MELISSA
Eu não tenho muitas amigas, mas as poucas que adquiri na escola interna, nova aliança, no interior de Minas gerais, me ligaram desde que descobriram o que aconteceu com tia Solange. Ontem o número de ligações aumentou drasticamente quando Cíntia descobriu sobre minha saída do colégio. Estava doendo em mim aquele afastamento também, no entanto, era o melhor para a minha família nas circunstâncias atuais e sinceramente, a garota sempre teve estava fazendo uma cena maior do que o necessário, mas isto era ela e sua inclinação para o drama falando. Elas fizeram videoconferência para tentar encontrar uma solução, porém, não havia um problema para tal e encerrei o assunto.
Hoje faz um mês desde o enterro e minha rotina se resume a tomar café da manhã com Lorenzo, vê-lo partir para o restaurante e esperar por sua volta, esta é a pior parte, porque ele sempre chega quando já estou indo dormir. É frustrante pra caralho! Sinto que é proposital, como se minha companhia fosse demais para ele suportar. O que, obviamente, me deixa triste e culpada.
–– Bom dia, Mel.
–– Bom dia, Lorenzo. –– Enfatizo seu nome e ele para a garrafa de café no meio do caminho. Seguro um sorriso. Falar o nome dele sempre funciona.
Sento na mesa, fingindo não perceber seus olhos em mim.
Coloco a torrada com geleia no meu prato e começo a procurar por algo mais apetitoso. A mesa está recheada, com vários tipos de fruta, pão, bolo e mingau. Sorrio quando percebo meu iogurte desnatado. Olga é uma santa.
–– O que fiz dessa vez? –– Pergunta, cutucando meu braço.
–– Nada. –– respondo, afastando minha cadeira da dele. Ele resmunga, mas não me impede.
–– Quais são seus planos para hoje, princesa?
Dou de ombros.
–– Não sei, pensei em ajudar a Olga com as tarefas de casa e depois ir ao shopping.
Ele fica em silêncio, então começo a cortar alguns morangos para colocar no meu iogurte. O barulho da cadeira arrastando no piso me faz olhar para ele.
Seu rosto fica vermelho.
Ergo uma sobrancelha.
–– Princesa, eu... bem, você parece diferente hoje. Eu não gosto disso. Tem algo te incomodando?
Bufo.
–– Seriamente? –– ele me olha espantado, então coça a nuca sem jeito.
–– Foi algo que fiz, não é? Você pode me dizer?
Seguro seu olhar por quase um minuto e fico puta quando percebo que ele realmente não faz ideia do quanto me machucou nos últimos dias.
–– Não importa, apenas se tranque no seu escritório e continue me ignorando.–– rosno, perdendo o apetite. Faço o movimento para deixar a mesa, mas ele segura meu braço para me impedir. Eu puxo, não querendo continuar qualquer diálogo com ele. Seu aperto aumenta e torço o nariz.
–– Você está me machucando!
–– Não, eu não estou. ––ele solta meu braço e me dá um olhar irritado. ––Agora me diga o que diabos você tem e vamos tomar café da manhã em paz.
Pressiono os lábios juntos.
Estou tão irritada com ele agora.
–– Por que acha que fez algo? Talvez, eu apenas não queira conversar. –– Indago, enquanto me acomodo de volta no lugar e corto uma fatia de bolo de cenoura.
–– Melissa...
–– O quê, Lorenzo?! O quê?
Ele joga as mãos para cima e aponta para mim.
–– Você me chamou de Lorenzo. De novo. –– Explica e dou de ombros, fingindo não entender seu ponto.
–– É o seu nome.
Ele cruza os braços e gira todo seu tronco em minha direção num único movimento.
–– Você só me chama assim quando está chateada. O que eu fiz?
–– Nada. –– Continuo a comer enquanto sinto seus olhos queimarem em mim.
––Tenho todo o tempo do mundo, Melissa.
Meu sangue ferve mediante suas palavras.
–– Desde quando? –– Giro em sua direção e encaro sua expressão surpresa.
–– O que houve com você? ––Pergunta, aturdido com minha reação.
–– O que houve comigo? –– Repito sua pergunta, minha cabeça dói e de repente sinto vontade de lhe pontuar todos os motivos para minha irritação.
