Capítulo 2

A raiva ainda queimava dentro de Alicia. O encontro com Marcus havia despedaçado seu coração, mas havia outra pessoa que precisava encarar — Viviana, sua melhor amiga.

A mulher em quem confiava cegamente. A mesma que, em questão de minutos, arrancara dela tudo o que tinha.

Alicia Michelle segurava o volante com força enquanto dirigia, seu corpo tremendo, mas ela não chorava. Não conseguia, pois as lágrimas haviam secado junto com a esperança, e o que restava era apenas um vazio sufocante.

Alicia sabia exatamente onde encontrar Viviana.

Assim que estacionou diante do prédio, ela não hesitou e desceu do carro com passos firmes, indo direto até a porta, onde bateu com força, sem se importar se os vizinhos iriam escutar.

"Viviana, abre essa porta!"

Diante do silêncio prolongado, ela bateu novamente, com mais força.

"Eu sei que você está aí! Não adianta se esconder!"

Após alguns segundos, a maçaneta girou e a porta se abriu, revelando Viviana, impecável como sempre. Ela usava um conjunto de seda cor champanhe, cabelo preso em um rabo de cavalo alto, enquanto um batom vermelho desenhava um meio sorriso em seus lábios. Parecia tranquila, quase divertida, como se nada tivesse acontecido.

Como se ela não tivesse destruído a vida de Alicia menos de uma hora antes.

"Ora, ora… Que surpresa ver você aqui, querida", ela murmurou, se encostando preguiçosamente no batente da porta.

Um nó se formou na garganta de Alicia, pois sua amiga de anos não parecia sentir vergonha alguma. Não havia arrependimento em seu olhar.

"Como você pôde? Como teve coragem de fazer isso comigo, Viviana?", a voz de Alicia saiu embargada, mas carregada de fúria.

Viviana cruzou os braços, exibindo uma expressão quase divertida enquanto perguntava desdenhosamente: "Eu sabia que você viria, só não achei que fosse tão previsível. Veio atrás de respostas?"

As pernas de Alicia vacilaram, mas ela se manteve firme, perguntando em um sussurro: "Há quanto tempo?"

Viviana arqueou uma sobrancelha.

"Quanto tempo o quê?"

"Não se faça de boba! Há quanto tempo você dorme com Marcus?", Alicia gritou, sentindo sua respiração falhar.

O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer resposta, até que, por fim, Viviana suspirou, apoiando a mão no quadril.

"Desde a noite do seu noivado. Embora, para ser exata, naquela primeira noite não tenha acontecido nada por causa do nascimento do seu sobrinho. Mas naquela mesma festa eu já tinha roubado um beijo dele. Na noite seguinte, sim, nos entregamos um ao outro… e depois em todas as outras."

O ar sumiu dos pulmões de Alicia.

"Não...", ela murmurou, balançando a cabeça, em negação.

Mas Viviana não recuou. Pelo contrário, sua voz se tornou mais cruel, como se cada palavra fosse um golpe calculado.

"Enquanto todos celebravam a sua felicidade, Marcus e eu estávamos no quarto do hotel. Foi uma noite inesquecível."

A náusea subiu pela garganta de Alicia.

"Você é uma mentirosa…"

Viviana soltou uma risada curta, carregada de ironia.

"Mentirosa? Ainda duvida depois de ver o vídeo?"

Inclinando a cabeça com ar de triunfo, ela completou: "Pobre Alicia, sempre vivendo nessa bolha, acreditando que Marcus realmente te amava."

Os olhos de Alicia se encheram de lágrimas, mas ela não permitiu que caíssem.

"Ele... ele me escolheu."

Viviana gargalhou de verdade dessa vez.

"Não, querida. Ele foi obrigado a escolher você, a família o empurrou para esse papel de noivo apaixonado."

Nesse momento, o peito de Alicia pareceu se partir em mil pedaços.

"O que você está dizendo?"

Com um sorriso venenoso, Viviana respondeu: "Estou dizendo que Marcus nunca teve escolha. Ele nunca te amou, e só aceitou o noivado porque era o que esperavam dele. Afinal, todos sabem o peso de ser a herdeira, filha de Alessandro Morgan, irmã de Aaron Morgan."

A garganta de Alicia se fechou.

"Não... Isso não é verdade, a família dele não poderia tê-lo forçado."

Viviana, impiedosa, continuou: "Eu era a única que ele queria. A única que ele procurava, depois de deixar você em casa."

Alicia engasgou com a própria respiração.

"Não..."

Viviana ergueu o queixo, saboreando cada segundo. "E tem mais. Fiquei grávida dele duas vezes."

O coração de Alicia quase parou enquanto ela murmurava: "Você está mentindo..."

Viviana balançou a cabeça lentamente.

"Por que acha que desapareci por meses? Eu perdi dois filhos dele. Filhos que eu teria dado tudo para ter comigo."

As pernas de Alicia fraquejaram, e ela se apoiou na parede, tentando respirar, enquanto o mundo ao seu redor se despedaçava.

Lançando-lhe um olhar de superioridade, Viviana disse: "Você pode ser uma Morgan, mas isso nunca significou nada para Marcus. Para sua família, sim, era importante. Mas para ele… eu era a mulher que ele amava. Há um motivo para ele nunca ter te tocado, nunca ter feito você dele."

Nesse instante, algo dentro de Alicia simplesmente se apagou.

Sua confiança, sua dignidade, seu amor-próprio… tudo havia desaparecido.

Viviana sorriu, satisfeita com a destruição que provocara.

"Olha só para você, toda quebrada. Você nunca foi ninguém, Alicia, e nunca vai ser. Qualquer homem que se aproximar de você vai se cansar, porque você é uma puritana, daquelas que guardam a virgindade como se fosse um prêmio, esperando a noite de núpcias para se entregar, mas nenhum homem se importa com isso. Na verdade, para eles, vai ser apenas um desafio te desvirginar… e depois jogar fora como lixo. Quer saber? Eu até tinha uma fantasia de você se casar com Marcus, só para poder transar com ele na sua cama, no seu banheiro, no seu sofá favorito. Em cada canto da sua casa."

O peito de Alicia subia e descia em desespero, e cada palavra era uma punhalada mais profunda, a dilacerando. Ele queria gritar, retrucar, dizer que tudo isso era mentira, mas não havia o que contestar.

Marcus a havia traído. E Viviana, sem remorso, acabara de destroçá-la com a verdade.

Sem forças para continuar a conversa, Alicia se virou e saiu cambaleando. Ela desceu as escadas, atravessou o corredor e chegou até o carro, mas suas mãos tremiam tanto que mal conseguiam segurar o volante.

Seus lábios se abriram em uma tentativa de respirar, mas um grito abafado escapou.

Tudo tinha sido uma mentira.

Marcus nunca a amara, e Viviana sempre o tivera em suas mãos.

Alicia cerrou os dentes, sentindo o desespero consumi-la por inteiro e decidindo que, a partir desse momento, Alicia Michelle Morgan nunca mais seria a mesma.

Capítulo 3

A estrada estava deserta a esta hora da noite. O vento cortante varria o asfalto com fúria, mas Alicia mal percebia, pois, depois de tantas horas de dor, era como se seu corpo tivesse erguido uma couraça invisível para suportar o insuportável.

Sentada em uma calçada, com os joelhos recolhidos contra o peito e os braços enlaçados em volta do corpo, ela deixava que as lágrimas corressem sem controle.

Tudo lhe parecia irreal, como se ela tivesse sido arrancada da própria vida e atirada em um pesadelo do qual não conseguia acordar. Cada soluço trazia o peso de uma cruz marcada pela traição, uma dor que queimava em cada nervo.

O ronco de um motor se aproximando quebrou o silêncio pesado, e um carro preto luxuoso parou a poucos metros dali.

Alicia não ergueu o rosto, mas, quando viu os sapatos de couro se alinharem diante dela, soube exatamente quem era.

"Alicia...", a voz de Alessandro Morgan, grave e firme, soou carregada de preocupação.

Aaron, acompanhando o pai, saiu do carro apressado.

"Que diabos você está fazendo aqui?! Por que está sozinha nessa estrada a essa hora?"

Alicia não respondeu, nem levantou a cabeça.

O silêncio dela fez Aaron cerrar os dentes, furioso por vê-la tão quebrada.

"Me responda, Alicia! O que aconteceu?"

Antes que ele pudesse insistir, Alessandro se ajoelhou diante da filha e, quando Alicia ergueu os olhos, encontrou os olhos do pai, os mesmos olhos que a tinham protegido por toda a vida, mas que nunca haviam presenciado tamanha fragilidade nela.

O coração dela se partiu e, em um soluço que parecia rasgar sua garganta, jogou-se nos braços de Alessandro como quando era criança.

"Pai...", ela murmurou, sua voz trêmula.

Alessandro a envolveu em um abraço firme, a esmagando contra o peito.

"Estou aqui, minha pequena. Estou aqui."

Alicia se agarrou a ele como se fosse sua única âncora no mundo, sua voz falhando: "Dói, pai.. dói tanto..."

Alessandro acariciou seus cabelos com ternura.

"Eu sei, meu amor. Mas eu não vou deixar que essa dor acabe com você."

Alicia chorou ainda mais alto, escondendo o rosto no casaco do pai.

"Fui enganada.. Marcus e Viviana me enganaram."

O corpo de Alessandro enrijeceu.

Aaron deu um passo à frente, seus olhos faiscando de ódio.

"O que você disse?"

Alicia fechou os olhos com força, sentindo a onda de dor atravessá-la mais uma vez.

"Eles me enganaram, Aaron..."

O irmão foi tomado pela fúria, seus punhos cerrados. Alessandro, por sua vez, respirou fundo, tentando conter a própria ira.

Quando ele voltou a encarar a filha, havia determinação em seu olhar, e ele segurou o rosto dela com delicadeza, a obrigando a fitá-lo.

"Escute bem, Alicia Michelle Morgan. Ninguém, absolutamente ninguém, tem o poder de definir o seu valor. Nem um homem, muito menos uma traição."

As lágrimas tornaram a marejar os olhos de Alicia enquanto ela tentava dizer: "Mas pai..."

Alessandro balançou a cabeça, a interrompendo: "Não! Não vou permitir que você acredite, nem por um segundo, que é menor por causa do que fizeram. Você é uma Morgan, minha filha. E o mundo inteiro vai saber disso."

Alicia estremeceu, sentindo o amor incondicional do pai aquecer-lhe o coração, embora as palavras cruéis de Viviana ainda ecoassem dentro dela como veneno, deixando rachaduras em sua alma.

Aaron se aproximou, a voz gelada, sem vestígio da ternura que costumava ter com a irmã: "Marcus Aponte e a família dele acabaram de assinar a própria sentença de morte. Vou destruí-los. A Morgan Enterprises vai esmagar cada um deles, até que não reste nada."

Alicia ergueu os olhos vermelhos para o irmão.

"Aaron..."

Aaron a cortou, implacável: "Não insista. Isso não vai ficar assim."

Alessandro, ainda abraçando a filha, concordou com um aceno de cabeça lento.

"Os Aponte cometeram um erro que vai lhes custar tudo."

Aaron sacou o celular, discou um número e ordenou sem tirar os olhos da irmã: "Comece a mexer os pauzinhos. Quero que cada contrato, cada investimento, cada parceiro deles desmorone. Até que o império deles vire pó."

Alicia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ouvir isso.

Após desligar, Aaron guardou o celular no bolso com frieza, dizendo: "Isso é só o começo."

Dias depois

O vento da Toscana soprava suave esta manhã, espalhando pela Mansão Morgan o perfume dos vinhedos que cercavam a propriedade. A imponente residência permanecia em silêncio, envolta em uma melancolia discreta após os dias caóticos que haviam abalado a família.

Na sacada do quarto, com uma xícara de café entre as mãos, Alicia Michelle contemplava o horizonte, decidida a viver o luto da decepção amorosa sob o teto da família em vez de retornar ao próprio apartamento. Seus olhos, outrora cheios de brilho e confiança, estavam agora sombrios, como se carregassem os destroços de um coração despedaçado.

Cinco dias haviam se passado desde a traição, desde que seu mundo ruiu.

Mas, esta manhã, ela decidira que já havia chorado o suficiente.

A dor continuava latejando, mas ela não podia se permitir afundar para sempre.

Seus irmãos já tinham partido — Inglaterra, Espanha e Estados Unidos aguardavam cada um deles. Katerina, a cunhada, permanecera apenas o tempo necessário para auxiliar nos negócios antes de seguir viagem com Aaron, e seu sobrinho, Alexander, que fora talvez o maior consolo daqueles dias.

Alicia Michelle havia deixado o comando das empresas nas mãos do irmão mais velho. Aaron não precisava de muito para conduzi-las, mas, ainda assim, mantinha os olhos atentos até que ela estivesse pronta para retornar. E Alicia sabia que esse momento ainda não havia chegado, pois não podia assumir as rédeas quando mal reconhecia quem era.

"Tem certeza disso?", a voz suave de Eleanor Morgan, sua mãe, rompeu o silêncio, chamando-a de volta à realidade.

Alicia se virou e a encontrou parada à porta, com os olhos cheios de preocupação.

Diferente dos outros, ela não partira, insistindo em permanecer ao lado da filha, embora soubesse que, cedo ou tarde, ela precisaria enfrentar a solidão.

"Tenho, mãe. Preciso ficar aqui. Preciso desse tempo sozinha."

A mãe suspirou e se aproximou, acariciando-lhe o rosto com ternura.

"Não quero te deixar, meu amor. Depois de tudo o que aconteceu... você poderia vir conosco para os Estados Unidos."

Alicia forçou um sorriso fraco, que não conseguiu alcançar os olhos.

"Eu sei. Mas mudar de país não vai curar essa ferida, mãe."

Os lábios de Eleanor se apertaram em um traço de dor contida. Apesar de não querer deixar Alicia, ela compreendia que a filha precisava se curar dessa dor profunda — uma ferida que só o tempo poderia fechar.

"Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo... me ligue. Não importa a hora, nem o lugar."

"Eu vou, mãe", Alicia sussurrou.

As duas se abraçaram forte, como se tentassem condensar todo o amor em um único gesto e, quando a mãe se afastou, seus olhos estavam úmidos.

"Eu te amo, Alicia Michelle. Nunca se esqueça disso."

A jovem engoliu o nó na garganta, respondendo: "Eu também te amo, mãe."

Alicia observou a mãe partir, o carro desaparecendo pela estrada de paralelepípedos até sumir na via principal.

Então, percebeu que, pela primeira vez na vida, estava realmente sozinha na imensa mansão.

Fechando os olhos, ela respirou fundo, reconhecendo sua escolha pela solidão. Mas isso não tornava a dor menos cortante.

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