Capítulo 2

Cheguei no quarto com o coração aos saltos, meu pulso ainda estava disparado e minhas mãos tremiam, joguei um casaco longo por cima do corpo e peguei minha maleta de primeiros socorros, quando voltei para sala ele estava com os olhos fechados e parecia estar descansando, assim que me aproximei ele voltou a abrir os olhos, eu olhei sem graça para aquele homem estupidamente bonito na minha frente e gelei.

- Vai ficar aí me olhando ou vai me deixar sangrando até a morte?

- Isso é meio dramático, não acha?

Ele sorriu pela primeira vez,é... Talvez ele não fosse de aço.

- Ainda posso te mandar embora por tentativa de assassinato, sabia?

Eu arregalei os olhos e segurei na mão dele ficando de joelhos.

- Por favor, por favor, não, eu preciso muito do emprego!

Ele sorriu.

- Acalme-se... Foi brincadeira.

Eu me perdi por alguns segundos naqueles olhos verdes.

- E ai? Vai cuidar disso ou não?

Eu me ajoelhei no sofá e peguei um algodão para limpar o ferimento, encostei de leve o algodão no machucado.

- Aí!

Ele gritou e me afastei rapidamente.

- Machuquei?

- Não foi só pra ver se estava prestando atenção.

Ele começou a rir, eu balancei a cabeça e voltei a cuidar do ferimento.

- E então garota, qual é o seu nome? Vou precisar te chamar de algo mais do que garota né?

- É Nataly.

- Hum... Prazer Nataly, sou Jack.

Algo começava a me intrigar profundamente, se ele tinha se casado na sexta feira e deveria estar de lua de mel por que tinha voltado para casa sozinho? Será que tinha tido problemas na empresa e a mulher tinha decidido ficar para aproveitar o resto da estadia?

Terminei de fazer o curativo e me afastei um pouco.

- Pronto! Como se sente?

- Vou sobreviver.

- Quer que eu prepare algo para você comer?

- Não, comi no caminho.

- Os outros também voltarão amanhã?

- Você diz os outros empregados?

- É...

- Não, sou só eu que voltei mesmo, seremos só nós dois por 15 dias, mas eu não sou muito espaçoso e passarei muito tempo na empresa então, não me verá com frequência.

- Foi por isso que voltou? Por causa da empresa?

Ele estreitou os olhos e me encarou.

- Não tenho certeza se isso te diz respeito, mas não... Não foi por isso.

- Ok, desculpe.

Seu jeito era bastante seco, me afastei me levantando e comecei a guardar minhas coisas, logo senti o toque dele em minha mão, ele segurou meus dedos.

- Nataly... Obrigado.

Ele sorriu.

- Por ter batido em você?

Ele riu.

- Não, por ter cuidado de mim.

- Era o mínimo que eu podia fazer, afinal fui eu que te machuquei.

- Protegendo a minha casa, tem um crédito.

Ele se levantou e se aproximou de mim, eu sei que aquilo não era da minha conta, mas minha curiosidade era muito grande.

- Se você estava de lua de mel, cadê a sua esposa?

Ele fechou o rosto à contra gosto e mexeu em sua aliança no dedo.

- A única coisa que você precisa saber é que ela não virá para essa casa.

Ele me deu as costas e pegou a mala perto da escada.

- Boa noite Nataly.

Eu o vi se despedir e subir as escadas, fiquei confusa ele mudava de humor muito repentinamente e para ser sincera por alguns segundos acreditei que talvez o humor dele tivesse mudado justamente por que eu tinha perguntado sobre o casamento, mas por que será que ela não viria para aquela casa? Será que eles eram um daqueles casais modernos em que um vivia em uma casa e outro em outra? Bizarro.

Capítulo 3

Assim que o dia amanheceu eu comecei a limpar freneticamente as janelas, Jack desceu as escadas e caminhou calmamente até a cozinha.

- Deixei seu café na sala de refeições.

Eu disse assim que o vi, ele me olhou por alguns segundos e concordou com a cabeça dando meia volta, logo voltou.

- Não precisava fazer isso, na verdade eu apenas queria alguém para cuidar da casa, você não precisa agir como uma empregada...

- Mas é o que eu sou senhor Belmont.

Ele se aproximou de mim sério e com as mãos nos bolsos.

- Tudo bem, faça como quiser, mas cuidado com essas janelas, não vá se machucar.

Eu sorri e assenti com a cabeça.

- Ok, pode deixar.

Ele se afastou indo para a sala de refeições, assim que chegou lá ele percebeu a mesa posta o café quente e torradas integrais com iogurte natural, até parecia que ela conhecia os seus gostos, teria perguntado a Hortência? Ele balançou a cabeça negativamente, devia ser coincidência, só podia ser coincidência.

Jack saiu indo para a empresa.

