Capítulo 2

O som dos saltos de Pamela ecoava pelo piso de mármore da mansão. Cada passo reverberava dentro dela como um lembrete: aquele lugar não era mais seu lar. Era um campo de batalha.

Ao atravessar o corredor principal, olhava para cada canto. As paredes, que antes pareciam acolhedoras, agora pareciam fechar-se sobre ela, carregadas de segredos que ela jamais imaginou existir.

— O que aconteceu com isso aqui? — sussurrou, mais para si mesma.

Portas que antes viviam abertas agora estavam trancadas. Homens armados circulavam por todos os lados. O cheiro de café, flores frescas e cera no chão havia sido substituído por um cheiro metálico... cheiro de medo.

— Senhorita Pamela? — uma voz feminina a chamou. Ela se virou e encontrou Teresa, antiga governanta da família, visivelmente abalada, com os olhos marejados. — É bom vê-la de volta… embora eu desejasse que fosse em outras circunstâncias.

Pamela abraçou Teresa com força, como se aquele fosse o primeiro gesto de aconchego desde que pisou ali.

— Eu também, Tê… eu também. Onde está meu pai?

— No hospital. O doutor disse que ele… ele pode não resistir. — Teresa apertou o lenço nas mãos. — Eles queriam matar ele, Pamela. Quiseram acabar com tudo.

Pamela respirou fundo, tentando manter a compostura.

— Eles quem, Teresa? Quem quer fazer isso com ele?

A governanta olhou ao redor, nervosa.

— Não sei... ou talvez tenha medo de saber. Tem coisas acontecendo aqui há muito tempo, minha menina. Coisas que seu pai nunca quis que você soubesse.

Um arrepio subiu pela espinha de Pamela.

— Que coisas?

Antes que Teresa pudesse responder, uma voz grossa e firme cortou o ar:

— Senhorita Pamela. — Era Leonardo, parado no batente da porta, braços cruzados, expressão impassível. — Precisamos conversar.

Ela se virou, surpresa tanto pela interrupção quanto pela presença dele.

— Sobre o quê?

Leonardo se aproximou, olhos sérios, quase duros.

— Sobre sua segurança. E... — ele lançou um olhar rápido para Teresa, que recuou discretamente — ...sobre o que realmente está acontecendo aqui.

Pamela arqueou uma sobrancelha.

— Está sugerindo que meu pai me esconde alguma coisa?

— Não estou sugerindo. — Leonardo a encarou, firme. — Estou afirmando.

Pamela cruzou os braços.

— Então fale.

Leonardo respirou fundo, como se estivesse prestes a abrir uma porta que ele mesmo preferia manter fechada.

— Você sabe de onde vem toda essa fortuna?

O silêncio que seguiu pareceu mais pesado do que qualquer resposta.

— Meu pai é um empresário bem-sucedido — respondeu ela, com convicção, embora sua voz não saísse tão firme quanto gostaria.

Leonardo deu um passo mais perto, e seus olhos verdes, intensos, atravessaram-na como lâminas.

— Seu pai não é só um empresário. Ele está envolvido com coisas que você não faz ideia, Pamela. Lavagem de dinheiro, tráfico de informações, acordos escusos com gente perigosa.

O mundo de Pamela pareceu girar.

— Isso é... isso é mentira.

Leonardo permaneceu inabalável.

— Sinto muito, mas é a verdade. E... isso não é tudo. — Ele apertou o maxilar. — Agora, eles não querem mais só o dinheiro. Querem destruir sua família. E isso inclui você.

Por um instante, tudo pareceu se apagar. O som, a luz, o ar. Tudo.

Pamela respirou fundo, endireitou a postura, levantou o queixo.

— Então... se eles acham que eu vou fugir... estão muito enganados.

Leonardo a observou, sem esconder a surpresa.

— Eu espero que você tenha mesmo esse espírito, senhorita. Vai precisar dele.

