- Seis meses antes (dos oito anos) -
Eu estava na fila aguardando para acessar o interior do Manhattan Bar. Era o aniversário de dezoito anos de Alissa e estávamos empolgadas. Ela seria a primeira a completar a maioridade. E para mim tudo era ainda melhor: a primeira vez que eu saía numa casa noturna. Geralmente minhas saídas eram na casa das minhas amigas ou festas particulares, em casa de conhecidos.
Minha mãe era legal, mas infelizmente havia casado com um homem chato que me importunava o tempo inteiro e se achava meu pai, embora não fosse. Ele não era só conservador, mas fazia questão de tentar mudar a opinião de minha mãe com relação a tudo. Como era aniversário de Alissa e a mãe dela insistiu para eu acompanhar elas, teria minha primeira vez no Manhattan Bar.
Assim que passei pelo segurança e acessei a porta de entrada, havia um pequeno espaço sem absolutamente nada. À esquerda, uma porta que dava de frente para o caixa, onde se ganhava a consumação mínima, que vinha em forma de cartão. Ali também era pago o cartão ao final da noite. À esquerda, o primeiro bar, todo espelhado, com belos barman’s e os mais variados tipos de bebidas e coquetéis coloridos enfeitavam o lugar. Dava vontade de provar tudo. Algumas banquetas altas ficavam dispostas para quem preferisse beber sentado. Passando alguns metros, à esquerda, uma pequena escada, pouco iluminada, de onde se acessava o segundo andar, que tocava músicas dance. Dali não se ouvia nada lá de cima. Mas sim o som que vinha da pista de baixo, que ficava à frente, numa área mais ampla. Onde estávamos era claro e bem iluminado. Passando dali, via-se a enorme pista de dança, um degrau abaixo. Ela ficava centralizada, cercada por camarotes com bancos de couro e mesas em mármore à esquerda. À frente, o palco, já com microfones e instrumentos musicais esperando a banda. À direita, o segundo bar, interligado ao palco. Era igual o da entrada, porém maior. Na lateral direita, antes do bar, uma pequena entrada com porta vai e vem em madeira, estilo veneziana, onde ficavam banheiros masculinos e femininos, um de frente para o outro.
Felicidade era a sensação que irradiava de mim, ouvindo as minhas músicas preferidas em meio ao ambiente escurecido com algumas poucas luzes ora brancas, ora coloridas.
- E então? – perguntou Alissa.
- Amei. – falei atenta a tudo.
Alissa e Valquíria já havia estado ali uma vez. Mas eu não fora junto. Daniela havia ido mais vezes, com outras companhias.
Descemos e começamos a dançar imediatamente. Isso eu amava nas minhas amigas: eram divertidas o tempo todo. Tirando Val, que nem sempre estava de bom humor. Mas naquele dia especialmente ela estava. Eu conheci Alissa e Daniela há três anos, quando entrara no ensino médio. Valquíria eu conhecia desde que minha memória começou a existir. Estudamos juntas a vida inteira, desde o primeiro ano. Mas naquela época não éramos melhores amigas. Fomos criar este vínculo quando trocamos de escola e fomos para o ensino médio.
Ainda assim criamos laços tão fortes que nos conhecíamos só de olhar uma para a outra. Alissa era apaixonada por Saul, que estudava na mesma escola que nós. Ele costumava ir ao Manhattan e foi daí que descobrimos o lugar. A intenção era encontrá-lo lá. Na primeira vez ela o viu lá, mas ele ficou com outra garota. Doeu nela, que acabou ficando com outro. Hoje era aniversário dela e quando assoprou as velinhas antes de sair, ela desejou ele. Esperávamos que o desejo das velas desse certo.
A noite foi divertida. Tinham muitos garotos bonitos que era até difícil escolher. Não éramos perfeitas, mas não servíamos para feias, então logo estávamos com muita companhia masculina tanto dançando conosco quanto ao nosso redor, como abutres na carne nova.
Ganhei um vestido preto da minha mãe para sair naquela noite. Era lindo, porém havia ficado um pouco curto. Não deu tempo para trocar, pois ela me entregou minutos antes de eu sair para a casa de Alissa. No dia anterior eu havia pintado meu cabelo de rubi. A nova Juliet era ruiva. Mas havia sido morena, loira, platinada, preto azulado e até estilo Geri Halliwell, das Spice Girls. Como boa aquariana, eu gostava de mudanças e fugia do tradicional. Não sabia por quanto tempo eu seria ruiva, mas atualmente eu gostava. Meus cabelos nunca estiveram tão compridos: no meio das costas. Eu não conseguia deixar crescer mais. Não tinha paciência alguma para nada. O avermelhado combinava com minha pele clara e meus olhos esverdeados. Meu cabelo era liso. Eu era magra... E não gostava muito do meu corpo por isso. Sonhava ter mais coxas, mais bunda e menos peito. Mas nem tudo é como se quer quando a gente só tem 17 anos.
