Capítulo 2

Naquela noite, Marina não conseguiu dormir.

Ele foi para a cama cedo, seu corpo ainda salgado e sua mente em turbulência. Ela fechou os olhos e voltou várias vezes ao momento exato em que ele se sentou ao lado dela. Ao seu lado. Na sua mesa. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se o universo tivesse escolhido aquele exato dia, aquela exata hora, para romper com o costume e alterar o roteiro habitual.

Ele se revirou nos lençóis, sentindo como se algo importante tivesse acontecido, como se o dia não tivesse terminado ali, como se sua história tivesse acabado de começar com uma cena inesperada.

Da sua janela, o som do mar continuava como um eco de fundo, como uma presença fiel. As ondas quebravam com a mesma cadência de sempre, mas agora falavam com ele de forma diferente. Eles trouxeram consigo uma imagem, uma voz, um olhar verde que ele não conseguia tirar da cabeça. O vento noturno entrava pela janela entreaberta e acariciava seus tornozelos nus, tão parecido com o vento que havia penetrado pelas dobras úmidas de seu vestido naquela tarde.

Xavier.

Até o nome parecia forte para ele. Concreto. Como ele.

Ele sentou-se na cama e apoiou os pés no chão frio. Ela caminhou descalça até a cozinha e se serviu de um copo de água. Ele segurou-a nas mãos por um longo tempo antes de bebê-la, como se precisasse esfriar por dentro. Eu ainda sentia a presença daquele homem, sua voz profunda e calma, suas mãos grandes e seu jeito de olhar. Uma mistura impossível de firmeza e doçura, autoridade e ternura. Parecia-lhe incrível que um único encontro pudesse deixá-lo com tantas sensações.

Não havia passado nem uma hora quando, ao chegar em casa, ele anotou o número dela na agenda do celular. Ele fez isso sem pensar muito, como se estivesse tentando salvar algo valioso que não queria perder. Ela o registrou sob o nome "Javier Policía" e, ao fazê-lo, sorriu sozinha, um daqueles sorrisos que saem suavemente, sem força, mas com significado.

Eu não sabia se ele esperava que eu lhe escrevesse. Ela nem tinha certeza se eles se encontrariam novamente. Talvez tenha sido apenas uma cena passageira, uma tarde diferente que depois se dissolveria como a espuma do mar. Mas ainda assim, era dele. Já fazia parte da história deles, mesmo que fosse apenas um pequeno capítulo.

Ele voltou para a sala de estar, acendeu uma luminária baixa e sentou-se no sofá, com as pernas cruzadas. Seu cabelo ainda estava molhado, e o vestido que ela usou na praia estava pendurado no encosto de uma cadeira. O cheiro do mar ainda estava presente, impregnado em sua pele, em suas roupas, em todo o apartamento. Mas não era só o mar. Era ele. Era a imagem de seu uniforme, aquele azul que teria parecido intimidante em qualquer outra pessoa, mas que em Javier era misteriosamente sedutor. Como se a autoridade tivesse corpo e alma.

Ele se lembrou do sorriso dela. O tom exato com que ele disse a ela que agora ela tinha "uma linha direta com a lei". Sua resposta foi uma risada leve, mas no fundo ele achava que também tinha uma linha direta para a tentação.

A cena exata em que ele se sentou ao lado dela voltou à sua mente. Aquele momento suspenso quando a rotina foi quebrada. As gotas ainda escorriam pelas costas, o vestido úmido, os cabelos emaranhados pelo vento... e ele, com aquele ar firme, perguntando com toda naturalidade se poderia acompanhá-la. Como se se conhecessem. Como se eu o estivesse procurando entre as mesas.

Ela não pôde deixar de se perguntar se ele já a havia notado antes. Talvez ele a tivesse visto entrar, talvez seu olhar a tivesse seguido até aquela mesa à beira-mar. Mas ele não tinha como saber disso.

Ele pensou em Antonio novamente.

Seu gesto desconfortável quando se aproximava, seu olhar irritado fixo em Javier, seu silêncio denso quando se sentava sem ser convidado. Antonio sempre esteve lá, como uma sombra amigável, mas persistente. E embora nunca tivessem dito nada de concreto um ao outro, Marina sabia que ele nutria sentimentos por ela. Eu vi isso em suas atenções, nos pequenos ciúmes mal disfarçados, na maneira como ele sempre parecia disponível. Mas a verdade é que ela nunca sentiu por Antonio o que aquele desconhecido, Javier, havia despertado nela em uma única conversa.

