Capítulo 2

Meus pais estão mortos! — ela diz como se estivesse sentindo dor. Em seguida, começa a chorar copiosamente como se só agora percebesse o perigo que havia corrido. Eu a abraço apertado, enquanto ela chora em meus braços. Sinto um nó na garganta. — Tudo bem — sussurro acariciando os seus cabelos, tentando confortá- la. – Tudo bem. Alguns minutos depois, ela vai se acalmando e seu choro viram suspiros sentidos. Ergo lhe o rosto com o dedo, fascinado por aqueles olhos, que banhados de lágrimas ficam ainda mais hipnotizantes. — Você tem certeza de que não quer mesmo dar queixa à polícia? — digo docemente. — Aquele homem solto é um perigo para outras mulheres inocentes como você. — Por favor, não... — ela suplica. Enrugo a testa. Por que ela insiste em não prestar queixa? Deve algo às autoridades? Rio internamente do absurdo daquele pensamento. Claro que não! O que uma jovem frágil e indefesa como ela poderia fazer contra a lei? Mas há algo ali. Será que aquele homem é alguém conhecido? Um amigo ou namorado? O simples pensamento incomoda-me muitíssimo. — Tudo bem. Mas vou levá-la para casa então, não posso deixá-la sozinha com esse homem à solta — digo firmemente. — Não aceitarei recusa de sua parte. – Não é preciso. Leve-me ao ponto de ônibus aqui perto — ela pede. – Não! — eu urro. — Ou me deixa levá-la até sua casa ou iremos à delegacia. Mas não a deixarei sozinha no ponto de ônibus — digo incisivamente. — E eu não vou entrar no carro de um estranho! — ela rebate esfregando as mãos. — Façamos o seguinte... — suspiro tentando controlar a ira que começa a me dominar. — Eu chamo um táxi para levá-la, tudo bem? — digo em um sussurro. Ela parece refletir por alguns instantes. — Tudo bem, pode chamar o táxi — ela consente. — Venha — digo guiando-a pelo ombro. — Espere um momento. Após esperarmos um carro passar, atravessamos a rua. Faço sinal para um táxi que passa alguns minutos depois e enquanto converso com o motorista, vejo-o observá-la e fico incomodado novamente. Ela está ereta e rígida como uma rainha e é linda, não há como negar isso. Alguns fios de cabelo caem sobre o seu rosto dando-lhe um toque angelical. Só agora noto que o cabelo dela é longo, caindo abaixo da cintura de forma sensual. Nunca tive fetiche por cabelos, mas aqueles mexem e muito com a minha libido. Posso facilmente imaginá-la deitada nua em lençóis negros de seda e com aqueles cabelos ruivos espalhados, chamando por meu toque. Balanço a cabeça para afastar tal pensamento inoportuno. Após combinar com o motorista, retorno até ela, que segura à bengala com tamanha força, que as juntas de seus dedos estão brancas, desmentindo sua altivez anterior. — Venha — seguro sua mão gelada. — O táxi já está aqui. Tem certeza que não quer prestar queixa ou que eu a deixe em casa? — pergunto esperançoso. Ela volta a ficar pálida. Há alguma coisa ali? Seria o homem um namorado? Outra vez o pensamento me incomoda. — Não! — ela se apressa. — Acho que ainda não agradeci — ela sorri tristemente. — Obrigada. — Cuide-se! O táxi já está pago — Acaricio sua bochecha com um toque leve como uma pluma, mas que a faz estremecer e dar um passo para trás com a respiração ofegante. Medo ou prazer? A pergunta martela em minha mente. Pelo seu rosto corado acredito que seja a segunda opção e isso me deixa fodidamente excitado. Inferno! O que estou fazendo? Afasto qualquer pensamento indecoroso e ajudo-a entrar no carro. Observo-a conversar com o motorista, possivelmente passando o endereço. Ouço alguma coisa sobre Edifício Boulevard no Bronx e então o taxista começa a dirigir. Olho para o táxi por alguns instantes e sigo apressadamente para meu carro, que por incrível que pareça, ainda está intacto, estacionado no mesmo lugar, apesar do perigoso bairro. O carro por si só indica perigo. Nenhum delinquente ousaria mexer ou furtar um Jaguar XF prata, uma indicação claramente que seu dono só não é alguém que você gostaria de enfurecer. Enquanto dirijo, penso na jovem intrigante. Nem sequer perguntei seu nome. Penso com amargura que deveria ter insistido mais sobre o homem. Será que ela realmente o conhece? E se conhece que tipo de relação teria com ele? Não muito boa, na certa, pois ele a agrediu e a roubou. E ainda por cima seus pais estão mortos! Com quem será que ela vive? Quem cuida dela? Por que ela estava sozinha em um lugar como aquele? Eu quero ter tudo e todos em volta de mim sobre controle e todas essas incógnitas em volta dessa jovem estão me deixando louco! Tenho que vê-la novamente, mas como? Pelo menos ouvi vagamente sobre o edifício que ela mora. Sim! Vou pedir ao Peter que investigue e descubra ainda hoje seu endereço. Carregaria outra enorme culpa dentro de mim se algo acontecesse a ela. Apesar de ter dado dinheiro suficiente ao taxista, mas ainda assim... Droga! Não deveria tê-la deixado ir sozinha de táxi. Agora não ficarei tranquilo enquanto não souber se ela está bem, em segurança, em casa. Decido ligar para Peter imediatamente. — Peter, sou eu, Neil — cumprimento-o meio angustiado após ser atendido no segundo toque. — Olá, Neil! Está tudo bem? Você me parece apreensivo — ele pergunta preocupado. — Sim, está tudo bem. Quer dizer, bem, mais ou menos. Acabo de ajudar uma moça que estava sendo assaltada e deixei-a em um táxi para levá-la em casa. Insisti para fazer isso, mas ela não quis arriscar sair com um estranho. No entanto, agora estou preocupado por saber se ela chegou até sua casa em segurança. Você pode verificar isso? Ouvi-a dizer ao taxista que morava no Edifício Boulevard, mas não ouvi o nome da rua. Encontrei-a no Bronx, ela deve morar por perto. – digo em um só fôlego.

Capítulo 3

Bronx? Assalto? Neil eu estou ficando preocupado. O que ainda está fazendo aí? — ele pergunta ansioso. — Eu estava esperando o maldito homem por mais de uma hora. Peter tem certeza de que era mesmo aqui? — Foi o que ele me disse — ele parece frustrado. — Eu deveria ter ido com você. — Bom, de qualquer maneira, não estou mais no Bronx e não tenho como explicar agora. Por favor, faça o que estou lhe pedindo e me retorne o quanto antes. Estarei em casa aguardando notícias suas— digo encerrando o interrogatório. — Ok. Vou ver o que posso fazer — ele diz e eu desligo. Capítulo Dois Chego a minha casa e me encaminho para verificar Anne. Ela dorme tranquilamente. Beijo-a na testa. Sigo para o banheiro e tiro minhas roupas. Preciso de um banho. Ligo o chuveiro e mal ele esquenta estou embaixo dele. Ponho minhas mãos na parede e deixo a água cair forte nas minhas costas. Ainda perdido em saber o que me atraiu tanto naquela bela jovem. Conheço e conheci mulheres muito bonitas, minha esposa é uma delas, mas nunca me senti tão perdido. Como nenhuma outra mulher me fez ficar. Mas eu não sou digno dela e mesmo que eu fosse não devo. Tenho complicações e cicatrizes demais, quem vêm acompanhadas de muita obscuridade, muitos erros, muitos arrependimentos. Qualquer pessoa que se aproxime de mim, com certeza sai ferida. E aquela jovem parece ter problema suficiente para si mesma. Possuir uma cegueira é fácil se comparada à escuridão em minha alma e as complicações que meu mundo traz. Comigo nunca haverá luz. Não há dias de sol, ele nunca brilhará. Desligo o chuveiro após ensaboar-me e lavar os cabelos. Pego uma toalha quente no toalheiro, passo sobre meu corpo rapidamente, envolvendo-a em minha cintura e sigo para o quarto. Confiro meu relógio e já se passou uma hora desde que falei com Peter. Verifico o celular, nenhuma ligação. Vou para a sala e decido me servir de uma dose de uísque enquanto espero por notícias. Ainda posso sentir aquele perfume. E aqueles olhos... Nunca mais os esquecerei. Ando de um lado pro outro na grande sala e o tempo parece não passar. Nenhuma notícia ainda. Sirvo-me de mais uma dose. Tomo quase que em um único gole e começo a ficar ansioso. Quanto tempo já se passou? Nenhuma notícia ainda. Será que ela chegou bem? Deveria ter ficado no Bronx e aguardado notícias de Peter. Inferno! Estaria mais perto e agora estou em casa, longe e sem notícias! Nunca me perdoarei se algo acontecer à ela. Deveria tê-la levado ao meu flat. Que estúpido que eu sou! Agora estou agoniado e de mãos atadas. Maldito Peter que não liga! Decido ligar para ele e exigir alguma notícia. Quando chego ao quarto para pegar o celular, ele toca. Atendo aliviado. — Peter! Você conseguiu o que eu te pedi? — pergunto apressado. — Hei cara! Calma aí! Por que essa agonia? — ele diz zombeteiro. — Peter, você conseguiu o que eu pedi ou não? Não brinque comigo — falo furiosamente. Estou mais preocupado do que achei que estivesse. — Sim, sim. Consegui — ele responde calmamente. — Então me passe o endereço, droga! — digo ríspido. —Um minuto, vou pegar uma caneta. Eu pego a caneta e um pedaço de papel. — Pronto, pode falar. Ele me passa o endereço, eu agradeço e desligo. Sigo para meu closet e rapidamente visto uma cueca boxer, uma calça jeans preta, uma camiseta também preta e um casaco cinza por cima. Desço as escadas rapidamente e chamo Calvin pelo interfone. — Sr. Durant. Algum problema? — ouço sua voz sonolenta pelo interfone. — Não, mas preciso que você me leve a um lugar agora. — Prontamente, senhor. Aguardo-o no carro. Pego minha carteira e sigo para a garagem. Calvin me aguarda do lado de fora do carro com a porta aberta. Entro no carro calado. Ele dá a volta e senta-se à direção. — Algum lugar em especial, senhor? — ele pergunta dando ré no carro. Passo o endereço que anotei no papel para ele. — Vá o mais rápido que puder — eu digo. Ele olha o endereço assentindo e pisa no acelerador. Já se passou meia hora quando Calvin finalmente estaciona em frente a um prédio velho, com a tintura desbotada e pedaços da mesma já caíram há muito tempo. — Você tem certeza de que é aqui, Calvin? — pergunto ao meu segurança e motorista. — Sim, senhor — ele assente. — Eu cresci nessa região, conheço o Bronx como a palma de minha mão. Olho mais uma vez para o prédio a minha frente e me pergunto se devo verificar ou não se a garota está bem. Ela disse que os pais morreram, mas deve existir alguém para cuidar dela. Tem que haver, ela não pode morar sozinha ali. — Inferno! — rujo completamente alheio ao Calvin que está ao meu lado de olhos arregalados. Não conseguirei voltar para casa sem saber ter alguma resposta como: O que os responsáveis por ela, se é que há algum, pensam morando em um lugar totalmente inseguro como este? Como podem deixa-la à mercê de todos os tipos de perigo? Conheço lugares como esse o suficiente para saber que é o lugar ideal para vagabundos, drogados e prostitutas. Olho o prédio mais uma vez, vejo que o portão está aberto, outra indicação que o lugar realmente não é seguro. Possui quatro andares. Por um lado é bom, porque é pequeno. Por outro lado, vou ter relativo trabalho para encontrar seu apartamento. Terei que bater de porta em porta, fazendo papel de idiota, para perguntar se alguém a conhece e já passa da meia noite. Certamente uma garota como ela não passa despercebida.

 — Calvin — ele me observa impassível. — Vou me encontrar com uma pessoa aqui. Vá para um lugar mais seguro e aguarde meu telefonema, não vou demorar. Ele assente e eu desço do carro. Entro no prédio e subo para o primeiro andar. Bato na primeira porta com certo nervosismo, não apenas pela hora, mas por não saber o quê ou quem vou encontrar. Devo estar ficando completamente maluco! Sair de porta em porta atrás de uma garota é no mínimo estupidez. Penso em desistir e então a porta se abre. Uma loira, seminua, vestida em uma minúscula camisola e descabelada me olha de cima abaixo com interesse. — Entre, são sessenta dólares — ela fala meio grogue e segue para um sofá velho e encardido. Ela dá uma longa tragada em seu cigarro, olha pra mim novamente e diz. — Bem, pra você... — ela olha em direção a minha calça e dá um sorriso cínico. — Não cobraria nada. — Desculpe-me pela hora, senhora — digo olhando dentro do minúsculo apartamento, vejo que há duas portas à esquerda e me imagino se não vai sair dali um marido ciumento ou um cafetão. — Fico lisonjeado, mas não vim aqui para isso.

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