Capítulo 2

O sono foi um estranho naquela noite. Eu me revirava na cama, o colchão um leito de espinhos, minha mente um mar agitado de traição e medo. Toda vez que eu fechava os olhos, via o braço de Arthur ao redor de Giselle, seu desprezo frio por mim.

Em algum momento na calada da noite, a porta rangeu ao se abrir.

Eu congelei, meu corpo enrijecendo. Uma sombra caiu sobre o quarto, e então a cama afundou ao meu lado.

Era Arthur.

Seu cheiro familiar, uma mistura de colônia cara e algo unicamente dele, encheu meus sentidos. Era um cheiro que costumava significar segurança. Agora, apenas cheirava a mentiras.

— Você não jantou — ele murmurou, sua voz um ronco baixo na escuridão. Ele tocou meu ombro, um gesto casual e possessivo.

Minha pele se arrepiou. Eu me afastei de seu toque.

Sua respiração estava quente na parte de trás do meu pescoço, e eu podia sentir o calor de seu corpo se infiltrando pelo tecido fino da minha camisola. Ele costumava me abraçar assim todas as noites, seus braços uma jaula que eu confundira com um lar. Esta noite, meu coração era uma pedra no peito, frio e pesado. Não havia palpitação de excitação, nem aceleração do meu pulso. Havia apenas um vasto e vazio deserto onde meu amor costumava estar.

Tentei me sentar, para colocar distância entre nós.

— Estou cansada.

— Fique — ele ordenou, seu braço apertando minha cintura, me puxando de volta contra ele. — Só por um instante.

Seus lábios roçaram meu pescoço, movendo-se com uma confiança preguiçosa em direção à tatuagem sobre o meu coração. Minha marca. A reivindicação permanente que ele tinha sobre mim.

Uma onda de humilhação me invadiu, tão forte que me deixou tonta. Esta marca, antes um símbolo do meu amor eterno, agora parecia a marca de uma escrava. Um lembrete da minha própria estupidez.

Ele conhecia cada centímetro do meu corpo, cada curva secreta e ponto sensível. Sua mão se movia com uma familiaridade experiente que me dava vontade de gritar.

— Por favor, Arthur — sussurrei, minha voz trêmula. — Não.

Ele me ignorou, seus dedos traçando o contorno do meu quadril. Seu toque era clínico, praticado e totalmente desprovido da paixão que eu um dia imaginei que existia.

Ele estava prestes a me tomar, aqui e agora, como se nada tivesse mudado. Como se seu "verdadeiro amor" não estivesse dormindo no quarto principal, no fim do corredor.

Então, quando senti seu peso se acomodar sobre mim, ele parou.

— Sua menstruação está atrasada — ele disse, seu tom casual, quase entediado.

A raiva, fria e afiada, cortou meu medo. Ele nem se lembrava. Todas aquelas vezes, toda aquela dor, e nem sequer registrava. Para ele, meu corpo era apenas um calendário, uma coisa a ser gerenciada e controlada. Eu não era nada mais que um recipiente, uma conveniência.

O pensamento era tão vil que me deu enjoo. Empurrei seu peito, minha voz carregada de uma fúria que eu não sabia que possuía.

— Você não deveria estar com sua noiva? Tenho certeza de que a Giselle está esperando por você.

Isso funcionou.

O nome Giselle foi como um balde de água fria. Ele enrijeceu, cada músculo de seu corpo ficando tenso. Por um longo momento, ele não se moveu. Então, ele rolou para fora de mim, o calor de seu corpo substituído por um vazio súbito e arrepiante.

Ele se levantou, uma silhueta alta contra o luar que entrava pela janela.

— Você tem razão — disse ele, sua voz plana e fria. Ele saiu do quarto sem outra palavra, fechando a porta suavemente atrás de si.

Alguns minutos depois, ele voltou. Estava carregando uma bandeja. Nela, uma tigela de sopa de peixe, do tipo que ele sabia que era a minha favorita, do tipo que minha mãe costumava fazer.

Eu encarei a sopa. Ele tinha até tirado todas as espinhas minúsculas, como sempre fazia. Lembrei-me de uma das primeiras vezes que ele fez isso. Eu tinha dezesseis anos, lutando com um pedaço de bacalhau, e ele pegou meu prato sem dizer uma palavra, seus dedos longos e elegantes removendo metodicamente cada espinha antes de colocá-lo de volta na minha frente.

