POV de Ada Magalhães:
O frio do ar da noite penetrou em meus ossos enquanto eu estava na opulenta varanda de mármore, as luzes da cidade um caleidoscópio borrado abaixo. Envolvi meus braços ao redor de mim mesma, tentando parar os tremores que não tinham nada a ver com a temperatura. Lá dentro, eu podia ouvir suas risadas abafadas, a voz estridente de Gisela pontuada pelo ronco mais profundo de Caio. O som era um tormento familiar, uma trilha sonora para minha gaiola dourada.
Minha cabeça latejava, uma dor surda atrás dos meus olhos. A exaustão era profunda, uma companheira constante por cinco anos. Mas esta noite, parecia mais pesada, quase física.
"Ada?", uma voz me assustou.
Virei-me para ver Jovani Cruz, o melhor amigo e sócio de Caio, entrando na varanda. Ele parecia surpreendentemente deslocado em seu terno perfeitamente cortado, um copo meio vazio de líquido âmbar na mão. Jovani era sempre cínico, sempre observador, raramente interferindo.
"Você está bem?", ele perguntou, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos. Preocupação? Ou apenas curiosidade?
Eu assenti, forçando um pequeno sorriso. "Só tomando um ar."
Ele se apoiou no parapeito, olhando para a cidade. "O ar está mais limpo lá dentro, e provavelmente mais quente. Você parece que vai desmaiar."
Ele me conhecia. Ou, pelo menos, achava que conhecia. Ele tinha sido uma testemunha silenciosa do meu sofrimento quieto, das campanhas públicas de humilhação de Gisela, do desrespeito flagrante de Caio.
"Estou bem", insisti, embora meus dentes tivessem começado a bater.
Ele suspirou, tomando um gole de seu copo. "Sabe, Ada, eu nunca entendi por que você aguentou isso. O espetáculo público, as palhaçadas da Gisela, o... bem, o Caio."
Ele se virou para mim, a testa franzida. "Você é uma mulher notável, Ada. Talentosa, inteligente. Você poderia ter tido qualquer um. Por que ele? Por que isso?"
Suas perguntas não eram acusatórias, apenas perplexas. Ele, como todo mundo, acreditava que eu estava perdidamente apaixonada por Caio, uma tola apaixonada agarrada a um bilionário que mal reconhecia minha existência. Ele se lembrava do frenesi da mídia quando anunciamos nosso casamento — a imprensa me chamando de interesseira, os sussurros de uma noiva de rebote após a morte de Juliano.
"Era... complicado", eu disse, uma resposta familiar que não satisfazia ninguém, muito menos a mim mesma.
"Complicado?", ele zombou gentilmente. "Ada, você tolerou mais do que qualquer pessoa que eu conheço. Você até foi buscar pílulas do dia seguinte para eles uma vez. Eu vi você. Na farmácia, parecendo um fantasma."
Um rubor subiu pelo meu pescoço. Aquela memória era uma pontada aguda e fria. Eu tinha andado pelos corredores estéreis, meu coração um tambor oco, minhas mãos tremendo enquanto entregava a receita ao farmacêutico. Foi um dos muitos atos performáticos da minha penitência de cinco anos.
"Você deveria tê-lo deixado anos atrás", Jovani continuou, sua voz mais suave agora. "Você merece coisa melhor. Sempre mereceu. Juliano teria querido que você fosse feliz."
Juliano. O nome era um membro fantasma, uma dor que nunca desaparecia de verdade. Ele era a razão. Sempre a razão.
"Estou deixando ele agora", disse a Jovani, as palavras parecendo pesadas, sólidas.
Ele riu, um som seco e incrédulo. "Não me diga que você finalmente vai dar um chilique. Depois de cinco anos de paciência santa? Ada, sério. Não faça uma cena. Não vale a pena."
Ele balançou a cabeça, um toque de pena em seus olhos. "Você tentou, Ada. Você realmente tentou. Todo mundo viu o quanto você o amava. Como você aguentou tudo. Mas alguns homens simplesmente não valem a pena. Caio nunca valeu."
"Você ainda acha que eu o amava", eu disse, uma estranha leveza em minha voz. O mal-entendido era tão profundo, tão absoluto.
Jovani olhou para mim, perplexo. "Claro que sim. Você se casou com ele, não foi? Depois... depois de Juliano. Todo mundo achou que você estava um pouco louca de dor, talvez tentando se agarrar a uma parte de Juliano através de seu gêmeo. Mas você ficou. Você estava sempre lá, sempre esperando por ele."
