Capítulo 2

Amous

Dois anos depois

Em algum lugar do Maine, nos Estados Unidos

— Eu não quero que sobre qualquer um.

— O FBI vai desejar interrogá-los — Blood diz, ao meu lado,

fora da casa que estamos prestes a invadir, em um canto perdido no

Maine[3]

.

— O FBI teve tempo mais do que o suficiente para salvá-lo e

não o fez. Os federais trabalham dentro da legalidade, o que nesse

caso, não serviu para porra nenhuma. Já nós, fazemos nossas

próprias leis.

Eu participei, tanto quando ainda trabalhava ativamente em

missões para nossa empresa de segurança, quanto na época em

que fui soldado das forças especiais do exército, no resgate de

sequestrados. Não saberia dizer o número de vítimas que já libertei,

mas tenho um ódio particular por quem comete tais atos contra

vulneráveis, sejam crianças ou idosos.

Até mesmo para criminosos há um código moral, algo de

sagrado, mas os malditos com os quais estamos lidando agora

parecem não se importar com nada.

— Por que estamos nos metendo, em primeiro lugar? Eles

são praticamente uma gangue, pelo que apuramos e não uma

organização, Amos.

— Porque miram sempre em idosos incapazes de se

defender. Já é o quinto sequestro em sete meses. Em todos, os

resgates foram pagos. Nenhuma das vezes a vítima voltou para a

família. Essa merda acaba hoje.

— Tudo bem, já entendi. Entramos e pegamos a vítima. Não

deve sobrar testemunha do resgate. Nenhum dos filhos da puta

envolvido nisso verá o sol nascer amanhã.

Aceno com a cabeça, já absolutamente concentrado no que

preciso fazer.

Sinto meu corpo inteiro tenso, pronto para a batalha, mas não

é apenas o desejo de salvar o senhor de noventa e sete anos, um

juiz aposentado, o que me faz querer acabar com a raça dos filhos

da puta, e sim o meu mais absoluto desprezo pelos covardes.

Crianças e idosos são os dois lados da mesma moeda.

Ambos em situação de vulnerabilidade física. E saber que uma

gangue de sequestradores se especializou em alvejá-los, faz com

que meu desejo por sangue eleve-se além do normal.

Na escuridão da madrugada, apenas as luzes de visão

noturna nos óculos nos guiam. Vejo a movimentação dos nossos

homens, se esgueirando por entre a vegetação.

A casa em que o juiz está sendo mantido parece abandonada

e foi preciso montar um verdadeiro quebra-cabeça tecnológico com

o uso de drones para conseguirmos identificar a localização em

meio à região pantanosa, o que, para mim, significa que os

criminosos não são tão inexperientes assim. Primeiro porque focam

apenas em milionários e segundo, porque levam meses estudando

suas vítimas até conseguirem sequestrá-las.

O resgate deveria ser pago amanhã, o que significa que o juiz

tem poucas horas de vida se eles seguirem o roteiro dos crimes

anteriores: assim que colocam as mãos no dinheiro, o contato cessa

e nunca mais se ouve falar no sequestrado.

Eles não deixam pistas para trás — ou melhor dizendo, não

deixam pistas visíveis para a polícia —, mas nossa especialidade é

fazer o que os que atuam dentro da lei não são capazes,

ultrapassando a barreira da legalidade de acordo com nosso

interesse.

Do lado de fora da casa, há apenas um automóvel, um

furgão, mas não é isso o que me chama a atenção e sim, o que está

escrito nele: frigorífico.

Repulsa se espalha por mim quando eu entendo rapidamente

por que nenhuma das vítimas jamais foi encontrada.

— Blood — chamo e aponto para o carro.

Ele segue a direção do meu dedo e quando volta a me

encarar, sei que entendeu tudo.

— Foda-me! Eles trituram os idosos.

— E ainda acha que vou entregá-los para a polícia? Mudei de

ideia. Tiraremos o juiz daqui. Descubra quem é o líder lá dentro.

Vamos interrogá-lo.

Eu vejo um dos nossos homens aproximando-se da única

janela. A ação precisa ser muito rápida para garantir que o juiz não

seja alvejado em uma tentativa de queima de arquivo.

Os nossos comunicadores emitem um som suave, quase ao

mesmo tempo, e aquela é a deixa para que comece a ação.

Estamos fortemente armados e todos dispostos a matar e a

morrer, como em qualquer missão que assumimos.

Há apenas uma entrada na casa, o que facilitará nossa ação

também. Todo o imóvel está cercado e não importa quem esteja lá

dentro, eles não têm a menor chance.

Eu já ouvi, vezes sem conta, o barulho infernal de quando um

tiroteio tem início e em todas, ao contrário do que acontece com a

maioria das pessoas, o som me acalma.

Os gritos agonizantes de dor dos criminosos são como um

bálsamo para as feridas que carrego dentro de mim.

Vê-los implorar pela morte me arranca sorrisos. Os pedidos

por misericórdia são minha ideia de justiça.

Como previra, a entrada foi rápida porque eles não

esperavam o ataque. Apenas um dos nossos homens foi atingido,

mas estava protegido com o colete à prova de balas.

E em menos de cinco minutos, estávamos dentro com tudo

finalizado.

Um dos meus mais antigos soldados volta correndo pelo

corredor.

— Encontrei o juiz, mas ele está completamente fora do ar.

Provavelmente drogado. Eu vou tirá-lo daqui.

Aceno com a cabeça, concordando.

— Eram os únicos? — pergunto, apontando para os merdas

mortos pelo chão.

Como se tivesse sido combinado, Blood volta, arrastando um

homem em uniforme de xerife.

— Você tinha razão, Amos. Nem tão desorganizados assim.

Esse é o líder.

— O xerife local? — pergunto só para confirmar, as palavras

saindo como ácido da minha boca.

Blood responde.

— O que quer fazer com ele?

O filho da puta ri.

— Não sei quem são vocês, mas não vão se safar dessa.

Tenho contato com…

Ele não termina de falar. Blood lhe aplica um mata-leão,

desacordando-o.

— Eu odeio os arrogantes — diz, dando de ombros. — Mas

ele tem razão em uma parte: teremos que ser cuidadosos. É um

filho da puta, mas ainda assim, um xerife. O que quer que eu faça?

— Interrogue-o. Depois, dê a ele o mesmo destino dos

outros.

— E em seguida, incendiamos a casa, como sempre?

— Não. Eles não merecem ter o direito de serem enterrados.

Se o fogo não os consumir, pode sobrar algo. Use o caminhão

frigorífico. Faça-os desaparecerem nas máquinas. Somente então,

ateiem fogo.

Capítulo 3

Lilly

Paris

Dias atuais

— Ethan, você tem tempo para conversar comigo agora? O que

vou falar pode não ser muito rápido.

— Lilly, aconteceu alguma coisa?

— Não aconteceu nada, mas eu preciso te pedir algo. — Estou

muito ansiosa. Minha mãe não vai apoiar a decisão de jeito algum e

eu só tenho meu irmão com quem contar. — Eu quero voltar para os

Estados Unidos.

— Você quer dizer, voltar para casa? Já falou com Nora sobre

isso?

Pode ser besteira minha, mas me incomoda que ele não a

chame de mãe. Nossa família é pequena e fica ainda menor com o

distanciamento emocional dos dois.

Além do mais, acabei influenciada e passei a me referir a ela

assim, também. Na primeira vez que falei “Nora” quis engolir a

palavra de volta, mas quando a encarei, parecia aliviada. Acho que

agora que já sou adulta, ela acredita que a julgarão mais velha por

ter um filha na faculdade.

Nosso relacionamento é estranho. Apenas eu e Ethan

parecemos parentes. Ela fica voluntariamente de fora.

Nem parecemos uma família. Cada um vivendo a própria vida.

A última vez que estivemos os três reunidos, e mesmo assim

eles quase não se falaram, foi no Natal em Boston, há dois anos.

Com a lembrança daquela noite, me vem o rosto do amigo do

meu irmão também, mas eu rapidamente me obrigo a apagá-lo da

memória. Eu sou muitas coisas, mas masoquista não é uma delas.

Ficar sonhando acordada com um homem que com toda certeza

nem recorda que eu existo, é estupidez.

— Eu não quero ficar lá — falo, voltando ao presente. — Já

tenho vinte anos agora, o que me dá acesso ao fundo deixado por

papai. Vou comprar um apartamento e morar sozinha.

— Vai o quê? Lilly, acho que não ouvi direito.

— Sim, você ouviu perfeitamente. Tranquei meu curso aqui. Já

estou matriculada em uma faculdade em Massachusetts, mas tenho

quinze dias até que as aulas comecem. Quero que você me ajude a

alugar um apartamento temporariamente até que eu possa

encontrar um lugar que goste para comprar.

— De jeito nenhum! Você não vai ficar solta em uma cidade

como Boston. Eu entendo que não queira mais morar com Nora,

mas consiga uma amiga para lhe fazer companhia, então.

— Por favor, acalme-se. Sou adulta, apesar de não saber nada

da vida.

— Você é perfeita. Eu não quero que mude.

— Você não quer que eu cresça. Eu sinto muito pela má notícia,

mas já cresci. Quero dizer, ao menos fisicamente. Preciso de sua

ajuda. Por favor, não me faça ficar com ela. Até mesmo por quinze

dias parecerá uma tortura. Se me explicar como encontrar um bom

apart-hotel, eu me viro com o resto. Por favor, Biggie[4]

. Eu nem sei

por onde começar a procurar.

— Eu não quero que vá morar sozinha, Lilly. Você não tem

qualquer experiência de vida.

— Por culpa minha? Fui eu quem quis ser internada em um

colégio de freiras na Suíça aos doze anos?

Seu suspiro mais pareceu um rugido, mas me diz que talvez eu

esteja começando a ganhar terreno em meu plano.

— Você não está jogando limpo, abóbora. — Assim que ele me

chama pelo apelido que me deu em criança, percebo que ganhei a

luta. — Tudo bem, pode vir, mas esqueça essa história de aparthotel. Ficará comigo pelo tempo que for necessário até vermos com

calma um lugar para comprar.