Foi uma das mil pequenas gentilezas que me fizeram apaixonar por ele.

Ele me conhecia. Conhecia meus hábitos, meus gostos, minhas aversões. Ele me conhecia melhor do que ninguém. E ele não me amava. O pensamento foi uma nova punhalada de dor.

O cheiro rico e saboroso da sopa atingiu meu nariz, e meu estômago se revoltou. Uma onda de náusea, mais forte desta vez, me atingiu. Saí da cama às pressas, pegando a pequena lixeira ao lado da minha escrivaninha bem a tempo.

Eu vomitei, meu corpo convulsionando com ânsias secas. Não havia nada no meu estômago para sair.

Quando os espasmos finalmente diminuíram, eu olhei para cima. Arthur estava parado na porta, seu rosto uma máscara de pedra.

— Você está grávida de novo? — ele perguntou, sua voz perigosamente quieta.

Gelo inundou minhas veias. Meu rosto, já pálido, deve ter ficado branco como um fantasma. Era isso. Este era o momento em que ele tiraria meu bebê de mim. Eu não podia deixá-lo. Eu não deixaria.

— Não — eu disse, forçando minha voz a ser firme. Olhei-o diretamente nos olhos, rezando para que ele não pudesse ver o terror em guerra com o desafio dentro de mim. — Não estou.

O silêncio no quarto se estendeu, denso e sufocante. Seu olhar era intenso, perscrutador, e por um segundo aterrorizante, pensei que ele pudesse ver através de mim, direto para a vida minúscula e cintilante que eu estava tão desesperada para proteger.

Mas então, a dureza em seus olhos se suavizou, substituída por algo que eu não conseguia ler. Alívio? Decepção? Eu não sabia. Eu não me importava.

— Bom — ele finalmente disse, sua voz seca. — É melhor assim.

Ele se virou para sair, depois parou na porta.

— Giselle e eu vamos nos casar no mês que vem.

As palavras foram o último prego no caixão do meu amor morto.

— Ok — eu disse, minha voz surpreendentemente calma. Eu estava entorpecida. Não havia mais nada que ele pudesse ferir.

Ele pareceu surpreso com minha falta de reação. Ele esperava lágrimas, súplicas. Ele esperava a garota quebrada que ele havia criado com tanto cuidado. Mas aquela garota se foi.

— Estou cansada, Arthur — eu disse, as palavras pesadas com um cansaço que ia até os ossos. — Estou apenas... tão cansada de tudo isso.

Eu até consegui um sorriso pequeno e triste.

— Parabéns. Espero que você e a Giselle sejam muito felizes.

Eu não iria ao casamento, claro. Mas mandaria um presente. Um generoso. Era o mínimo que eu podia fazer para garantir um rompimento limpo. Um adeus final e educado.

Capítulo 3

Na manhã seguinte, levantei antes do sol, minha mente clara e focada. Eu tinha um horário no consulado para finalizar a papelada do meu visto. O plano de fuga estava em andamento.

Quando voltei para casa, minha chave girando na fechadura, a cena na sala de estar fez meu estômago se contrair.

Arthur e Giselle estavam no sofá. Giselle usava uma das camisas brancas de botão de Arthur, as mangas arregaçadas até os cotovelos. A camisa caía solta em seu corpo, uma reivindicação flagrante e íntima. Ela estava desempenhando o papel de dona da casa perfeitamente.

Forcei o sentimento feio e retorcido no meu estômago para baixo. Ele não era meu. Ele nunca tinha sido meu.

— Bom dia — eu disse, minha voz educada e distante. Eu estava prestes a subir para o meu quarto, para o santuário onde eu poderia fingir que eles não existiam.

Mas então Giselle riu, um som agudo e tilintante que irritou meus nervos. Ela pegou um morango da tigela na mesa de centro e o levou aos lábios de Arthur.

— Abra a boca, querido — ela arrulhou.

Eu congelei.

— Ele não gosta de morangos — eu disse, as palavras escapando antes que eu pudesse detê-las. Foi uma reação involuntária, um hábito nascido de anos cuidando dele. Ele os odiava. A única vez que eu, por travessura, coloquei uma fatia em sua salada, ele se recusou a falar comigo por um dia inteiro.

