Alana Bastos POV:
A cerimônia estava a todo vapor, a voz do padre um zumbido contra o suave bater das ondas. Arthur estava no altar, uma figura impecável em seu smoking, Evelyn uma visão de branco ao seu lado. Ela era perturbadoramente parecida comigo, uma paródia grotesca do que um dia fomos. Minha respiração falhou. Este era o meu limite. Eu não podia deixar isso acontecer em silêncio.
— Arthur! — Minha voz, crua e rouca, rasgou o ar solene.
A cabeça dele se virou bruscamente, seus olhos arregalados de choque. Seu olhar encontrou o meu e, por um segundo fugaz, vi o pânico piscar em suas profundezas. Os convidados se agitaram, murmurando como uma colmeia perturbada.
— Quem é ela, Arthur? — exigi, minha voz tremendo com uma fúria que eu não sabia que ainda possuía.
Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.
— Alana, eu posso explicar...
— Não! — eu o cortei, minha voz afiada. — Não se atreva.
Evelyn, sempre a atriz, deu um passo à frente. Sua mão foi para o estômago, uma imagem de inocência frágil.
— Oh, Alana, querida. Por favor, não culpe o Arthur. A culpa é toda minha. Eu... eu engravidei. Eu o forcei a se casar comigo. — Sua voz era suave, tingida com uma vulnerabilidade ensaiada.
Uma risada amarga me escapou.
— Grávida? — zombei, meus olhos percorrendo-a. — Você acha que eu acredito nisso?
Ela sorriu então, um gesto sacarino que revirou meu estômago.
— Sabe de uma coisa? Você está certa. Eu vou embora. Você pode ficar com ele. Pode ficar com o casamento! — Ela começou a desabotoar o vestido, um gesto teatral projetado para chamar a atenção, para cimentar seu status de vítima.
Arthur a impediu, sua mão agarrando o braço dela. Seus olhos piscaram para mim, uma mistura complexa de culpa e algo que eu não conseguia decifrar.
— Alana — ele disse, sua voz baixa —, o posto de Sra. Montenegro ainda é seu. Sempre foi.
Eu ri, um som engasgado e choroso que ecoou o vazio em meu peito. Ele estava me oferecendo migalhas, um prêmio de consolação depois de cinco anos de inferno.
— Não — sussurrei, a palavra uma promessa dura como aço. — Eu não preciso disso. Não mais.
Virei-me para sair. Eu já tinha visto o suficiente. Ouvido o suficiente. Feito o suficiente. Mas Evelyn não tinha terminado. Sua mão disparou, suas unhas cravando em meu braço, uma pontada aguda de dor.
— Alana, por favor! — ela gritou, sua voz escalando, atraindo mais olhares. — Não vá! Não estrague tudo!
Então, em um movimento tão rápido e ensaiado que me gelou até os ossos, ela fingiu um tropeço. Seu corpo se desequilibrou, me arrastando com ela. Caímos no oceano gelado, o choque da água fria roubando meu fôlego. Eu me debati, engasgando, o pânico se instalando rapidamente.
Através da água turva, eu vi Arthur. Ele estava mergulhando. Meu coração deu um salto. Ele estava vindo me buscar. Estendi a mão, um movimento desesperado e instintivo. Mas ele passou nadando por mim, seus olhos fixos em Evelyn, aninhando-a em seu peito. Ele sussurrava palavras calmantes, acariciando seus cabelos. Ele nem sequer olhou na minha direção.
Meus pulmões queimavam. O frio se infiltrava em meus ossos. Suas promessas, seus votos, nosso futuro. Tudo era uma mentira. Ele era um mentiroso. E eu estava me afogando. Fechei os olhos, a luta se esvaindo de mim. Era isso. O fim.
Senti náuseas, enojada com a hipocrisia de Arthur.
Alana Bastos POV:
Acordei com um suspiro, o gosto de sal ainda na minha boca. Meus olhos se abriram para um teto familiar, um quarto familiar. O quarto de Arthur. As cortinas, os móveis, o cheiro de madeira cara e um leve perfume de colônia – tudo estava exatamente como eu me lembrava. Por um momento, um momento fugaz e traiçoeiro, quase acreditei que os últimos cinco anos foram um pesadelo.
