimo lugar para refletir e lembrar-se de como está ferrado.

— Klaus, amanhã será o jantar de noivado, onde você vai conhecer sua futura esposa. Prepare uma joia e sua mãe passará o anel da família para Ayla. — Ouvir essas palavras acaba com o meu humor.

— Até quando vocês vão insistir nesse casamento? Pai, isso é uma coisa retrógrada, ninguém mais se casa assim. O senhor não acha que isso já foi longe demais? — falei sério, tentando convencê-lo a desistir dessa ideia ridícula de me casar com uma desconhecida.

— Meu filho, é tudo em nome do seu bem e do nosso clã. — Meu pai falou, e eu neguei com a cabeça.

Falei para ele pela milésima vez que gosto de outra pessoa e quero assumir o meu romance com a Cristina.

— Você está proibido de fazer uma coisa dessas. O seu compromisso é com Ayla Martin, e se você não terminar esse romance com essa modelo, eu vou tratar de despachá-la para outro planeta — meu pai falou sério e bateu na mesa.

Respirei fundo, sentindo a minha respiração pesar. Meu corpo tremeu no mesmo momento em que ouvi a ameaça que meu pai fez à mulher que amo. Eu ia responder, mas senti a mão do Nico segurando meu braço.

Olhei para o Nico, que negou com a cabeça. Ele sabia que, se eu começasse uma discussão, poderia causar uma tragédia, já que os ânimos estavam tão exaltados.

— Acabe com essa brincadeira de casinha ainda hoje, Klaus. Não tente me desafiar, meu filho, não pense que eu não sou capaz de despachar essa mulher se for para o seu bem. — Meu pai falou, e eu não respondi. Apenas respirei fundo e saí da sala.

Nico veio atrás de mim, me pedindo para manter a calma. Senti um nó na garganta. Vou ter que acabar com o meu relacionamento com a Cristina, ou meu pai vai matá-la, e eu não poderia fazer nada para impedir.

— Fica calmo, Klaus. Você sabe que não tem como voltar atrás. Vocês foram prometidos um para o outro. Dá uma chance de conhecer a moça, quem sabe ela é bonita e legal, vocês podem ter química — Nico falou, tentando me acalmar.

— Isso não é justo, Nico. Meu pai não foi obrigado a casar. Ele escolheu minha mãe, escolheu amá-la. Por que eu não posso escolher a mulher com quem quero passar o resto da minha vida? — falei e dei um soco na parede à minha frente.

Nico colocou a mão em meu ombro em sinal de apoio. Me despedi dele e mandei ele ir para casa descansar, não vou mais precisar do seu serviço.

Dirigi direto para o apartamento da Cristina, com os meus soldados me acompanhando. Não mandei mensagem para ela, quero chegar de surpresa. Passei em uma floricultura e comprei um buquê de rosas vermelhas, seu favorito.

Dirigi até o apartamento da Cristina, meu coração acelerado. Com o buquê de rosas vermelhas na mão, subi as escadas, ansioso para vê-la. Quando cheguei à porta, ouvi risadas abafadas e parei para escutar. Meu coração começou a bater mais rápido, mas agora por um motivo diferente.

Abri a porta devagar e entrei sem fazer barulho. Meus olhos procuraram por Cristina, e o som das risadas me guiou até a sala. Foi então que vi. Cristina estava nos braços de outro homem, seus lábios colados aos dele. O buquê caiu das minhas mãos, e o som das flores batendo no chão ecoou pelo apartamento.

Cristina se afastou do homem, surpresa, seus olhos encontrando os meus. A expressão de culpa e surpresa em seu rosto doeu mais do que qualquer palavra poderia. O homem ao seu lado me olhou, confuso e desconfortável, mas eu só conseguia olhar para Cristina.

— Klaus... — ela começou, mas eu levantei a mão, pedindo silêncio.

Sem dizer uma palavra, virei as costas e saí do apartamento. O nó na minha garganta estava mais apertado do que nunca. Minha mente fervilhava com a traição que acabei de presenciar. A dor era insuportável, e o futuro que eu imaginei com Cristina se despedaçou ali mesmo.

— Matem ele, mas não toquem nela — dei a ordem aos meus soldados, Cristina vai sentir o peso dessa traição, vou acabar com a vida dela, assim como ela está fazendo com a minha.

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