Capítulo 2

Ponto de Vista: Analu Moretti

A chuva caía em lençóis, colando meu vestido de seda na pele, mas eu mal sentia o frio. Tudo o que eu sentia era o calor ardente da humilhação e o frio gelado da traição de Caio. O lixo está se retirando sozinho. As palavras de Isabela ecoavam na minha cabeça, um mantra cruel e implacável.

Era isso que eu era para eles. Lixo. Um segredinho sujo de um mundo que eles desprezavam, para ser usado e descartado quando não fosse mais conveniente. Meu amor, meu sacrifício, meu coração tolo e partido - tudo não significava nada.

Um carro parou ao meu lado, seus faróis cortando a cortina cinzenta de chuva. A porta do passageiro se abriu e Isabela Almeida se inclinou para fora, segurando um guarda-chuva. Seu sorriso era enjoativamente doce.

"Você vai pegar uma pneumonia aqui fora", disse ela, sua voz carregada de falsa preocupação. "Precisa de uma carona?"

Eu apenas a encarei, um animal preso no brilho de um predador.

"Ah, não me olhe assim", ela ronronou, saindo do carro. O guarda-chuva protegia seu cabelo perfeitamente penteado e seu vestido caro, enquanto eu estava encharcada e derrotada. "Eu não sou a inimiga."

Ela deu um passo mais perto, seus olhos me examinando com uma mistura de pena e triunfo. "Ele me contou tudo, sabe."

Meu sangue gelou. "Tudo?"

"Sobre o pequeno arranjo de vocês", disse ela, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Como ele te tinha na palma da mão. Como você estava tão desesperada para salvar sua família patética que faria qualquer coisa que ele pedisse."

Minha mente voltou, não para a coação, mas para o começo. Antes das ameaças e da chantagem. De volta a um tempo que parecia outra vida, quando eu era apenas uma garota na Academia de Polícia, a melhor da turma, cheia de ideais. Caio Mendonça tinha sido um palestrante convidado, um jovem agente brilhante com olhos que viam através de mim. Nós nos conectamos instantaneamente, duas mentes afiadas atraídas uma pela outra. Conversamos por horas sobre justiça, sobre mudar o mundo. Eu tinha sido tão ingênua. Eu me apaixonei pelo homem, não pelo distintivo.

Nossas famílias eram o abismo entre nós. Meu pai, o Don, viu um Mendonça e viu o inimigo. Ele me forçou a abandonar a academia, me puxando de volta para a gaiola dourada de nosso império criminoso. Ele me disse que um homem como Caio nunca me aceitaria de verdade, que nossos mundos nunca poderiam se fundir. Eu o odiei por isso na época, mas agora, suas palavras pareciam uma profecia.

Anos se passaram. Não nos vimos novamente até que ele se tornou o agente principal de uma força-tarefa dedicada a derrubar a família Moretti. Quando ele me encurralou, o calor em seus olhos havia desaparecido, substituído por uma determinação fria e calculista. A escolha que ele me deu não era escolha alguma: tornar-me sua amante secreta e informante, ou ver minha família queimar. Eu os escolhi. Sempre eles.

"Você não tem ideia do que está falando", consegui dizer, minha voz rouca.

O sorriso de Isabela se alargou, uma coisa cruel e afiada. "Ah, eu acho que tenho." Ela se inclinou mais perto, seu perfume enjoativo no ar úmido. "Ele me disse que você era apenas um jogo. Um meio para um fim. Uma maneira de manter seu pai na coleira enquanto ele reunia provas suficientes para destruí-lo."

As palavras eram como pequenos e afiados cacos de vidro se cravando em meu coração.

"Ele me disse que você era um peão", ela continuou, sua voz um silvo venenoso. "Um brinquedo com o qual ele se cansou de brincar. Você realmente achou que ele poderia amar alguém como você? A filha de um mafioso?"

Uma única lágrima quente escapou e traçou um caminho pela chuva fria em minha bochecha. A última brasa de esperança dentro de mim se extinguiu, deixando para trás nada além de cinzas frias e escuras.

"Então, faça um favor a todos nós", disse Isabela, sua voz endurecendo. "Esqueça-o. Desapareça. Você já cumpriu seu propósito."

Ela voltou para o carro, a porta batendo com um ar de finalidade. Enquanto o carro se afastava, eu a vi olhar para trás, seu rosto emoldurado na janela, uma imagem de satisfação presunçosa.

A próxima vez que vi Caio, foi no ambiente estéril e impessoal de uma suíte de hotel que ele usava para nossas... reuniões. Dias se passaram. Eu não comia. Eu não dormia. Eu era um fantasma assombrando as ruínas da minha própria vida.

