Capítulo 2

NOAH.

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A luz do sol cegava meus olhos enquanto penetrava no quarto e eu me amaldiçoei por não fechar as cortinas na noite passada.

Me estiquei e toquei no espaço vazio ao meu lado, desejando sentir o calor da pele da morena sexy que esteve comigo. Eu geralmente não as deixo passar a noite. Depois da transa, eu as despeço com algum tipo de adeus rápido e frio, esperando não ter qualquer contato com nenhuma delas novamente. Porque esse é o ponto. Quando você as encontra para um segundo ou terceiro encontro, a coisa toda passa de sexo casual para qualquer tipo de expectativa que elas criam. E eu não quero ter que ser sempre o canalha que tem que explicar que aquilo não significou absolutamente nada. Mas por algum motivo, para a garota estrangeira, eu abri uma exceção.

Provavelmente pelas grandes quantidades de álcool que consumi e possivelmente porque ela morava em um país totalmente diferente. De qualquer forma, eu estava ansioso por algo que não tinha experimentado. Acordar ao lado de uma garota e transar com ela loucamente pela manhã. Mas, assim que estendi a mão querendo tocar sua pele macia mais uma vez, tudo o que encontrei, foi seu lugar vazio na cama fria ao meu lado.

Me sentei e passei os olhos ao redor da sala em busca de qualquer sinal dela, mas não havia nada, é como se ela nunca tivesse estado ali. Talvez eu a tenha mandado embora?

Vasculhei meu cérebro tentando me lembrar dos eventos da noite passada. Eu me lembrava de conversar com ela no lounge e de beber shots. O resto era um borrão de imagens que não fazia sentido, até trazê-la aqui e a foder contra a parede, o encosto do sofá, a cama e contra a janela. Eu me lembro dessa parte claramente. A garota estava um pouco tímida, admito. É provavelmente por isso que estou desapontado por não a ter novamente esta manhã.

Soltei um suspiro longo e deitei nos travesseiros, passando a mão pelo rosto, quando senti algo frio atingir meu nariz. Rapidamente, puxei minha mão para perto dos olhos, piscando em seguida, enquanto observava a aliança de ouro em volta do meu dedo.

— Mas o que...? — murmurei, enquanto olhava atônito para o objeto, tentando lembrar como diabos aquilo tinha ido parar ali. —Porra! — dei um salto, me sentando na cama, sem conseguir tirar os olhos da aliança na minha mão. — Não, não, não, não. — Apertei meus olhos fechados e os abri novamente, esperando que estivesse imaginando e que aquilo desaparecesse magicamente.

Não pode ser! Tem que ser uma piada. Uma de muito mal gosto. Eu me lembrava da garota usando um anel falso na noite passada. Era alguma coisa sobre uma aposta com as amigas…. Talvez eu tenha apostado? Sim, tem que ser isso. De jeito nenhum eu teria me casado. Eu não sou o tipo de cara que se casa. Eu nem gosto de estar em relacionamentos, porra!

Enquanto tentava manter a calma, me sentei na beirada da cama, passando nervosamente as mãos pelo cabelo. Sim, definitivamente aquilo deveria fazer parte da aposta estúpida que a morena e suas amigas fizeram. Meu alívio durou pouco quando movi os olhos e um pedaço de papel na mesa de cabeceira chamou minha atenção. Rapidamente estendi a mão e o agarrei, meus olhos saltando do meu rosto, enquanto lia o documento.

Certidão de casamento

Noivo: Noah Harden

Noiva: Jessica Garcia

— Porra!! — berrei enquanto agarrava uma calça e a vestia. Peguei minha camisa e a coloquei o mais rápido que consegui, sem sequer me preocupar em abotoá-la e corri para fora do quarto descalça com o papel nas mãos. Eu não tinha ideia de onde olhar ou de onde procurá-la. O que eu sabia era que ela estava hospedada aqui, já que nos encontramos no bar do hotel, mas não disse em que andar estava, então tudo o que consegui pensar, foi na recepcionista, ela certamente me diria alguma coisa.

Com impaciência, desci até o saguão, com a impressão de que aquela tinha sido a viagem de elevador mais longa da minha vida. Eu precisava encontrar a garota e cancelar isso. Anular seria a palavra mais correta, ou seja lá o que você faz, quando acidentalmente se casa em Las Vegas.

