Helena POV:
O rosto presunçoso de Beatriz foi a primeira coisa que vi quando voltei ao escritório na manhã seguinte. Ela estava encostada no batente da porta do meu escritório, o espaço que fora meu por oito anos, agora aparentemente absorvido por sua órbita. Seus olhos se estreitaram quando me aproximei. "Olha só quem decidiu nos agraciar com sua presença. Bernardo estava se perguntando se você finalmente tinha pirado de vez."
Eu não respondi. Apenas passei por ela, indo direto para minha mesa, que agora parecia território inimigo. Meu breve momento de rebelião ontem tinha sido exatamente isso - um momento. A fria realidade da minha situação se agarrava a mim como uma mortalha.
"Noite difícil, Helena?", ela insistiu, sua voz pingando preocupação artificial. "Você parece um pouco... desgrenhada. Sua pequena rebelião de ontem não deu certo?" Seus lábios se curvaram em um sorriso de escárnio.
Coloquei minha pasta na minha mesa agora bagunçada, ignorando as pilhas de papelada que não eram minhas. "O que você quer, Beatriz?" Minha voz era monótona, desprovida de emoção.
Ela se desencostou do batente da porta, aproximando-se. Sua bolsa da Chanel pendia ostensivamente de seu ombro. "Só curiosidade. Você parecia bem nervosa. Como uma mola que finalmente estourou." Ela riu, um som frágil e sem humor. "Ou talvez você finalmente tenha percebido que algumas pessoas nasceram para vencer, e outras para... bem, servir." Ela deu de ombros, como se fosse uma verdade universal.
Eu olhei para ela, olhei de verdade. Seu terno de grife, seu cabelo perfeitamente penteado, a inclinação condescendente de sua cabeça. Ela era uma caricatura de sucesso, uma fachada brilhante. "Sabe, Beatriz", eu disse, minha voz mal um sussurro, "deve ser exaustivo, fingir ser algo que você não é."
Seu sorriso desapareceu. Seus olhos brilharam de raiva. "O que isso quer dizer?"
"Significa", continuei, encarando-a de frente, "que a verdade sempre aparece. Eventualmente."
Ela recuou ligeiramente, um lampejo de insegurança cruzando seu rosto antes de ser substituído por puro veneno. "Você se acha tão esperta, não é? Tão nobre. Mas você é apenas amarga, Helena. Um brinquedo amargo e descartado." Ela girou nos calcanhares, sua blusa de seda farfalhando. "Aproveite sua festinha de autopiedade. Bernardo e eu temos um escritório para administrar."
Como se fosse um sinal, Bernardo saiu de seu escritório, um sorriso deslumbrante estampado no rosto. Ele passou um braço pela cintura de Beatriz, puxando-a para perto. "Tudo bem, meu amor?", ele murmurou, seus olhos passando por mim com um olhar fugaz e desdenhoso.
Beatriz sorriu para ele. "Apenas resolvendo alguns... negócios antigos, querido." Ela se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido, depois riu.
Eu os observei, um par perfeito e polido. Ele, o ambicioso sócio sênior, e ela, a nova e brilhante estrela com conexões poderosas. A ironia teria sido risível se não parecesse um soco no estômago.
Eles caminharam em direção à sala de conferências, o braço de Bernardo ainda em volta de Beatriz. Ela balançou um pouco, seus saltos altos prendendo no carpete, e uma pilha de arquivos que ela carregava - arquivos do meu acordo de tecnologia - caiu de suas mãos, espalhando-se pelo chão de mármore polido. Papéis, diagramas, contratos... eles se espalharam como folhas caídas.
Beatriz gritou, um som agudo e afetado. "Ai meu Deus, minhas unhas! Bernardo, querido, me ajude!"
Bernardo, sempre o cavalheiro, ajoelhou-se para juntar os papéis. Mas Beatriz, agitando-se dramaticamente, conseguiu chutar uma xícara de café que estava precariamente em um carrinho próximo. Ela atingiu o chão com um estalo de porcelana quebrando, espalhando líquido marrom escaldante, sachês de açúcar e mexedores descartados em uma bagunça profana.
O cheiro de café queimado encheu o ar. Beatriz ofegou, agarrando o braço. "Ah, que horror! Meu terno novo está arruinado!", ela lamentou, embora apenas algumas gotas tivessem realmente tocado sua manga.
Bernardo olhou para cima, sua expressão uma mistura de aborrecimento e preocupação forçada. Ele me viu parada ali, uma observadora silenciosa. Seus olhos endureceram. "Helena", ele ordenou, sua voz afiada, cortando o drama de Beatriz. "Venha aqui e limpe isso. Imediatamente."
Meu sangue gelou. Limpe isso. Como uma subordinada. Como uma empregada. Como sua "assistente jurídica de graça".
Hesitei, meu corpo enrijecendo. A injustiça queimava.
"Helena! Não me faça pedir de novo", Bernardo estalou, seu charme se dissolvendo em impaciência. "Beatriz está aflita. Temos uma reunião em cinco minutos. Alguém precisa resolver isso." Ele apontou para a bagunça, depois para mim. "Você é boa nesse tipo de coisa. Eficiente."
Eficiente. Ele sempre tinha um elogio disfarçado pronto. Meu estômago se revirou. Eu sabia o que era isso. Uma humilhação pública. Um lembrete do meu lugar.
Minha menstruação tinha começado naquela manhã, uma dor surda na parte inferior das costas, uma pulsação constante que sublinhava cada golpe emocional. Parecia que meu corpo estava espelhando a traição, uma manifestação física da ruína emocional. Eu havia suportado tantas dores por Bernardo, por sua carreira, por nós. Isso parecia apenas mais uma, um teste final da minha resistência.
Com um suspiro que pareceu arrancado das profundezas da minha alma, caminhei em direção ao café derramado. Abaixei-me, ignorando a dor latejante, ignorando o sorriso triunfante de Beatriz. Meus dedos, acostumados a virar páginas de processos, agora pegavam cerâmica quebrada e sachês de açúcar pegajosos.
"Cuidado, Helena", Beatriz arrulhou, recuando como se meu toque pudesse contaminá-la. "Não vai querer sujar seu terninho bonito. Ah, espere, você está usando... o da estação passada." Sua risada era como cacos de vidro.
Bernardo não disse nada. Ele apenas observou, um cúmplice silencioso. Ele sempre fazia isso. Ele me observava limpar suas bagunças, seus erros, seus detritos. Por oito anos, eu limpei a sujeira dele.
Uma onda de náusea me atingiu. Pressionei uma mão no meu abdômen. A dor era aguda, quase debilitante. Minha visão embaçou por um segundo. Eu balancei, meus joelhos ameaçando ceder.
Bernardo, por uma fração de segundo, começou a estender a mão, sua mão se estendendo. Um lampejo de algo parecido com preocupação cruzou seu rosto.
Mas Beatriz foi mais rápida. Ela ofegou, uma mão dramática voando para o peito. "Bernardo, querido, estou me sentindo fraca. Esse cheiro... é avassalador." Ela se apoiou pesadamente nele, desviando sua atenção, seus olhos me lançando um olhar triunfante.
Ele imediatamente se virou, sua mão pousando nas costas dela, guiando-a para longe. "Vamos tomar um ar fresco, Beatriz. Helena pode cuidar disso." Ele nem olhou para trás. Nenhuma vez.
Eles se afastaram, o braço de Bernardo ainda em volta de Beatriz, suas vozes desaparecendo enquanto entravam na sala de conferências. Fui deixada sozinha, ajoelhada no chão de mármore frio, cercada pelos destroços de café derramado e porcelana quebrada. Minha cabeça girava, a dor no meu estômago se intensificando. Minhas mãos, pegajosas e manchadas, tremiam.
Oito anos. Oito anos da minha vida, meu amor, minha lealdade. Reduzidos a isso. Limpando a bagunça da nova namorada dele.
Um nó frio e duro se formou no meu estômago. Isso não era apenas uma humilhação. Era um momento de clareza absoluta. Ele não se importava. Ele nunca se importou. Ele nunca se importaria. E eu desperdicei tanto para aprender essa verdade simples e brutal.
Eu limparia isso. Mas seria a última coisa que eu faria por Bernardo Molina. Meu último ato nesta peça distorcida e degradante. Não era apenas café que eu estava limpando. Era o meu passado. E eu estava esfregando-o até ficar limpo.
Deste escritório. Desta firma. Da vida dele. Para sempre.
Helena POV:
O cheiro de café velho ainda grudava nas minhas roupas, um lembrete amargo do meu último ato de servidão. Mas desta vez, era diferente. Desta vez, enquanto eu caminhava em direção ao RH, havia uma leveza em meus passos, um propósito desafiador em minha passada. A dor no meu estômago ainda estava lá, uma dor surda, mas era ofuscada por uma resolução feroz.
O departamento de RH, geralmente um espaço estéril e silencioso, pareceu estranhamente acolhedor. Dona Célia, uma mulher de rosto gentil que estava na firma há mais tempo que qualquer um, ergueu os olhos do computador, sua expressão se suavizando quando me viu. "Helena, querida. Que surpresa. Entre, entre."
Sentei-me na cadeira em frente a ela, minha pasta apoiada na perna. "Dona Célia", comecei, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. "Estou aqui para pedir demissão."
Ela piscou, seu rosto geralmente composto mostrando um lampejo de choque genuíno. "Demissão? Helena, você está falando sério? Você acabou de... acabou de perder a promoção para sócia júnior, eu sei, mas pensei que você fosse ficar e lutar por ela no próximo ano." Seu olhar continha uma pena conhecedora. Todos sabiam sobre Beatriz. Todos sabiam sobre Bernardo.
"Estou falando sério", confirmei, encontrando seus olhos. "Com efeito imediato."
Ela se inclinou para frente, sua voz baixa. "Bernardo sabe disso?"
Uma risada sem humor escapou dos meus lábios. "Não. E ele não saberá até que esteja feito." Fiz uma pausa e acrescentei: "Se a senhora puder agilizar o processo, ficarei grata."
Dona Célia me estudou por um longo momento, seus olhos perscrutando os meus. Então, um sorriso pequeno e triste tocou seus lábios. Ela assentiu lentamente. "Eu entendo, Helena. De verdade. Você é uma das melhores, sabe. Um ativo absoluto para esta firma. Bernardo... ele está cometendo um erro do qual se arrependerá."
Suas palavras foram um bálsamo para meus nervos em frangalhos. Eu simplesmente assenti, um nó apertado se formando na minha garganta. "Obrigada, Dona Célia."
Ela começou a digitar, seus dedos voando pelo teclado. O ar se encheu do silencioso clique-claque das teclas, um som de finalidade. Era isso. A ruptura oficial.
Meu celular vibrou, vibrando contra minha coxa. Bernardo. Ele estava ligando. De novo. Ignorei. Eu o ignorava desde que enviei aquele único e desafiador "Não". Ele ligou três vezes, mandou duas mensagens, cada uma se tornando progressivamente mais exigente.
Dona Célia terminou de digitar. Ela deslizou um formulário pela mesa. "Apenas assine aqui, Helena. E seu pagamento final será processado até o final da semana."
Peguei a caneta, minha mão firme agora. Assinei meu nome, um floreio de liberdade. Foi surpreendentemente bom. Como se estivesse me livrando de uma pele pesada.
"Helena", disse Dona Célia, sua voz gentil, "ele está tentando falar com você. Ele também tem ligado para o meu escritório, perguntando se eu te vi. Ele parece... frenético."
Eu apenas balancei a cabeça. "Não importa mais."
Quando me levantei para sair, meu celular vibrou novamente, uma nova mensagem. Olhei para a tela. Era Bernardo. "Helena, que porra está acontecendo? Minha assistente acabou de me dizer que você se demitiu. Você não pode estar falando sério. Venha ao meu escritório. Agora. Precisamos conversar. Isso é infantil."
Infantil. Essa era sua palavra favorita para qualquer coisa que desafiasse seu controle. Ele sempre achou que poderia resolver as coisas, oferecer uma concessão, uma bugiganga, e eu voltaria à linha. Ele fez isso inúmeras vezes. Após o aborto, quando eu era uma casca de mim mesma, ele me comprou uma pulseira de diamantes. "Por ser tão compreensiva", ele disse. Quando descobri que ele tinha feito uma viagem de fim de semana com outra associada para uma "reunião com cliente", ele se desculpou profusamente, chamando de "mal-entendido", e reservou uma escapada romântica para nós. Eu, sempre a tola esperançosa, sempre acreditei nele. Sempre aceitei seus gestos superficiais como remorso genuíno.
Mas não desta vez. A náusea de mais cedo voltou, mas desta vez, era puro nojo. O pensamento de suas mãos em mim, suas palavras suaves, suas desculpas calculadas... me dava arrepios.
Ele seguiu com outra mensagem. "Eu vou consertar as coisas, Helena. Seja o que for. Diga o seu preço. Podemos viajar neste fim de semana. Só nós dois. Como nos velhos tempos."
Como nos velhos tempos. Ele achava que poderia me comprar de volta com uma viagem de fim de semana e promessas. Ele achava que eu era tão fácil de manipular.
Meu olhar vagou para a lixeira ao lado da mesa de Dona Célia. Uma embalagem de doce velha e amassada jazia no fundo. Parecia apropriado.
Digitei uma resposta. Uma palavra. "Adeus."
Hesitei, depois acrescentei: "Não entre em contato comigo de novo." E enviei.
Era isso. O corte final. Eu nunca me recusei a ficar na casa dele quando ele pedia, nunca o excluí de verdade. Nenhuma vez em oito anos.
Meu celular permaneceu em silêncio. Por um longo momento, um silêncio enervante se estendeu entre Dona Célia e eu. Parecia que todo o escritório prendia a respiração.
Então, um pensamento súbito e desconhecido me ocorreu. Ele não estava em silêncio porque estava com raiva. Ele estava em silêncio porque estava chocado. Ele genuinamente não conseguia compreender que eu, Helena Tavares, sua "assistente jurídica de graça", sua "mercadoria avariada", finalmente tinha ido embora. Ele ainda achava que eu estava apenas fazendo birra, que eu voltaria rastejando. Ele ainda acreditava que eu era dele.
Ele teria um despertar rude.