Ele fez uma pausa, depois acrescentou: "Lembra dos boatos? Quando você praticamente se atirou nele depois da morte de Juliano? As pessoas diziam que você estava desesperada, que amava Juliano e depois se voltou imediatamente para Caio."
Eu me lembrava. Cada manchete mordaz, cada julgamento sussurrado. Eles me chamaram de desequilibrada, oportunista.
"Eu aceitei tudo", confessei, meu olhar fixo nas luzes distantes da cidade. "Cada insulto, cada humilhação. Deixei que acreditassem que eu era uma tola patética e apaixonada."
Jovani franziu a testa. "Por que, Ada? Qual era o objetivo?"
Respirei fundo, o ar frio enchendo meus pulmões, agudo e limpo. "O objetivo era Juliano." Enfiei a mão no bolso do meu vestido, meus dedos se fechando em torno do pequeno e frio relicário. "O último desejo de Juliano era ter suas cinzas espalhadas em Marte."
Jovani me encarou, seus olhos arregalados de incredulidade. "Marte? Isso é... ambicioso."
"O programa de voo espacial memorial da Agência Espacial Brasileira", expliquei, as palavras fluindo, me aliviando. "É altamente confidencial. Apenas familiares diretos de astronautas podem acessá-lo. Cônjuges têm um período de espera de cinco anos para obter a autorização completa."
"Juliano ainda não era um astronauta", continuei, traçando os contornos do relicário. "Ele era um candidato. E eu não era sua esposa. Tínhamos planejado nos casar, mas o acidente dele aconteceu antes que pudéssemos."
A memória era uma ferida aberta, ainda fresca depois de cinco anos. Juliano, brilhante, gentil, cheio de sonhos, se foi em um piscar de olhos, um acidente de treinamento que o arrancou de mim, do mundo.
"Eu não tinha base legal para reivindicar seus restos mortais para o voo memorial", eu disse, minha voz embargada pela emoção. "Nenhuma maneira de realizar seu desejo."
Jovani estava em silêncio, ouvindo atentamente. Seu cinismo habitual havia desaparecido, substituído por um choque genuíno.
"Então eu descobri sobre Caio", sussurrei. "Seu irmão gêmeo distante. Um familiar direto. Se eu me casasse com ele, me tornaria sua esposa. Iniciaria o período de espera de cinco anos. Conseguiria a autorização."
"Você se casou com Caio... por Juliano?" Sua voz era quase inaudível.
Eu assenti, a verdade uma libertação pesada e agridoce. "Ele concordou. Ele viu isso como uma forma de irritar sua família, eu acho. Para mostrar a eles que ele podia fazer o que quisesse. Ele não se importava comigo. Ele não se importava com o sonho de Juliano. Ele apenas viu uma transação."
"E você o fez acreditar que o amava?", Jovani perguntou, uma estranha mistura de horror e admiração em seu tom.
"Eu fiz todo mundo acreditar", corrigi, um leve sorriso tocando meus lábios. "Eu interpretei o papel. A mulher devota e de coração partido que se agarrou à memória de seu amor perdido casando-se com seu gêmeo idêntico. A tola que aguentou seus casos, sua indiferença, suas humilhações públicas."
"Por cinco anos", Jovani suspirou, balançando a cabeça. "Você suportou tudo isso... por um desejo."
"Por Juliano", corrigi suavemente. "Era o sonho dele. Nosso sonho. Ele merecia ir para Marte."
Eu levantei o relicário, a pequena e pesada prata brilhando na luz fraca. "Hoje, Jovani", eu disse, minha voz tremendo com um triunfo que era puramente meu. "Hoje, cinco anos se passaram. Hoje, eu peguei as cinzas de Juliano do cofre da AEB. Hoje, a missão está completa."
Virei-me para ele, meus olhos brilhando com lágrimas não derramadas, mas também com uma determinação inabalável. "E hoje, eu estou finalmente livre."
Jovani me encarou, estupefato, o copo esquecido em sua mão. A verdade, despida de toda pretensão, pairava pesada entre nós. O homem que ele pensava conhecer, a esposa quieta e dócil, era um fantasma, uma performance elaborada. E agora, a cortina estava caindo.