Não se tratava de comparar. Era sobre sentimento.

E o que eu sentia agora era um formigamento diferente. Uma mistura de surpresa, desejo e uma espécie de intuição profunda que lhe dizia que aquele homem não era apenas mais um. Que sua presença não foi acidental. Que havia algo além da coincidência de datas, além do uniforme ou de seus olhos hipnóticos.

Ele se levantou, foi até o quarto e pegou um pequeno caderno que sempre deixava no criado-mudo. Um daqueles em que ele anotava ideias aleatórias, cenas para histórias ou frases que lhe vinham à mente no meio da noite. Ele abriu numa página em branco e, sem pensar muito, escreveu:

"Há pessoas que vêm como a maré. Não pedem permissão. Não perguntam se você está pronto. Elas simplesmente tocam a costa da sua vida e, quando recuam, nada é o mesmo."

Ele fechou o caderno. Eu ainda conseguia sentir o sal na minha pele, mas não era mais apenas sal marinho.

Ele deitou-se novamente. Desta vez com uma calma morna, com uma espécie de expectativa que não tinha nome. Ainda ela não sabia se o veria novamente, se ele pensava nela da mesma forma, se aquela centelha tinha destino ou se seria apagada pela brisa do dia seguinte. Mas a verdade é que, a partir daquele momento, algo mudou.

E quando ela finalmente adormeceu, ela o fez com uma imagem: dois olhos verdes olhando para ela como se a conhecessem de outra vida.

Capítulo 3

Javier ficou mais um pouco na viatura, ainda de uniforme, com a camisa desabotoada no pescoço, os botões marcando a tensão no peito. Não era o cansaço que o mantinha ali, mas algo mais difícil de explicar. Ele fechou os olhos por um momento e viu o rosto dela. O rosto dela. A mulher na mesa.

A mulher do mar.

Ele recostou a cabeça no assento e deixou o corpo relaxar, embora sua mente ainda estivesse ativa. Algo nele havia mudado naquela tarde. Ele soube disso assim que se sentou ao lado dela, como se uma parte dele, adormecida há anos, tivesse despertado de repente. A imagem se repetia com clareza: ela, com a pele salgada, os cabelos molhados caindo desgrenhados sobre os ombros, os lábios entreabertos num sorriso nervoso, e aquele vestido leve que ainda retinha o peso da água.

Nunca vi ninguém tão bonito. Não é bonito no sentido comum, é superficial. Era outra coisa. Ele tinha uma presença viva e natural, como se o mar estivesse grudado em seu corpo. Uma mistura de força e suavidade, de confiança e timidez. Uma mulher que parecia não pertencer inteiramente ao mundo cotidiano. Como se tivesse saído diretamente de um poema.

Ele ligou o ar condicionado do carro, mas não baixou as janelas. Lá fora, o mar continuava falando com ele com sua voz de ondas. A poucos metros de distância, eu ainda conseguia ouvir a música suave vinda do restaurante. Eu o conhecia bem. Nos últimos sete meses, desde que foi transferido para a sede da polícia na praia, ele passou por lá muitas vezes. Às vezes apenas para um café rápido, outras vezes para uma refeição no final do turno. Mas ele nunca parou por tempo suficiente. Eu nunca a tinha visto.

Até hoje.

Hoje o lugar era diferente. Hoje não foi uma parada qualquer, mas sim o cenário de algo que eu ainda não conseguia explicar. E tudo começou quando ele a viu sentada sozinha, com a toalha no ombro e as sandálias na mão, olhando o mar com a paz de quem pertence à paisagem. Ele se sentiu atraído sem saber por quê. Talvez fosse o seu jeito de estar ali, de não procurar nada, mas ter tudo. Ela era linda, sim, mas o que o levou a se aproximar dela foi algo mais sutil. Era uma energia, uma força calma e gentil.

E então, sem pensar muito, ele se aproximou.

-Este lugar está ocupado? - ele perguntou com uma voz profunda e suave, cuidadosa com cada palavra.

Ela olhou para cima e foi então que sentiu. Um clique, uma vibração interna, alguma coisa. E quando ele disse que não, que podia sentar-se, ele o fez sem hesitar. Mas ele escolheu sentar-se ao lado dela, não na frente dela. Não por estratégia, mas porque parecia natural. Como se daquele lugar eu pudesse compartilhar melhor a vista, o vento, a conversa.