Quando as portas do elevador finalmente se abriram, caminhei rápido em direção ao balcão e sorri quando a recepcionista olhou direto para o meu peito sob a camisa aberta. Isso seria fácil. Ela umedeceu os lábios e se aproximou de mim.

— Bom dia, como posso ajudá-lo? — ela ronronou, enquanto batia seus cílios para mim. Ela era bonita e se não estivesse em pânico agora, ela com certeza seria uma ótima distração em meu último dia aqui.

— Estou procurando alguém. Uma mulher morena, cabelos longos, que está hospedada aqui. Estou com algo que pertence a ela e preciso entregar, será que pode me ajudar a encontrá-la? — me inclinei sobre a mesa e lancei a ela meu sorriso mais charmoso. Ele sempre funcionava. A garota sorriu de volta e seus olhos escanearam meu abdômen e novamente ela umedeceu os lábios.

— Claro! Qual é o nome dela? — ela perguntou. O nome dela? Como diabos eu vou saber?! Por um momento esqueci completamente do papel em minhas mãos.

— Jessica Garcia. — a recepcionista digitou o nome no computador e franziu a testa para mim.— Sinto muito, não tenho registro de ninguém aqui com esse nome.— porra. Ela me deu um nome falso? Isso tornaria o casamento ilegítimo, certo? Mas ela estava hospedada aqui com suas amigas, talvez a reserva tenha sido feita em outro nome.

— Ela estava com duas amigas, é morena, cabelos lisos... — respondi, me sentindo um idiota, já que aquela provavelmente era a descrição de metade das mulheres ali..

— Sinto muito.— a garota balançou a cabeça.

—Espere ... elas eram brasileiras, eu acho.— respondi, quando a informação passou pela minha cabeça. Ela franziu as sobrancelhas por um momento enquanto pensava.

— Três mulheres brasileiras fizeram check-out há algumas horas.— ela respondeu e meus olhos se arregalaram, tem que ser elas.

— Elas disseram para onde estavam indo? — questionei, já imaginando que provavelmente estavam voltando para o seu país. Ela balançou a cabeça e me deu um sorriso de desculpas. Eu a agradeci e me afastei, me perguntando o que diabos iria fazer.

Voltei para o quarto, me xingando por ser um idiota bêbado e assim que olhei para o relógio, percebi que tinha um vôo de volta para casa me esperando. Eu descobriria o que fazer quando chegasse em Nova York.

Capítulo 3

JÉSSICA.

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Se tinha algo que eu adorava fazer, era cuidar da minha pequena confeitaria localizada na Barra, no Rio de Janeiro. A Doce Biscoitos era o lugar mais encantador do mundo para mim e apesar de pequena, ela contava com uma decoração toda personalizada, com um alegre papel de parede de listras, mesas e cadeiras num delicado azul bebê e um lustre provençal que dava um charme impecável ao ambiente. Aquele era meu lugar favorito no mundo todo.

Eu e minha irmã mais velha, Isabella, éramos sócias e fundamos a cafeteria logo depois que nossa mãe, uma confeiteira de mão cheia, faleceu. Nós herdamos seu amor e talento e transformamos sua antiga padaria em um lugar, que sentia muito orgulho em chamar de nosso.

— Chegou pra você. — Bella empurrou uma enxurrada de correspondências sob o balcão, enquanto amarrava o avental.

— Ótimo jeito de começar o dia. Obrigada maninha. — eu zombei. Apesar de alguns anos mais velha do que eu, Bella fazia questão de deixar toda papelada e formalidades comigo. Ela odiava ter que lidar com as contas, já que a ideia de reformar o café tinha sido minha e isso nos atolou até o pescoço de dívidas.

A confeitaria era meu pequeno sonho realizado, mas não nos permitia viver regada a nenhum tipo de luxo ou excessos. Nós tínhamos um padrão de vida simples e desde muito cedo aprendemos a viver com pouco, mas o grande problema, eram as dívidas que acumulamos com o empréstimo no banco. De qualquer forma, trabalhávamos duro e isso combinado com a união que tínhamos, nos mantinha acreditando que tudo daria certo.

— Nunca vou entender como vocês conseguem ser tão comunicativas às sete da manhã. — Nico, nosso confeiteiro rebugento rosnou, se aproximando com uma bandeja de biscoitos decorados, caminhando em direção à vitrine.

— Você está aqui há dois anos e ainda não se acostumou?