— Ethan, eu não posso morar com você. Não foi para isso que

pedi sua ajuda. Ambos queremos privacidade e a julgar por suas

fotos em colunas de celebridade, eu vou morar a bem-dizer em um

hotel, com mulheres de todos os lugares do mundo desfilando por

lá. Isso pode até me causar um trauma. As modelos com quem você

namora tem de comprimento de perna o que eu não tenho no total

de altura.

— Eu não levo mulheres na minha casa.

— E leva aonde? — pergunto, em um misto entre embaraçada e

curiosa porque para mim não faz qualquer sentido morar sozinho e

não poder levar a namorada em casa.

— Não é da sua conta, enxerida.

— Mas vai ser, se eu tiver que ficar com você por um tempo.

— Não me faça mudar de ideia.

Engulo em seco, me dando um tapa virtual.

Não é como se eu tivesse um monte de opções a que recorrer.

Eu realmente não faço ideia do passo a passo para comprar um

lugar para morar.

Pensando bem, ficar com ele por um tempo vai ser proveitoso

porque eu vou aprender como administrar uma casa, o quanto fazer

de compras, coisas simples que qualquer garota normal da minha

idade, que não tivesse sido criada dentro de uma bolha, saberia.

— Tudo bem. Nada de falar de suas namoradas, embora, se

quer minha opinião, não faz sentido algum ir namorar em outro lugar

que não seja a sua casa.

— Eu não quero sua opinião. Agora me ouça. Vou deixar que

venha ficar comigo, mas será sob as minhas regras. Não é porque

já é adulta que não corre riscos de se machucar. O mundo aqui fora

não é como dentro dos muros do convento.

— Eu já não estou no colégio de freiras — corrijo-o —, há três

anos.

— E aprendeu alguma coisa da vida de lá para cá?

— Sabe que não. Eu saí de uma prisão para outra.

— E é exatamente por isso que ficarei preocupado. Eu concordo

que em algum momento, terá que tomar as rédeas de sua vida, mas

não tente crescer rápido demais. Não há necessidade.

— Eu vou tentar não atropelar o processo, mas gostaria que me

desse um voto de confiança, também. Eu preciso começar em

algum ponto ou nunca aprenderei a sobreviver sozinha.

— Tudo bem. Eu vou te ajudar nessa nova fase, mas não tem

nada que possa me dizer que me fará mudar de ideia quanto a ficar

um tempo comigo. Acostume-se a sair, fazer compras, cuidar de

suas contas. Aí, sim, vou ficar mais tranquilo para que possa alçar

seu voo solo.

— Acha que vai funcionar? Você mora com Amos. Ele não

pareceu simpatizar muito comigo quando nos encontramos no

Natal.

— Não é pessoal. Amos não é simpático com a humanidade

inteira. Isso não será um problema. Conversarei com ele. Quando

pretende vir?

— Eu… bem… na verdade já tenho a passagem comprada para

daqui a uns dias.

— Confiante, né? — Eu podia sentir um traço de humor em sua

voz. — Ah, caralho!

— Hey, não xingue. Isso é vulgar.

— Desculpe, mademoiselle. Não quis ferir sua educação francosuíça refinada, mas é que viajo daqui a no máximo setenta e duas

horas a trabalho e ficarei ao menos um mês fora.

— Oh…

— Calma. Vai dar tudo certo. Venha de qualquer modo. Amos

pode não ser a pessoa mais sociável do mundo, mas é como um

irmão para mim e será para você também, assim que conhecê-la

direito.

Duvido.

— Além do mais, poderá cuidar de você em minha ausência.

— Eu não preciso de babá.

— Escolha suas batalhas, Lilly.

— Tudo bem, mas por favor, não o obrigue a ficar em minha

cola. Já estou constrangida o suficiente por atrapalhá-los por um

mês. Não preciso do ódio do seu amigo de brinde.

— Ninguém conseguiria odiá-la. É a garotinha mais doce do

mundo.

— Eu não sou mais uma garotinha. Sou uma adulta, irmão. Já

passou da hora de entender isso.

— Não. Você sempre será minha abóbora. Mesmo quando

estiver velha e enrugada.

— Ainda tenho um longo caminho pela frente até chegar na fase

das rugas, obrigada — ironizo e ele ri. — Não tem graça. Quer que

eu pule de ser um bebê para ser uma velhinha. Pretendo aproveitar

ao menos uns sessenta anos entre um e outro.

— Aproveitar com juízo.

Aproveitar sem medida — juro a mim mesma em silêncio.

— Eu prometo que você não vai se arrepender por me deixar

ficar aí.

— Eu mentiria se dissesse que não vou ficar preocupado, Lilly,

mas não há chance de eu deixar você morar sozinha sem fazer um

test drive antes.

Eu não o relembro outra vez que preciso de ajuda e não de

autorização, porque sei que não faz por mal. Ethan é superprotetor.

Faz parte da personalidade dele.

Entretanto, não vou deixar de seguir com a minha vida porque

ele tem medo de que eu me machuque.

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