Dois dias depois...
Megan jogou a bolsa sobre a mesa da cozinha e se deixou cair na cadeira, exausta.
Já era fim de tarde e estava cansada, faminta e completamente frustrada.
Em todos os lugares em que fora, imaginando que conseguiria um emprego decente, ela saíra decepcionada.
Nem mesmo sua experiência como enfermeira lhe ajudara desta vez.
Deitou a cabeça sobre os braços cruzados na mesa e deixou que os soluços extravasassem a miríade de sentimentos que tomavam conta dela naquele instante.
Raiva.
Solidão.
Tristeza.
Sem contar a frustração e decepção consigo mesma.
Após deixar com que as lágrimas aliviassem um pouco de toda aquela bagagem emocional, Megan se levantou e abriu a geladeira.
Tirando algumas garrafas de água e legumes murchos, não havia mais nada que pudesse comer.
Teria de se contentar com um macarrão instantâneo novamente, algo que estava comendo muito nos últimos dias e não lhe faria bem algum, mas que custava menos que uma refeição decente, algo que ela não podia pagar.
Desanimada, ela fechou novamente a geladeira e subiu para tomar um banho e pensar melhor no que fazer.
Flora lhe oferecera ajuda.
Talvez fosse a hora de deixar o orgulho de lado e aceitar o que a bondosa senhora lhe oferecia.
Talvez, uma semana dormindo no quartinho vazio que ela tinha em casa, fosse tempo o suficiente para encontrar um emprego. Enquanto isso, poderia fazer alguns bicos aqui e ali para ajudar a senhora e o marido com as despesas.
Assim que saiu do banho, se vestiu rapidamente e desceu a fim de ir até à casa de Flora, mas quando estava atravessando a sala, a campainha tocou.
Confusa, pois não estava esperando nenhuma visita aquela hora, Megan caminhou até a porta e abriu apenas o suficiente para que pudesse ver quem estava lá fora.
— Olá, querida. Desculpe vir assim de repente, mas estava esperando que voltasse para falar com você. — Flora disse, parecendo eufórica.
Surpresa pela visita inesperada, mas feliz por ser a Flora, Megan abriu a porta e permitiu que ela entrasse.
— Não se preocupe. Na verdade eu estava indo nesse instante falar com a senhora... — disse. — Se sua oferta ainda estiver de pé, acho que vou aceitar aquele quartinho vago que me ofereceu. Vou precisar de um pouco mais de tempo para encontrar um emprego.
Flora sorriu abertamente.
— Claro que minha oferta continua de pé, querida. — ela disse, entregando uma sacola que, até aquele momento, Megan não havia notado em suas mãos. — Esse é o seu jantar, imagino que esteja faminta após passar o dia todo procurando emprego.
Megan sentiu o cheiro maravilhoso da comida e sua barriga roncou no mesmo instante.
— Flora, não precisava…
Flora a interrompeu com um gesto.
— Claro que precisava. Olha só para você, está muito mais magra do que quando a conheci. — ela resmungou, empurrando-a para a cozinha e apontou para a cadeira para que Megan se sentasse e comesse. — Quanto ao quarto, você sempre será bem vinda. Mas acho que não será mais necessário. Encontrei a solução perfeita para você.
Megan, que abria a embalagem de comida, parou e a encarou, entre confusa e curiosa.
— Como assim...?
Flora se sentou ao seu lado, muito animada.
— Uma amiga minha me disse que estão precisando de uma babá na casa onde ela trabalha. — Flora contou. — O trabalho é em período integral e você pode morar na casa, claro. Você teria um emprego e um lar. E ainda poderia juntar uma grana para quando decidir seguir outro caminho...
— Mas, Flora, eu nunca cuidei de uma criança em toda a minha vida! — Megan disse, em pânico.
Claro que a oferta era maravilhosa.
Teria um salário, comida na mesa e ainda um teto sobre sua cabeça.
Mas ela não tinha experiência com crianças, a não ser pelo pouco contato que tivera com elas quando ainda era enfermeira.
Flora revirou os olhos.
— Querida, não é um bicho de sete cabeças. Você cuidou de sua mãe doente durante todo esse tempo e ainda possui conhecimentos médicos.
Megan ainda estava em dúvida, apesar de completamente interessada na oportunidade.
Sem contar que seria mais uma experiência para acrescentar em seu currículo.
— Quantas crianças? — quis saber e Flora sorriu, percebendo que alcançara seu objetivo.
— São três. A menor tem um ano, mas os gêmeos tem nove.
Megan franziu o cenho.
— E os pais das crianças? — quis saber. Quanto mais informações tivesse, melhor.
— A mãe morreu no parto da mais nova e desde então as crianças ficam com uma babá. — Flora explicou. — O pai passa a maior parte do tempo no trabalho, para manter os negócios da família. Sai cedo de casa e volta apenas no fim do dia, quando as crianças já estão na cama.
Megan fez uma careta de desgosto, enquanto começava a comer.
Esse era o momento em que um pai deveria ser mais presente na vida dos filhos, já que perderam a mãe tão cedo. Mas ao invés disso, o homem se enterrava no trabalho enquanto as crianças ficavam com estranhos.
De repente, ela sentiu um desejo imenso de cuidar daqueles pequenos e dar a eles a atenção que mereciam.
Dar-lhes carinho, assim como sua mãe lhe dera até o seu último suspiro.
Era disso que elas precisavam naquele momento, e não do distanciamento frio do pai delas.
E, talvez, era disso que ela mesma precisava naquele momento, algo em que pudesse se concentrar para se esquecer da dor que sentia.
Decidida, Megan assentiu em concordância para Flora.
— Se me considera capaz de fazer isso, então sim. Eu quero esse emprego.
Não era como se tivesse muitas outras opções, na verdade.
Só de saber que teria um teto sobre sua cabeça, pelo qual não teria que pagar nada, era o que tornava aquele emprego ainda mais atraente aos seus olhos. Poderia juntar o seu salário até ter o suficiente para comprar uma casinha pequena para si mesma, ela pensou, ainda mais animada com aquela oportunidade que aparecia.
Só esperava que Flora estivesse certa quanto a sua capacidade de cuidar daquelas crianças e não cometesse erro algum, pensou ela.
Flora bateu palmas, animada, e se levantou rapidamente da cadeira onde se sentara.
— Vou agora mesmo ligar para minha amiga e contar que encontrei a pessoa certa para o trabalho. O senhor Howard lhe deu carta branca para a contratação, já que não poderá participar das entrevistas.— ela contou, caminhando para fora da cozinha. — Aconselho a ir fazendo as malas, querida!
Flora gritou da sala, antes de Megan ouvir o ruído da porta se fechando.
Deu mais alguma colheradas na comida, enquanto imaginava como seria no novo emprego e mais uma vez sentindo pena daquelas crianças. O pai nem mesmo se daria ao trabalho de entrevistar a pessoa que cuidaria dos próprios filhos! Ela pensou, indignada, e torcendo para que tudo desse certo.
Não fique tão nervosa, você consegue! Ela disse a si mesma.
Pelo menos alguma coisa boa acontecera em sua vida e, diferente das outras duas noites, Megan adormeceu mais tranquila apesar da tristeza em seu coração.
Pois aquela, talvez, seria a última noite que passaria naquela casa que um dia ela chamara de lar.
Megan pagou ao motorista de táxi pela viagem e desceu do carro logo em seguida.
Ele também desceu, ajudando-a a retirar sua mala de dentro do porta-malas, mas não deixou de parar por um momento e olhar para a enorme mansão onde Megan iria trabalhar.
— Você vai morar aqui? — ele perguntou, claramente admirado pelo lugar.
Megan não sentiu o mesmo, já que achou aquele lugar um pouco frio e sem vida.
— Sim, mas a trabalho. — respondeu.
Quando percebeu que ele não parava de olhar para a mansão e sabendo que deveria se apressar e se apresentar para o trabalho, Megan pigarreou.
— Obrigada, mas eu preciso entrar agora. — ela disse, chamando a atenção do motorista novamente para si.
Ele piscou, voltando sua atenção para ela e observando-a atentamente da cabeça aos pés antes de olhar uma última vez para a casa. Então ele deu meia volta e seguiu novamente para dentro do carro.
