Capítulo 2

Ponto de Vista de Kiara Valença:

Na manhã seguinte, Guilherme tentou me tocar. Sua mão alcançou meu ombro enquanto eu estava sentada à mesa da cozinha, encarando uma xícara de café frio. Eu me encolhi, como se seu toque queimasse. Ele recuou, seu rosto uma mistura de confusão e irritação.

Horas depois, o telefone tocou. Era o hospital. Lucas. Uma reação alérgica. Meu coração saltou para a garganta, um terror doentio e familiar. Dirigi até lá como uma louca, a imagem de seu rosto inchado já piscando em minha mente.

Ele estava em uma cama, ligado a monitores. Guilherme estava lá, parecendo aflito. Uma enfermeira ajustava um soro. Quando me aproximei, Lucas se mexeu, seus olhos se abrindo lentamente.

"Mamãe?", ele murmurou, a voz rouca. O alívio me inundou, tão potente que fez meus joelhos fraquejarem.

"Estou aqui, meu amor", sussurrei, pegando sua mão. Ele olhou para além de mim.

"Cadê a Bia?", ele perguntou, um gemido pequeno e infantil. "Ela me prometeu sorvete se eu fosse corajoso."

As palavras me atingiram como um golpe físico. Minha respiração engasgou. Sorvete. Uma recompensa por bravura. Ele estava pedindo por ela, mesmo aqui, mesmo agora. Meu próprio filho. Senti o último pedaço do meu coração se partir.

Uma sensação quente e ardente queimou atrás dos meus olhos. Pisquei furiosamente, forçando as lágrimas a voltarem. Não era a hora. Eu era sua mãe. Ele precisava de mim.

"Guilherme", eu disse, minha voz tensa e forçada. Entreguei a ele um pequeno caderno gasto. "Aqui tem todo o histórico médico do Lucas. Todos os gatilhos específicos, as dosagens, cada pequeno detalhe." Minha mão tremeu levemente ao passá-lo.

Ele me olhou, perplexo. "O que você está fazendo?"

"Eu cansei", afirmei, as palavras planas e finais. "Nós acabamos. Este casamento, ou seja lá o que foi, acabou."

Ele zombou, um som desdenhoso. "Kiara, não seja dramática. Você está exausta. Podemos conversar sobre isso mais tarde, em particular." Ele descartou minha dor, minha devastação, como mero teatro.

Nesse momento, a porta se abriu. Beatriz. Ela entrou, carregando um urso de pelúcia ridiculamente grande e um balão rosa brilhante. Seus olhos foram direto para Lucas.

"Oh, meu pobre super-herói!", ela arrulhou, correndo para o lado dele. Ela me empurrou gentilmente para o lado, sua presença irradiando um calor possessivo. "A Bia está aqui! Você foi tão corajoso!" Ela beijou sua testa, afastando seu cabelo.

Uma sensação gelada me percorreu. Ela estava bancando a mãe. Na minha frente. Na frente de todos.

Então ela notou minha presença. Seu sorriso vacilou, substituído por um sorriso açucarado e condescendente. "Ah, Kiara. Sinto muito. Sei que isso deve ser difícil para você. O Gui me disse que você tem andado um pouco... sensível ultimamente." Ela deu um tapinha no meu braço, um gesto de falsa simpatia.

Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu podia sentir os olhos da enfermeira, do médico, até mesmo de Guilherme, sobre mim. Eles viam a esposa 'instável', a Kiara 'sensível'. Eles a viam como a presença carinhosa e protetora.

"Me desculpe se passei dos limites", disse Beatriz, sua voz escorrendo falsidade. "Mas o Lucas me ama tanto. Ele praticamente implora para eu vir. E eu simplesmente não consigo dizer não para aquele rostinho doce, não é?" Ela olhou para Guilherme, um triunfo dissimulado em seus olhos.

Eu não consegui responder. O ar parecia denso, sufocante. Eu precisava escapar, só por um momento. Virei-me e saí do quarto, minhas pernas parecendo chumbo.

Lá fora, no corredor estéril, encostei-me na parede, tentando recuperar o fôlego. Os últimos anos passaram diante dos meus olhos. Os invernos intermináveis sozinha, a depressão esmagadora, o monitoramento cuidadoso de cada mordida de Lucas. Tudo um palco para a vida secreta deles. Meu sacrifício, a conveniência deles.

Ouvi a porta se abrir novamente. Não me virei. Eram Guilherme e Beatriz. Suas vozes eram baixas, sussurradas.

"O Lucas está estável", disse Guilherme. "Ele quer que você fique esta noite, Bia."

"Oh, meu bem", Beatriz ronronou. "Você sabe que eu adoraria, mas a Kiara parecia bem chateada. Ela pode fazer uma cena."

Meu filho. Meu doce menino. Ele estava pedindo por ela. Não por mim.

"Por favor, Bia", a vozinha de Lucas flutuou para fora. "Fica comigo. A mamãe tá sempre triste."

