Capítulo 2

A porta da sala de cirurgia abriu-se, e o médico saiu com uma expressão cansada.

"A cirurgia foi um sucesso, conseguimos salvar o braço do seu filho, mas a perna direita..."

Ele fez uma pausa, e o seu olhar era pesado de pena.

"Tivemos de a amputar abaixo do joelho."

O mundo à minha volta ficou em silêncio, apenas o zumbido agudo nos meus ouvidos permanecia.

A minha sogra, Lídia, agarrou a gola do médico, o seu rosto contorcido pela dor e raiva.

"O que é que disse? Amputar? Sabe quem é o meu filho? Ele é o futuro da família Mendes!"

O meu marido, Pedro, afastou a sua mãe, a sua voz estava rouca, mas tentava manter a calma.

"Mãe, acalma-te, o médico fez o seu melhor."

Ele virou-se para mim, e os seus olhos estavam injetados de sangue.

"Sofia, foi tudo por tua causa. Se não tivesses insistido em levar o Léo ao parque de diversões, nada disto teria acontecido."

A sua acusação atingiu-me com força.

Sim, fui eu que sugeri ir ao parque de diversões, para celebrar o quinto aniversário do Léo.

Mas foi ele, Pedro, que se recusou a ir porque a sua ex-namorada, a Clara, estava com febre e precisava que ele cuidasse dela.

"Ela não tem mais ninguém, Sofia. A família dela está noutra cidade, não posso simplesmente abandoná-la."

Foi o que ele me disse antes de eu sair de casa com o Léo.

Agora, o nosso filho tinha perdido uma perna num acidente na roda gigante, e a culpa era toda minha.

Engoli em seco, o nó na minha garganta impedia-me de falar.

Apenas olhei para a porta da sala de cirurgia, imaginando o meu pequeno Léo lá dentro, sozinho e assustado.

Liguei ao Pedro dezenas de vezes enquanto esperava pela ambulância.

Cada chamada ia para o voicemail.

Cada mensagem que enviei ficou sem resposta.

Quando ele finalmente atendeu, foi a voz fraca da Clara que ouvi primeiro.

"Pedro, a minha cabeça dói tanto..."

Depois, a voz impaciente do Pedro.

"Sofia, o que foi? Estou ocupado, a Clara está muito doente."

"Pedro, o Léo... o Léo sofreu um acidente. Estamos a caminho do hospital."

Houve um silêncio do outro lado, depois um suspiro irritado.

"Que tipo de acidente? Ele está a chorar por uma coisinha de nada outra vez? Diz-lhe para ser homem. A Clara está com 40 graus de febre, isso é mais sério. Chego aí quando puder."

Ele desligou.

Quando ele finalmente chegou ao hospital, horas depois, a perna do Léo já tinha sido amputada.

Capítulo 3

Dois dias depois, Léo foi transferido para um quarto privado.

Ele estava pálido e frágil na cama do hospital, o espaço vazio debaixo do lençol era uma visão que me partia o coração.

Ele ainda não sabia.

Pensava que a sua perna estava apenas magoada e que iria sarar em breve.

"Mamã, quando é que a minha perna vai ficar boa? Quero ir jogar à bola."

A sua voz inocente era um tormento.

Forcei um sorriso e acariciei-lhe o cabelo.

"Em breve, querido. Só precisas de descansar muito."

Pedro entrou no quarto, trazendo um saco de fruta. Evitou o meu olhar.

A sua mãe, Lídia, seguiu-o, o seu rosto era uma máscara de desdém.

"Como é que ainda tens coragem de estar aqui?", ela sibilou para mim, a sua voz baixa para que o Léo não ouvisse. "Arruinaste o futuro do meu neto."

Eu não respondi, apenas me concentrei em descascar uma maçã para o Léo. As minhas mãos tremiam.

"Mãe, por favor," disse Pedro, cansado. "Não é o momento."

"Não é o momento? E quando será o momento, Pedro? Quando esta mulher destruir completamente a nossa família?"

Ela apontou um dedo acusador na minha direção.

"Desde que ela entrou nesta família, só trouxe desgraça. E tu, cego, defendes-la sempre. Olha para o que ela fez! O teu filho está aleijado para o resto da vida por causa do seu egoísmo!"

As suas palavras eram veneno.

Pedro esfregou o rosto. "A culpa não é só dela."

"Ah, não? Então de quem é? Tu estavas a salvar o mundo? Não, estavas a cuidar daquela tua ex-namorada doente. Uma mulher que nem sequer é tua mulher!"

Lídia virou a sua fúria para o Pedro.

"Vocês os dois são uma desgraça. O meu neto está a pagar o preço pelos vossos erros."

Ela saiu do quarto, batendo a porta com força.

O Léo assustou-se com o barulho e começou a chorar.

Abracei-o com força, sussurrando palavras de conforto que eu própria não sentia.

Pedro ficou ali, parado, uma estátua de culpa e indecisão.

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