–– Você. –– resumo.
Seus lábios apertam e seus olhos checam cada parte do meu rosto, buscando algum esclarecimento.
–– Eu não fiz nada. –– se defende quando percebe que não direi mais nada.
–– Isso mesmo, como eu havia falado antes, nada. Absolutamente nada.
–– O que você quer dizer?
–– Eu sou a adolescente aqui. Eu quem deveria criar situações. No entanto, quem está se trancando no escritório e ignorando as pessoas, é você.
Ele bufa.
Bufo de volta.
–– Eu não queria falar com ninguém. –– Defende-se.
Ele parece exausto. Bem, somos dois.
–– Nem comigo? –– Murmuro magoada. Seus braços me amparam e de repente estamos os dois em pé entrelaçados.
–– Eu sempre quero falar com você. –– Traz as pontas de seus dedos em minhas costas fazendo pequenos círculos. Os pelos do meu pescoço se arrepiam com seu toque.
–– Você me excluiu. ––Resmungo, parecendo melosa e carente.
–– Não foi minha intenção. –– Sua respiração sopra os fios soltos e finos de meus cabelos. Nosso abraço se intensifica, me sinto saudosa e sensível.
–– Me senti sozinha. –– Estou fungando contra seu peito, nem ao menos tinha reparado que comecei a chorar.
–– Eu tô aqui, agora. Sempre estarei. –– Promete.
Desço meus braços de seu pescoço e os passo por sua cintura apertabdo-o ainda mais contra mim. Ele solta uma gargalhada fraco e bagunça alguns fios dos meus cabelos.
–– Sentiu mesmo minha falta, hein. –– Brinca e o afasto, dando uma cotovelada em sua costela de leve.
–– Eita, você tá ficando muito fortinha.
Dou de ombros.
–– Você vai trabalhar? –– Pergunto. Seus olhos me encarando.
–– Sim, mas voltarei logo. Até vou te fazer um jantar. –– Pisca e o encaro surpresa.
–– Você nunca mais cozinhou. - Comento empolgada e ele sorrir de canto, tendo a certeza que me ganhou com sua promessa.
–– Será algo especial. Coloque uma roupa bonita.
Sinto vontade de pular tamanha alegria, mas me contenho e dou-lhe outro abraço apertado. Ele descansa a cabeça no meu ombro e toca meu cabelo.
–– Você não sente falta de cozinhar? –– questiono, voltando minha atenção para o meu café da manhã.
A fome voltou.
–– Eu tive meu tempo como cozinheiro, mas gosto do rumo que as coisas seguiram. Tenho as minhas filiais de restaurante e posso administrar tudo do meu escritório, junto com meus novos empreendimentos.
–– Será que você ainda leva jeito?
Ele me encara parecendo ofendido, mas acaba sorrindo.
–– Espere até hoje a noite, garotinha. Espere e veja. –– diz convencido.
–– Apenas não me mate. –– Pisco em sua direção e ele parece avaliar a sugestão.
–– Você anda muito atrevida, garotinha. Vai se lambuzar com a minha comida.
–– É melhor não colocar tantas expectativas, titio.
Ele me encara em um olhar diferente, um avaliativo, que me faz encolher no lugar.
–– Muito atrevida. –– Volta a sorrir e solta uma piscadela.
–– Vou dispensar a Olga, trarei notícias para você hoje. Até mais tarde, Mel.
Ele se inclina sobre mim e beija minha testa.
–– Até mais tarde, tio Enzo.
O observo se afastar e tento não suspirar.
Encerro o café da manhã e volto para o meu quarto, retiro a maior quantidade de roupas do meu closet e tento encontrar algo que não seja florido ou antiquado. Acontece que a maioria das minhas estão no internato e as que tenho aqui são de quando eu era mais nova. Sorrio ao encarar o vestido verde oliva escondido entre alguns jaquetas. Foi um presente dele, algo que ele achou combinar com meus olhos, azuis, que dependendo do ambiente e iluminação, ficam verdes.
–– Temos um vencedor. –– penso em voz alta, admirando minha imagem no espelho, fantasiando com sua expressão quando me ver usando seu presente depois de tanto tempo.