Guilherme suspirou. "Ela vai ficar bem. Ela sempre fica." Ele soava irritado. Não preocupado. Irritado.

Eu era uma estranha. Um fantasma assombrando minha própria vida.

Mais tarde, uma médica saiu para falar com Guilherme. Ela perguntou sobre os gatilhos específicos de Lucas, suas reações passadas, qualquer mudança recente na medicação. Guilherme se atrapalhou, gaguejando. "Eu... eu não tenho certeza. A Kiara cuida de tudo isso." Ele parecia desamparado, incompetente.

Eu dei um passo à frente. "O gatilho principal dele é amendoim, especificamente óleos de amendoim refinados. Ele toma um anti-histamínico diário, Fexofenadina, 180mg, e carregamos duas canetas de adrenalina. A última reação grave dele foi há dois anos, por contaminação cruzada em uma festa da escola." Minha voz era firme, factual. A médica assentiu, grata. Guilherme pareceu surpreso, quase envergonhado.

Uma risada amarga borbulhou. Eles precisavam de mim para as coisas complicadas e reais. Mas queriam ela para a diversão.

Beatriz apareceu, de braços cruzados. "Bem", ela bufou, olhando para Guilherme. "Acho que vou embora então. O Lucas precisa da mãe de verdade dele, afinal." Ela começou a se afastar, uma saída dramática.

"Bia, não!", Lucas gritou de dentro do quarto. Sua voz estava crua, de coração partido. "Não vai! Não me deixa! Eu quero você!"

Meu coração se estilhaçou, mil pequenos cacos me perfurando. Ele não me queria. Ele queria ela.

Voltei para o quarto. Lucas estava chorando, estendendo a mão para Beatriz. Meus olhos encontraram os dela. Um sorriso triunfante e cruel.

"Não se preocupe, Lucas", eu disse, minha voz mal um sussurro. Estava quase firme. "Ela pode ficar. Eu vou." Olhei para Guilherme. Seu rosto era indecifrável. "Eu não estarei aqui. Você não terá que se preocupar comigo fazendo uma 'cena' nunca mais." Virei-me e saí, cada passo uma libertação deliberada, deixando para trás os destroços da minha família.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Kiara Valença:

Uma dor latejante explodiu atrás dos meus olhos, pressionando meu crânio. Parecia uma britadeira contra o concreto. Peguei meu celular, meus dedos trêmulos. Guilherme. Eu precisava do Guilherme.

"Kiara? O que foi?" Sua voz estava sonolenta.

"Minha cabeça", consegui sussurrar, as palavras quase inaudíveis. "Dói. Muito."

Ele pareceu irritado. "Estou com o Lucas no hospital, lembra? Ele acabou de dormir." Mas então, uma pausa. "Você está bem? Sua voz está muito ruim." Ele não perguntou o que havia de errado, apenas se eu estava bem.

Uma hora depois, sua chave girou na fechadura. Ele me encontrou no chão do banheiro, agarrando minha cabeça. Ajoelhou-se ao meu lado, seu rosto suavizado pela preocupação. Ele me trouxe água, me ajudou a tomar um analgésico. Ele até ficou, sentado na beirada da banheira, até que o pior da dor passasse.

"O Lucas só ficou muito chateado com a Beatriz indo embora", ele tentou, sua voz baixa. "Ele não quis dizer nada daquilo, Kiara. Ele te ama." Ele disse isso como uma fala ensaiada, um consolo em que ele mesmo não acreditava muito.

Então ele foi embora. De volta ao hospital. De volta para Lucas. De volta para a vida que ele construiu longe de mim. Ouvi a porta bater, o som ecoando na casa vazia.

A dor de cabeça não desapareceu de verdade. Permaneceu, uma dor surda que se intensificava sempre que eu tentava me concentrar. Meu corpo parecia pesado, lento. Uma fadiga estranha se instalou em mim, mais profunda que meu desespero sazonal habitual. Senti um calafrio, um frio profundo que nenhum cobertor poderia curar.

Eu sabia que precisava ver um médico. Mas não podia pedir a Guilherme. Não podia ligar para um amigo. Dirigi sozinha, minha cabeça latejando a cada curva, até uma UPA.

"Então, Sra. Valença", disse o jovem médico, folheando meu prontuário. "Você toma fluoxetina para depressão, certo? E temos uma receita aqui para zolpidem, para insônia."

"Sim", confirmei, minha voz rouca. "Mas não tenho tomado o zolpidem. Me deixa grogue. E a fluoxetina não está mais ajudando. Me sinto pior."

O médico olhou para o frasco de comprimidos que eu havia trazido. Sua testa se franziu. "Isso não é fluoxetina, Sra. Valença." Ele o ergueu contra a luz. "E definitivamente não é zolpidem."

Meu coração disparou. "O quê? É o que o Guilherme me dá. Ele que compra meus remédios."