As sobrancelhas perfeitamente arqueadas de Giselle se ergueram em divertimento. Ela olhou para mim como se eu fosse um grão de poeira em seus móveis impecáveis.

— É mesmo? — ela ronronou, virando-se de volta para Arthur. — Mas você vai comer por mim, não vai, meu amor?

Arthur nem sequer olhou para mim. Ele abriu a boca e a deixou alimentá-lo com o morango, seus dentes roçando as pontas dos dedos dela em um gesto que era ao mesmo tempo brincalhão e possessivo. Ele engoliu, depois se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido que a fez rir.

As pontas de suas orelhas ficaram vermelhas.

Eu só o tinha visto corar assim comigo, no escuro, quando ele pensava que ninguém estava olhando.

A cena foi um golpe físico. Eu era uma intrusa, uma relíquia de um passado que ele estava ativamente apagando. Virei-me sem outra palavra e fugi para o meu quarto, o som de suas risadas me perseguindo pelo corredor.

Tranquei a porta e peguei minha mala. Era hora de fazer as malas.

Eu vivi nesta casa por anos, mas tinha surpreendentemente poucas posses. Nunca fui de acumular coisas. Comecei a juntar os poucos itens que tinham valor sentimental, as coisas que eu não suportaria deixar para trás.

Abri a gaveta de baixo da minha cômoda. Era minha caixa secreta, uma coleção de memórias da minha vida com Arthur. Um ingresso de cinema do nosso primeiro "encontro", uma flor seca que ele uma vez colheu para mim, uma fotografia nossa de anos atrás, ambos sorrindo, parecendo para o mundo um casal feliz.

Olhei para os itens, para a prova tangível do amor que eu sentira, e não senti... nada. Nenhum arrependimento. Nenhuma nostalgia. Apenas uma finalidade silenciosa. Eu o amei, sim. Mas esse amor estava morto.

Eu estava prestes a fechar a gaveta, a trancar o passado para sempre, quando meus olhos caíram sobre uma pequena bolsa bordada. Um talismã.

Minha mão tremeu quando a peguei. Dentro, eu sabia o que encontraria.

Eu comprei esta bolsa após meu primeiro aborto espontâneo. Um amuleto para proteger meu próximo filho. Após o segundo, coloquei um minúsculo cadeado de prata dentro. E após o terceiro, e o quarto, e todos os que se seguiram. Oito minúsculos cadeados de prata, um para cada um dos meus bebês perdidos.

Agarrei a bolsa, o peso do meu luto de repente avassalador. A represa que eu construíra com tanto cuidado se rompeu, e uma onda de lágrimas quentes e silenciosas escorreu pelo meu rosto.

A porta se abriu com um estrondo, sem bater.

Giselle estava lá, um sorriso triunfante no rosto. Seus olhos correram do meu rosto manchado de lágrimas para a gaveta aberta, para a bolsa em minha mão.

— Oh, meu Deus — disse ela, sua voz escorrendo falsa simpatia. — O que é tudo isso? Um pequeno santuário para o seu amor não correspondido?

Eu rapidamente enxuguei meus olhos, minha mão se fechando protetoramente sobre a bolsa.

— Saia do meu quarto.

Ela me ignorou, entrando como se fosse a dona do lugar.

— Não seja tímida, Clara. Arthur me contou tudo. Sobre o seu... arranjo.

A palavra pairou no ar, feia e humilhante.

— Ele me disse como estava apenas brincando com você — ela continuou, sua voz um sussurro cruel. — Tudo. Um jogo de uma década para se vingar do seu pai.

Meu sangue gelou.

— Do que você está falando?

— Do seu pai — disse ela, seus olhos brilhando com malícia. — O homem responsável pela morte de toda a família de Arthur. Arthur passou os últimos dez anos fazendo você se apaixonar por ele, apenas para poder te destruir. Apenas para que seu pai pudesse sentir a dor de perder um filho. Ou, no seu caso, oito filhos.

Ela riu, um som verdadeiramente feio.

— E você, sua tola patética, você até foi a uma igreja rezar por aqueles pequenos erros. Pelos bastardos que ele nunca quis.

Seu olhar caiu sobre a bolsa em minha mão.

— Ele me disse que toda vez que te tocava, tinha que lutar contra a vontade de vomitar. Ele sentia nojo de você. A filha do inimigo dele.

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