MELISSA
Eu odeio séries policiais.
Levanto do sofá para pegar um copo de água pela terceira vez, impaciente com toda a demora, estou arrumada há quarenta minutos e precisei iniciar uma nova série só para acalmar os nervos. Não funcionou. A personagem principal me deixou mais ansiosa e irritada. Como ela pode escolher o cara errado logo no primeiro episódio?
Meu celular apita e checo a mensagem com o coração acelerado. É ele. Está chegando. Dou uma última olhada no espelho da sala e me satisfaço com o resultado. O vestido é lindo, solto, do tipo que amarra no pescoço. O tecido é da seda mais pura e desliza pela minha pele com o mais suave toque a cada passou que dou. Estou usando sandálias de salto, na cor prata, que se enrola pelo meu tornozelo como uma cobra. Meu visual me lembra a de uma cantora pop e me parabenizo com o resulto,a única diferença é que estou usando zero maquiagem além de um gloss labial brilhante. Eu meio que odeio a ideia de passar várias camadas de base no meu rosto até ficar com a pele perfeita, a sensação sempre me deixou angustiada, então espero que tio Enzo não seja o tipo de cara que aprecie essas coisas.
Espere.
Volte a fita, Melissa! Isso não é a merda de um encontro. Este é o seu tio, lembra? O cara que te criou,o mesmo homem que acabou de perder a mulher e te trata como parte da família. Não pira.
Um barulho do lado de fora chama minha atenção e corro de volta para o sofá, não querendo transparecer empolgação demais.
Por quê meu estômago está em chamas?
–– Ei, princesa. –– ele diz assim que me vê.
Sorrindo, vou até ele e jogo meus braços ao redor do seu pescoço.
Ele parece feliz.
–– Ei, Lorenzo. –– Ele me olha demonstrando irritação. Levo minhas mãos ao alto em rendição. –– Não estou com raiva. –– me antecipo.
–– Bom, vou preparar o nosso jantar. –– Ele caminha para a cozinha sem exitar, não comentando sobre o meu vestido ou me dando um segundo olhar. Tento não pensar sobre isso quando o sigo como um cachorrinho sedento por atenção.
Lorenzo deixa sua pasta sobre o balcão e lava as duas mãos na pia.
Observo cada movimento seu com queimação no estômago, implorando mentalmente que ele vire e me elogie. Pego um lugar na bancada, como em um camarote vip e espero em silêncio.
–– Você está com fome? ––Pergunta, verificando-me por cima do ombro.
Confirmo com a cabeça, ansiando por mais palavras.
–– Faminta, para ser sincera.–– dou um sorriso de boca fechada.
–– Ótimo. –– ele diz, apertando meu nariz e seguindo para a geladeira.
Salsinha, pimentão, tomate, cebola e vários outros ingredientes são postos em cima da bancada. Sou uma completa ignorante no assunto cozinhar. Apenas aprecio a agilidade de suas mãos ao picar cada ingrediente.
–– Esse cheiro está me fazendo salivar. –– Seus ombros se movimentam para cima e ouço uma baixa gargalhada.
–– Quase pronto,princesa.- diz.
Balanço minhas pernas de um lado para o outro, inquieta, mordo meu lábio inferior e batuco a pedra de granizo que compõe o balcão, em um ritmo conhecido, só percebo a música que estou reproduzindo quando as palavras deixam minha boca. Com as unhas recém-pintadas de rosa, agarro um pedaço de tomate e levo a boca.
Suspiro e batuco mais.
Olhos me encaram com curiosidade, mantenho um sorriso largo no rosto.
––Eu gosto da gente assim. –– digo e ele assente com a cabeça, concordando silenciosamente. A covinha que andou escondida por tanto tempo se instala em sua face. Seus olhos brilham em minha direção e ele me oferece outro pedaço de tomate, quando vou agarrar, Lorenzo balança a cabeça em negativa.
–– Abra.
Mordo meu lábio inferior e vejo quando sua atenção foca neles de repente. A expressão confusa e dura me arrasta para o medo de ter estragado esse momento.
––Tio Enzo? –– Chamo.
–– Vou tomar um banho. –– declara. A postura rígida me confunde, algo mudou e o clima parece pesado agora. Sussurro um ok e ele aponta para as panelas.
