Capítulo 2

O cheiro de desinfetante inundou as minhas narinas, misturado com o aroma familiar do café do meu marido, Léo.

"Amor, trouxe o teu café da manhã favorito."

A voz dele soou ao meu lado, mas eu não conseguia abrir os olhos, o meu corpo parecia pesado como chumbo.

"A Ana está bem? Onde está a minha filha?" A minha voz saiu rouca, um sussurro fraco.

Léo fez uma pausa. "Ela está bem, não te preocupes, a minha mãe está a cuidar dela. Os médicos disseram que precisas de descansar."

Eu forcei os meus olhos a abrirem-se, a luz do quarto do hospital era demasiado forte, fazendo-me piscar. Vi o Léo sentado ao meu lado, o seu rosto bonito mostrava uma exaustão que eu nunca tinha visto antes.

Ele estava a usar a mesma roupa de ontem, amarrotada e com uma mancha escura no ombro.

O acidente de carro de ontem à noite passou pela minha cabeça como um relâmpago. O som ensurdecedor do metal a torcer-se, o grito agudo da Ana, e depois a escuridão.

"Léo, o que aconteceu exatamente? Quem nos atingiu?"

Ele evitou o meu olhar, concentrando-se em descascar uma maçã. "A polícia está a investigar, não penses muito nisso agora, o mais importante é recuperares."

A sua evasão fez o meu coração afundar.

O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira, peguei nele com a mão a tremer e vi dezenas de chamadas perdidas da minha melhor amiga, Sofia.

Liguei-lhe de volta imediatamente.

"Clara! Graças a Deus! Estás bem? Ouvi dizer que tu e a Ana sofreram um acidente!" A voz ansiosa da Sofia veio do outro lado da linha.

"Estamos bem," tranquilizei-a, "mas a Ana... onde é que ela está?"

"Ela está na casa dos teus sogros. A tua sogra ligou-me, disse que a menina estava assustada mas não se feriu."

Um alívio percorreu-me, mas a ansiedade permaneceu. "Sofia, podes fazer-me um favor? Vai ver a Ana por mim, quero ter a certeza de que ela está mesmo bem."

"Claro, vou já para lá. Mas, Clara... há algo que precisas de saber." A voz da Sofia hesitou. "A pessoa que vos atingiu... foi a Inês, a ex-namorada do Léo."

O meu sangue gelou.

Inês. O nome que o Léo me tinha assegurado que pertencia ao passado.

"O quê?"

"Ela estava a conduzir bêbada, aparentemente. A polícia deteve-a no local."

Olhei para o Léo, que ainda estava a descascar a maçã meticulosamente, como se nada no mundo importasse mais do que aquela fruta.

"Léo," a minha voz tremeu de uma raiva que eu mal conseguia conter. "Foi a Inês, não foi?"

A faca parou. Ele finalmente levantou a cabeça, os seus olhos encontraram os meus. Havia culpa neles, mas também uma estranha determinação.

"Clara, ela não teve a intenção."

"Não teve a intenção? Ela quase nos matou! A nossa filha estava no carro!"

"Ela estava a passar por um mau bocado," disse ele em voz baixa. "O noivado dela foi cancelado, ela tem estado a beber muito. Eu... eu tenho estado a tentar ajudá-la."

A maçã descascada caiu das suas mãos, rolando pelo chão do hospital.

O meu mundo desabou. Não foi apenas um acidente. Foi uma traição.

"Ajudá-la? Então, enquanto eu estava em casa a cuidar da nossa filha, tu estavas a consolar a tua ex-namorada?"

"Não é o que estás a pensar!" Ele levantou-se, a sua voz tornou-se defensiva. "Ela é minha amiga, precisava de apoio!"

"Amiga?" Ri, um som amargo e oco. "Uma amiga que te liga a meio da noite? Uma amiga que te manda mensagens que tu apagas antes que eu veja? Uma amiga que agora nos põe no hospital?"

O silêncio dele foi a única resposta que eu precisava.

Naquele momento, a porta do quarto abriu-se e a minha sogra, a Dona Elvira, entrou. O seu rosto estava carregado de desaprovação.

"Clara, já chega! O Léo passou a noite inteira aqui contigo, não dormiu um segundo. E tu recebes-lo com acusações?"

Ela nem sequer perguntou como eu estava.

"A Inês é uma boa rapariga, só cometeu um erro. O Léo está apenas a ser leal a uma velha amiga. Devias ter orgulho nele, não criar um escândalo por nada."

Olhei da minha sogra para o meu marido. Eles eram uma frente unida. E eu era a estranha.

"Eu quero o divórcio, Léo."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar. Mas assim que as disse, soube que eram verdadeiras.

Capítulo 3

A cara do Léo ficou pálida. "Não sejas ridícula, Clara. Estás magoada e chateada. Não estás a pensar com clareza."

"Pelo contrário," respondi, a minha voz surpreendentemente firme. "Nunca pensei com tanta clareza em toda a minha vida."

A Dona Elvira bufou, cruzando os braços. "Divórcio? Por causa de um pequeno acidente? Deixas de ser dramática. Pensa na tua filha. Queres que a Ana cresça numa família desfeita?"

A menção da Ana fez o meu coração doer, mas também fortaleceu a minha resolução.

"Eu estou a pensar nela. Não quero que ela cresça a pensar que é normal um pai pôr a sua ex-namorada à frente da sua família."

"Isso não é justo!" protestou o Léo. "Eu nunca a pus à vossa frente!"

"Não? Então onde estavas tu na noite passada antes do acidente, Léo? Estavas com ela, não estavas?"

O silêncio dele foi ensurdecedor.

"Ela ligou-me, estava desesperada," admitiu ele finalmente, em voz baixa. "Eu só fui encontrá-la para conversar, para a acalmar. Quando saí, ela deve ter-me seguido. Eu não sabia que ela estava bêbada ao volante."

A desculpa era tão fraca, tão patética.

"Então, para que fique claro," disse eu, sentando-me na cama, ignorando a dor aguda nas minhas costelas. "A tua ex-namorada, que tu foste 'consolar', seguiu-te, bateu no nosso carro com a nossa filha lá dentro, e eu é que sou a culpada por querer o divórcio?"

"Ninguém disse que tu és a culpada!" A Dona Elvira interveio. "Mas o casamento requer perdão, compreensão. A Inês precisa da nossa ajuda, não do nosso julgamento."

Eu olhei para ela, incrédula. "A vossa ajuda? Ela é uma criminosa. Ela pôs a minha filha em perigo."

"Ela vai pagar pelo seu erro," disse o Léo, a sua voz suplicante. "Eu prometo. Mas não destruas a nossa família por causa disto."

"A nossa família já estava destruída, Léo. Eu é que me recusava a ver."

Peguei no meu telemóvel e disquei o número de um advogado que um amigo me tinha recomendado há muito tempo, para uma questão de trabalho.

O Léo e a sua mãe olharam para mim, chocados, enquanto eu falava calmamente ao telefone, marcando uma consulta.

Quando desliguei, o Léo agarrou no meu braço. A sua força surpreendeu-me.

"Clara, por favor. Não faças isto."

"Larga-me," disse eu, a minha voz fria como gelo.

A sua mãe puxou-o para trás. "Deixa-a, Léo. Ela está a ser teimosa. Quando sair do hospital e vir a realidade, ela vai voltar a rastejar. Ela não tem nada sem ti."

As suas palavras foram cruéis, mas acenderam um fogo dentro de mim.

Eu ia provar que ela estava errada.

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