Começou a tocar “Santeria”, uma música pela qual eu era simplesmente fanática. Sem pensar muito e depois de beber já três drinques, me joguei no meio da pista e comecei a dançar loucamente. Quando vi um garoto estava junto comigo, imitando meu jeito louco e sem ritmo. E ele também sabia toda a música. Enfim, alguém com bom gosto musical. Ele era magro, mas tinha braços fortes. Era um pouco mais alto que eu (qualquer pessoa era mais alta que eu), tinha cabelos castanhos não tão curtos e completamente desalinhados. Seus olhos eram claros... Pareciam-me azuis na pouca luz que tínhamos. E boca dele era perfeita. Não sei se foi tão claro que fiquei olhando para a boca dele que quando percebi, ele se aproximou de mim e me beijou.
A boca não só era bonita, mas beijava bem. Seus lábios eram quentes e ele tinha gosto de bebida doce. Sua língua era exigente. Ainda dançávamos quando passei meus braços pelo pescoço dele, para intensificar aquele beijo maravilhoso. Ri em meio ao beijo na boca quando ele abaixou as mãos e puxou meu vestido para baixo. Quem em sã consciência puxa o vestido de uma garota para baixo e não para cima? Nos soltamos quase sem fôlego e já não dançávamos mais tanto quando ele olhos nos meus olhos e perguntou:
- Qual seu nome?
- Juliet. E o seu?
- Carlos Eduardo... Mas pode me chamar de Cadu.
- Pode me chamar de Juliet. – eu ri.
- Hum... Vou te chamar de Ju. – ele disse pegando minha mão e me puxando para perto do corpo dele, enquanto suas mãos envolviam minhas costas e ele voltava a dançar junto de mim.
Não, eu não lembro mais que música tocava. Eu sequer sei quem estava perto de nós ou se existia alguém. Eu poderia dizer que foi a bebida em excesso que me deixou completamente embriagada por aquele homem. Mas não foi. Era algo que eu nunca senti antes. Não sei porque... Mas foi especial. E não pelo fato de ele ser bonito.
A banda começou a tocar e me virei para olhar enquanto ele ficou atrás de mim, abraçando-me por trás, sem nunca me soltar. A sensação que eu tinha era de que o conhecia há mais tempo. E meu corpo parecia não querer ficar longe do dele...
Vez ou outra ele me dava beijos no pescoço e descansava o queixo nos meus ombros. Se aquilo não era perfeição, eu não saberia dizer o que era.
Quando percebemos a banda acabou a apresentação. Não nos soltamos um minuto sequer. Depois de mais outros beijos envolventes e nenhuma tentativa de escorregar as mãos por lugares proibidos, ele perguntou:
- Você mora aqui na cidade?
- Sim. E você?
- Na cidade vizinha.
- Estuda onde? – perguntei na certeza de que ele era estudante de ensino médio também.
- Escola Técnica.
- Perto de onde estudo. – observei feliz.
- Vai dizer que você estuda no Instituto?
- Aham. – concordei.
- E só nos encontramos aqui? Como eu nunca vi você na rua?
Eu ri novamente:
- Eu não ando muito pelas ruas não.
- Na verdade, nem eu. – ele admitiu. – Não costumo sair muito.
- Se eu disser que é a primeira vez que venho aqui, acreditaria?
- Se eu disser que eu também, você acredita?
Começamos a rir. Eu completei:
- Um garoto que não gosta da noite?
- Na verdade gosta, mas não é um doido para viver na rua.
- Eu gosto bastante... Mas tenho uma família um pouco tradicional e conservadora.
- Devem ser parentes da minha. – ele riu.
- Pelo menos podemos escutar música... Já que você também gosta de Sublime.
- Gosto bastante, embora não seja o fã número um deles.
- Achei que era...
- Passou a ser a música perfeita quando a vi dançando tão empolgada... Acho que até é minha preferida agora.
Eu ri:
- Se continuar falando assim, vou me apaixonar...
Eu falei isso mesmo? Você está louca, Juliet?
- E ainda não está? – ele riu alto. – Eu já estou... Completamente.
Ele me beijou de novo. Seus lábios sedentos devoravam os meus. Eu estava para dizer que foi meu melhor beijo até aquele momento. Mas, não imaginando que aquilo poderia ficar ainda melhor, fui surpreendida quando ele me abraçou com força, me apertando contra si, e depois me levantou, trazendo-me até seus lábios novamente. Carlos Eduardo era fascinante e sabia como satisfazer uma adolescente sonhadora, mas ao mesmo tempo pouco inocente.
Foram vários beijos quentes trocados durante a noite. Mas não durou muito. Logo alguns garotos vieram até ele:
- Precisamos ir.
Ele me olhou e fez uma carinha triste. Sério, você precisa mesmo ir? Tem certeza de que não quer ficar para sempre nos meus braços?
- Chegou minha hora. – ele falou.
- Foi bom conhecê-lo, Cadu. – confessei.
- O prazer foi todo meu, Ju.
Ele me deu um beijo rápido e andou. Ei, você foi perfeito... Não vai marcar de me ver de novo? Fiquei ali, parada, o vendo partir. Volte aqui, amor da minha vida. Quero você para sempre... Casa comigo.
Acompanhei-o até ele desaparecer entre a multidão, sentindo meu coração apertado.
- Não vai dizer que se apaixonou? – perguntou Dani me abraçando por trás.
- Completamente... Não dá para ver os corações saindo pelos meus olhos?
- Dá sim... Agora vira para cá, pelo amor de Deus. Não duvido que você vá atrás dele.
- Então me segura firme. – brinquei.
Realmente não havia mais nenhuma graça aquele lugar depois que ele partiu. Eu nunca fui uma garota muito recatada. Gostava de me divertir e mesmo quando minha mãe tentava me impedir, eu ainda assim burlava as regras. E isso gerava alguns castigos de vez em quando. Eu esperava que quanto chegasse aos dezoito anos isso acabasse. Agora era esperar, pois logo chegaria a minha vez. Dei meu primeiro beijo aos trezes anos, bem atrasada das minhas outras amigas. Foi com um garoto desconhecido. Eu tinha medo de beijar um que eu gostasse ou conhecesse e ele achasse que eu não sabia beijar. Então a tática foi aprender com um desconhecido para aprimorar com os outros. Eu ainda era virgem... E acreditava que era por falta de oportunidade. Gostei de muitos garotos, quase sempre fiquei com quem eu queria e namorei alguns que só atrapalharam minha vida. Eu era focada nos estudos, dedicada, mas 50% do meu tempo era voltado para paixões da adolescência. Amava um a cada semana e “desamava” em duas. Isso me diferenciava bastante de minhas amigas. Alissa ficava com outros garotos, mas gostar era só de Saul. Valquíria, por sua vez, gostava de Adriano há muitos anos e não ficava com ninguém a não ser ele. O primeiro beijo dela foi no ano passado, obrigada por nós. De tanta insistência, ela acabou cedendo às nossas pressões. Beijou uma pessoa que nós escolhemos e depois nunca mais viu uma boca masculina na vida. Acho que ela fez alguma promessa que só beijaria a segunda vez se fosse Adriano. Ainda assim ela sempre saía conosco. Mas seu humor dependia de Adriano aparecer no local ou passar por ela na rua. Daniela era a única de nós que já havia perdido a virgindade. Já havia sido noiva e com ele havia feito sexo pela primeira vez. Noivado terminado e tínhamos uma Dani que podia dormir com quem quisesse sem se importar. Ela que aproveitava bem a vida. Nós, pobres medrosas... A primeira vez é sempre conflitante para uma garota. Principalmente quando já não se é tão jovem, e ao mesmo tempo não tão velha. Tínhamos um pacto que a primeira que fizesse contaria todos os detalhes (quando eu digo todos é absolutamente todos). Dani dizia algumas coisas, mas ela não era tão clara como queríamos. Ela perguntava se queríamos filmar a próxima vez... Simplesmente ríamos. Só quem não passou por isso sabia o quanto se tinha curiosidade.
Mal sabíamos que realmente não era possível descrever com tantos detalhes para as amigas... Porque talvez aquele momento tivesse que ser um segredo para sempre. Principalmente quando ele envolvia a quebra de um pacto de amizade. Sim, fui eu que quebrei o pacto... E não as perdi, mas também nunca mais foi a mesma coisa. Mal eu sabia o quanto aqueles momentos todos eram preciosos. Muito menos a reviravolta que Cadu daria na minha vida e o quanto ele seria responsável pela minha destruição.
Assim que chegamos à casa de Alissa, nossas camas já estavam preparadas no chão da sala. Trocamos de roupa e nos jogamos nos colchões macios. Deitei no meio das duas. Olhei para Val e disse:
- Eu não acredito que você deu uns beijos na boca. Nicolas é legal, agradável...
- Bonito. – completou Alissa.
- Muito bonito. Acho que você deve casar com ele. – brinquei.
Ela revirou os olhos, entediada:
- Não vou mais nem ficar com ele de novo.
- Não combinaram nada, Val? – perguntei surpresa. – Como assim? Ele até esperou nosso táxi. Sabemos que não são todos que fazem isso. Só os garotos mais importantes e apaixonados. – formei um coração com meus dedos para ela.
- Nem comece, Juliet.
- Como não? Hora de tirar Adriano desta vidinha. – brinquei.
- Claro... Depois que você tirar Cadu. – ironizou ela.
- Ok, retiro o que eu digo. – levantei as mãos em sinal de paz.
- Pobres rejeitadas. – disse Alissa.
- Eu não sou rejeitada. Cadu só não vai aos mesmos lugares que eu.
- Ah, sim... – elas riram.
Na minha opinião, realmente ele não me rejeitava. Só não ficávamos juntos porque nunca mais nos encontramos. Mas eu tinha certeza de que quando nos víssemos novamente, começaríamos a namorar. Eu tinha uma imensa saudade dele. Será que ele sentia o mesmo?
Por que eu achava que elas eram rejeitadas e eu não? Porque Saul sabia que Alissa era louca por ele. Ainda assim só se exibia e não ficava com ela. Acho que justo pelo fato de ele saber que a fazia sofrer. Se alguém algum dia contou para ele? Não, claro que não. Mas simplesmente estava escrito nos olhos dela. Sem contar o fato que onde ele fosse no intervalo da aula, estávamos próximas, sabendo até quando ele ia ao banheiro. Alissa era loura e tinha umas loucuras de vez ou outra “assassinar” os cabelos. Tinha olhos castanhos claros e travava uma briga diária com a balança em busca do peso ideal. De todas nós, era a mais divertida e que pouco se preocupava com tudo. Também a menos focada nos estudos. Não importava se ia bem ou mal nas notas. Muitas vezes nós a incentivávamos a se dedicar como nós. Ela não tinha papas na língua e falava o que pensava. E raramente estava de mau humor. Sempre lembro dela sorrindo. Também não tinha muito parâmetro para escolher seus “pares”. Pegava o que aparecia na frente. Por vezes se envolvia com alguns... Até achar outro mais interessante.
Adriano? Na minha opinião, um metido. Sequer nos cumprimentava, mesmo nos encontrando em vários lugares em comum. Valquíria era uma garota extremamente bonita. Era morena, cabelos bem escuros e brilhosos, ora lisos outras volumoso. Magra, com curvas na medida. Tinha olhos claros e era a mais alta de todas nós. Eu poderia arriscar dizer que era também a mais inteligente, pois sempre tirava as melhores notas. Val tinha toda sua vida planejada e sabia tudo que faria quando acabasse o ensino médio. Se ela era obcecada por Adriano? Um pouco, mas ainda assim nada tirava seu foco. E acho que por isso ela pouco se importava em ficar com alguém. Parecia-me que os estudos para ela eram mais importantes que qualquer coisa.
E tinha eu... Cabeça de vento. Só coração e emoção. E nada de razão. E ainda me achava a mais sensata. O certo é que elas eram a minha vida e eu não poderia ter imaginado melhores pessoas para fazerem parte da minha adolescência, do melhor momento que eu vivia, do que elas.
- Eu voto para você ficar com Nicolas e ele ser amigo de Cadu e nós quatro vivemos felizes para sempre. – falei.
- Eu também. E vou achar um par para viver feliz para sempre com vocês. – disse Alissa.
- Ele beija bem, Val? – perguntei curiosa.
- Como vou saber? É o segundo que beijei na vida.
- Ele tem cara de quem beija bem. – disse Alissa.
- E a boca também... – observei. – Boca grande, beijo bom.
- Vocês estão de olho nele, é? – ironizou Val.
- Para você, amiga. – brinquei.
- Podem pegar... Não quero, definitivamente. – ela confessou.
- Não... Vai ficar sim. – teimou Alissa.
- Eu não gosto dele. Foi bom, mas não preciso repetir.
- Vai passar o resto da vida esperando por Adriano? – questionei.
- Não... Assim como você não espera por Cadu há seis meses.
- Esta doeu dentro do meu coração. – brinquei de falar mentiras, dizendo verdades.
- De todas nós, você é a mais obcecada. – disse Alissa.
- Gente, eu simplesmente me apaixonei...
- Você ficou com ele uma vez... – alegou Val.
- E você nunca ficou com Adriano. – contestei.
- Mas o vejo várias vezes... Ele está em todos os lugares. É como se Cadu fosse um fantasma. Se eu não o tivesse visto naquela noite com você, poderia jurar que ele nem existisse.
- Mas você viu que ele era real, Val.
- Ainda assim... Ele nem era tão bonito assim para você ficar completamente louca por ele.
- Val, como pode dizer isso? Ele era absolutamente perfeito.
- Eu também achei ele bonito. – disse Alissa. – Acho que estranhamos um pouco porque não é muito o tipo de Juliet.
- Como assim?
- Às vezes me parece que você não gosta muito de homens bonitos. Prefere os mais feios.
- Vocês são tão injustas.
- Cadu não faz meu tipo. – falou Val.
- Nem deve... Ele é meu, esqueceu? – lembrei.
- Mesmo que não fosse, eu jamais ficaria com ele.
- Claro que não... Ele ficou com Juliet.
Sim, tínhamos um pacto. Se uma de nós ficasse com um garoto, nenhum poderia ficar com ele novamente. E cumprimos a risca, desde o momento que nos conhecemos. Por sorte, realmente não tínhamos o mesmo gosto. E já houve casos de colegas de escola ou amigas de amigas que foram em algum lugar conosco e ficaram com nossos ex, fazendo com que as excluíssemos completamente do nosso grupo. Não importava se não gostávamos do ex em questão, muito menos se não quiséssemos olhar na cara deles. Nunca beijaríamos um homem que a outra beijou.
Na segunda-feira fomos para a aula no Instituto. Estudávamos todas na mesma sala. Nos esperávamos no portão de entrada da escola para entrarmos todas juntas. Assim que sentamos, Nadiny perguntou:
- E então, me diga que Cadu foi.
- Não foi. – falei tentando não dar muita importância a ela.
- Ele me prometeu que iria... Não acredito.
- Ele não costuma cumprir muito as promessas que lhe faz. – observei virando para a frente.
- Não está chateada comigo, não é mesmo, Juliet? – ela perguntou preocupada.
- Não... Ela não está. – garantiu Alissa empurrando minha perna.
- Estou sim... – falei baixo.
- Ela não tem culpa se ele não foi.
- Eu ainda acho que ela mente... Duvido que realmente conheça ele ou o amigo ou seja lá o que for.
- Por que ela faria isso? – perguntou Alissa.
- Para tentar entrar no nosso grupo.
- Ela já tem um grupo.
- Ainda assim quer fazer parte do nosso.
Daniela chegou e sentou-se junto de Valquíria, que estava sozinha até então.
- Custava mandar uma mensagem de texto para confirmar que estava tudo bem com você? – reclamou Alissa.
- Claro que estava. Por que não estaria?
- Dani, minha mãe mente para a sua ao dizer que você está na minha casa. O mínimo que você tem que fazer é dizer onde está, para sabermos caso aconteça algo ruim.
- O que um homem poderia me fazer de ruim num motel? – ela ironizou.
- Nada que você não quisesse, não é mesmo? – eu ri.
- Exatamente.
- E como foi? – perguntei ansiosa, louca para saber detalhes.
- Bom.
- Bom? – perguntei triste. Só isso que ela diria?
Eu gostaria de saber como foi, quantas vezes eles fizeram, se usaram preservativo, se ele tinha um pênis grande, se pagou o motel na saída, se comeram algo, se tomaram banho de banheira, se ele fez sexo oral nela ou ela nele...
- Não poderia nos dar mais detalhes? – pediu Alissa.
- Querem detalhes vão ver um filme pornô. – disse Dani.
O professor entrou na sala e logo tivemos que parar a conversa. No intervalo ficamos seguindo Saul, como sempre. Eu achava Alissa bonita e não via nada de especial em Saul. Ele era alto, talvez mais de 1 metro e oitenta. Era extremamente magro... Não tinha músculos nem nos braços. Os cabelos eram raspados e escuros, assim como a pele. Ele tinha poucos pêlos nos braços e pernas e era possível ver isso porque ele estava sempre de bermuda. Eu já mencionei que odiava garotos de bermuda a não ser na praia?
Quando a aula acabou, saímos juntas, como sempre: eu, Dani, Alissa e Val. Somente eu e Val voltávamos juntas, pois morávamos perto uma da outra. Dani morava em outra cidade. Alissa morava próximo da escola, na zona central.
Ficamos paradas quando vimos Nicolas, escorado na parede de uma empresa, que ficava de frente para o Instituto. Ele usava calça jeans escura e camiseta branca sem detalhes, com a mochila nas costas.
- Acho que você tem companhia. – observei quando vi ele olhando na nossa direção.
- Isso não vai dar certo. – disse Val, nada satisfeita.
- Este garoto é perfeito. – comentou Alissa.
- Vai lá e dá uns beijos nele. Não custa nada. – aconselhou Dani.
- Meninas, eu não gosto dele.
- E quem disse que precisa gostar? Não precisa gostar para beijar. – eu disse.
- Ah, precisa sim. – contestou Alissa.
- Vocês já me obrigaram a ter meu primeiro beijo com alguém que vocês escolheram... Não podem me obrigar a continuar com Nicolas.
- Pelo menos fala com ele. – disse Dani.
- Ele não vai te morder. – eu tentei.
Ela suspirou e atravessou a rua, indo até ele. Eu não tinha certeza se Nicolas conseguiria conquistar Valquíria algum dia. Ela era quase impossível de se abrir para o amor. Eu sequer tinha certeza se ela ficaria com Adriano caso ele quisesse. Por vezes ela parecia ter medo de se envolver física e emocionalmente.
Mas Nicolas era meu possível passaporte para Cadu. Os dois conversaram alguns minutos e trocaram um beijo. Nós batemos palmas, chamando a atenção de todos que passavam. Val mostrou o dedo do meio por trás, indignada enquanto ainda beijava Nicolas.
Eu queria muito continuar a conversa com Nicolas que foi encerrada na noite de sábado do Manhattan Bar por causa do táxi. Mas não era hora de interromper o momento dele e Val. Alissa e Dani se despediram e foram embora. E eu fiquei ali, esperando Val, que continuava conversando com Nicolas como se nunca mais fosse ir embora. Olhei no relógio e já era tarde. Eu não poderia ficar esperando a vida toda. Se chegasse muito tarde teria problemas com minha mãe... Ou melhor, meu padrasto.
Por algum motivo não consegui atravessar a rua para falar com Val. Parecia que minhas pernas se recusavam a ir até lá... Ou talvez senti muito medo de interromper o momento e ela não querer mais ver Nicolas e a possibilidade de rever Cadu se esvaísse de vez da minha vida.
- Val, estou indo. – gritei.
Os dois me olharam e ela disse:
- Espere, vou junto.
- Não... Não se preocupe. Vou sozinha.
- Nem pensar.
Ela se despediu dele com um beijo rápido e correu na minha direção.
- Obrigada por me salvar.
- Salvar? Você não parecia querer ser salva. – observei rindo.
- Como eu já disse antes: ele é legal, mas eu não gosto dele.
- Ele veio até aqui vê-la. Acho que ele não pensa como você.
- Não importa. Não vou seguir com isso.
- Val, ele é bonito, querido e parece gostar de você. O que a impede?
- Eu não gosto dele... Só isso, Juliet.
- Mas poderia pelo menos tentar.
- Quem sabe fazemos assim: eu tento gostar de Nicolas e você de Giovane?
- Não... – fiz uma careta. – Mas é diferente. Nicolas é bonito, Giovane não.
- Não estamos falando de beleza e sim de gostar.
- O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Juliet, às vezes eu acho você tão egoísta.
- E você tem falado coisas que me magoam às vezes.
- Sei que somos amigas... Mas sinceramente, sobre minha vida amorosa quem decide sou eu. Não vou deixar você, Alissa e Dani decidirem por mim mais uma vez. Eu já acabei com meu primeiro beijo por vocês.
- Por nós? Você está sendo injusta. Não a obrigamos a nada.
- Será que não? Se eu não beijasse aquele desconhecido vocês nunca me deixariam em paz.
- Só queríamos ajudá-la. – justifiquei.
- Já estou pensando em dispensar a “ajuda” de vocês.
- Val, não perca Nicolas. Ele é bonito e...
- Então fique com ele. – ela cortou minha frase e saiu na frente, brava.