–– Olhe a comida pra mim. Não deixe queimar.
–– Não conte com isso.–– Falo. Quase como um apelo.
Sua sobrancelha esquerda se ergue e entendo o que quer dizer.
Intercalo minha atenção entre as duas panelas que estão a minha frente, pedindo mentalmente para a merda desse banho ser rápido. Inalo o delicioso cheiro que vem da panela maior mais uma vez, fazia um bom tempo que não comia a comida de Lorenzo Cavalieri. Passo a língua entre os lábios e me irrito com a demora desse homem em um chuveiro, apenas tire a roupa, molhe o corpo e passe um sabonete cheiroso. O quão demorado isso deveria ser.
–– Vou morrer de fome, enquanto espero. –– Resmungo, mexendo a panela menor apenas para passar o tempo, na maior tem uma carne que parece tão apetitosa coberta com um molho espesso que me deixa inquieta só de ficar tão perto sem poder dar uma provadinha.
–– Eu nunca te deixaria morrer de fome. –– Devo ter ficado tão envolvida que não percebi seus passos. Ele está tão próximo que posso sentir o cheiro da loção pós barba.
–– Você demorou. –– Reclamo. Ele chega mais perto e assume meu lugar com as panelas. –– Bom trabalho. –– Elogia, me dando uma piscadela.
–– Pensei que tivesse escorregado no banheiro e caído, estava quase indo lá te socorrer. –– Seu braço mexe a colher na panela maior e um sorriso nasce em seus lábios.
–– Desculpa –– Pede.
–– Eu não estou assim tão faminta.
–– É mesmo? Isso é uma pena porque a comida acabou de ficar pronta. –– Me encara brincalhão.
–– Até que fim, estava quase desmaiando aqui.
Arrumamos a mesa e apreciamos o jantar em silêncio, essa noite não foi nada do que eu imaginei. Nem um elogio sequer eu recebi, meu vestido era bonito demais para passar despercebido.
–– Preciso falar com você.
–– O que houve?
O envelope branco posicionado sobre a mesa desde o começo da refeição chama minha atenção novamente.
-Tem ligação com isso? - Aponto com o dedo.
–– Abra. ––Fala e pego o envelope intrigada. O encaro esperançosa, mas não recebo pista alguma. Abro e um documento com letras minúsculos se revela, estreito os olhos em sua direção. Sua expressão pragmática me frustra e traz irritação para minhas veias.
–– O que isso significa? –– Pergunto após ler palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, reler duas outras vezes e não ter certeza se estou entendendo o significado.
–– Exatamente o que você leu, agora você é minha.
Sua última palavra me choca, causando um reboliço de sensações desconhecidas dentro de mim, volto minha atenção para o papel em minhas mãos ainda sem reação.
–– Você me adotou?
–– Virei uma espécie de tutor, na verdade. Responsável por você até que complete a maior idade. O que só vai acontecer daqui à sete meses.
–– Eu vou morar com você. –– Capturo seus olhos nos meus. Não era uma pergunta.
–– Assim como sempre fez. –– Sorrio.
–– Obrigada, tio Enzo.
–– Não agradeça, você é minha única família e eu vou cuidar de nós dois. Você sempre virá primeiro, princesa.
–– E quando você casar de novo? –– Minha voz sai desgostosa, minha mente produzindo a cena dele com uma esposa e bebê nos braços.
Um aperto se forma envolta do meu peito.
Amargura e dor transformam seu olhar. Ele fica em silêncio e estreita a testa, assim como faz sempre que tem pensamentos intrigantes rodando em seu cérebro.
–– Você sempre virá primeiro, Melissa. Como sempre foi. Nunca existirá outra pessoa mais importante na minha vida.––Fala recolhendo seu prato e deixando a cozinha, mas antes que seus pés alcancem o primeiro batente da escada, agarro sua cintura.
–– Amo você, tio Enzo. –– Sinto seu corpo relaxar em minhas mãos. Seu perfume chega ao meu nariz e inalo forte.
–– Eu também, princesa.
Por algum motivo, isso me deixa em pânico muito mais do que conforta. Seu gesto foi lindo, então por quê estou triste?