De perto, ela era ainda mais cativante. Havia gotas de água salgada escorrendo pelo seu pescoço, seu vestido grudado no corpo, seu cabelo despenteado pela brisa do mar. Cheirava a mar, a sol, a algo fresco. E ainda assim, ela não parecia desconfortável. Ela se movia com aquela facilidade que só quem conhece o próprio corpo e a própria beleza tem. Sem esforço, sem artifício.

Eles conversaram mais do que eu esperava. Mais do que falei com qualquer pessoa nas últimas semanas. Ela era inteligente, isso era evidente. Ele tinha um jeito de falar lento e claro, como quem escolhe as palavras sem pressa, mas com precisão. Ela lhe disse que era escritora. Isso o deixou sem palavras por um momento. Nunca conheci nenhum. Exceto uma como esta. Suave e profundo. Feliz e melancólico ao mesmo tempo.

Ele falou com ela também. Sobre seu trabalho, o mar, os longos turnos e o quanto ele gostava de patrulhar perto da costa. Sobre como em algumas manhãs ele gostava de parar o carro da polícia, desligar o motor e ouvir apenas o som das ondas. Sentindo que tudo fazia sentido, pelo menos por alguns minutos.

No meio daquela conversa tranquila, Marina se levantou da mesa e foi até o balcão onde as bebidas eram servidas. Ele deu apenas dois passos, mas naquele curto caminho, Javier sentiu o tempo passar mais devagar. O olhar dele a seguiu, inevitável. Ela seguiu em frente com uma confiança natural, sabendo que estava sendo observada. E então, pouco antes de chegar à pousada, ela virou o corpo levemente, como por acaso, permitindo que ele a visse de perfil, depois quase de frente, como se lhe mostrasse todo o seu corpo por um momento.

Era uma daquelas poses que não são planejadas, mas nascem do instinto. Marina apoiou o cotovelo no balcão, deixando sua silhueta falar sem dizer uma palavra. Javier sentiu o ar ficando mais denso e quente. Não se tratava apenas de desejo. Houve admiração, puro espanto. Como se estivesse pensando em algo que não sabia que precisava até aquele momento.

E então, quando eu senti que o momento era tão perfeito que tinha que acabar logo, ela voltou, sentou-se e pediu o número dele.

Ele fez isso como alguém que joga uma rede macia no mar. Não desajeitadamente, nem de brincadeira. Ele perguntou se ela tinha um número "caso precisasse de alguma informação ou detalhe de segurança". Uma desculpa tão óbvia quanto bonita. E ele deu a ele, é claro. Enquanto ela marcou com o dedo ainda molhado, ele brincou:

-Agora você tem uma linha direta com a lei.

Ela sorriu, e por um momento ele pensou ter visto algo mais naquele sorriso. Algo que ele não disse, mas que pareceu um eco. Como uma cumplicidade que acaba de nascer. Talvez fosse imaginação dele. Ou talvez não.

E então aquele outro homem apareceu.

Javier já tinha notado isso. Desde o momento em que ela entrou, ela o viu no bar, olhando para ela com uma mistura de intensidade e possessividade. O cara não era qualquer um. Ele tinha uma história com ela, ele soube disso imediatamente. E quando ele se aproximou e sentou-se também - mesmo que por pouco tempo - o ar mudou. Ficou mais denso. Mais conteúdo.

Ele se levantou com a intenção de dar espaço a ela, de não criar tensão. Mas também com a esperança de marcar seu lugar, de deixar claro que ele não era apenas mais um estranho. Ele perguntou se poderia comprar o café da manhã para ela. Um convite simples, honesto e sem enfeites. Mas ela disse não. Sua voz era suave, mas firme.

Javier não se incomodou. Ou pelo menos era isso que ele queria acreditar. Ele sabia ler os sinais. E esse não foi um "não" definitivo. Era um "agora não". Era um "este não é o momento".

Ele se despediu com um leve sorriso, um último olhar e foi embora do restaurante.

Agora, em sua patrulha, enquanto o céu ficava azul escuro e o mar respirava ao longe, Javier não pensava em nada além de vê-la novamente. Eu não iria apressá-la. Eu não iria forçar nada. Mas ele tinha certeza de uma coisa: nunca havia conhecido uma mulher assim duas vezes na vida.

E se o destino lhes deu essa coincidência - os mesmos sete meses, o mesmo lugar, o mesmo mar - foi porque algo mais queria nascer.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED