Capítulo 2

O sol refletia-se nos quartos da mansão Efron e revestia de dourado as paredes brancas pintadas há pouco tempo, mas o vento que vinha de fora, trazia uma sensação agradável ao corpo de Michael que, por sua vez, mantinha-se deitado em sono leve na cama.

Era quase meio-dia quando acordou. Abriu e fechou as pálpebras para se acostumar com o clarão do sol, mas que mesmo assim, tornou-se inebriante em sua pele.

Tirou as cobertas, levantando-se para apertar o corpo e logo depois, caminhou até a varanda de seu quarto; o lugar da onde podia ter vista privilegiada para uma praça ao ar livre e, assim sendo, à piscina que havia no jardim da mansão. Sorriu levemente antes que voltasse para pegar a tolha, uma sunga, e uma calça moletom. Respirou fundo antes de adentrar o banheiro.

Ligou o chuveiro e colocou o corpo aos poucos embaixo da água que caía fria, dissipando a sensação inevitável de encontrar sua mãe logo cedo. Dona Catherine, não era uma pessoa fácil de lidar, e Michael Jones Efron sentia na pele um pouco do desprezo que esta ousava destilar como vírus pelo ambiente familiar. Woodrow, seu irmão mais novo, um loiro de olhos azuis e sorriso encantador, foi o mais prejudicado mentalmente pela separação dos pais e buscou ao lado de Michael, um pouco mais de felicidade, saindo quase todos os finais de semanas para as festas, por mais que sua idade fosse insuficiente para estar num lugar como esses. Contudo, sempre arrumavam uma forma de burlar as leis americanas. Ainda mais, depois de buscar encrenca com um aluno na escola Dalton, uma das mais caras de Nova Iorque. Michael preparava-se para o embate com o responsável pelo outro rapaz, e sabia muito bem com quais armas lutar até o fim, a ponto de favorecer seu irmão.

Depois de tomar seu adorável banho, o rapaz vestiu sua roupa e arrumou o cabelo em frente ao espelho, e logo após, escovou os dentes perfeitamente alinhados. Sorriu brevemente ao lembrar do cara que enfrentou na noite anterior, e pensou se um dia o veria novamente. Isso, se o veria de novo! Mas o destino costuma pregar algumas peças nas pessoas e como mesmo diz um ditado popular: nem todos os males vêm para o mal!

Michael era dono de um rosto harmonioso, louro de sorriso gentil, e olhos azuis claros, que contrastavam perfeitamente com seu tom de pele bronzeado pelas horas de sol, e com as sobrancelhas grossas e bem feitas.

Ele saiu do banheiro, passou desodorante e caminhou para fora do quarto, indo em direção ao andar de baixo, direto para a cozinha ampla e toda mobiliada com material inox. Não se importava se estava apenas de calça moletom e com o corpo a mostra.

Desceu todos os degraus e caminhou direto para a cozinha onde sua mãe e Woodrow, tomavam o café da manhã. Depositou um beijo nos cabelos loiros de seu irmão e outro no rosto da matriarca da família que, de imediato, estranhou o ato repentino de seu filho. Ele sentou-se ao lado de Woodrow e serviu-se com suco de laranja e um pedaço de bolo de cenoura. O silêncio instalou-se sobre o ar da atmosfera, até o instante em que sua mãe o olhou com um pouco de repúdio pela forma como se apresentava perante à mesa.

— Michael? — ela o chamou paciente. — Tenha modos, meu filho!

Michael ergueu uma sobrancelha, mas não se deu ao prazer de revidar. Apenas encarou o irmão ao lado e apontou para o pote com manteiga que logo lhe foi entregue. Catherine endureceu a face, jamais permitiu que um de seus filhos, muito menos o mais velho, lhe recusasse responder. No mesmo instante, uniu as mãos e entreolhou para Michael, que a encarava de volta com um sorriso entre os lábios.

— Mãe... — ele fez uma breve pausa antes que se desse ao luxo de continuar — eu sei que a senhora não deixa que andemos por aí exibindo o que temos. Contudo, estou em casa, e quem além de vocês, meus próprios familiares, hão de se preocupar com isso? — Catherine nada disse.

Catherine era a prova viva que o diabo existia em versão feminina. Dona de várias lojas e acionista em outras dezenas, vestia-se com glamour, e era amada por uma mídia que a cultuava como deusa. Porém, para seus próprios filhos, Catherine Jones Efron, não passava de alguém sem preceitos familiares e que fazia de tudo para enlouquecer seu próprio sangue. Woodrow, o mais novo, chateado pela forma como lhe tratava quotidianamente, sempre buscava uma maneira de, ao menos, chamar sua atenção.

Ele mantinha-se quieto ao redor da mesa, como se não estivesse ali, e não participasse da conversa entre os dois que, possivelmente, sairia do controle. Esses distúrbios familiares eram uma das causas pelas quais sempre buscava uma forma de encontrar seu pai, ou até mesmo, alguém capaz de, ao menos, ser feliz ao lado. Aos finais de semana, como de costume e rotineiro, sempre discutiam quando arrumavam uma oportunidade de fugirem da insurgência pecaminosa na qual eles metiam-se. Tanto Michael, quanto Woodrow, tiveram uma infância e adolescência conturbadas, o que não agradava nenhum um pouco sua mãe. O mínimo amor que receberam de sua matriarca, era insuficiente para haver contribuição de ambas às partes.

Catherine sabia ao certo o que deixou de fazer com o seu papel de mãe, no passado. Se tivesse criado seus filhos dando amor e estivesse mais presente na vida deles, não teriam virado rebeldes adolescentes e jovens em busca de algo que chamasse sua atenção. Era de uma forma inovadora, contraditória e consequentemente proposital como agiam com ela. Contudo, Catherine tinha uma parcela enorme de culpa em tudo aquilo.

Insatisfeita, mais uma vez, deu-se o trabalho de mandar recolher a mesa do café, causando um ódio pequeno, só que não o suficiente para levarem aquela discussão rotineira adiante. Sempre foi assim, e não mudaria! Catherine Jones era sem sombra de dúvida, um ser amargo que nem mel e açúcar poderia adocicar.

Quando Oliver separou-se dela, no tempo em que Michael tinha apenas treze anos, e Woodrow, sete, foi mais que o suficiente para que perdesse a classe e o colocasse na justiça na tentativa de arrancar até o último tostão que o homem tinha nas contas bancárias. Foi difícil, mas após usar o sofrimento dos filhos como testemunho, conseguiu tirar tudo! Dona de mais de 75% das ações da Efron Event 's, e proprietária de um dos bancos privados mais lucrativos dos Estados Unidos, conquistou o título de uma das maiores multimilionárias de Nova York. Seus filhos ostentavam uma parte dessa riqueza com rigor, dando a eles alguns cartões de créditos que em dias estouraram. Bem como, nunca pediram para que ela os ajudassem nas causas necessárias que contribuem, como: orfanatos e alguns hospitais com tratamento para o câncer.

Woodrow, o mais afetado dos dois, sempre arrumava confusões em espaço público, e uma vez ou outra, acabava sendo chamado na diretoria para responder por agressões físicas e verbais. Recentemente, arrumou uma briga com um bolsista na sua escola, chamando-o de pobre e inválido perante o refeitório inteiro. Os alunos fizeram um vídeo que por uns dias circulou nas redes sociais até que a justiça interviesse e dispusesse uma liminar para puni-los iguais. Tanto os pais dos alunos, quanto o diretor, responderiam o processo em vigência dos fatos.

Agora, sentado e pensativo enquanto os dois mais velhos trocavam injúrias entre si, seguia com seus olhos marejados, tentando inutilmente ser notado. Quando a pressão atmosférica atingiu-o em cheio, pegou a primeira coisa quebrável que havia em cima da mesa e atirou contra a parede de vidro, e o barulho do objeto ao ser quebrado, trouxe-os de volta à realidade.

Os olhos azuis que sua mãe portava recaíram sobre ele, e as mãos de Michael seguiram-se até o ombro esquerdo do irmão, dando-lhe apoio; passando em mínimos detalhes que estava ali para tudo.

— Por favor, parem com isso! — implorou entre o choro— Ou vocês irão me tornar um pouco mais depressivo do que eu já sou — Woodrow levantou-se do redor da mesa e caminhou apressadamente até seu quarto.

Michael reprovou a mãe de imediato. Olhou para ela cheio de mágoa, mas sabia ao certo, que seu transtorno mental vinha diretamente do que ocorreu no passado próximo, ao ser abandonada.

— Satisfeita, mãe? — perguntou ironicamente.

Ele não precisou ouvir mais um sermão para que se retirasse dali, à caminho do quarto de Woodrow. Michael, como o mais velho, sabia que seu irmão vinha sofrendo absurdamente nos últimos dias. O amava tanto, a ponto de tirá-lo de qualquer furo, como o que havia se metido na escola. Assim que subiu as escadas e percorreu até o quarto, bateu algumas vezes, e ouviu a voz de Woodrow do outro lado, e entrou.

O irmão mantinha-se sentado no chão, com as costas apoiadas na armação da cama e seguia com os olhos azuis profundos que herdou com bom gosto da mãe, para uma foto do pai em uma estante. Michael agachou-se perto dele, sem ideia mínima do que poderia lhe dizer a fim de acalmá-lo, e como ainda formulava algo em sua mente, só o agarrou abraçando-o fortemente e acariciou o rosto dele em seguida.

Woodrow chorava como uma criança de colo, um lobo ômega, enquanto Michael era o alfa e o protegia de tudo. Além de si mesmo, o único pelo qual prezava dentro daquela mansão, era o irmão. Apertou-o com força, repassando segurança e amor. Era incrível que mesmo na idade que estavam, tanto Michael quanto Woodrow, eram inseparáveis, e portavam-se como crianças solitárias, como se houvesse apenas eles, ali. Esse elo de amor fraterno era como ferro. Porém, até mesmo o ferro acaba sendo traído pela sua própria ferrugem um dia, e Michael sentiria na pele o amargo de seu ácido.

Passada algumas horas, o irmão dormiu em seu colo, e segurou-o para depositá-lo na cama. Assim que cobriu o corpo de Woodrow, Michael depositou um beijo em sua fronte, admirando como ele estava tornando-se um homem belo e atraente.

Os cabelos loiros dificultavam um pouco que seus olhos ficassem expostos, mas nada que interferisse ao observar o rosto bastante desenhado. Michael deitou-se ao lado do irmão, para passar-lhe segurança, e ali dormiu, bolando em pensamento uma forma de livrá-lo do castigo que poderia ter na manhã seguinte, em sua escola.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, no Distrito de Brooklyn, Alexander ajudava sua tia com os serviços domésticos no momento em que, seu irmão, formulava sua defesa que, para ele, naquele instante, não surtiria efeito gradativo algum. Sabia mentalmente que Woodrow Jones Efron, era rico e de grande destaque em sua escola, e ele... como mesmo disse Woody, não passava de alguém de vida infeliz que havia nascido para a dor. Aquelas palavras eram como lâminas em sua carne, penetrando e sem nem ao menos, dar chance para respirar antes que outra fosse enterrada sem piedade!

Ali, ao redor da mesa, pegou a pensar em como seria sua expulsão da Dalton. Por mais que fosse tão esforçado quanto Woody, os diretores iriam optar sempre por aquele mais influente e que depositaria mais dinheiro em seus cofres. Não alguém, que por azar do destino, bateu sua porta atrás das migalhas que caíam da célebre mesa do jantar.

Vendo que seu irmão mais novo estava nas alturas, seguiu em sua direção, sentando-se ao lado e apoiando o cotovelo direito no ombro esquerdo dele.

— Em que tanto pensa, Matthew? — indagou o mais velho, vendo o rosto do irmão com uma expressão de inquietude.

— Como será minha expulsão amanhã! — ele sorriu para dispersar a tensão formada no ar — mas se isso acontecer...

— Isso não vai acontecer porque eu não vou deixar — Alexander passou-lhe segurança — vem cá?

Ele o abraçou tentando passar forças e deixar o irmão mais leve e sem pressão. Sentia na pele o conturbado momento, mas eram fortes e iriam suportar juntos a tempestade, e logo após, foram fazer o restante dos serviços domésticos, sem pensar no amanhã.

Capítulo 3

Eram quase seis da manhã quando Michael e Woodrow aprontaram-se. O irmão mais novo — como de costume —, usava uma camisa branca por debaixo do blazer da escola, que era preto e com mangas longas. Calçava um sapato da mesma cor dos outros acessórios, e trajava-se uma calça jeans colada nas pernas, deixando-o, apesar da idade, um pouco másculo.

Michael observou seu reflexo pelo espelho, e um leve sorriso brotou em seus lábios levemente avermelhados. Não vestia-se como das outras vezes, pois esta não era uma ocasião especial para expor suas incontáveis roupas de marcas. Usava uma calça jeans branquicenta e um blazer preto por cima de uma camisa da mesma cor. Ajeitou o cabelo em um topete alto e voltou-se para encarar o irmão que transparecia calmaria, mas estava vivendo conflito interior massivo e ao mesmo tempo, agonizante.

— Preparado?

Esta era uma das palavras que naquele momento, Woodrow Jones Efron, não sabia o significado. A tensão era visível em sua face e sabia que, apesar de ser um dos mais ricos da Dalton School High, as acusações sobre ele pesavam.

— Acho que, possivelmente, terei um ataque cardíaco — Michael suspirou profundamente, tentando manter controle sobre seus nervos. — A partir de agora, antes de falar qualquer outra palavra inusitada, vou medi-las antecipadamente.

O irmão mais velho teve que concordar.

— Me fala um pouco sobre esse rapaz? — indagou Michael, após sentar na beirada da cama, esperando o irmão terminar de se aprontar.

Woodrow manteve um breve silêncio enquanto encarava seu reflexo pelo espelho. Notou que, o irmão, também observava-o pôr aquele objeto com arestas em mogno precioso, pendurado na parede próximo de sua estante onde diversos livros faziam pilhas, e baixou a cabeça logo em seguida. Havia um sentimento de culpa que o feria dentro da alma, como se incontáveis pontas de agulhas estivessem sendo fincadas ali. Guardou as lágrimas, não iria chorar. Por um instante levou sua mão a fim de tocar o corpo por cima da farda, e nesse instante, imagens de Matthew Red, fizeram-se presente. Ele sabia que algo de errado havia mudado com sigo, só não sabia se estava preparado com antecipação para esta mudança.

— Ele é... — Michael levantou uma sobrancelha para que o irmão mais novo continuasse. Woodrow respirou fundo, batalhando contra seus demônios internos e, mesmo que confiasse sua alma ao mais velho, não estava pronto o suficiente para lidar com as consequências de sua adolescência conturbada — um metido que vive querendo confusão — mudou completamente a face, não deixando transparecer nada além do seu próprio ódio visível.

Michael levantou-se depressa a fim de poupar o irmão de um conflito ainda maior. Ele repousou suas mãos nos ombros do menor, e virou o corpo dele para que pudesse ter uma visão mais aguçada de seu rosto. Perfeito! Esta era a palavra que Michael poderia defini-lo no momento. Woodrow era tão belo quanto ele, e pensou que por um momento, este estivesse em uma guerra para não aceitar sua sexualidade.

— Olha, maninho? — iniciou Michael, fixando seu olhar penetrante que poderia enxergar qualquer alma dentro de um corpo, e continuou: — Às vezes, tem alguns sentimentos dentro da gente que não se manifestam até que não suportamos e colocamos eles para fora de uma forma inevitável. Algumas pessoas acabam se machucando, afinal, não temos nem ideia de como controlar nossas emoções... nossa raiva. Parece que o mundo inteiro é jogado sobre nossas costas e temos a intimação de carregá-lo até o último suspiro. Mas você não tem que viver carregando e vivendo aquilo que os outros querem que viva... tem que ser você, amar o que tu é... nada além disso! Entendeu? — deu um tapinha no ombro de Woodrow e o abraçou.

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— Eu... tô muito confuso — o menor embargou a voz, era mais que visível o medo dominando suas entranhas e disseminando invisivelmente gotas de ódio pelo corpo inteiro, atingindo seu coração e contaminando como um vírus. — Eu não queria ter dito aquelas palavras... eu não queria ofender o Matthew, muito menos, magoá-lo.

Michael pensou por um instante. Afastou-se do irmão e olhou diretamente para o relógio digital no pulso, e depois, fez um biquinho de leve e bagunçou o cabelo arrumado de Woodrow, que o empurrou o jogando sobre a cama.

— Eu vou te esperar lá embaixo, meu irmão — enunciou em meio aos risos. — E olha? Não fica assim não! Eu juro que vou resolver esse transtorno para você e, pelo amor de tudo que é mais sagrado, nunca mais faça isso! — Woodrow uniu as mãos em confirmação.

Michael deixou o quarto de Woodrow, seguindo para o tão denso andar de baixo, onde, possivelmente, sua mãe estaria. Equilibrou-se mentalmente para não ter que surtar logo pela manhã, e momentos depois, a encontrou na cabeceira da mesa conversando com uma das serviçais que trabalhavam na mansão, e que lhe servia o café, enquanto lia o jornal. Seu rosto não era um dos melhores, e algo estava errado.

— Bom dia, dona Catherine!

Michael a beijou no rosto, como de costume, e ela observou-o como vestia-se. Deu um sorriso calmo e o respondeu tranquilamente, como se não houvesse acontecido nada no dia anterior.

— Hum! Está todo arrumado. Todo cheiroso; onde está indo? — ela tinha que justamente perguntar aquilo. Michael olhou para o irmão que aproximava-se da mesa, e respondeu à mãe:

— Irei levar Woody na escola, e depois passarei na empresa. Faz tanto tempo que não vou lá — respondeu sem demonstrar chances para que sua mãe o interrogar.

Catherine Jones analisou-os por um bom tempo. Viu a tensão palpitar em seu filho mais novo e sentiu que algo ali não estava certo. Porém, não deu bola. Ela apenas levantou-se pegando sua bolsa e saiu sem dizer nada além daquilo.

O que a mulher tinha de beleza com toda certeza, possuía mais ainda de amargura.

Woodrow suspirou profundo, inquieto, e não tocou no café. Sentia que logo sua mãe saberia sobre o que se passou na escola, e tomaria providências mais restritivas sobre a educação dele.

— Vamos? — Woodrow saiu de seu devaneio longínquo. — E fique calmo, pois eu estarei lá com você!

Ambos saíram da casa indo em direção a garagem da onde tiraram um Ford preto, última geração, e adentraram nele. Michael deu partida saindo do Inwood, e pegando o caminho mais viável para não custar chegar na Dalton High School.

Como Woody estava tenso, e Michael não queria incomodá-lo, ligou o rádio no volume baixo que tocava uma música do Shawn Mendes, e começou a pensar em si mesmo. Faziam algumas semanas que ele nem ao menos saía com alguém. Já estava no auge de seus vinte e cinco anos e tinha que tomar uma decisão gradativa acerca de sua relação amorosa. Desde que se aceitou bissexual há três anos, sua vida mudou muito, porém, tinha dado uma estagnada ultimamente. Os poucos amigos que ele tinha feito ao longo do colegial, haviam se afastado.

Os problemas com sua mãe e a crise mental de seu irmão só o favoreceu para se distanciar de algumas pessoas e, por um tempo, cuidar mais de Woodrow do que de si próprio. Mas não se arrependeu de nada! Amava o irmão e isso era o que importava no momento.

Passou alguns longos minutos até que estivessem em frente à Dalton School. O prédio gigantesco e aprimorado erguia-se como uma montanha em um dos bairros mais ricos da cidade. A construção antiga com um toque moderno e tecnológico, a fazia uma das únicas em toda Nova Iorque. Michael parou o carro no vasto estacionamento escolar com prioridade aos responsáveis, e logo após, saiu do automóvel.

Alguns alunos o encaravam de longe, pois sabiam ao certo filho de quem ele era. Logo depois Woodrow saiu e alguns olhares revoltosos seguiram-se até ele. Michael segurou firme em seu antebraço e o guiou pelos corredores lotados em direção à diretoria da escola.

Um leve arrepio correu seu corpo ao avistar o cara da balada ali, esperando ser chamado e ao lado dele, um rapaz ainda mais bonito. Aquilo foi como se a terra tivesse sido jogada sobre suas costas, e por um tempo, não houvesse recobrado os sentidos.

Aproximaram-se vagamente até o instante em que os olhos cruzaram-se e Woodrow sentisse um energúmeno naquele recinto.

Parou alguns metros, e no mesmo momento, Alexander e Matthew ergueram-se apressadamente.

— Foi ele, Alex! — revelou Matthew, apontando o dedo indicador ao corpo de Woodrow.

Ele tentou dar um passo, contudo, foi intervindo por Alexander que pediu calma. Apesar de estar agindo naturalmente, não estava preparado para vê alguém, muito menos, Michael.

Antes que mais alguma coisa frustrasse ambos os lados, uma mulher de ascendência negra, alta, dos cabelos cacheados e sorriso meigo e delicado, abriu à porta convidando os responsáveis para entrarem enquanto os dois mais novos estariam sendo ouvidos por um orientador.

Michael, que estava visivelmente feliz por encontrar Alexander novamente, mantinha-se calmo. Porém, ao contrário, Alexander já havia desmaiado mentalmente umas cem vezes. Pelo néon da boate, era perceptível que toda a beleza de Michael fosse exposta. Mas, ali, não. Tão natural. Tão charmoso. Tão... atraente. Ele piscou seus olhos algumas vezes na tentativa de sair de um longo transe e Michael notou aquela falha, pois sorriu. Passou por ele olhando-o de relance, e em seguida, adentrou à sala.

Alexander se abanou com as mãos, e respirou fundo. Não esperava que seu confronto fosse com alguém importante e filho de uma pessoa de bastante influência na mídia nacional. Depois de alguns segundos imóvel, decidiu entrar e deparou-se em um ambiente aconchegante e bem arrumado.

— Bom dia, Sr. Red — o diretor estendeu sua mão em cumprimento, que logo foi agraciado pelas finas e delicadas de Alexander. Assim que se afastaram, ambos sentaram-se e o Sr. Morgan, definitivamente, começou o tão esperado assunto. — Como os dois ficaram sabendo pelo e-mail que a escola enviou para os senhores, de acordo com o que seus irmãos nos repassaram, o motivo mais óbvio pelo qual foram chamados é o racismo influente pelo qual nosso país está passando. O Sr. Jones Efron foi acusado de xingar o Sr. Matthew Taylor Red, chamando-o de: pobre e inválido. O que, posteriormente, levou aos socos e, por cima, ao quase sangramento dos dois.

Tanto Alexander, quanto Michael, mantiveram-se impassíveis apenas observando os detalhes. Cada palavra que ali era dita diminuía as chances para ambas as partes. No decorrer da conversa, já não tão agradável, Michael parou para observá-lo mais atentamente. Era surreal a forma como o rosto de Alexander havia sido desenhado, apostaria toda sua fortuna — se possível —, que ele era mais um filho de Narciso, largado ao mundo, mas, que ainda assim, tinha beleza de sobra. O jeito como movimentava os lábios, da forma que colocava as mechas um pouco castanho para trás de sua orelha, e apertava os olhos, era diferente. Tudo em total sincronia.

— Sr. Jones Efron? O que tem a dizer na defesa de seu irmão? — ele recobrou a razão, e mesmo que estivesse perdido no assunto, notara que havia poucas chances de tirar Woody da burrada que fiz.

Meio desnorteado e atropelando as palavras, disse:

— Acho que devemos terminar com isso por aqui mesmo, Sr. Morgan! — iniciou Michael, pausadamente. — Sabe como são esses adolescentes, não é mesmo? Agem por impulso e não tem noção alguma do que poderá vir mais tarde? — o diretor balançou a cabeça em total concordância.

— E o Sr. Red? O que tem a dizer? — Alexander sabia que não teria muitas chances e foi ainda mais estratégico.

— Sugiro que ambos façam trabalhos comunitários juntos, para que possam tornar-se mais sociáveis — sugeriu o rapaz. — E, se por acaso não der muito certo, diretor Morgan, eu assumirei a responsabilidade dos atos que vier acometer meu irmão — levantou-se da cadeira cumprimentando o homem negro à sua frente, e logo depois, saiu rumo aos corredores.

Não se deu o trabalho de comunicar o irmão sobre o que ocorrera naquela sala; somente o abraçou e disse que estaria tudo bem. Uma mulher alta, loira e de olhos azuis, aproximou-se dos dois que se largaram e disse a eles que seria o momento dos alunos adentrarem para conversar com o diretor.

Alex despediu-se do irmão e caminhou a passos firmes rumo à saída do prédio. Ao longo do corredor iluminado de branco contrastando com os armários pretos próximos das salas, ouviu alguém o chamando. Não foi preciso se virar para discernir que se tratava de Michael Jones Efron. O loiro lançou-lhe um sorriso e pela primeira vez notou a cor de seus olhos. Tanto Alex, quanto Michael, eram pessoas de belezas surreais. Se alguém acreditasse na existência de anjos, com certeza eles seriam confundidos com algum ser celestial.

— Nossa! Eu nem sei o que dizer — Michael quebrou o silêncio entre os dois. — É o destino agindo aqui, meu jovem — um sorriso brincou nos lábios de Alexander, que por um momento o estudou.

— É só uma mera coincidência — disse Alex, quebrando qualquer oportunidade que o playboy estivesse arquitetando. — Foi um enorme prazer em reencontrá-lo. Porém, eu não tenho a vida ganha, então vou para a minha faculdade o mais depressa! — ele deu meia volta e continuou seu trajeto, contudo, fora interrompido pela mão viciosa de Michael em seu antebraço direito.

Alex parou e olhou para o piso de azulejos brancos, e logo após, em direção aos olhos azuis profundos de Michael, que em seguida, largou-lhe o braço.

— Eu posso, pelo menos, lhe pedir desculpas pelo caos que aconteceu entre nossos irmãos? — Alex tinha dado seu veredito na sala do diretor, não teria como ouvir mais uma papagaiada de pessoas como Michael. Mesmo assim, tivera recebido uma educação de qualidade por parte de Emma — sua tia —, e decidiu escutá-lo. Alexander assentiu meio incomodado pela forma como o rapaz estava agindo com sigo, e então, Michael continuou: — Preferia mil vezes que Woodrow não tivesse dito aquilo. Acredite, meu irmão é uma pessoa muito boa! De coração enorme e que só falou asneiras porque, você pode não acreditar, mas o coitado está sofrendo diariamente com um pressionamento íntimo o qual eu não sei o que é! Alexander, eu sei que nosso reencontro não é nada além de uma mera coincidência, talvez para você seja, mas para mim...

— Certo! — ele o cortou sem deixá-lo concluir. — Resolva o caos no qual teu irmão se meteu e ensine a ele bons modos. Não é só porque minha família é pobre, que somos inválidos; e adeus! — dissera impaciente, continuando sua trajetória.

Cruzou o enorme portão e ouviu novamente ser chamado. Parou pela segunda vez naquele dia. Virou-se lentamente e encarou Michael nos olhos outra vez.

— Eu... — o loiro tentou arrumar uma maneira de vê-lo novamente — quero convidar você para tomar um sorvete. Por favor, aceito tudo, menos um não! — Alex sorriu brevemente.

— Hum?! Certo! Porém, cada um paga o que consumir. Só me diga onde fica que eu vou! — Claro que ele não iria. Não tinha tempo para essas coisas, e a forma como agira era a única oportunidade que tinha para despistá-lo o quanto antes.

— De jeito nenhum — Alex sorriu — eu te levarei. Não vou te dar chance para fugir da onde nunca mais poderei encontrá-lo.

Depois de um tempo lutando, Alexander concordou.

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