Ponto de Vista: Juliana
Naquela noite, Arthur bateu na minha porta. Ele segurava um copo de leite morno, algo que costumava fazer quando eu não conseguia dormir. O gesto parecia uma zombaria agora.
"Posso entrar?", ele perguntou, a voz suave.
Fiquei em silêncio, bloqueando a passagem.
Ele interpretou meu silêncio como permissão e tentou entrar, mas eu não me movi. Seus olhos, cheios de uma tristeza falsa, encontraram os meus. "Juliana, você pensou sobre o que eu e a Cláudia dissemos?"
"Você quer dizer a proposta onde eu sou esterilizada para criar o filho bastardo de vocês?" As palavras eram ácido na minha língua.
Ele se encolheu. "Não é assim. É a melhor solução para todos. Para a nossa família."
Nossa família. As palavras eram uma piada.
"E se eu disser não?", perguntei, minha voz sem emoção.
Seu rosto endureceu, a súplica suave substituída por um lampejo do empresário implacável que ele era. "Então não podemos nos casar, Juliana. Eu não posso abandonar meu filho. Você não me pediria para fazer isso."
Aí estava. O ultimato. Meu futuro em troca da conveniência dele. Uma dor fria e aguda atravessou meu peito, tão intensa que me fez ofegar. Ele estava disposto a jogar fora tudo o que tínhamos, tudo o que eu pensei que tínhamos, por este... este arranjo grotesco.
"Vou pensar sobre isso", eu disse, a mentira deslizando facilmente dos meus lábios. Eu precisava de tempo. Precisava que ele me deixasse em paz para que eu pudesse terminar de fazer as malas.
O alívio tomou conta de suas feições. Ele pensou que tinha vencido. Ele sempre vencia. "Eu sabia que você entenderia, meu amor." Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça, e seus lábios roçaram meu cabelo. "Eu sei que isso é difícil, mas é o único jeito. A Cláudia é minha irmã. Minha responsabilidade. Você e eu... somos diferentes. Nós vamos ser marido e mulher."
Marido e mulher. As palavras não significavam nada.
"Estou cansada, Arthur", eu disse, minha voz oca. "Quero dormir."
Ele parecia querer dizer mais, mas apenas assentiu, colocando o copo de leite na mesa de cabeceira. "Ok. Conversamos mais amanhã."
Ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. Fiquei olhando para o copo de leite, um símbolo de um cuidado que nunca foi real. Eu queria espatifá-lo contra a parede. Em vez disso, apenas o deixei lá, intocado.
Alguns minutos depois, houve outra batida, mais suave. Meu coração afundou. Pensei que fosse Arthur, de volta para mais uma rodada de manipulação.
Abri a porta e encontrei Cláudia parada ali, um sorrisinho presunçoso no rosto.
"O Arthur me disse que você está considerando nossa proposta", disse ela, os olhos brilhando. "Eu sabia que você era uma garota esperta."
Eu apenas a encarei. "O que você quer, Cláudia?"
Ela se encostou no batente da porta, a mão descendo novamente para a barriga. "Eu só queria ter certeza de que você entendeu a situação claramente. Veja, este bebê...", ela fez uma pausa, deixando o silêncio pairar no ar. "Este bebê pode ser do Arthur, mas foi concebido porque ele estava pensando em mim."
A insinuação pairou no ar, vil e sufocante. Uma onda de náusea me atingiu. Parecia um soco físico no estômago, roubando o ar dos meus pulmões.
"Você está mentindo", sussurrei, embora uma parte fria de mim soubesse que não.
Seu sorriso se alargou. "Será? Pergunte a si mesma, Juliana. Para quem ele volta para casa? Por quem ele cancela a vida dele? Você é apenas um tapa-buraco. Um tapa-buraco conveniente e bonitinho até ele perceber quem ele realmente queria." Ela se inclinou para mais perto, a voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você tem coragem de perguntar a ele, Juliana? De perguntar em quem ele estava pensando naquela noite?"
"Saia", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva tão profunda que parecia que ia me despedaçar. "Saia do meu quarto."
Ela riu, um som leve e tilintante que irritou meus nervos. "Claro." Ela se afastou, os quadris balançando, deixando-me parada na porta, tremendo.
Bati a porta com força, minhas costas pressionadas contra a madeira. A mentira que eu vinha contando a mim mesma por anos desmoronou ao meu redor. As ligações tarde da noite que ele atendia em outro quarto. A maneira como seu braço demorava um segundo a mais em volta da cintura dela. Os olhares trocados em uma mesa de jantar que continham um mundo de significados dos quais eu nunca participei.
Eu tinha justificado tudo. Eles eram irmãos. Eram próximos. Eu estava sendo paranoica.
Mas não era paranoia. Era a verdade, me encarando o tempo todo. Uma verdade tão feia, tão distorcida, que eu não me permiti ver. Pensar neles juntos, daquela forma... uma repulsa vil e física subiu pela minha garganta.
Nesse momento, a porta se abriu novamente com um estrondo. Arthur estava lá, o rosto contorcido de raiva. "O que você disse para a Cláudia? Ela está lá embaixo chorando, dizendo que você a ameaçou!"
Ele nem mesmo perguntou a minha versão. Ele nunca perguntava.
Olhei para ele, para seu rosto bonito e furioso, e uma calma estranha se apoderou de mim. A dor ainda estava lá, uma dor surda e latejante, mas agora estava distante.
"Você está certo, Arthur", eu disse, minha voz uniforme. "Eu vou fazer. Vou concordar com a cirurgia."
Sua raiva desapareceu, substituída por um sorriso brilhante e aliviado. "Ah, Juliana. Meu amor. Eu sabia. Eu sabia que você me amava."
Ele correu para frente e me puxou para um abraço. Fiquei rígida em seus braços, meu corpo sem resposta.
"Podemos nos casar imediatamente", disse ele, a voz tonta com sua vitória. "Amanhã, não, depois de amanhã. Finalmente estaremos casados."
Ele pegou minha mão, o polegar acariciando meus nós dos dedos. Sutilmente, puxei minha mão. "Deveríamos esperar", eu disse, minha voz ainda estranhamente calma. "A saúde da Cláudia é a coisa mais importante agora. Não deveríamos apressar as coisas enquanto ela está tão frágil."
Ele olhou para mim, os olhos brilhando de adoração. Ele pensou que eu estava sendo altruísta. Ele não tinha ideia.
"Você está certa", disse ele, beijando meu cabelo novamente. Aquele beijo, que uma vez pareceu uma promessa, agora parecia uma violação. "Você é sempre tão atenciosa."
Do corredor, pude ver Cláudia espiando pela esquina, o rosto uma máscara de choque. Ela não esperava que eu concordasse tão facilmente. Ela queria uma briga.
Ela rapidamente se recompôs e se aproximou, agarrando-se ao braço de Arthur. "Já que a Juliana está se sentindo melhor, podemos ir às compras amanhã? Preciso de algumas roupas de maternidade novas."
"Claro", disse Arthur instantaneamente, sem nem olhar para mim. "Juliana, você vem com a gente. Você pode ajudar a Cláudia a escolher algumas coisas."
A ideia de passar um dia assistindo-os brincar de família feliz era nauseante. Mas eu assenti. Eu representaria meu papel até poder escapar.
O dia seguinte no shopping foi um inferno particular. Eles caminhavam na minha frente, o braço dele em volta dela, rindo e sussurrando como um casal de verdade. Eu os seguia, um fantasma invisível. Deveríamos estar comprando roupas de maternidade para ela, mas logo eles estavam em uma joalheria, olhando pulseiras de bebê.
Esta era a vida que ele havia planejado para mim. Uma vida como babá glorificada de sua prole incestuosa. Uma vida de desespero silencioso, de assistir o homem que eu amava amar outra pessoa. Uma dor tão aguda e súbita atravessou meu coração que tive que parar e pressionar a mão no peito, apenas para ter certeza de que ainda estava batendo.
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Ponto de Vista: Juliana
O shopping estava decorado para o Natal, uma árvore gigante e brilhante dominando a praça central. Enfeites bregas e enormes pendiam do teto, balançando suavemente na brisa do ar-condicionado.
"Ah, Arthur, vamos tirar uma foto!", Cláudia gritou, puxando-o em direção à árvore. Ela enfiou o celular na minha mão. "Juliana, seja um amorzinho e tira uma foto boa pra gente."
Ela posou, encostando-se em Arthur, a mão possessivamente em seu peito. Ele sorriu para ela, o braço instintivamente envolvendo sua cintura, puxando-a para mais perto. Eles pareciam um casal perfeito e feliz. Uma faca se revirou no meu estômago.
Levantei o celular, minhas mãos tremendo levemente. Através da tela, eu os vi, um retrato do meu inferno pessoal. Meu dedo pairou sobre o botão de captura.
Então, houve um terrível som de rangido vindo de cima.
Olhei para cima bem a tempo de ver um dos enfeites gigantes e brilhantes — um floco de neve enorme e ridículo — se soltar de seu cabo. Ele balançou descontroladamente por um momento antes de despencar diretamente em nossa direção.
Tudo aconteceu em câmera lenta.
Vi o terror no rosto de Cláudia. Vi os olhos de Arthur se arregalarem. E o vi reagir sem pensar.
Ele empurrou Cláudia para fora do caminho, seu corpo protegendo o dela, sua única preocupação a segurança dela.
Ele nem sequer olhou para mim.
Eu estava parada bem ao lado deles, mas era como se eu não existisse. Não houve tempo para me mover, nem tempo para gritar. O mundo explodiu em uma chuva de plástico, glitter e dor excruciante quando a decoração maciça caiu em cima de mim.
Minha perna cedeu, uma agonia lancinante subindo do meu tornozelo. Minha cabeça bateu no chão de mármore polido com um baque doentio. A última coisa que vi antes que a escuridão me engolisse foi Arthur, ajoelhado ao lado de uma Cláudia perfeitamente bem, seu rosto marcado de preocupação por ela. Não por mim.
Lágrimas escorreram dos meus olhos, quentes contra minha pele fria. Mas eu não estava chorando de dor. Estava chorando porque, naquela fração de segundo, eu tive minha resposta. Ele nunca me escolheria. Ele me deixaria morrer para salvá-la de um arranhão.
Minha consciência oscilou. Lembro-me do caos, dos gritos, do uivo de uma sirene. Acordei brevemente na traseira de uma ambulância, um paramédico tentando colocar uma máscara de oxigênio no meu rosto.
"Precisamos levá-la para um quarto VIP imediatamente, concussão grave e possível fratura", ele gritava em um rádio.
"Negativo", uma voz respondeu com estática. "A ala VIP está em lockdown. Ordens do Sr. Loureiro. A irmã dele ficou assustada com o acidente e precisa de silêncio absoluto para descansar."
A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado. Eu estava deitada em uma ambulância, gravemente ferida, mas não conseguia um quarto no hospital — o hospital dele — porque sua preciosa Cláudia estava assustada.
A dor era uma coisa viva, um monstro me arranhando por dentro. Desmaiei novamente.
Quando finalmente acordei de vez, estava em uma enfermaria comum e lotada, a cortina ao redor da minha cama oferecendo pouca privacidade. Uma dor surda e latejante irradiava da minha cabeça, e minha perna estava envolta em um gesso pesado.
Horas se passaram. Médicos e enfermeiras iam e vinham. Mas Arthur não apareceu.
Era quase meia-noite quando ele finalmente entrou, seu terno caro um pouco amassado. Ele correu para a minha cabeceira, o rosto uma máscara de preocupação.
"Juliana. Oh, meu Deus, Juliana, você está bem?", ele perguntou, estendendo a mão para mim.
Eu a puxei. "Estou bem", disse, minha voz sem tom.
"Sinto muito, muito mesmo. Eu estava com a Cláudia. Ela estava em choque. Os médicos queriam mantê-la em observação."
Claro. Ela estava em choque. Eu fui a atingida por um pedaço de plástico de cem quilos, mas ela era quem precisava dele. Eu não tinha energia para discutir. Apenas encarei o teto.
Um momento depois, a cortina foi puxada e a própria Cláudia apareceu. Ela parecia perfeitamente bem, as bochechas rosadas, segurando um recipiente de sopa.
"Eu trouxe algo para você comer", disse ela, a voz escorrendo falsa simpatia. "Você deve estar morrendo de fome."
Ela colocou a sopa na minha mesa de cabeceira. Era uma sopa cremosa de frutos do mar, o cheiro rico e convidativo. Era a minha favorita. Também continha mariscos, aos quais eu era mortalmente alérgica. Uma única colherada poderia me levar a um choque anafilático.
Ela sabia. Claro que sabia. Lembro-me de ter contado a ela sobre minha alergia uma vez, anos atrás, depois de um susto em um restaurante. Ela me olhou com olhos grandes e inocentes e disse que nunca esqueceria.
"Eu não quero", eu disse.
O rosto de Cláudia se transformou em um beicinho perfeito. "Ah, Juliana. Você não gosta? Pedi ao chef para fazer especialmente para você."
"Ela só está cansada, Cláudia", disse Arthur, sempre seu defensor. Ele pegou a colher. "Vamos, Juliana. Você precisa comer alguma coisa. Só uma colherada."
Ele pegou uma colherada da sopa e a levou aos meus lábios. Seus olhos eram suplicantes. Ele achava que isso era um gesto romântico, um sinal de seu cuidado. Ele não tinha ideia de que estava tentando me envenenar.
"Não", eu disse, virando a cabeça.
"Juliana, não seja difícil", ele insistiu, a voz endurecendo. "A Cláudia se deu a muito trabalho por isso."
Ele segurou a colher nos meus lábios novamente, com mais força desta vez. Eu não tive escolha. Abri a boca e deixei o líquido cremoso e mortal deslizar pela minha garganta.
Imediatamente, minha garganta começou a coçar. Minhas vias aéreas começaram a se fechar. O pânico me dominou. Eu ofeguei por ar, empurrando a tigela para longe. Ela voou da mão de Arthur, caindo no chão e espalhando sopa por toda parte.
Um pequeno caco de cerâmica voou e arranhou o braço de Cláudia.
"Ai!", ela gritou, agarrando o braço como se tivesse sido esfaqueada. Uma pequena gota de sangue brotou em sua pele.
A atenção de Arthur se voltou para ela instantaneamente. "Cláudia! Você está bem?" Ele embalou o braço dela, examinando o corte minúsculo com preocupação frenética. Ele então se virou para mim, o rosto uma nuvem de fúria. Seus olhos estavam frios, desprovidos de qualquer calor, de qualquer amor que eu já imaginei que existisse ali.
"Que porra há de errado com você, Juliana?", ele rugiu, a voz ecoando na enfermaria silenciosa. "Peça desculpas a ela. Agora."
"Ela... ela tentou...", eu arquejei, minha garganta se fechando, minha pele se enchendo de urticárias vermelhas e raivosas. Eu não conseguia pronunciar as palavras.
"Não culpe a Juliana, Arthur", Cláudia choramingou, escondendo-se atrás dele. "Ela não fez por mal. Ela só está chateada."
"Chateada? Ela poderia ter te machucado seriamente!", ele berrou. Ele apontou um dedo trêmulo para mim. "Peça desculpas."
Tentei explicar, contar a ele sobre a alergia, mas minha voz sumiu. Tudo o que eu podia fazer era balançar a cabeça, lágrimas de frustração e terror escorrendo pelo meu rosto.
"Eu disse, peça desculpas!", ele gritou novamente, a voz rachando de raiva.
A injustiça de tudo aquilo era um peso físico, pressionando-me, esmagando-me. Eu estava tendo uma reação alérgica grave, e ele estava gritando para que eu pedisse desculpas por ter deixado cair uma gota de sangue na mulher que me envenenou intencionalmente.
Com o resto da minha força, consegui coaxar uma única palavra quebrada. "Desculpa."
Uma lágrima escapou e traçou um caminho pelas manchas vermelhas na minha bochecha. A coceira era insuportável. Pontos pretos dançavam na minha visão. A última coisa que ouvi antes de desmaiar foi a voz furiosa de Arthur, ainda exigindo que eu mostrasse algum respeito à sua preciosa Cláudia.
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