— E nunca vou. — ele respondeu mal humorado. Eu estiquei o braço para tentar alcançar uma estrela-do-mar recheada, mas ele lançou um olhar furioso. — Não toque nos meus biscoitos.

— Isso é um absurdo. Essa confeitaria é minha. — respondi e Bella sorriu.

— Então faça seus próprios biscoitos. — foi sua resposta atrevida. — Ainda tenho mais uma fornada de macarons esperando para ser recheados.

— Que delícia. Pelo menos vou poder provar?

— Claro querida. — ele sorriu. — Se pagar por eles.

Bella caiu na gargalhada, enquanto nosso confeiteiro ranzinza voltava para a cozinha. Então, depois de roubar um de seus preciosos biscoitos, juntei toda correspondência e caminhei em direção ao pequeno escritório improvisado nos fundos. Lidar com toda papelada e dezenas de boletos, era de longe a coisa mais agradável de se fazer ali, já que eu adorava estar na cozinha e literalmente "colocar a mão na massa".

Apesar de nunca chegar a me formar, eu tive alguns semestre de contabilidade e isso nos ajudava com a parte financeira, afinal, alguém tinha que fazer o trabalho sujo.

Depois de ligar o computador e acessar nossa planilha de gastos com fornecedores, comecei a separar as contas, abrindo uma por uma e lançando no Excel, quando um envelope branco e sofisticado com a logo da JK Empreendimentos chamou minha atenção. Eu sabia sobre o conteúdo daquele envelope e tive que controlar minha vontade de jogar no lixo sem nem sequer abri-lo.

A alguns meses atrás, recebi uma proposta de uma grande construtora para a compra da confeitaria, que provavelmente seria destruída para dar lugar a um centro comercial qualquer, que é claro, recusei instantâneamente. Ainda que estivéssemos devendo ao banco, nosso negócio não estava à venda.

Então, passado algumas semanas, recebi a ligação de um dos advogados deles, aumentando a oferta e tentando me convencer a aceitar a proposta. O problema é que eles nunca estiveram interessados no meu negócio e sim na localização do lugar e isso me irritava. Eu até tentei explicar ao homem arrogante que não se tratava do dinheiro, mas sim do quanto aquilo significava pra mim.

O cara riu na minha cara e eu o mandei ir a merda, gentilmente é claro.

Percebi que seria ridículo tentar argumentar, já que esse tipo de pessoa valoriza tudo que é monetário, que geram lucros, sem sequer imaginar que por trás daquilo existe uma história de vida, de conquista. Alguém sonhou com aquilo. Minha mãe veio do interior sozinha, com duas filhas pequenas e pouca quantia em dinheiro, mas o suficiente para comprar um terreno com uma casinha nos fundos. Durante anos, lavou roupas pra fora e anos depois, conseguiu realizar o sonho de se tornar uma confeiteira. Alguns anos mais tarde, abriu uma padaria bem pequenininha e nos ensinou a dar valor às coisas. Eu sentia muito orgulho do pequeno negócio que ela nos deixou. Então, não se tratava de dinheiro e sim de um sonho. E eu nunca venderia o meu.

— Parece que esses cretinos estão bem determinados. — Bella rosnou nas minhas costas, me despertando dos meus pensamentos.

— Eles são persistentes, mas nós também somos. — respondi, enquanto abria o envelope e depois de passar os olhos rapidamente pelo conteúdo, soltei um suspiro de frustração.

— O que foi?

— Aumentaram o valor da proposta. — respondi. — E ainda vão cobrir as dívidas do banco.

Ela torceu o nariz e seu semblante pareceu preocupado. — Acha que estamos fazendo a coisa certa? E se não conseguirmos...

— Ei, é claro que estamos fazendo a coisa certa. — respondi firmemente. — Não pense nem por um segundo que não somos capazes de pagar nossas próprias dívidas.

— Eu só tenho medo do banco tomar a única coisa que temos.

— Nós não vamos vender e ninguém vai tomar o que é nosso.— respondi firmemente. — Nós vamos crescer e expandir esse é o plano lembra? Vamos dar um jeito, eu prometo!

Já era a terceira ou quarta vez que tínhamos tido aquela conversa, e me preocupava como a Bella parecia querer entregar os pontos tão rápido. Eu sei que ela se preocupava e sentia medo. Mas eu também sentia. Embora as vezes, me sentisse lutando sozinha, eu sabia que tinha que dar um jeito e salvar a única coisa que nossa mãe havia nos deixado.

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