À mesa da cozinha, Amanda tomava o café aos golinhos observando Jacques fazer o mesmo. Ambos tinham de trabalhar e encarar a vida que haviam deixado fora do apartamento dela.
Ele piscou o olho para ela enquanto entornava a caneca, parecia sossegado e bem disposto. Talvez tivessem dormido por duas ou três horas.
Amanda sentia-se exausta e descansada, esgotamento sexual, por certo, sorriu consigo mesma. E admirando o homem à sua frente, de cabelos molhados, dividindo a mesa consigo e paquerando-a descaradamente, ela pensava em coisas como “masculinidade”, “beleza” e “fogo”. Imaginava também que naquele instante o chefe estivesse se encaminhando ao escritório. Porém, quando ressoou Killer Queen no celular, percebeu que seus pensamentos eróticos dissiparam-se por completo.
Jacques fitou-a interrogativamente sem esconder o interesse, e Amanda acabou sentindo-se obrigada a dizer que era o toque que escolhera para as chamadas do seu chefe. Ele riu com vontade.
— Bonjour, monsieur Brienne. — disse, de olho no relógio da cozinha. Eram 7 horas, o expediente na empresa começava às 9 h, e o dela, como assistente pessoal do presidente: a qualquer momento.
— Está atrasada, mademoiselle. — constatou num timbre de voz baixo e incisivo.
Amanda buscou na mente motivos para tal observação, levantou-se lentamente e, antes de sair da cozinha, percebeu a expressão ainda divertida nos olhos do amante.
— Desculpe, monsieur... mas... — foi então que a ficha caiu!, merda! Havia esquecido que deveria passar primeiro casa dele antes de ir à empresa.
Era de praxe que às segundas-feiras ambos encontravam-se para organizar a agenda da semana. Ocupavam o escritório, no segundo andar, ao lado do quarto da madame Brienne cujas portas sempre estavam fechadas. Amanda então se sentava diante da mesa de Jules, abria o Excel do seu notebook e listavam todos os compromissos e eventos pessoais e profissionais do chefe. Os compromissos profissionais eram repassados às secretárias da presidência e ficava a cargo delas contatarem os envolvidos. Quanto à parte pessoal, cabia a Amanda resolver. Desde buscar o terno na lavanderia até a compra de novos aparelhos celulares para ele ou para a governanta, Annie, ou a organização de um jantar beneficente. Tarefas múltiplas e variadas. Quase como um casamento, sem sexo.
—Alô?
— Não sabia que monsieur já estava me esperando...
Mentira, ela sabia que Jules Brienne acordava às seis horas da manhã. E mais, caminhava na esteira por trinta minutos; tomava uma ducha quente às 06h30min; tinha o café preto sem açúcar servido às 06h35min; lia, pelo menos, três jornais durante o desjejum; vestia a roupa, escolhida por Amanda, depositada num pequeno sofá no closet quilométrico (aliás, a escolha das roupas a serem usadas por ele, ao longo da semana, era determinada nas reuniões de segunda-feira; roupas essas para todo e qualquer evento público) e dirigia seu Citroën até a empresa. Quando viajavam a rotina era outra; mas ainda assim, uma rotina a ser seguida.
— D’accord, venha agora.
E desligou.
À porta, um semideus do Olimpo varria-lhe com o olhar. Ele desencostou-se preguiçosamente do batente e, caminhando devagar, cobriu o espaço entre ambos. Usando o próprio corpo, empurrou-a contra a parede sem deixar de desafiá-la em silêncio. Parecia um felino encurralando a presa. Porém, a presa precisava imediatamente fugir, porque outro felino esperava por ela. Tentou desvencilhar-se dos braços de Jacques sem demonstrar grosseria. Na primeira tentativa, ele apenas sorriu e alçou a sobrancelha num tom de surpresa. E era como se lhe dissesse: “O que?, acha que pode comigo?” Mas ela não estava brincando ou medindo forças, queria realmente encerrar o maravilhoso final de semana com um longo beijo e troca de telefones.
Jacques, no entanto, tinha outras ideias. Prendeu-a contra a parede com o próprio corpo, soltou o nó do cinto ao redor do robe de seda e, num movimento ágil, pôs uma mão debaixo de sua coxa e ergueu-a o suficiente para que seu pênis a penetrasse. Enquanto ele a penetrava, Amanda tentava desvencilhar-se do abraço apertado que os mantinham grudados. Sentia o corpo quente, fraco e trêmulo. A selvageria de Jacques excitava-a. Mas a sua cabeça já não estava mais no ato, e a obrigação profissional clamava urgência. Estranhamente queria soltar-se do homem que havia pouco se entregara de forma apaixonada. Novamente não obteve sucesso.
Ouvir a voz do chefe serviu como um banho frio. Voltava agora a ser disciplinada, pragmática e responsável. Essa era ela, e não a mulher inconsequente que convida para sua casa um estranho que conhece na rua.
— Preciso trabalhar, Jacques. — murmurou, procurando escapar do abraço firme e desvencilhando-se do corpo dela.
— É o que realmente quer fazer? — afastou-se para fitá-la e completou: — Não devo me intrometer na sua vida, Amanda, mas esse seu chefe já ultrapassou o limite do bom senso. — afirmou, ajeitando o pau duro e inchado dentro da cueca. Fez um careta quando soltou o cós da cueca em torno da cintura, o membro comprimido projetando-se no tecido.
Amanda não gostou de ouvi-lo falar mal do chefe. De fato, concordava com Jacques. O problema era que ele não conhecia Jules Brienne o suficiente para fazer tal observação. Soltou-se dele com um gesto brusco, procurou disfarçar a irritação com um sorriso forçado:
— Nossa dinâmica de trabalho é bastante peculiar. Bom, tenho que trocar de roupa e sair. Quer me deixar seu telefone?
Ele sorriu com charme e a beijou.
— Me dê o seu, chèri. — esperou que ela o ditasse, mecanicamente, e rabiscou uns números no bloco de notas que Amanda deixava ao lado do telefone. Dessa vez, o número correto. — Se quiser, podemos jantar logo mais. Que tal? Espero que não seja aquele tipo de mulher cheia de regras e que se faz de difícil... — piscou o olho e brincou: — Sou muito preguiçoso.
— Oh, sim, fui muito difícil mesmo. — debochou.
No fundo, não estava satisfeita com o seu comportamento. Jogara-se para cima de Jacques. Que dificuldade ele tivera para conquistá-la? Por outro lado, quando fora realmente difícil conseguir sexo? E para quê tantas regras de conduta e comportamento se o objetivo final era apenas este: sexo. Desencana, Amanda, alertou-se prontamente.
— Ah, puritanismo démodé... — ele riu de forma afetada. — Bien então a gente logo se fala... se o seu patrão permitir, claro. — concluiu, dando-lhe as costas e indo para o quarto vestir-se.
***
Parou o automóvel em frente ao portão de ferro e esperou que um dos seguranças o acionasse pelo controle. Cumprimentou o rapaz ruivo, vestido num terno escuro e entrou na estrada de pedras, ladeada por um pequeno bosque, até a entrada da mansão.
Estacionou, desligou o motor e pegou a pasta. Ao descer do automóvel, deu uma boa olhada ao redor e disse a si mesma que jamais se cansaria daquele panorama. Não era a imponência ou a riqueza daquela construção; era mais a beleza de uma arquitetura antiga e tão bem preservada, como quase tudo na França.
Desde que chegara a Paris, deslumbrara-se com a história entalhada nas paredes dos lugares, como se num dado momento fosse possível apoderar-se de uma máquina do tempo e visitar outros séculos, tanto para o passado quanto para o futuro. E a prova era a mansão do século XIX à sua frente, que tinha como proprietário um homem da Era Cibernética. Mas o mais belo naquele lugar era a natureza, o bosque, as flores no jardim e o espaço organizado ao redor do chafariz antigo com cadeiras e estátuas. Havia cinco anos, pelo menos, que a decoração devia ser assim. Amanda presumira ao chegar que madame Brienne fora a responsável pela decoração.
Suspirou profundamente e olhou para o céu azul. Frio e céu azul, novembro em Paris prometia castigar a pobre latina. Ajeitou-se no casaco, espichou o tecido da saia justa até os joelhos e observou se havia algum fio corrido da meia-calça 7/8, de seda. Usava sapatos cujos saltos, invariavelmente, tinham 10 cm. Precisava dessa altura já que seguia por toda a parte um homem com quase um metro e noventa.
Olhou-se no reflexo do vidro do carro e viu que seus lábios estavam inchados, as pálpebras semicerradas com languidez e os olhos brilhavam como se tivesse com febre. Tinha a expressão de uma fêmea bem servida. Sorriu consigo mesma e pensou: Ah, como é bom ser mulher!
Seu ânimo mudou radicalmente, quando a governanta abriu a porta. Era incrível, mas Amanda sentiu uma borrifada de ar frio na face e um espasmo entre as vértebras. Toda a beleza externa desaparecia dentro daquele sepulcro de móveis escuros e pesados, nos tapetes persas, no tecido do papel de parede e nas próprias paredes. O ambiente era sofisticado e impessoal. Amanda não lembrava, ao longo desses cinco anos trabalhando para Jules Brienne, as vezes que entrara ali. Porém, sempre sentia a mesma sensação: frieza. O lugar parecia-se mais com um cenário de filme no qual os móveis e os ornamentos eram montados e desmontados todos os dias. Estava longe de se parecer com um lar. E a atmosfera, úmida e sombria. Talvez até doente. Era como se Rochelle Brienne estivesse em cada peça, em cada cômodo como um fantasma que se esquecera de morrer, um fantasma vivo preso a tubos.