POV de Ada Magalhães:
O silêncio atordoado de Jovani foi quase um conforto. Ele simplesmente olhava, as perguntas girando em seus olhos, mas nenhuma palavra saía. Depois de um longo momento, ele lentamente assentiu, um único movimento decisivo. Ele esvaziou seu copo, colocou-o cuidadosamente em uma mesa próxima e, sem outra palavra, virou-se e voltou para dentro, me deixando sozinha na varanda.
O frio se intensificou, mordendo minha pele exposta. Minha cabeça latejava mais forte, e uma onda de náusea me invadiu, fazendo as luzes da cidade dançarem diante dos meus olhos. Apoiei-me no parapeito, segurando-o com força, tentando me firmar. Os últimos cinco anos foram um dreno constante, física e emocionalmente. A fachada foi exaustiva de manter, cada sorriso, cada aceno complacente, cada lágrima silenciosa uma performance. Agora, a adrenalina que alimentou minha confissão estava se esvaindo, me deixando completamente esgotada.
Fechei os olhos, desejando que a tontura passasse. Eu precisava vê-lo, conseguir os papéis do divórcio assinados, para realmente me libertar. Mas cada fibra do meu ser gritava por descanso, por fuga.
A porta da varanda se abriu novamente, e ouvi a voz de Caio, espessa de satisfação. "Ada? Ainda aqui fora? A Gisela não te deu audiência suficiente?"
Eu não me virei. Não conseguia. Meu corpo parecia pesado, minhas pernas fracas.
Ele caminhou até o meu lado, sua presença um peso sufocante. "Então, a ratinha finalmente encontrou sua voz. 'Vou embora esta noite.' Que sentimento encantador. Você realmente achou que eu deixaria você simplesmente ir embora?"
Sua voz era um rosnado baixo, desprovido da diversão anterior. "Você assinou um acordo pré-nupcial, Ada. Você não fica com nada. Nem um centavo do meu dinheiro. Sem herança. Sem pensão. Você voltará para sua patética carreira de designer gráfica freelancer, morando em algum apartamento apertado. É assim que a liberdade se parece para você?"
Suas palavras, destinadas a ferir, apenas passaram por mim. Eram ruído de fundo, ecos de uma vida que eu já estava deixando para trás. Seu desdém pela minha vida antiga, por mim, sempre foi claro.
Uma lágrima escapou, traçando um caminho frio pela minha bochecha. Era uma lágrima de exaustão, de libertação, não de dor. Mas Caio a interpretou mal.
"Ah, aí está", ele zombou, seu tom suavizando com um tipo doentio de triunfo. "As lágrimas. Você está chateada porque eu não vou entrar no seu joguinho. Você queria que eu implorasse, não é? Que eu dissesse o quanto preciso de você?" Ele riu, um som áspero e irritante. "Desculpe, Ada, não estou tão desesperado."
Reunindo cada grama de força, me endireitei e me virei para encará-lo. Minha mão, ainda segurando o relicário, alcançou a pequena bolsa que eu carregava e tirou um documento cuidadosamente dobrado. Os papéis do divórcio. Eu os estendi para ele.
"Assine, Caio", eu disse, minha voz surpreendentemente firme, apesar do tremor em minhas mãos. "Acabou. Você pode ficar com a Gisela. Você pode ter quem quiser. Mas não pode me ter."
Ele olhou para os papéis, depois para o meu rosto, um lampejo de genuína perplexidade em seus olhos antes que se endurecesse em desprezo. "Isso é uma piada? Algum tipo de teste elaborado?" Ele arrancou os papéis da minha mão, seu olhar varrendo as cláusulas. "Sem bens, sem pensão. Apenas um rompimento limpo. Qual é a pegadinha, Ada?"
Ele amassou levemente os papéis na mão. "Você acha que vou acreditar nisso? Que depois de cinco anos sendo a esposa perfeita e silenciosa, você de repente não quer nada? Você está jogando um jogo perigoso, Ada. Um jogo muito perigoso." Ele jogou os papéis em uma chaise longue próxima com um movimento desdenhoso do pulso.
"Não se iluda", uma voz sedosa disse arrastada atrás dele. Gisela, agora armada com uma taça de champanhe, deslizou para a varanda. "Ela não está jogando um jogo, querido. Ela está apenas sendo patética. Ela provavelmente acha que isso vai fazer você correr atrás dela. Toda aquela bobagem de 'se fazer de difícil'."