— Se deu bem, garota. Boa sorte no novo emprego. — ele desejou, ligando o carro novamente.
Megan não entendeu o que ele quis dizer com isso, mas agradeceu assim mesmo e seguiu pelo caminho de pedras ladeado por um lindo jardim bem cuidado.
Ouviu quando o carro se afastou, voltando pelo caminho de onde vieram, enquanto se aproximava cada vez mais da mansão.
A cada passo que dava em direção à casa, ela parecia ainda maior e assustadora. Ela não estava acostumada com lugares assim. Na verdade, era a primeira vez que ela se aproximava de uma casa luxuosa como aquela.
Quando parou diante da gigantesca porta de madeira, o barulho de algo se quebrando lá dentro a fez pular, assustada.
Megan respirou fundo antes de erguer a mão para tocar a campainha da casa, deixando-a cair ao lado do corpo logo em seguida enquanto aguardava que alguém viesse atender.
Não podia negar que estava nervosa e insegura.
Suas mãos geladas e úmidas eram a prova disso.
O próximo som que ela ouviu foi o de passos apressados antes de a porta se abrir, revelando uma senhora de cabelos grisalhos, com alguns fios saindo do coque apertado e as feições cansadas.
— Ah, finalmente! — ela exclamou, parecendo realmente aliviada. — Você deve ser a nova babá...?
Megan levou alguns segundos para responder, assentindo.
— Sim, me chamo Megan e...
— Querida, por favor entre! — a senhora pediu, interrompendo-a. — Não sabe o quanto eu estava ansiosa com sua chegada. As crianças são um amor, mas eu já não tenho pique para cuidar de três pestin...
Megan arqueou uma sobrancelha, ao compreender o que a senhora diria das crianças, antes que a mesma se desse conta, e interrompesse a fala pela metade.
— Quer dizer, eu não tenho pique para cuidar de três crianças tão pequenas quando já tenho tanto o que fazer nessa casa gigantesca. — ela se corrigiu rapidamente, abrindo espaço para que Megan entrasse.
— Onde estão as crianças? — Megan quis saber, olhando ao redor, confusa.
Por um momento ela pensara que as crianças estariam esperando por ela no Hall de entrada, a julgar pelos ruídos que ouvira instantes atrás, mas agora tudo permanecia em perfeito silêncio como se elas tivessem se escondido.
A senhora fechou a porta rapidamente, como se temendo que Megan saísse novamente, e suspirou.
— Eu pedi para que Mary, a nossa cozinheira, as levasse para a cozinha para que eu pudesse recebê-la sem toda a agitação infantil... — ela se explicou antes de observar Megan dos pés à cabeça. — Flora me disse que era nova, mas eu não imaginava que fosse tanto.
Megan sorriu, quando reconheceu a velha senhora como amiga de Flora.
— E você deve ser a Sra. Albert... — Megan comentou. — É um prazer conhecê-la. Eu não sou tão nova assim. Já tenho 27 anos.
A Sra. Albert revirou os olhos antes de sorrir para ela, parecendo finalmente mais relaxada.
— Quando eu tinha vinte e sete anos, minha querida, eu já estava casada e trazendo meu primeiro filho ao mundo. E garanto que isso foi há muitos anos atrás.
Megan riu baixinho, desculpando-se logo em seguida ao perceber que estava sendo rude.
— Me desculpe... — pediu, pigarreando.
A Sra. Albert riu de seu constrangimento.
— Não se preocupe com isso, querida. Já estou velha e isso é um fato! — ela exclamou. — Mas estou preocupada de que esse não seja o emprego ideal para uma jovem como você. Cuidar de crianças tão pequenas pode ser um pouco difícil e elas perderam a mãe recentemente...
Megan juntou as mãos em frente ao corpo, percebendo a insegurança da mulher. Aquele era o momento em que deveria demonstrar confiança e provar que era perfeita para o cargo, caso contrário perderia aquela oportunidade antes mesmo de começar.
— Eu sei o quanto é difícil e acho que talvez eu possa ajudá-las de alguma forma... — ela disse, fazendo a mulher abrir os lábios em espanto.
— Oh, querida, me desculpe. Eu havia me esquecido que acabou de perder sua mãe...
Megan engoliu em seco ao perceber que a lembrança provocara um nó em sua garganta que logo se transformariam em lágrimas se não mudassem de assunto.
Ainda não estava pronta para falar sobre isso sem se sentir emotiva, então ela pigarreou baixinho para desfazer o nó que se formara em sua garganta.
— Não se preocupe com isso. — disse apenas e tratou de mudar de assunto. — Podemos chamar as crianças para que eu possa conhecê-las?
A Sra. Albert novamente adotou uma expressão um pouco insegura, olhando por sobre o ombro por um momento antes de voltar a olhar para Megan.
— Tem certeza que não quer se ajeitar em seus aposentos primeiro?
Megan negou.
Ela percebeu a intenção da senhora de dificultar sua partida caso desistisse e resolvesse ir embora, desfazendo suas malas primeiro.
Mas ela não tinha pretensão de ir a lugar algum.
Aquela era a oportunidade que precisava para seguir em frente.
E ela não era do tipo de mulher que desistia facilmente...
— Sra. Albert, eu gostaria de conhecer as crianças primeiro. — disse ela. — Fique tranquila, porque não pretendo ir a lugar algum.
A Sra. Albert corou com seu comentário, denunciando suas verdadeiras intenções e Megan se segurou para não rir.
— Tudo bem, me desculpe. — ela se desculpou, apontando para o corredor que Megan imaginava levar até a cozinha. — Deixe suas coisas aqui. Vou pedir para o Norman levar sua mala para o seu quarto.
Megan a seguiu pela sala gigantesca e em seguida pelo corredor, parando em frente a uma porta de vidro escuro e pesada.
Algo que se destacava dentro daquela casa, uma mistura de antigo e moderno.
Quem observasse a casa de fora, jamais imaginaria que por dentro haveria móveis e equipamentos eletrodomésticos tão modernos como os que ela via ali, ao adentrar a cozinha.
Claro, tirando a bagunça de farinha espalhada por todos os lados e as duas crianças mais velhas com as roupas e mãos completamente sujas de o que Megan imaginava ser farinha e ovos, ou qualquer outra coisa grudenta parecida.
Mary, a cozinheira, jovem e de cabelos ruivos, estava em um canto segurando a bebê no colo, olhando para as duas crianças, parecendo completamente desesperada.
— Crianças! — A Sra. Albert exclamou, chocada, enquanto olhava para toda aquela bagunça. — Eu me afastei apenas por alguns minutos e olha o que fizeram!
— Nós só estávamos tentando fazer biscoitos para a nova babá. — A menina disse com uma voz exageradamente doce, chamando a atenção de Megan para ela.
Seus cabelos loiros e olhos azuis faziam-na parecer um pequeno anjo, combinado com as bochechas salientes e lábios rosados.
O garoto ao seu lado, possuía os cabelos da mesma cor, mas seus olhos eram ainda mais azuis que os da irmã, o que deixou Megan fascinada, apesar da sujeira em seu rosto e roupas.
— Eu pedi para que se comportassem! — A Sra. Albert resmungou, lançando um olhar ladino para Megan, antes de se voltar para as duas crianças novamente. — Eu vou contar ao pai de vocês o que estavam fazendo!
Megan resolveu intervir.
— Sra. Albert, acho que não será necessário. Fiquei emocionada com o esforço das crianças em me prepararem biscoitos de boas-vindas. Portanto, ficarei ainda mais impressionada caso eles me ajudem a limpar essa bagunça para que possamos finalmente assar esses biscoitos. — Ela disse, observando enquanto as duas crianças mais velhas olhavam uma para a outra em uma conversa silenciosa, antes de se voltarem para ela novamente, desconfiadas.
A Sra. Albert resmungou alguma coisa antes de fazer um sinal para Mary se aproximar com a bebê.
— Tudo bem, senhorita Grey. Vou levar essa pequena para tomar um banho enquanto vocês se "divertem"... — Megan segurou o riso diante do comentário da governanta. — Se precisar de alguma coisa, basta chamar.
Não levou mais que alguns segundos para que Megan se visse sozinha com as duas crianças, que a encaravam com curiosidade.
— Quanto tempo pretende ficar? — a garota perguntou de maneira direta, pegando Megan de surpresa.