A porta rangeu ao se abrir, me puxando de volta para a realidade brutal. Arthur estava lá, seus olhos se desviando dos meus no momento em que se encontraram. Um lampejo de algo – culpa? vergonha? – cruzou seu rosto, mas foi rapidamente mascarado.
— Evelyn... ela teve algumas complicações — disse Arthur, sua voz plana, desprovida de emoção. — Ela precisa descansar. Você vai levar um pouco de mingau para ela. — Não era um pedido. Era uma ordem.
Meu sangue gelou. Ele queria que eu a servisse? A mulher que roubou minha vida, que acabou de tentar me afogar? A humilhação era uma ferida aberta. Eu queria gritar, quebrar alguma coisa. O que ele estava fazendo? Era algum tipo de punição distorcida?
— Seu temperamento — continuou Arthur, sua voz endurecendo —, sempre te mete em confusão. Você não deveria ter aparecido.
Suas palavras foram um soco no estômago. Ele costumava dizer que minha teimosia era o que ele amava em mim, que isso me tornava forte. Agora era uma falha. Uma razão para sua crueldade. Senti um calafrio percorrer meu corpo, entorpecendo meus membros. Não adiantava discutir. Não havia mais força para lutar.
Levantei-me lentamente, meu corpo doendo, e peguei a bandeja. O mingau fumegava, inocente e sem graça. Caminhei em direção ao quarto de hóspedes que Arthur havia preparado para Evelyn.
A porta estava entreaberta. Evelyn estava recostada em travesseiros de seda, uma imagem de sofrimento delicado. Ela olhou para cima quando entrei, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios antes de torcê-lo em uma careta de dor.
— Oh, Alana. É tão gentil da sua parte me trazer comida depois de tudo. Meu pobre bebê, foi um susto tão grande. — Sua voz, embora suave, carregava uma sutil nota de triunfo.
Coloquei a bandeja na mesa de cabeceira. Quando estendi a mão para a tigela, a mão de Evelyn disparou. Não foi um acidente. Ela deliberadamente derrubou a tigela, fazendo o mingau escaldante espirrar sobre meu antebraço. Um grito agudo me escapou quando o calor queimou minha pele. Uma mancha vermelha e ardente floresceu instantaneamente.
Evelyn gritou, uma performance teatral.
— Oh, Alana! Como você pôde?! Você tentou me machucar! Meu bebê! — Ela agarrou o estômago, seus olhos arregalados de terror fingido.
Arthur invadiu o quarto, seu rosto contorcido de fúria. Ele correu para o lado de Evelyn, suas mãos verificando-a gentilmente.
— Você está bem, meu amor? O que aconteceu?
— Ela... ela tentou me queimar — soluçou Evelyn, apontando um dedo trêmulo para mim. — Ela está com tanto ciúme, Arthur. Ela quer machucar a mim e ao nosso bebê.
A cabeça dele se virou bruscamente, seus olhos em chamas.
— Alana! — ele rugiu, sua voz carregada de veneno. — Como você pode ser tão cruel? Você é um animal!
Meu rosto estava pálido, meu braço latejando.
— Eu não fiz isso — eu disse, minha voz mal um sussurro. — Ela fez de propósito.
Mas ele não estava ouvindo. Sua raiva eclipsava tudo.
— Saia! — ele gritou, agarrando meu braço, seus dedos cravando em minha pele em carne viva. Ele me empurrou para fora do quarto, batendo a porta com um baque retumbante. — Vá para o meu escritório! Fique lá e pense no que você fez!
O impacto enviou uma nova onda de agonia pelo meu braço. Eu tropecei, a pele se rasgando, uma nova bolha se formando. No escritório, encostei-me na parede fria, minha cabeça girando. Puxei a manga para trás. A queimadura estava feia, já infeccionando. Eu podia ouvir as palavras abafadas de conforto de Arthur para Evelyn do quarto ao lado. Sua voz gentil, acalmando-a, enquanto eu estava sozinha, sangrando.
Um impulso sombrio e desesperado me tomou. Toquei a ferida, pressionando, acolhendo a dor aguda. Era uma distração, um escudo contra as feridas mais profundas e invisíveis. O mundo girou. Minhas pernas cederam. A escuridão me consumiu.