Gisela sorriu, tomando um longo gole de champanhe. "Olhe para ela, Caio. Ela está praticamente implorando por sua atenção. Ela acha que pode competir comigo. Depois de tudo." Ela gesticulou desdenhosamente para o meu vestido simples, depois para seu próprio traje brilhante. "Algumas pessoas simplesmente não sabem o seu lugar."
Ignorei Gisela, meu olhar fixo em Caio. Minha cabeça estava girando, minha visão embaçada. Mas eu tinha que terminar isso.
"Assine os papéis, Caio", repeti, minha voz mal acima de um sussurro, mas entrelaçada com um aço inflexível. "Vamos acabar com essa farsa."
Seus olhos brilharam com uma raiva súbita e furiosa. A diversão se foi, substituída por uma fúria crua e nua. Sua mão disparou, agarrando meu braço com força brutal. "Farsa? Você chama esses cinco anos de farsa?", ele rosnou, seu aperto se intensificando dolorosamente.
Ele me arrastou em direção às grandes portas de vidro que levavam de volta para a cobertura, seus movimentos bruscos e agressivos. "Você quer jogar, Ada? Tudo bem. Vamos jogar."
Ele abriu as portas com violência, me puxando para um corredor mal iluminado. "Gisela, me espere no carro", ele ordenou, sua voz afiada.
"Mas querido, nossa reserva...", Gisela começou, sua voz estridente de protesto.
"Agora!", Caio berrou, seus olhos brilhando com uma fúria possessiva que eu raramente via dirigida a mim.
Gisela, assustada, hesitou por um momento, depois correu, seus saltos altos clicando rapidamente pelo corredor.
Caio bateu a porta atrás de nós, mergulhando o corredor em quase escuridão. Ele me empurrou contra a parede, seu corpo pressionando perto, me prendendo. Sua respiração estava quente contra minha orelha.
"Você quer me deixar, Ada?", ele sussurrou, sua voz perigosamente baixa. "Você acha que pode simplesmente ir embora? Depois de cinco anos sendo minha esposa? Minha propriedade?"
Ele moveu a boca para o meu pescoço, seus lábios roçando minha pele. "Você não sabe como isso funciona? Você não me deixa. Eu decido quando acaba."
Sua mão encontrou meu queixo, inclinando minha cabeça para trás. Seu beijo foi áspero, exigente, com gosto de raiva e desespero. Eu lutei, empurrando contra seu peito, mas minha força estava falhando. A náusea se agitava, a dor de cabeça se intensificava e um suor frio brotou na minha pele.
"Você quer um filho, Ada?", ele murmurou, recuando um pouco, seus olhos queimando com uma intensidade sombria. "Você quer ser mãe? Podemos começar hoje à noite. Uma família de verdade. Nosso filho. Então você não vai querer ir embora."
As palavras eram uma paródia grotesca de uma promessa, uma manipulação distorcida. Eu gemi, um som de pura miséria, enquanto novas lágrimas escorriam pelo meu rosto. Meu corpo estava à beira do colapso.
"Caio, querido!", a voz de Gisela, abafada mas insistente, atravessou a porta. "O carro está esperando! O que você está fazendo aí?"
Ele a ignorou, seu aperto em mim implacável. "Arrependimentos, Ada?", ele murmurou, pressionando os lábios na minha bochecha manchada de lágrimas. "Você se arrepende de alguma coisa?"
Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo. Jovani estava parado na entrada, seu rosto sombrio. "Caio! Que diabos você está fazendo? A Gisela está ameaçando chamar os tabloides. Ela está furiosa."
Caio hesitou, seus olhos ainda fixos nos meus. A menção de tabloides, de escândalo público, pareceu romper sua raiva. Ele olhou para Jovani, depois de volta para mim.
"Isso não acabou, Ada", ele sibilou, me soltando abruptamente. Ele passou por Jovani, me deixando caída contra a parede, ofegante.
Jovani correu para o meu lado, sua mão no meu ombro. "Ada, você está bem?", ele perguntou, sua voz carregada de preocupação genuína.
Eu assenti mudamente, ainda lutando para recuperar o fôlego. Minha cabeça girava.
"Ele é insuportável", Jovani murmurou, observando Caio se afastar. Ele olhou para mim, seu olhar suavizando. "Você o odeia?"
Eu balancei a cabeça, minha mão voando para o relicário escondido sob meu vestido. Ainda estava lá, quente e sólido. Meu propósito. Minha promessa.
"Não", sussurrei, minha voz rouca. "Eu não o odeio. Eu não sinto nada."