Annie conhecera Rochelle antes do acidente. Fora trabalhar com os Brienne assim que se casaram, havia sete anos. A governanta era uma mulher que um dia fora bonita e o tempo ou a vida se incumbira de marcar-lhe a face. Solteira, na faixa dos cinquenta, cabelo grisalho e longo, sempre preso num coque. Comandava a dezena de empregados distribuídos em várias tarefas na mansão. Era uma mulher simpática, doce e metida à mãe de todos. Usava sempre um vestido azul marinho, justo, até os joelhos e sapatos de saltos baixos, porque — segundo ela — “não lhe atacavam a coluna.” Os demais empregados usavam uniformes beges.
— Como vai tudo por aqui, Annie?
Chamá-la diretamente pelo primeiro nome fora um avanço. Os franceses não eram tão comedidos e, como não dizer, retraídos como os ingleses, mas também prezavam a distância segura entre subalternos.
— Esse frio endurece as minhas juntas. — reclamou ao lado de Amanda, enquanto subiam os degraus da escadaria acarpetada que levava até o segundo andar, onde ficavam os quartos, o escritório e o terraço.
Ao passar pela porta fechada do quarto onde ficava o leito hospitalar com madame Brienne em coma, Amanda sentiu um aperto no estômago. Num impulso, virou-se e perguntou a Annie:
— Há alguma chance de madame Brienne sair do coma?
Annie parou no corredor e, com um gesto discreto, olhou ao redor antes de responder-lhe num tom baixo:
— Cinco anos em coma profundo, os médicos não são muito otimistas. Se ela voltar, jamais será como antes.
— Annie, por que monsieur Brienne nunca entrou nesse quarto?
Custava-lhe compreender um marido que mantinha tamanha distância da mulher doente. Ele havia gasto uma fortuna em equipamentos modernos e numa eficiente e caríssima equipe médica e de enfermagem. No entanto, não se aproximava. O simples gesto de girar a maçaneta da porta e entrar, não era feito. Que tipo de marido agia assim?
— O que mantém aquele corpo vivo é o coração, não o cérebro. E monsieur Brienne é um homem racional que tem plena consciência de que está fazendo o melhor que pode. Independentemente de sentimentalismos inúteis, pode-se dizer que ele é o melhor marido do mundo.
Um marido sensível que evitava ver a decadência da esposa ou um marido frio que cumpria com suas obrigações morais? Será que monsieur Brienne pensava em ter seus próprios filhos um dia? Mas, como, se era casado com alguém que já não pertencia mais ao mundo, conscientemente?
Consultou o relógio de pulso e pelo horário concluiu que o encontraria no escritório. Annie indicou-lhe o terraço e declarou:
— Hoje o expediente começou bem mais cedo, ele mal tocou nos croissants. Isso é raro, vindo de alguém que gosta de comer.
Maus pressentimentos.
— É a síndrome de segunda-feira, dia em que os workaholics se sentem compelidos a compensar o pecado de existir o domingo. — brincou.
Annie pôs as mãos na cintura roliça, franziu as sobrancelhas e disse com aquele jeitão de mama italiana que nasceu na França:
— Fiquei aqui este fim de semana, e monsieur Brienne saiu do escritório apenas para almoçar na cozinha comigo. E ainda assim barbeou-se e vestiu uma camisa social para não se sentir tão deslocado num domingo em casa.
Era impossível não rir.
Annie deu-lhe um tapinha amistoso no ombro e voltou ao seus afazeres, deixando-a em frente às portas duplas, de vidro, fechadas do terraço.
Abriu-as e atravessou o espaço tomado por inúmeras plantas em vasos de cerâmica, alcançando a mesa redonda para quatro lugares onde estava o chefe. Concentrado diante da tela do notebook, Jules Brienne, em princípio, não lhe percebeu a presença. O cabelo preto, úmido do banho, estava impecavelmente cortado, com a nuca exposta e as mechas lisas e curtas dando-lhe um aspecto do que realmente era, um executivo. A pele nívea pouca vezes recebia o sol e, na altura dos maxilares, a eterna marca azulada de quem teimava com a própria barba. Tinha um nariz reto que encimava lábios duros, o inferior ligeiramente mais carnudo que o superior; abaixo, o queixo másculo. Seu chefe era belo? Sim, sem dúvida. Seu chefe era sexy? Amanda procurou varrer tal ideia da mente, mas quando ele desviou os olhos sérios e compenetrados do que lia e endereçou-os a ela, numa espécie de interrogação sutil, teve certeza de que aquele olhar arrancava alguns vestidos do corpo.
Por um momento ficaram se olhando, como se alguma coisa estivesse fora do lugar. Ela até pensou se a sua maquiagem estava borrada ou inadequada para o horário e isso foi o suficiente para abalar sua autoconfiança. O estranho era que o chefe parecia esquadrinhar-lhe o rosto como se a investigasse ou procurasse algo. Saberia que ela havia transado feito uma doida no final de semana? O sangue subiu-lhe à face.
— Faça reservas em um restaurante discreto, no centro, para hoje à noite. Mesa de canto e longe de tumultos. — começou a distribuir tarefas: — Busque o meu terno na lavanderia. Preciso de colônia e outro par de sapatos, o tamanho é...
— 42, monsieur. Cítrica ou amadeirada?
Deu de ombros, voltando-se novamente para o computador.
— A de sempre.
Anotação: Blend amadeirado. Ainda escrevendo, perguntou com naturalidade, apesar de detestar improvisos e imprevistos:
— Esse jantar é novidade, digo, tão em cima da hora. Eu não o tenho agendado... — folheou as páginas da agenda.
— Não é um jantar profissional. Vamos nos encontrar com o homem que me ajudou no início da SBO...
— François Roche. – interrompeu-o, sorrindo.
Jules levantou a cabeça e disse com uma dose de ironia, que ela não pôde deixar de observar:
— Pelo visto, fez o dever de casa, mademoiselle Rossi.
Ele não era um homem irônico. Tudo o que tinha de falar, dizia claramente, sem meias-verdades, sem diplomacia ou eufemismo. A ironia surgia quando estava de mau humor.
— Mesa para três? – Sempre se sentia compelida a fazer tal pergunta, caso ele decidisse levar uma amiga.
No entanto, era ela quem tinha de acompanhá-lo, mesmo num evento pessoal. Era uma espécie de acordo tácito entre ambos, a assistente não perguntava o porquê e o patrão não explicava a necessidade de sua presença. Na verdade, uma dinâmica bastante peculiar, como Amanda havia dito a Jacques.
— Non, ele levará a esposa. — respondeu com naturalidade e disposto a encerrar o assunto jantar. Antes de voltar-se para o computador, fez um gesto com a mão indicando-lhe a cadeira à sua frente.
Amanda abriu os primeiros botões do casaco, sentou-se e pôs a agenda sobre a mesa. Percebeu que o chefe bebia apenas café preto e, se dependesse dele, ficaria por isso mesmo. Pegou uma torrada integral, depositou uma camada generosa de geleia de cereja e serviu no pratinho ao lado de sua xícara.
—Essa será sua única refeição até as 14 horas. Coma pelo menos uma torrada. — sugeriu.
Já estava acostumada a pensar pelos dois e nem precisava mais de permissão para determinadas coisas, como servir-se de café à mesa do patrão ou abrir as gavetas e o guarda-roupa dele a fim de fazer um levantamento das roupas para caridade e as que deveriam ser substituídas. E, mais do que isso, tinha total liberdade para comprar um guarda-roupa inteirinho para ele e para si mesma, caso quisesse. Ela, andando ao lado do presidente da empresa, era o cartão de apresentação da SBO e tinha todas as suas despesas com lojas e cosméticos pagas pelo seu empregador. E não podia ser de outro jeito, dado o padrão altíssimo de Jules Brienne.
Ele mordeu a torrada sem deixar de se comunicar com a subsidiária de Roma, no Skype. Deu cabo dela rapidamente, parecia faminto, mas paralisado diante do computador. Será que se alimentava de trabalho?
Serviu-se de café e observou as anotações na sua agenda, precisava de algumas decisões:
— Devo confirmar sua presença no jantar de mademoiselle Geneviève?
Um grupo de senhoras da sociedade o convidara a participar de um centro social para vítimas de violência doméstica. Jules enviara um cheque pessoal bastante polpudo. Agora, as socialites queriam-no como presidente de honra, e ele tentava escapar a todo o custo. O jantar beneficente seria na sexta-feira, e o valor de cada mesa era simplesmente astronômico. No entanto, tal dia entrava em conflito com uma reunião no La Coupole com um grupo de americanos.
— Mande outro cheque para mademoiselle Geneviève, valerá bem mais que a minha presença. – afirmou taxativo.
— Aliás, hoje, às duas horas, monsieur almoçará com... — ela leu com certa dificuldade o nome finlandês que fora anotado, — monsieur Jarkko Koskinen. Fiz reserva no Les Ombres. Caso queira trocar-se, levarei outra camisa para seu escritório.
— D’accord. Se tiver tempo, compre aspirina. — mandou sem tirar os olhos do computador.
— E faça uma tomografia. — completou ela, com naturalidade, sem desviar os olhos do que escrevia na agenda.
Ele fechou o notebook, guardou-o dentro da pasta executiva e se voltou para ela, curioso:
— Como...?
Até onde você pode ir com esse atrevimento?, censurou-se.
— Em vez de tomar aspirina, por que não vai ao médico?
Jules Brienne não estava acostumado a ser questionado. Era visível que a indagação o incomodara, mas sendo um homem educado, preferiu contornar a situação a fim de evitar constrangimentos.
— Aspirina e café resolvem o problema. — disse categórico; em seguida, emendou de forma mais suave: — Agradeço a atenção, mademoiselle. Agora, vá ter com Annie, s'il vous plaît. Encontramo-nos no escritório.
Menos de dez passos, ele atravessou o terraço e saiu.
Viu a xícara de Jules vazia. Lembrou-se do que ouvira no Brasil, que se bebesse no copo ou na xícara de alguém saberia os seus segredos. Riu-se dos próprios pensamentos. Santa bobagem!, diria Robin, pensou Amanda dando de ombros jocosamente
Evitou olhar para a porta fechada do quarto de Rochelle Brienne. Podia-se ouvir o barulho dos aparelhos que a mantinham viva. Não devia ser fácil conviver com esses sons todos os dias. E ainda estranhavam o fato do executivo não sorrir.
Encontrou a governanta dando ordens às camareiras e recebeu de suas mãos uma lista de compras. Sim, Amanda teve de ir ao mercado fazer compras.
Dorian possuía estatura mediana, muito magra, fumante e usava o uniforme da SBO, criado por um estilista argelino de 20 anos. Um tailleur cinza-chumbo, que favorecia a silhueta das magras e também das que não o eram. Os homens, terno e gravata. Somente o alto escalão corporativo estava livre para desfilar seus ternos escuros, sobretudo cinza ou preto e, constantes e variados, cachecóis. As executivas, saias justas até os joelhos, calças de costura reta e casaquinhos. Parecia que feminilidade rimava com fragilidade e grande parte delas escondia as curvas. Amanda exibia-as sem descuidar da elegância e discrição.
Pisou no acelerador e adentrou no subsolo, onde se localizava o estacionamento da empresa.
Quando entrou no elevador panorâmico e apertou o botão da cobertura — o andar com a sala da presidência e o auditório para as conferências — viu-se refletida no espelho.
Quase gritou. Como não havia percebido o chupão quase arroxeado no pescoço? Levou a mão à mancha e esfregou-a como se fosse uma sujeira qualquer. Doce ilusão. Só fez irritar a pele deixando-a vermelha ao redor do hematoma. Estava tão encantada com a aventura erótica com Jacques Rodin, que diante do espelho de casa só vira o que lhe interessara. Annie vira o chupão. Que vergonha! Fechou os olhos para apagar a imagem na mente. Quem mais? Quem mais? Quase gritou histérica. Jacques (que ficara quietinho e não lhe avisara), o porteiro do seu prédio (que era meio míope e, mesmo que não fosse discreto como era, nada comentaria, nem sequer uma piadinha), os seguranças da mansão de seu chefe... e... O seu chefe? Oh, céus, por isso aquele olhar estranho, longo e investigativo quando ela entrou no terraço! Amanda tinha um outdoor no pescoço gritando: fui chupada, vejam!
A latina que caminhava sobre saltos altos exalando cheiro de primavera e remexia o quadril ligeiramente como se o mesmo tivesse sido deslocado ao nascer, mesmo discreta, daria material para as fofoqueiras da rádio-corredor.
Quando as portas do elevador abriram, Amanda vislumbrou o topo da cabeça de Dorian por detrás do balcão alto, de cedro.
Bateu com a chave do carro sobre a madeira, e a secretária deu um pulo e arregalou os olhos:
— Nossa, Amanda, se você fosse uma cobra me picava...
— E se eu fosse o nosso VP? — questionou com a sobrancelha erguida.
O vice-presidente da SBO chamava-se Victor Marcell Touleause, tinha 44 anos, graduado na Sorbonne, casado com uma estilista de moda, três filhos e uma vocação incrível para sermões moralistas. Ele exigia a perfeição de todos. Ou seja, devia ter algum problema psicológico.
— Nem me fale!, com a sorte que tenho seria ele mesmo.
— Calma, Dorian, monsieur Touleause está em Roma e há pouco conversava com o monsieur Brienne. Agora, olha bem pra mim...
A secretária parou de digitar e fitou a colega de trabalho. Num minuto, surgiu-lhe na face um olhar malicioso acompanhado por um sorrisinho safado:
— Qual o nome dele? Calogero?
Amanda sentiu as bochechas pegarem fogo. Ignorou a brincadeira da outra, deu a volta no balcão e pegou-a pelos ombros:
— Preciso de base, pó compacto, quero dizer, pancake! Balde de tinta também serve!
A secretária revirou o bolsão de couro que deveria conter inclusive sua mobília. Depois de muito “escavar”, estendeu à Amanda a base líquida, com protetor solar, para peles de loiras quase transparentes. O que não era o caso da tez dourada de Amanda.
Agradeceu e enfiou-se no banheiro de sua sala que, mesmo anexada à de Jules Brienne, possuía banheiro próprio e outra entrada, lateral, que, caso a porta de comunicação entre os dois escritórios estivesse fechada (e isso raramente acontecia), ela não seria vista entrando.
E nem teria visto a personagem alta, sofisticada, com um longo pescoço e imensos olhos verdes, sentada em frente à mesa do chefe. Entretanto, mesmo quase trocando as pernas e segurando o pancake como uma menina inocente segura o “sagrado” anel de noivado, com sua visão periférica, percebeu o ataque felino àquele que, como sua assistente pessoal, deveria zelar, proteger e preservar.
Depositou uma farta camada de maquiagem sobre o hematoma e, sem cronometrar, concluiu que levara vinte segundos para a operação. Ajeitou o cabelo e estufou os peitos. Já não era a primeira vez que enfrentava uma mulher com segundas intenções burlar-lhe a segurança. A talzinha não aceitava uma negativa em relação ao cargo oferecido a Jules, não aceitava apenas o polpudo cheque, ah, não... Vinha pessoalmente revirar-lhe os bolsos? Ou, melhor, tirar-lhe as calças?
Entrou na ampla sala, de móveis modernos, com poltronas em vez de cadeiras, em frente à mesa de vidro e aço e observou algumas irregularidades. Primeiro, as cortinas ainda estavam cerradas, a máquina do expresso desligada (detalhe: logo que começava o expediente, Jules Brienne nem precisava pedir para que ela preparasse o seu expresso. Ele, sozinho, nem ligava a máquina) e as canecas de cerâmicas com restos de café do dia anterior esquecidas sobre a estante que ladeava uma imensa planta verde, para variar.
Antes de qualquer intervenção na cena, Amanda observou os personagens em questão. A linguagem corporal falava tudo e era a comunicação mais verdadeira que existia. Monsieur Brienne, sentado e com as costas relaxadas contra o encosto da poltrona, exibia a atitude de quem ouve um palestrante. Havia em seu rosto uma expressão de alheamento lutando bravamente com a concentração, mais como um gesto de educação e polidez do que fingimento. A face estava relaxada, sem os sulcos entre os olhos quando eles revelavam tensão e reflexão, era mais como se os seus pensamentos estivessem brincando no playground mas, a qualquer momento, seriam chamados ao trabalho duro. Fosse pelo o que a loira tivesse falado anteriormente, ele parecia esperar pela parte “séria” da conversa e talvez isso realmente significasse a visita dela logo pela manhã. Os lábios contraídos, o queixo duro e os olhos sérios e sagazes investiam diretamente no rosto de Geneviève, sem desviar, sem descer para as pernas ou para o notebook aberto à sua frente.
Amanda podia morar num apartamento de quarto-e-sala, do tamanho de uma ervilha, dirigir um automóvel popular russo, ralar num emprego sem direito à liberdade condicional, vir de família simples, ter nascido no terceiro mundo, etc., mas ela sabia o que tinha de fazer e como fazer. E fez:
—Bonjour, mademoiselle Geneviève — disse com um sorriso profissional, sem mostrar muito os dentes e sem ser arrogante (por um triz!).
A outra quase pulou da cadeira ao ouvi-la, estava tão concentrada na Arte de Conquistar que se dissociou do resto do mundo. Ajeitou-se na poltrona, descruzou as pernas e adquiriu uma postura mais fechada, ou seja, retraiu-se na expressão de impessoalidade. Entretanto, ela não sabia que a assistente do presidente já lhe pegara em flagrante.
O chefe, por outro lado, parecia aliviado com a sua entrada. Olhou-a de cima a baixo e, num gesto silencioso mas bastante significativo, desviou o olhar para a máquina do expresso. Amanda assentiu e ligou-a. Ouviu o cumprimento baixo de Geneviève, abriu as cortinas e retirou as xícaras usadas. Ao voltar, parou entre ambos e indagou à fulana se gostaria de um café.
—Merci. – emendou com um sorriso educado.
Boa forma de espichar uma visitinha supostamente profissional.
Deixou-os por um momento, pois precisava buscar novas xícaras no refeitório, no quinto andar. Passou por Dorian e endereçou-lhe um sorriso amarelo.
A moça aproveitou para chamá-la até o balcão:
— Dizem que essa aí será a futura madame Brienne. — depois brincou: — Seja boazinha com ela, oui!
— Duvido, ele não gosta de mulher fútil.
— Não se engane pelas aparências, Amanda. Mademoiselle Geneviève criou esse centro social a pedido de monsieur Brienne. Parece que a mãe dele apanhava do marido, que, na verdade, era-lhe o padrasto. Ele cresceu vendo a mãe levar uns tabefes, coitado, e ainda por cima era filho único.
— E depois dos 17, completamente órfão. — completou Amanda que sabia, aos pedaços, algumas coisas sobre Jules Brienne. Lembrava que sua mãe morrera num acidente aéreo, e quem o acolhera em sua casa e lhe pagara a faculdade fora François Roche e sua mãe, amiga de Vivien Brienne, mãe de Jules. Vinte anos de diferença entre François e Jules, e fora o primeiro que dera todo o suporte para que o segundo se iniciasse no ramo de computadores. Amanda sabia também que François era casado havia uma década e meia com uma professora universitária.
— A moça já conseguiu estabelecer um vínculo com monsieur Brienne e quer estreitá-lo ainda mais.
— Quanto tempo tem esse centro social?, dois ou três meses, não é? Está me parecendo um vínculo bastante recente. — comentou com desdém.
— É, pode ser, mas alguém tem que dar o primeiro passo. A bem da verdade, Amanda, monsieur Brienne não tem ninguém há cinco anos. Ele é homem, um macho alfa, precisa de uma fêmea, non? – indagou sorrindo, divertida.
Amanda não estava gostando do rumo da conversa, deu de ombros e disse já se afastando do balcão em direção a um dos elevadores:
— No momento, ele precisa mesmo é de cafeína, Dorian. – encerrando o assunto.
Quando voltou, preparou os dois cafés e depositou a xícara na mesa do “macho alfa”; em seguida, entregou a outra à Geneviève, que mexeu os lábios simulando um sorriso polido. Com aquela aparência e pose podia bem ser a nova “madame Brienne”. Além do mais, o chefe, agora, parecia mais interessado na conversa (ou em Geneviève) e, provavelmente, devido ao café forte e quente, uma aura de suavidade atenuava-lhe a feição circunspecta. Talvez quando Amanda descera ao quinto andar, a conversa tenha se encaminhado para algo mais íntimo. O fato era que ela sorria mais e ele, mesmo sem sorrir, apresentava visível prazer em sua companhia.
Amanda voltou à sua sala, pegou alguns papéis que precisavam da assinatura do executivo e não se surpreendeu ao ouvir de lá:
— Não acredito! Abrirá uma filial em Helsinque? Faz uma semana que voltei da Lapônia, esquiei até quase acabar com meus joelhos. – era Geneviève.
— A Finlândia sempre me interessou, mas somente agora surgiu a oportunidade de ter uma subsidiária num país escandinavo. Há um rapaz de lá, Jarkko Koskinen, que fará a ponte entre Paris e Helsinque. – disse, bebendo o restinho do café.
— Você precisa passar, pelo menos, um final de semana na Finlândia, mas a passeio. Podemos combinar e irmos juntos, seria bom relaxarmos um pouco. Aliás, Sonia e François também poderiam ir.
A mocinha quase bateu palmas, parecia que tinha treze anos de idade. Jules sorriu polidamente, pois sua atenção desviava-se de Geneviève para Amanda, já que a última acabava de voltar à sala segurando duas folhas timbradas com o monograma da SBO.
— E a aspirina, mademoiselle Rossi?
Amanda girou nos calcanhares e fitou-o como quem diz: o que eu tenho a ver com isso? Mas como ele a olhava duramente, sentiu-se na obrigação de informar que não havia comprado os comprimidos. Geneviève, por sua vez, mexeu-se na poltrona ensaiando uma retirada.
— E por que, non? – insistiu, desconfiado.
— Já disse: faça a tomografia e eu compro aspirinas. Meu tio tinha dores de cabeça quase todos os dias e acabou sofrendo um derrame cerebral aos 45 anos.
Jules Brienne estreitou os olhos e moveu o lábio inferior ligeiramente para baixo numa expressão de menosprezo, os sulcos entre as sobrancelhas acentuaram-se. O corpo não mexeu um músculo, tenso, preparado para ordenar, ignorava a visita e o fio de sol riscando-lhe parte do maxilar.
Amanda lia tudo isso, porque o conhecia e sabia até onde podia ir. Mas tal conhecimento a respeito da sua personalidade não a impedia de fazer o que considerava correto.
— Mademoiselle Rossi, compre as aspirinas agora. – disse com estudada calma.
— Não quero ser responsável pelo seu derrame cerebral, monsieur Brienne. Caso pretenda ser irresponsável para com sua própria saúde, que o faça por si mesmo, sem cúmplices. – rebateu com calma, como se falasse com uma criança teimosa.
Geneviève agitou-se, cruzou e descruzou a pernas, empertigou-se na poltrona visivelmente desconfortável. Do outro lado da mesa, uma fera silenciosa e engravatada erguia-se sem tirar os olhos da assistente.
Ops!, havia ultrapassado a fronteira, Amanda concluíra ao perceber que Jules Brienne digeria com dificuldade a insubordinação.
— Desde quando é a guardiã da minha saúde? – a voz era baixa, controlada.
— Há cinco anos ouço a mesma bobagem, “cadê a aspirina”?, e há cinco anos sugiro a monsieur que faça uma tomografia. Por acaso é uma queda de braço? – ela não só jogou as palavras na cara dele, como também empinou o nariz e deu dois passos para frente, em sua direção.
— Cinco anos com dores de cabeça, é perigoso, Jules. – afirmou Geneviève com a voz sumida, tentando amainar o felino preparado para pular no pescoço da assistente.
Ele era um executivo, e não um menino birrento. Trabalhara duro para erguer um império que alcançava oito países europeus. Era experiente, culto, pragmático e tinha quase quarenta. Amanda provocava-o deliberadamente, porque às vezes precisava polir o SEU orgulho, o SEU ego e mostrar-lhe os motivos pelos quais ela ainda trabalhava ali: jamais abaixara a cabeça para quem quer que fosse. Além disso, era uma mulher de princípios. E Jules Brienne tinha de fazer uma tomografia cerebral antes de merecer um frasco de aspirinas, ora!
De repente, ele desceu os olhos dos seus e contemplou descaradamente o hematoma mascarado com o pancake. Um brilho de sarcasmo serpenteou os olhos escuros e tão cheios de severidade, havia neles, também, um misto de exasperação. Parecia que ele mesmo estava no seu limite e nada tinha a ver com aspirinas e tomografias. Por quê?, ela perguntava-se sem deixar de enfrentá-lo. Num minuto, admirou a própria derrocada. Ele apertou o interfone e ordenou:
— Compre dez vidros de aspirinas, mademoiselle Cuvier.
Por um segundo ou dois, Dorian não compreendeu a ordem. Entretanto, quando deu por si já sabia que o chefe havia discutido com a subordinada.
Geneviève aproveitou a deixa e, uma vez que Jules estava de pé, fez o mesmo e estendeu-lhe a mão.
— Jules, foi um prazer. Espero a sua visita no nosso centro social, viu?
Ele apertou a mão dela e com um gesto de cabeça assentiu. Resmungou algo e indicou a porta de saída.
Amanda acompanhou-a controlando uma crise de risos. Jules comportara-se como um menino desafiando a autoridade e, em seguida fora mal-educado com Geneviève. Aguentara mais de quarenta minutos de conversa sendo polido para, depois, quase jogar a mulher para fora de seu escritório.
Ao voltar-se, encontrou-o ainda de pé, a cara amarrada de sempre, os lábios constritos.
— Foi o bom senso que deixou essa marca no seu pescoço?
Um buraco, por favor!
— Fui ferida gravemente, monsieur. – mentiu, fingindo-se ofendida.
— Você representa a presidência e não é nem um pouco sensato de sua parte trabalhar com um hematoma sexual na face. – afirmou com um leve tom de desprezo.
Hematoma sexual?
— Pardon, mas isso é um ferimento causado por...por... — gaguejou e esqueceu todas as palavras do vocabulário francês. A única expressão que lhe vinha à mente era “je suis désolé”. Hã? Por fim, suspirando exasperada, disse: — Se quiser emborcar os dez vidros de aspirina, posso ajudá-lo com prazer.
Dito isso, girou nos calcanhares e encaminhou-se para a sua sala. Sentia todos os músculos das suas costas latejarem e era como se os olhos de Jules Brienne os apertassem um a um. Fogo na nuca, ácido no estômago, garganta seca. Não era uma mulher covarde e tampouco uma Joana D’Arc. Defendia a si mesma e os seus valores, apenas isso. Havia cinco anos que eles discutiam e faziam as pazes sem precisarem pedir desculpas... Epa!, sem que ELE pedisse desculpas.
Assim, ela voltou à sala do chefe para lhe falar e o encontrou tirando o paletó:
— Retiro o meu pedido de desculpas, monsieur Brienne.
— Pedido aceito, mademoiselle Rossi.
Ora, bolas! Alguém ali falava grego?
Ele ficou um tempo com o paletó na mão, perdido, olhando para os lados. Amanda não resistiu, deixou a irritação de canto e aproximou-se:
— Dê-me aqui, tem um cabide no armário para guardá-lo.
Como ele podia saber?, Amanda pensou. Toda a vez que chegavam ao escritório pela manhã, retirava o paletó, estendia para a assistente que o guardava no armário. Às vezes, ela tinha até que lhe ajeitar a gravata.
Parecia sem jeito quando indagou:
— Comprou a colônia certa, pelo menos?
— Oui, monsieur.