E, naquele exato momento, Pamela percebeu que o maior perigo não estava fora daqueles muros. Estava ali, escondido entre as paredes da própria casa.

"O que mais ele me escondeu? Quem mais aqui… não é quem parece ser?"

Capítulo 3

Pamela apertava o próprio braço, andando de um lado para o outro na sala de reuniões da mansão.

O silêncio ali era desconfortável, pesado, quase sufocante. A madeira escura das paredes parecia observar, julgando-a, como se a casa soubesse de tudo e estivesse pronta para revelar seus segredos mais sombrios.

O som da porta se abrindo quebrou o clima. Pamela se virou rapidamente e encontrou Martins entrando, acompanhado dos dois homens que havia visto mais cedo.

— Senhorita Pamela — anunciou Martins, de maneira formal. — Esses são os homens que seu pai escolheu para sua proteção. — Ele fez um gesto com a mão. — Leonardo e Nicolau.

Leonardo foi o primeiro a se aproximar, mas ela já o conhecia bem. Alto, corpo definido, olhos verde-musgo que pareciam analisar cada movimento dela. Seu rosto era sério, quase frio. Sua expressão transmitia disciplina, controle… e algo mais, algo que Pamela não conseguiu decifrar de imediato.

Nicolau, ao lado, era mais robusto, levemente mais velho, expressão séria, mas sem aquele peso no olhar. Seu jeito parecia mais tranquilo, porém firme.

Leonardo estendeu a mão, rígido.

— Leonardo. A partir de agora, minha vida está comprometida em manter a sua.

O jeito direto dele fez Pamela engolir seco, mas ela estendeu a mão, apertando-a, e percebeu que aquela não era uma mão comum. Era a mão de alguém que já segurou armas, já sobreviveu à guerra... alguém que sabia exatamente o que fazia.

— Pamela — respondeu, firme. — E espero que não precise colocar sua vida em risco.

Ele arqueou levemente uma sobrancelha, como se o comentário fosse ingênuo demais.

— Espero que sim, senhorita. Mas, infelizmente, já estamos nesse jogo.

Nicolau se adiantou, apertou a mão dela com mais gentileza.

— Nicolau. Conte conosco. — Sua voz era grave, mas havia nela uma ponta de humanidade que Leonardo parecia não demonstrar.

Leonardo voltou a falar, direto, eficiente, como um soldado dando instruções.

— Preciso que a senhora entenda que, a partir de agora, sua rotina muda. Sem saídas sem aviso, sem encontros não autorizados, sem lugares públicos sem segurança reforçada.

Pamela cruzou os braços, estreitando os olhos.

— Eu não sou uma prisioneira.

Leonardo a encarou, sério, frio.

— Está mais perto disso do que imagina.

Por alguns segundos, eles ficaram assim. Olhar contra olhar. Desafio contra disciplina. E, no fundo daquela tensão, havia uma centelha estranha... algo que nem ele nem ela estavam prontos para admitir.

— O que quer que eu faça, então? Me tranque num quarto e espere? — rebateu Pamela.

— Quero que esteja viva. — A resposta dele veio seca, direta, sem espaço para contestação. — É isso.

O silêncio se instalou mais uma vez, até que Martins pigarreou.

— Bem... acredito que podemos começar com uma atualização da situação atual.

Leonardo respirou fundo, desviou o olhar dela como se precisasse se recompor, e então voltou ao modo profissional.

— Temos suspeitas de que o atentado contra seu pai não foi uma tentativa isolada. E... também não foi obra de amadores.

Pamela franziu o cenho.

— Então você acha que...

— Acredito que... — Leonardo cruzou os braços, olhando diretamente nos olhos dela. — ...isso é só o começo.

E, naquele exato instante, Pamela entendeu que o homem à sua frente não era apenas um segurança. Era uma barreira viva entre ela e a morte.

Mas o que ela ainda não sabia... era quem acabaria salvando quem nessa história.

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