Capítulo 2

"Ela não pode ficar na Fortaleza", eu disse.

Minha voz estava firme, uma calma praticada que não traía nada da lava subindo em meu peito.

Estávamos de volta no SUV, as luzes da cidade deslizando sobre o interior de couro como rastros de óleo.

Sofia estava encolhida no banco de trás, engolida pelo paletó de Dante — o mesmo paletó do qual eu havia meticulosamente tirado os fiapos esta manhã.

Ela fingia dormir, sua respiração superficial e regular, mas eu sabia a verdade. Sua mente estava bem acordada, calculando.

*Olha para ela. A rainha de gelo. Acha que é dona dele.* O pensamento não era meu, mas eu podia praticamente ouvi-lo irradiando dela.

Dante agarrou o volante com tanta força que o couro gemeu sob seus nós dos dedos.

"Ela não tem para onde ir, Helena. Os russos incendiaram o prédio dela."

"Então a coloque em um hotel", contestei, minha paciência se esgotando. "O Fasano. O Emiliano. Somos donos de metade da cidade, Dante. Por que ela precisa estar em nosso santuário?"

"Porque ela é um alvo", disse Dante, sua voz caindo para um registro que vibrava com autoridade sombria. "O marido dela morreu por esta família. Eu devo proteção a ela."

*Eu prometi a ele. Em seu leito de morte, eu prometi que cuidaria dela.*

O voto não dito pairava pesado no ar, carregado de uma culpa que tinha gosto de cinzas.

Não era amor. Ainda não. Era honra.

Mas honra era um terreno escorregadio quando uma mulher como Sofia estava envolvida.

"Existem apartamentos de segurança", insisti. "Apartamentos que mantemos fora dos registros."

Dante me lançou um olhar, sua irritação aguda.

"Eles são frios. Vazios. Ela está de luto."

"E eu sou sua esposa", eu disse, virando-me no assento para encará-lo completamente. "Você acha apropriado ter outra mulher dormindo no corredor do quarto onde dormimos?"

Dante não respondeu.

Ele não precisava. Seu silêncio era um veredito ensurdecedor.

"Tudo bem", eu disse, cortando a palavra. "Se não um hotel, então o antigo apartamento da Clara. Está mobiliado. É seguro. Fica em um prédio cheio de nossos soldados."

Dante franziu a testa, a confusão cintilando em suas feições. "Clara?"

"A esposa do Lucas", eu disse. "Ela se mudou na semana passada. Está com a irmã."

Observei a surpresa se registrar em seus olhos. Ele não sabia.

Ele não prestava atenção às tragédias silenciosas das mulheres na organização. Éramos meramente um ruído de fundo para sua sinfonia de violência.

"Ligue para ela", Dante ordenou.

Peguei meu celular e disquei para Clara. Ela atendeu no segundo toque, sua voz soando fina, desgastada.

"Helena?"

"Preciso de um favor", eu disse. "Seu apartamento ainda está vazio?"

"Sim", disse Clara. "Por quê?"

"Dante precisa de um lugar seguro para uma... convidada. Uma viúva."

Houve uma pausa, pesada de compreensão.

"É a Sofia?", perguntou Clara.

Eu pisquei. "Como você sabia?"

"As notícias correm", disse Clara secamente. "E o Lucas mencionou que o Dante estava... distraído ultimamente."

Meu estômago se contorceu em um nó. Até os soldados sabiam.

"Podemos usá-lo?", perguntei, forçando minha voz a permanecer neutra.

"Pegue as chaves", disse Clara. "Não vou voltar para lá. Muitos fantasmas."

"Onde você está?"

"Estou na padaria 24 horas na Paulista. Venha buscá-las."

Dirigimos até a padaria. Dante ficou no carro com Sofia. Claro que ficou.

Entrei no estabelecimento encharcado de neon, o ar cheirando a café velho e arrependimento.

Clara estava sentada em uma cabine nos fundos, encarando uma xícara de café preto como se contivesse os segredos do universo.

Ela parecia não dormir há dias. Havia um hematoma em seu pulso, desbotando para um amarelo doentio.

Ela me viu olhando e puxou a manga bruscamente para baixo.

"Aqui", disse ela, deslizando um conjunto de chaves pela mesa de fórmica.

"Obrigada", eu disse.

Clara olhou para mim, seus olhos escuros e fundos.

"Tenha cuidado, Helena", ela sussurrou.

"Com a Sofia?"

"Com o Dante", disse ela. "Esses homens... eles não nos veem. Eles só veem o que podemos fazer por eles. Ou o que representamos."

Ela se inclinou para mais perto, sua voz caindo para um murmúrio conspiratório. "Se você tiver uma saída... aproveite."

Peguei as chaves, o metal frio contra minha palma. "Eu não fujo, Clara", eu disse. "Eu luto."

Clara sorriu tristemente, um fantasma de expressão. "Foi o que eu pensei também."

Voltei para o carro, as chaves cravando em minha mão.

Dante estava inclinado sobre o banco de trás, conversando com Sofia. Ele estava sorrindo.

Um sorriso pequeno e raro que suavizava as linhas duras e marmóreas de seu rosto — um sorriso que eu não via há meses.

Ele se afastou quando me viu, a máscara voltando ao lugar instantaneamente.

"Você as pegou?", ele perguntou.

Joguei as chaves em seu colo. "Ela fica lá", eu disse. "Esta noite."

Dante ligou o motor.

*Ela não tem coração. Uma princesinha mimada que nunca conheceu a perda.* O pensamento me atingiu como um tapa físico, embora ele não tivesse dito uma palavra.

Olhei pela janela, observando a cidade se transformar em rastros de luz. Ele achava que eu não tinha coração.

Ele não sabia que meu coração era a única coisa que me ancorava a esta vida miserável.

Deixamos Sofia. Ela se agarrou à mão de Dante por um momento a mais antes de sair.

"Obrigada, Dante", disse ela, sua voz tremendo perfeitamente. "Não sei o que faria sem você."

*Vou tê-lo na minha cama em um mês.* A projeção foi tão alta, tão viciosa, que quase recuei.

Dante esperou até que ela estivesse segura dentro do prédio antes de partir. O silêncio no carro era sufocante, denso de palavras não ditas.

"Você foi grosseira com ela", disse Dante finalmente.

"Eu fui prática", retruquei.

"Ela é da família", rosnou Dante. "O marido dela era um dos meus homens."

"E eu sou sua esposa!", gritei, a represa finalmente se rompendo. "Isso não significa nada para você?"

Dante pisou no freio em um sinal vermelho, o SUV parando com uma sacudida violenta.

Ele se virou para mim, seus olhos ardendo com um fogo frio.

"Casamento é um dever, Helena. É um contrato. Não confunda com um romance de banca de jornal."

*É um passivo. Uma distração que não posso me permitir.* Seus pensamentos eram claros. Brutalmente, dolorosamente claros.

Ele não via uma parceira. Ele via uma corrente.

Olhei para ele, realmente olhei para ele. O homem que eu tentei amar. O homem que eu esperava que visse além dos rumores e da fachada fria.

E percebi que Clara estava certa.

Ele não me via. E nunca veria.

Sentei-me de volta no meu assento, a luta se esvaindo de mim como água de um vaso rachado.

"Dirija", sussurrei.

Enquanto o carro avançava, minha mão foi para o meu bolso. Meus dedos roçaram a borda do meu celular.

Eu disse que não fugiria. Mas não se pode lutar uma guerra por um homem que já te entregou.

Abri o navegador e digitei duas palavras.

Rio de Janeiro.

Capítulo 3

As paredes de vidro do escritório de Dante foram projetadas para transmitir transparência, mas tudo o que acontecia lá dentro era envolto em sombras deliberadas.

Fiquei do lado de fora da porta, minha mão pairando sobre a maçaneta de aço escovado.

Eu precisava saber. Mais importante, eu precisava de provas.

Meus instintos gritavam em sussurros, mas sussurros não eram evidências.

Sussurros não se sustentariam perante A Cúpula se eu exigisse uma anulação.

Abri a porta.

O silêncio me saudou. O escritório estava vazio.

Dante estava em uma reunião com o Don.

Eu tinha vinte minutos.

Fui até a mesa dele, meu coração martelando contra minhas costelas como um pássaro preso.

Eu não era uma espiã.

Eu era uma esposa procurando a verdade que seu marido se recusava a falar.

Abri a gaveta de cima.

Armas. Munição. Pilhas de dinheiro em notas de cinquenta.

Equipamento padrão para um Chefe.

Abri a segunda gaveta.

Arquivos.

Rodízios de soldados. Manifestos de embarque. Propinas.

Nada sobre Sofia.

Senti uma pontada de frustração aquecer minha pele.

Talvez eu estivesse errada.

Talvez os sussurros fossem apenas paranoia alimentada pela insegurança.

Então vi o paletó dele.

Estava jogado sobre as costas de sua cadeira de couro como uma mortalha escura.

O mesmo paletó que ele usara quando deixou Sofia na noite anterior.

Enfiei a mão no bolso interno.

Meus dedos roçaram em papel nítido.

Eu o puxei.

Era uma escritura. Uma transferência de propriedade.

Cobertura 4B, Torre Obsidiana.

Um prédio de luxo em São Paulo.

O comprador era uma empresa de fachada, "DC Holdings".

A linha do beneficiário estava em branco, mas havia um post-it colado na frente.

"Ela precisa de uma vista. - S"

S.

Sofia.

Ele comprou uma cobertura para ela.

Enquanto me dava sermões sobre segurança e apartamentos seguros, ele estava comprando um apartamento de milhões para ela.

O clique súbito da fechadura quebrou o silêncio.

Eu congelei.

Empurrei o papel de volta no bolso no exato momento em que Dante entrou.

Ele parou, seus olhos se estreitando instantaneamente.

"O que você está fazendo?"

Sua voz era baixa, carregada de perigo.

"Eu estava... procurando uma caneta", menti.

Era uma mentira fraca, frágil e transparente.

Dante fechou a porta atrás de si e e a trancou.

O som da fechadura engatando ecoou na sala silenciosa como um tiro.

Ele caminhou em minha direção, lento e predatório.

*Ela está mentindo. O que ela viu?*

"Seu escritório está cheio de canetas, Helena."

Ele parou a centímetros de mim.

Eu podia sentir o cheiro dele.

Sândalo, pólvora e o leve e persistente fedor do perfume de baunilha barato dela.

Isso me deixou enjoada.

"Eu queria uma das suas", eu disse, levantando o queixo em desafio. "Isso é um crime?"

Dante estudou meu rosto.

Ele estendeu a mão e agarrou meu queixo, seus dedos cravando em minha pele.

"Mentir para mim é um crime."

Ele me beijou.

Não foi um beijo de afeto.

Foi um beijo de posse.

Ele estava marcando seu território, me lembrando de quem era o dono.

Sua língua invadiu minha boca, exigindo submissão.

Senti sua raiva, sua frustração e, por baixo de tudo, um desejo sombrio e distorcido.

*Ela é minha. Mesmo que seja uma espiã, ela é minha.*

Ele achava que eu estava espionando para o meu pai.

Ele não confiava em mim de jeito nenhum.

A injustiça disso queimou através de mim como ácido.

Eu estava tentando salvar nosso casamento, e ele estava me tratando como uma inimiga.

Eu mordi.

Forte.

Senti o gosto metálico de sangue.

Dante recuou, um silvo de dor escapando de seus lábios.

Ele tocou a boca, seus dedos saindo vermelhos.

Ele olhou para o sangue, depois para mim.

Seus olhos escureceram.

Não com raiva.

Com outra coisa.

Excitação.

*Ela tem dentes.*

"Você me mordeu", disse ele, a voz rouca.

"Você me forçou", cuspi.

"Eu não forço", disse Dante, aproximando-se novamente. "Eu pego o que é dado."

"Eu não te dei nada!"

Passei por ele, minhas mãos tremendo.

Eu precisava sair dali antes que eu gritasse.

Antes que eu lhe dissesse que sabia sobre a cobertura.

Cheguei à porta e me atrapalhei com a fechadura.

"Helena", ele chamou.

Parei, de costas para ele.

"Não entre no meu escritório de novo."

Era um aviso.

Virei-me para olhá-lo uma última vez.

Ele estava encostado na mesa, o lábio ensanguentado o fazendo parecer selvagem.

"Não se preocupe, Dante", eu disse, minha voz oca. "Não voltarei ao seu escritório. Ou à sua cama."

Destranquei a porta e saí.

Fui direto para o quarto de hóspedes.

Tranquei aquela porta também.

Sentei-me na cama e peguei meu celular.

Procurei pela Torre Obsidiana.

Era real.

E estaria pronta para ocupação na próxima semana.

Ele a estava mudando para lá.

Ele estava montando uma segunda vida.

E eu era apenas o contrato que tornava isso possível.

Lágrimas brotaram em meus olhos, mas eu as contive.

Chorar era para vítimas.

Eu não era uma vítima.

Eu era uma Vitti.

E se ele queria uma guerra, eu lhe daria uma.

Mas primeiro, eu precisava falar com Giovanna.

Eu precisava saber se fugir era realmente uma opção.

Porque ficar aqui, assistindo-o construir uma vida com outra mulher enquanto eu apodrecia em sua gaiola de ouro...

Isso era uma sentença de morte.

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