Capítulo 2

CAPÍTULO 2 - Alice Spinoza

Londres é uma cidade maravilhosa.

Principalmente quando você não está falida.

Quando está, cada vitrine parece debochar da sua cara.

Cada táxi passando na rua parece um luxo inalcançável.

Cada pessoa bem-vestida segurando um café superfaturado parece viver em um universo completamente diferente do seu.

E eu odiava admitir isso, mas ultimamente eu vinha me sentindo exatamente assim.

Do lado errado da cidade.

Do lado errado da vida.

— E então eu disse pra minha prima que aquele vestido azul simplesmente acabava com a palidez dela… porque veja bem, querida, certas cores nasceram pra humilhar pessoas sem subtom adequado…

Reprimi um bocejo enquanto dona Mirna seguia falando sem respirar do outro lado do balcão.

Juro por Deus, aquela mulher conseguiria conversar durante um apocalipse.

Enquanto ela detalhava o caos absoluto que tinha sido o chá da tarde com as primas vindas de Northchester, eu equilibrava três caixas enormes de bolo nos braços enquanto tentava sorrir como uma funcionária minimamente simpática e não como alguém que dormiu quatro horas e estava sobrevivendo à base de cafeína barata.

— E ainda precisei ficar acordada até meia-noite decorando os cupcakes, imagine você!

— A senhora é uma guerreira, dona Mirna — respondi automaticamente.

Ela abriu um sorriso orgulhoso.

Acertou em cheio.

Idosos adoravam ser tratados como protagonistas de novelas dramáticas.

— Obrigada, querida. Você é sempre tão educada.

“Porque preciso pagar aluguel”, pensei.

Mas sorri novamente.

— Já anotei tudo aqui. E esse é o valor certinho.

Ela finalmente pegou a bolsa.

Aleluia.

— Tenha um ótimo dia, Alice!

— A senhora também.

Esperei ela sair pela porta do café antes de apoiar as caixas no balcão e respirar fundo.

— Meu Deus do céu… — murmurei.

Empurrei a porta da cozinha com as costas, equilibrando os bolos de forma quase criminosa.

Essa era basicamente a minha vida.

Fazer cinco coisas ao mesmo tempo enquanto fingia estar perfeitamente bem.

Spoiler: eu definitivamente não estava.

Coloquei os bolos na vitrine principal do café enquanto observava o movimento intenso da manhã através do vidro.

Executivos apressados.

Estudantes atrasados.

Turistas tirando foto até de poste.

Gente rica pedindo cafés com nomes italianos impossíveis.

E eu ali.

Sobrevivendo.

— Alice! — a voz de Demian ecoou da cozinha. — Preciso de mais dois cappuccinos, um mocha, três croissants e alguém pra salvar minha sanidade!

— Sua sanidade morreu em 2018! — gritei de volta.

Ouvi a gargalhada dele do outro lado.

Pelo menos isso.

Demian era um chefe insuportavelmente mandão, mas também era uma das poucas pessoas naquela cidade que realmente tentavam ajudar os outros sem esperar algo em troca.

Foi ele quem conseguiu meu segundo emprego.

Um pub no centro de Londres.

Turno noturno.

Exatamente o que toda pessoa emocionalmente estável sonha em fazer depois de trabalhar desde as sete da manhã.

Fantástico.

Por outro lado…

Meu aluguel estava atrasado.

Meu cachorro tinha acabado de morrer.

Minha geladeira tinha basicamente molho de tomate, água e meio limão triste abandonado na gaveta.

Então estabilidade emocional deixou de ser prioridade fazia tempo.

Dinheiro era prioridade.

Corri entre as mesas anotando pedidos enquanto minha cabeça fazia cálculos automaticamente.

Aluguel.

Conta de luz.

Internet.

Transporte.

E agora… silêncio.

A ausência do Thor ainda doía de um jeito ridículo.

Passei anos reclamando dos pelos espalhados pela casa e agora daria qualquer coisa pra encontrar um deles no sofá de novo.

Londres estava ficando impossível.

Cada dia mais cara.

Mais fria.

Mais cruel.

E eu odiava a sensação constante de estar correndo atrás da própria sobrevivência.

Às vezes parecia que não importava o quanto eu trabalhasse.

Nunca era suficiente.

Meu celular vibrou dentro do bolso do avental.

Nem precisei olhar para saber quem era.

Diana.

Minha melhor amiga.

Rica.

Dramática.

Completamente fora da realidade de alguém que precisava escolher entre comprar shampoo ou pagar a conta de luz.

Puxei o celular rapidamente enquanto caminhava entre as mesas.

“Você vai MESMO cometer essa insanidade, Alice?”

Revirei os olhos automaticamente.

Outra mensagem chegou logo em seguida.

“Já parou pra pensar que você começa no café às sete da manhã e vai sair do pub sabe-se lá Deus que horas da madrugada?”

E então:

“Você pretende dormir QUANTAS horas por noite?”

Soltei uma risadinha nasal.

Diana surtava com absolutamente tudo.

Conheci ela na universidade durante uma aula de direito constitucional. Ela chegou atrasada, usando um casaco provavelmente mais caro que o aluguel do meu apartamento inteiro, segurando um café gigante e discutindo com o professor antes mesmo de sentar.

Naquele instante eu tive certeza de duas coisas:

Ela era completamente maluca.

E nós viraríamos amigas.

Acertamos nas duas.

Apesar das nossas vidas serem absurdamente diferentes.

Diana tinha dinheiro.

Muito dinheiro.

Nunca precisou trabalhar.

Nunca precisou contar moedas no mercado.

Nunca precisou escolher entre estudar ou sobreviver.

Enquanto eu fazia malabarismo pra conseguir pagar aluguel, ela reclamava porque o motorista particular tinha chegado cinco minutos atrasado.

Ainda assim… ela sempre esteve comigo.

Sempre.

E talvez fosse exatamente por isso que ela estava tão revoltada com a ideia de eu ter trancado a faculdade.

Pra Diana, aquilo era quase um crime.

Pra mim, era sobrevivência.

Olhei novamente as mensagens.

Parte de mim sabia que ela tinha razão.

Eu estava cansada.

Exausta.

No limite.

Meu cachorro tinha acabado de morrer.

Minha conta bancária parecia uma piada de mau gosto.

E agora eu estava prestes a começar um segundo emprego num pub sem fazer ideia de como meu corpo reagiria àquela rotina absurda.

Mas qual era a alternativa?

Esperar milagres?

Londres não era uma cidade gentil com gente pobre.

“Vou sobreviver”, respondi.

Os três pontinhos apareceram imediatamente.

“Isso definitivamente não foi convincente.”

Ri sozinha enquanto bloqueava o celular.

Senti um aperto no peito ao lembrar da faculdade.

Eu odiava ter trancado.

Odiava mais ainda admitir que talvez meu pai ficasse decepcionado.

Mas a vida era assim.

Às vezes você precisava dar um passo atrás pra conseguir sobreviver tempo suficiente até dar dois pra frente.

E eu ainda iria conseguir.

Ainda pisaria num tribunal.

Ainda me tornaria uma advogada foda.

Ainda faria meu nome ser ouvido naquela cidade.

Talvez no mundo.

Mas, por enquanto, eu precisava continuar servindo cafés e tentando não desmoronar no meio do expediente.

O relógio enorme da catedral badalou quatro vezes.

Finalmente.

Meu turno tinha acabado.

Arranquei o avental do corpo com alívio quase emocional.

— Até amanhã, chefe! — falei enquanto pegava minha mochila.

— Não morre no primeiro dia do pub! — Demian respondeu.

— Vou tentar!

Saí praticamente voando pela calçada.

Uma das poucas vantagens da minha vida miseravelmente apertada era que meu apartamento ficava perto do café.

Três quadras.

Só isso.

E graças a Deus por isso, porque se eu ainda precisasse pegar metrô naquele horário provavelmente entraria em combustão humana espontânea.

O vento frio de Londres bagunçou meu cabelo enquanto eu caminhava apressada pelas ruas movimentadas.

Passei em frente a restaurantes lotados, lojas absurdamente caras e prédios tão bonitos que chegavam a irritar.

Às vezes Londres parecia uma passarela onde pessoas ricas desfilavam suas vidas perfeitas só para humilhar o restante da população.

Subi rapidamente os degraus do meu prédio e destranquei a porta do apartamento.

O silêncio me atingiu imediatamente.

Thor não estava mais ali para me receber.

Engoli em seco.

Ainda não tinha me acostumado.

Meu apartamento era pequeno.

Ridiculamente pequeno.

Uma cozinha minúscula.

Um sofá velho.

Pilhas de livros da faculdade espalhados pela mesa.

Contas atrasadas em cima da bancada.

E uma janela com vista parcial para a rua.

Não era grande coisa.

Mas era meu.

Joguei a mochila no sofá e caminhei direto para o banho.

Eu precisava me arrumar.

Precisava parecer minimamente apresentável.

Precisava sobreviver ao primeiro turno naquele pub.

E, honestamente, eu tinha a estranha sensação de que aquela noite mudaria alguma coisa.

Eu só ainda não sabia o quê.

Capítulo 3

CAPÍTULO 3 - Augusto Cipriatti

O problema do crime organizado é que ninguém nunca dorme.

Sempre existe alguém querendo mais dinheiro.

Mais território.

Mais poder.

E naquela noite, os Albaneses queriam entrar no meu império.

Meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha enquanto eu terminava uma dose de whisky.

Dom: “Cadê você, caralho?”

Revirei os olhos.

Eu: “Em casa. Saindo em alguns minutos.”

A resposta veio imediatamente.

Dom: “Os Albaneses já estão aqui e Polo quer começar a reunião. Eles odeiam atrasos e você sabe disso.”

Ignorei.

Os dois sabiam que eu apareceria.

Mais cedo ou mais tarde.

A verdade é que eu estava completamente esgotado daquela rotina.

As pessoas olhavam para o tráfico como se fosse apenas dinheiro fácil, carros importados e homens perigosos usando ternos caros.

Idiotas.

O verdadeiro inferno estava na logística.

Rotas.

Subornos.

Distribuição.

Controle de fronteiras.

Polícia.

Políticos.

Gente demais.

Detalhes demais.

E eu odiava cada segundo daquela reunião antes mesmo dela começar.

Os Albaneses vinham insistindo havia meses naquela parceria.

Meses.

A Albânia era um dos poucos territórios europeus onde ainda não operávamos diretamente. Não por falta de interesse financeiro.

Mas porque máfia antiga era igual religião.

Todo mundo dizia seguir códigos de honra enquanto se matava nos bastidores.

Durante anos, o território deles foi instável demais até para nós.

Mas então Reno Assalani assumiu o comando após a morte do tio.

Jovem.

Ambicioso.

Inteligente.

Perigosamente ambicioso.

E agora queria expandir operações.

Anfetaminas.

Distribuição internacional.

“Uma parceria milionária”, como ele mesmo havia definido.

Cacete.

Peguei a chave do meu Porsche GT3 e saí da cobertura sem olhar para trás.

Londres estava fria naquela noite.

As ruas molhadas refletiam as luzes da cidade enquanto eu acelerava pelas avenidas quase vazias.

Durante alguns minutos, o ronco do motor foi suficiente para silenciar minha cabeça.

Só durante alguns minutos.

Quando parei em frente ao Camp Town, o pub já estava lotado.

A fila dobrava a esquina.

Música alta.

Luzes neon atravessando a fumaça dos cigarros.

Perfume caro misturado com álcool e desejo.

O pub pulsava.

E, honestamente?

Aquilo tinha muito da nossa cara.

Entreguei a chave para o valet enquanto alguns olhares se voltavam automaticamente para mim.

Eu já estava acostumado.

Dinheiro chama atenção.

Poder chama ainda mais.

Duas garotas na fila me encararam imediatamente.

Bonitas.

Jovens.

Perigosamente interessadas.

Uma morena e uma ruiva.

Aproximei devagar, observando as duas me analisarem sem qualquer vergonha.

— Vocês parecem entediadas — falei.

A ruiva sorriu.

— E você parece exatamente o tipo de problema que a gente procura.

Meu sorriso aumentou.

Melhor ainda.

Passei por elas devagar, aproximando meu rosto apenas o suficiente para sentir o perfume doce da morena.

— Entrem comigo.

As duas trocaram um olhar animado antes de me acompanharem para dentro.

— Estamos te devendo um favor, gostoso — a ruiva sussurrou no meu ouvido.

— E pretendemos agradecer direito — a morena completou.

Sexo.

Simples.

Fácil.

Sem perguntas.

Do jeito que eu gostava.

Eu precisava descarregar aquela tensão em algum lugar.

E sexo sempre foi meu método favorito de destruição.

Me afastei delas antes que começassem a achar que aquilo significava alguma coisa.

Subi as escadas laterais do pub em direção ao rooftop privado.

O som da música foi ficando distante conforme eu avançava pelo corredor escuro.

A área superior era completamente diferente do restante do pub.

Mais silenciosa.

Mais exclusiva.

Mais perigosa.

Poucas luzes iluminavam o terraço parcialmente coberto.

Whisky caro.

Homens armados.

Dinheiro demais em cima da mesa.

Reno Assalani levantou os olhos na minha direção assim que me aproximei.

Ao lado dele estavam dois homens enormes que claramente tinham sido treinados para matar pessoas sem remorso.

Reno, no entanto, era pior.

Porque homens inteligentes sempre eram mais perigosos.

— Boa noite, senhores. Desculpem o atraso.

— Augusto Cipriatti… — Reno abriu um sorriso discreto. — Cada vez mais imponente. Londres realmente está te tratando bem.

Sentei na poltrona em frente à dele sem desviar o olhar.

— Vamos direto ao assunto.

O sorriso dele aumentou minimamente.

Bom.

Ele também odiava perder tempo.

Reno apoiou os braços sobre a mesa.

— Faz muito tempo que eu queria essa reunião. A Albânia está pronta para expandir negócios.

— A Magma também sabe expandir negócios — respondi friamente. — Dependendo das condições.

Polo permaneceu sentado ao meu lado mexendo no notebook como se estivesse em outro universo.

Mas eu sabia que ele estava ouvindo absolutamente tudo.

Sempre estava.

Dom encostou no bar ao fundo, bebendo whisky e observando o ambiente em silêncio.

Reno cruzou os dedos.

— O fornecimento de anfetaminas para nossos territórios pode gerar cifras extremamente interessantes para ambos os lados.

“Cifras extremamente interessantes.”

Criminosos adoravam transformar sujeira em linguagem corporativa.

— Nós aceitamos iniciar a operação — falei. — Duas semanas para organizar logística, rotas e distribuição.

Polo finalmente ergueu os olhos da tela.

— Talvez menos.

Reno assentiu satisfeito.

Mas antes que ele pudesse continuar, inclinei o corpo levemente para frente.

— Mas existe uma condição.

Os olhos dele encontraram os meus imediatamente.

Silêncio.

Tensão.

Até Dom parou de beber.

— O tráfico humano acabou? — perguntei diretamente.

Os dois homens atrás dele endureceram na mesma hora.

Reno permaneceu imóvel.

— Sim.

— Porque se eu descobrir qualquer mulher sendo traficada dentro dessa parceria… o acordo acaba no mesmo instante.

Minha voz saiu fria.

Controlada.

Perigosa.

— E eu começo uma guerra pessoalmente.

Reno sustentou meu olhar durante alguns segundos.

Então sorriu de lado.

— Seu tio realmente tinha razão sobre você.

Meu maxilar travou imediatamente.

Eu odiava quando mencionavam minha família.

— O tráfico humano está fora dos nossos negócios — ele respondeu. — O FBI pressionou demais nos últimos anos. Não vale mais o risco.

Filhos da puta.

O fato dele tratar aquilo como questão financeira me dava vontade de quebrar os dentes dele ali mesmo.

Mas Polo já tinha investigado tudo antes da reunião.

E até agora, as informações batiam.

— Ótimo — respondi secamente.

Reno se levantou primeiro.

— Então temos um acordo.

Apertei sua mão apenas pelo tempo necessário.

Negócios.

Nada além disso.

— Agora, se me dão licença… — ele sorriu levemente. — Gostaria de conhecer melhor a famosa noite londrina.

Filho da puta.

— Sintam-se à vontade — Dom respondeu antes que eu mandasse todos eles para o inferno. — Reservei uma mesa mais afastada para vocês.

Reno assentiu satisfeito antes de descer com os homens dele.

Esperei eles desaparecerem pela escada antes de soltar o ar lentamente.

— Filho da puta… — rosnei.

Dom começou a rir imediatamente.

— Ah, para com isso, Guto. O cara só quer beber e comer gente bonita. Você faz exatamente a mesma coisa.

Virei o rosto lentamente na direção dele.

— A diferença é que eu nunca comprei mulher nenhuma.

O sorriso dele desapareceu um pouco.

Bom.

Era exatamente essa a reação que eu queria.

— Isso ficou no passado — Polo interrompeu calmamente enquanto digitava alguma coisa no notebook. — Passei a reunião inteira monitorando movimentações na deep web. Pelo menos até agora, o tráfico humano realmente foi encerrado na Albânia.

— Menos mal.

Passei a mão pela nuca tentando aliviar a tensão acumulada.

Aquela parceria ainda me incomodava.

Muito.

Mas dinheiro movia o mundo.

E impérios não sobreviviam sem expansão.

— Agora chega dessa reunião de merda — falei. — Já garanti minha distração da noite e sinceramente estou precisando esquecer essa porcaria toda.

Dom arqueou as sobrancelhas.

— Distração?

— Duas, na verdade.

O desgraçado começou a gargalhar.

— Você tem uma costela quebrada! Como exatamente pretende sobreviver a isso?

— Minha costela está quebrada — rebati enquanto caminhava em direção à escada. — Meu pau não.

Ouvi a gargalhada de Dom ecoar atrás de mim.

— Vai se foder, Augusto!

Levantei a mão sem olhar para trás.

Polo soltou um suspiro cansado.

— Amanhã temos o evento da Deep’s no Mayfair Club. Tentem não aparecer mortos.

— Sem promessas.

Desci novamente para o salão principal do pub.

A música vibrou no mesmo instante.

Luzes vermelhas.

Corpos dançando.

Álcool.

Luxúria.

Caos.

Era engraçado.

As pessoas olhavam para lugares como aquele e enxergavam diversão.

Eu enxergava fuga.

Porque a verdade era simples:

Eu precisava me manter ocupado.

Sexo.

Violência.

Whisky.

Qualquer coisa servia.

Porque no instante em que eu parava…

Os fantasmas voltavam.

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