Jack possuía uma multinacional farmacêutica, a empresa tinha sido de sua família e quando seus pais faleceram ele herdou tudo, como nunca tivera tido irmãos cuidava sozinho de todas as posses da família, acreditava que se casando com Simoni estaria protegendo seu patrimônio, porém tudo tinha dado errado ainda na lua de mel, talvez fossem males que tivessem vindo para o bem, mas ainda assim não deixava de ser ruim.

Eu terminei de limpar a cozinha e decidi subir as escadas e limpar os quartos.

Entrei no quarto de Jack e percebi que ele tinha feito a própria cama e arrumado o próprio quarto, as roupas não estavam mais na mala como o esperado, pelo contrário estavam no guarda roupas bem organizadas e dobradas, pelo visto ele não era o tipo de homem que gostava de dar trabalho para alguém, me concentrei em tirar o pó da mobília e ao me aproximar da cama notei a aliança em cima do criado mudo.

Por que ele tinha tirado a aliança? Ele tinha se casado na sexta, será que os dois já tinham se separado? Hoje era segunda-feira... Isso era bem estranho, primeiro ele não tinha ficado para a lua de mel e agora não estava usando a aliança, alguma coisa tinha acontecido na vida conjugal do senhor Belmont, mas seja lá o que fosse, aquilo não era da minha conta.

Decidi que limparia as vidraças da varanda do quarto então subi no beiral da varanda e comecei a limpar os vidros com a ajuda de um rodo, porém acabei me desequilibrando, assustada com a ideia de acabar caindo daquela altura joguei meu corpo para a frente e cai sobre a grande janela de vidro espatifando a vidraça, cacos de vidro voaram para todos os cantos do quarto e o pior foi que eu caí de mal jeito sobre meu pulso que precisou suportar todo o peso do meu corpo.

Tentei me levantar, mas meu pulso doía demais, precisei fazer força com a outra mão que estava toda cortada assim como minha perna, o sangue escorria pela minha pele, me levantei com muito cuidado sentindo uma dor infernal, peguei o telefone ligando para a vidraçaria, se Jack descobrisse que eu tinha quebrado a vidraça ele me mataria justo a vidraça do quarto dele.

- Bom dia, Vidraçaria São Mateus?

- Sim, quem gostaria?

- Meu nome é Nataly eu precisaria de um conserto de uma janela na varanda com extrema urgência.

- Desculpe, mas estamos lotados para esta semana, mas podemos agendar para a semana que vem?

Desesperei-me, Jack não podia ver aquilo, engrossei a voz e usei o meu melhor trunfo.

- É para a mansão Belmont, seria bom que o senhor fizesse um esforço, meu patrão pode não gostar dos seus serviços se não houver esforço da parte de vocês.

- Mansão Belmont? Estamos indo agora mesmo.

Apavorei-me com a mudança de tom, lembrei-me do que Hortência tinha me dito, então era verdade Jack devia causar arrepios em muita gente.

Arrastei-me até o andar de baixo e limpei meus ferimentos, porém meu pulso estava começando a inchar e doía muito, respirei fundo e ouvi o telefone tocando, calmamente me levantei arrastando a perna e fui atender, era Jack.

- Nataly?

- Sim senhor?

- Não voltarei para o almoço, não precisa se preocupar com comida, tenho alguns compromissos e só chegarei à noite.

O telefone pesou em minha mão e senti uma fisgada, gemi sem querer.

- Cla... Claro. – gaguejei, ele estranhou.

- Algum problema? Sua voz está estranha.

- Não, tudo tranquilo.

Menti.

Os homens da vidraçaria vieram rápido mesmo e logo tiraram a medida e trocaram o vidro, eu os paguei com meu dinheiro e assim que saíram decidi que precisava tomar algum remédio para dor, optei por tomar dois relaxantes musculares, aquilo funcionou, por algum tempo não senti tanta dor, mas depois de algum tempo a dor voltou.

Decidi comer qualquer coisa e tomei um terceiro remédio um pouco mais forte, mas depois disso senti muito sono e acabei apagando no sofá mesmo.

Jack encostou o carro e destrancou a casa, olhou tudo em volta e não viu Nataly, a casa estava silenciosa, ele caminhou calmamente até a sala e a viu deitada no sofá apagada, suspirou e balançou a cabeça, sua primeira reação seria ficar incomodado por ela estar dormindo no serviço e na sua sala, mas depois de um tempo decidiu que não era motivo para brigar com a pobre garota, dava pra ver que ela tinha limpado toda a casa e ele bem sabia que não era nada fácil limpar aquele lugar, ainda mais sozinha.

Aproximou-se do sofá com cuidado e limpou o rosto dela onde o cabelo caia sobre a face, bonita, bonita até demais, um verdadeiro problema para ele no estado em que se encontrava, com muito cuidado a levantou no colo precisava tirá-la dali, não seria legal se Daniel chegasse para falar do divórcio e visse sua empregada dormindo na sala, assim que ele levantou Nataly no colo ouviu alguém destrancar a porta, quem poderia ser?

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