Ele estava parado junto à janela, assim como naquela noite, olhando para a cidade. Ele não se virou quando entrei.

"Você está um caco", disse ele, sua voz desprovida de simpatia.

"Eu me sinto como um", respondi, minha voz plana. Caminhei em sua direção, parando a alguns metros de distância. "Me diga uma coisa, Caio. Algo daquilo foi real?"

Ele finalmente se virou para me encarar, sua expressão indecifrável. "Do que você está falando?"

"Isabela me contou o que você disse a ela", falei, minha voz tremendo apesar de meus melhores esforços para mantê-la firme. "Que eu era um peão. Um brinquedo. É verdade?"

Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, uma coisa cruel e zombeteira. "Ela tem um talento para o drama."

"Então você nega?", insisti, uma lasca desesperada de esperança que eu não conseguia matar crescendo em meu peito.

Ele deu um passo mais perto, seus olhos frios. "Eu nego que fui forçado a fazer qualquer coisa. Você veio até mim, Analu. Por vontade própria."

A mentira era tão descarada, tão audaciosa, que me tirou o fôlego. "Você me chantageou! Você ameaçou minha família!"

"E você obedeceu", disse ele suavemente. "Não tente se fazer de vítima agora. Nós dois conseguimos o que queríamos."

Ele estendeu a mão, segurando meu queixo, seu polegar acariciando minha bochecha. O gesto, antes tão terno, agora parecia uma marca de ferro. "E agora", disse ele, sua voz baixando, "eu tenho a Isabela. Uma mulher do meu mundo. Uma mulher que pode me dar um futuro. Você não pode competir com isso."

A finalidade em sua voz foi como uma sentença de morte. A esperança em meu peito murchou e morreu.

Afastei-me de seu toque, meu corpo recuando como se fosse de uma chama. Peguei um pedaço de papel dobrado da minha bolsa, minha mão tremendo enquanto o estendia para ele.

"O que é isso?", ele perguntou, seus olhos se estreitando.

"Leia", sussurrei.

Ele pegou o papel e o desdobrou. Era um laudo médico do meu doutor. Um laudo confirmando que, duas semanas atrás, eu havia passado por um procedimento. Um aborto.

O filho dele.

Nosso filho.

Observei seu rosto passar de confusão para choque, e então para uma raiva sombria e fervente.

"Quando?", ele exigiu, sua voz um rosnado baixo.

"Não importa", eu disse, minha própria voz ganhando uma força que eu não sabia que possuía. "Está feito. Assim como nós. A partir deste momento, Caio, você e eu não somos nada. Acabou."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Analu Moretti

Os olhos de Caio, geralmente tão controlados, brilharam com uma fúria crua e possessiva. O branco clínico do laudo médico se amassou em seu punho. "Você não tinha o direito", ele rosnou, sua voz um ronco baixo e perigoso. "Aquele era meu filho também."

"Um filho que você nunca teria reconhecido", retruquei, as palavras com gosto de ácido na minha língua. "Um filho que teria sido uma mancha em seu casamento político perfeito. Eu fiz o que tinha que fazer para proteger minha família. Algo que você me ensinou muito bem."

A verdade era que eu havia considerado mantê-lo. Por um momento fugaz e tolo, pensei que um filho poderia ser a única coisa que poderia preencher o abismo entre nossos mundos, a única coisa que poderia fazê-lo me escolher. Mas então veio o anúncio do noivado, a dispensa brutal e as palavras venenosas de Isabela. Uma criança merecia mais do que ser uma moeda de troca em um jogo perdido. Uma criança merecia um pai que amasse sua mãe.

"Acabou, Caio", repeti, minha voz mais fria agora, blindada pela minha dor. "Você tem o seu futuro. Deixe-me com o meu."

Virei-me para sair, mas ele se moveu mais rápido. Sua mão agarrou meu braço, seus dedos cravando-se em minha carne como garras. "Você não decide quando acabamos", ele sibilou, me puxando de volta para ele. "Você acha que pode simplesmente ir embora depois do que fez? Você vai pagar por isso."

Ele me empurrou para trás, e eu tropecei, caindo no sofá macio. Antes que eu pudesse reagir, ele estava em cima de mim, seu peso me prendendo. O cheiro dele - bergamota e fúria - encheu meus sentidos, me sufocando.

Uma dor aguda e lancinante atravessou meu baixo-ventre. O aviso do médico ecoou em meus ouvidos - sem atividade extenuante, descanso, recuperação. Meu corpo, ainda sensível e se curando do procedimento, gritou em protesto.

Isso não era paixão. Não era nem mesmo luxúria. Era punição. Era um ato brutal e calculado de vingança, projetado para me machucar e humilhar. Ele estava reafirmando seu controle, me lembrando que eu era dele para quebrar.

A dor, tanto física quanto emocional, era uma agonia incandescente que me consumiu. O quarto começou a girar, as bordas da minha visão se turvando na escuridão. A última coisa que ouvi foi meu próprio soluço engasgado enquanto a consciência, misericordiosamente, se esvaía.

Quando acordei, o quarto estava vazio. O sol do final da tarde entrava pela janela, iluminando os grãos de poeira dançando no ar. No chão, espalhados como confetes cruéis, estavam os pedaços rasgados do laudo médico. Um testemunho zombeteiro da minha ingenuidade.

Arrastei meu corpo maltratado de volta para a mansão dos Moretti, a dor em meu âmago um lembrete constante e latejante de sua crueldade. Ao passar pela porta, o braço direito do meu pai, Marco, correu ao meu encontro, seu rosto sombrio.

"Analu, temos um problema."

Meu coração afundou. "O que foi?"

"A Federal", disse ele, sua voz baixa. "Eles começaram a fazer batidas em nossos negócios. Operações portuárias, armazéns, restaurantes. Estão atingindo tudo, de uma vez só."

Um pavor frio me invadiu. Isso não era uma verificação de rotina. Era um ataque coordenado. Era Caio cumprindo sua ameaça.

"Tem que ser o Mendonça", sussurrei, mais para mim mesma do que para Marco. "Ele está por trás disso."

"O momento parece... intencional", concordou Marco, seus olhos cheios de preocupação.

Nos dias que se seguiram, o império Moretti começou a desmoronar. Caio foi sistemático, implacável. Ele sufocou nossas linhas de abastecimento, congelou nossos ativos e virou nossos parceiros contra nós com ameaças e intimidação. Ele estava desmantelando o legado da minha família, peça por peça.

Deixei minha própria dor de lado, despejando cada grama de minha energia para tentar estancar a sangria. Trabalhei sem parar, cobrando favores, movendo ativos, tentando ficar um passo à frente dele. Mas era como tentar remendar um navio afundando com as próprias mãos.

Para salvar o que podia, tive que comparecer a um jantar com delegados de alto escalão, homens que estavam na folha de pagamento do meu pai há anos. O ar na sala de jantar privada era denso com fumaça de charuto e o fedor da corrupção. Eles me olhavam com cobiça, seus olhos cheios de uma fome predatória, fazendo piadas grosseiras sobre o infortúnio da minha família.

"Não se preocupe, garotinha", um delegado corpulento arrastou as palavras, batendo na minha mão com sua palma suada. "Se você jogar suas cartas direito, podemos fazer seus problemas desaparecerem."

Trinquei os dentes, forçando um sorriso. Pela minha família, eu suportaria isso. Eu engoliria meu orgulho, riria de suas piadas patéticas e beberia seu uísque barato. Levantei meu copo, o líquido âmbar queimando um caminho pela minha garganta e atingindo meu estômago como um soco. A dor no meu abdômen se intensificou, uma agonia aguda e lancinante, mas eu não vacilei. Apenas sorri e servi outra dose.

De repente, a porta da sala se abriu. Caio estava lá, sua presença sugando todo o ar do ambiente. Ele olhou para mim, seus olhos percorrendo meu rosto corado e o copo na minha mão, um brilho de algo indecifrável em suas profundezas antes de desaparecer.

Ele ignorou os cumprimentos servis dos outros homens e caminhou diretamente para mim. Ele se inclinou, sua voz um sussurro baixo destinado apenas a mim.

"Se você quer que isso pare", ele murmurou, seu hálito quente contra minha orelha, "você sabe o que tem que fazer." Ele gesticulou para os delegados, que nos observavam com olhos gananciosos. "Beba com eles. Entretenha-os. Mostre a eles um bom momento. Um copo para cada dia que eu adiar a próxima batida."

Meu sangue gelou. Ele tinha visto minha humilhação. Ele tinha observado esses abutres me circulando e, em vez de ajudar, estava usando isso. Ele estava me forçando a me degradar, a me apresentar para esses homens nojentos, tudo pela pequena chance de comprar mais alguns dias para minha família.

Olhei em seus olhos frios e impiedosos, procurando por um traço do homem que eu pensei conhecer. Não havia nada. Apenas um estranho que usava seu rosto.

Minha voz era quase um sussurro, carregada de uma dor que ia muito além do físico. "Sua palavra ainda vale alguma coisa?"

Ele se endireitou, sua expressão inflexível. "Um copo, um dia. A escolha é sua, Analu."

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