O médico apertou os olhos para o rótulo. "Esta é uma dose alta de um sedativo potente. E uma dose baixa de um antipsicótico. Isso certamente explicaria seus sintomas – as dores de cabeça, a fadiga, a confusão mental."

Um sedativo. Um antipsicótico. Não para depressão. Não para insônia. Minha mente girou. Guilherme. Ele comprava meus remédios. Ele me dava esses comprimidos.

Ele não estava tentando me ajudar. Ele estava tentando me manter quieta. Dócil. Confusa. Ele estava tentando me manipular, me fazer acreditar que eu estava perdendo a cabeça, para que eu não questionasse suas mentiras. A percepção me atingiu com a força de um golpe físico, mais frio que qualquer inverno, mais afiado que qualquer lâmina.

Meu corpo começou a tremer, incontrolavelmente. O calafrio que se instalara no fundo de mim agora se transformou em um tremor violento. Meus dentes batiam, embora a sala estivesse quente. Não era apenas o frio; era o terror puro e profundo de ser tão completamente violada, tão completamente predada pela única pessoa em quem eu mais confiava.

Eu precisava ir embora. De tudo. Dele. Desta casa. Desta vida. Eu tinha que fugir antes de desaparecer de verdade.

Andei pela casa como um zumbi. Comecei a fazer as malas, jogando roupas aleatoriamente em uma mala. Meus olhos caíram sobre uma pequena caixa de madeira ornamentada na minha cômoda. Dentro estava nossa "certidão de casamento", emoldurada. Era um documento lindo, com nossos nomes, a data. Guilherme sempre disse que cuidaria do registro oficial.

Eu a peguei. Uma memória piscou. Lucas, tão pequeno, desenhando nossa família. Um boneco de palito eu, um boneco de palito Guilherme, e um minúsculo boneco de palito Lucas, todos de mãos dadas. Ele havia escrito: "Mamãe e Papai são para sempre."

Meus olhos ficaram turvos. Lembrei-me do bilhetinho que ele colocou na minha bolsa depois do nosso "casamento". Dizia, com uma caligrafia infantil e trêmula: "Mamãe, eu te amo mais que todos os amendoins do mundo."

As palavras, antes um doce testemunho de seu amor e sua compreensão de sua própria alergia perigosa, agora se torciam em uma zombaria cruel. Mais que todos os amendoins do mundo. Ele estava usando esses mesmos amendoins como uma arma contra mim. Ele os estava usando para escolhê-la.

Um soluço gutural rasgou meu peito. Caí de joelhos, agarrando a caixa de madeira. A dor estava além de qualquer coisa que eu já conhecera. Não era apenas traição; era uma aniquilação completa da minha realidade. Minha mãe, minha rocha, se fora. Meu marido, minha âncora, era um monstro. Meu filho, meu coração, era cúmplice.

Peguei o pequeno porta-retrato com a foto da minha mãe, aquele que eu mantinha na minha mesa de cabeceira. Segurei-o perto, buscando conforto da única pessoa que já me amou incondicionalmente.

Não havia mais nada. Ninguém. Eu estava sozinha. Totalmente, completamente sozinha. E eu estivera por anos, sem nem mesmo saber.

O som de chaves chacoalhando na fechadura. Guilherme. Lucas. Eles estavam em casa. Meu coração disparou, não de medo, mas de uma calma fria e desolada.

"Mamãe, cheguei!", Lucas chamou, sua voz alegre.

"Já chega, Lucas", disse Guilherme, sua voz uma repreensão baixa. "Sua mãe ainda não está se sentindo bem."

"Mas a Bia disse que eu podia ganhar um doce quando chegasse em casa", Lucas choramingou. "Ela disse que eu me comportei o dia todo."

Uma dor aguda e insuportável me atravessou. Beatriz. Sempre Beatriz.

Saí do quarto, meu rosto inexpressivo. "A Beatriz também te ensinou a mentir para sua mãe?" Minha voz era firme, quase calma demais.

Lucas congelou, seus olhos arregalados. Ele olhou para Guilherme, depois de volta para mim. "Não", ele sussurrou, olhando para baixo.

"Kiara, para com isso", Guilherme avisou, sua voz baixa. "Você está assustando ele. O que deu em você?"

O que deu em mim? Apenas a verdade. "A verdade, Guilherme", eu disse suavemente. "Ela finalmente deu em mim." Olhei para ele, meus olhos vazios. "A verdade sobre você. A verdade sobre nós. A verdade sobre o que você tem feito comigo. Todo esse tempo." Ele me olhou, um lampejo de algo, talvez medo, em seus olhos. Ele ainda não sabia o quanto eu sabia. Ele apenas pensava que eu estava "sensível".

Ele parecia perplexo. "Kiara, você não está fazendo sentido. Você só está cansada. Deixa eu pedir comida. Podemos todos sentar e conversar. Você só precisa descansar." Ele ainda estava tentando me manipular, me acalmar com falsa preocupação. Mas suas palavras eram ocas, sem sentido. Eram apenas ruído agora.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED