Capítulo 2

O funeral do meu filho aconteceu num dia ensolarado.

O céu estava de um azul límpido, sem uma única nuvem.

O meu marido, Pedro, estava ao meu lado, a sua mão firmemente no meu ombro. Ele parecia solene e triste.

"Sinto muito, meu amor," ele sussurrou. "O nosso pequeno anjo está agora no céu. Ele não vai sofrer mais."

Olhei para a pequena urna de madeira.

O meu coração estava vazio.

A minha sogra, Sofia, chorava alto ao lado dele, quase a desmaiar de tanto sofrimento.

"Meu netinho! Como pudeste deixar a avó? A culpa é toda minha! Eu não cuidei bem de ti!"

O meu sogro, Jorge, amparava-a, com os olhos vermelhos e inchados.

Pareciam uma família devastada pela dor.

Se eu não soubesse a verdade, talvez até eu acreditasse neles.

Mas eu sabia.

Eu sabia que o meu filho não morreu por causa de um "acidente infeliz" .

Há uma semana, a minha cunhada, Clara, a irmã mais nova de Pedro, veio visitar-nos. Ela trouxe o seu filho de três anos, o Leo.

Eu estava na cozinha a preparar o almoço quando ouvi um barulho alto vindo da sala de estar.

Corri para lá e vi o meu filho, o pequeno Tiago de apenas um ano, caído no chão ao pé das escadas.

O seu corpo estava mole e ele não respirava.

O Leo estava no topo das escadas, a rir.

"O Tiago voou," ele disse, batendo palmas.

Clara correu e pegou no Leo.

"Oh, meu Deus! O que fizeste, seu menino maroto?"

Ela não olhou para o meu filho uma única vez.

Liguei para a ambulância, com as mãos a tremer tanto que mal conseguia segurar o telemóvel.

Pedro chegou do trabalho e encontrou-me no hospital.

Os médicos disseram que o Tiago tinha uma lesão cerebral grave. As suas hipóteses eram muito baixas.

Ele morreu dois dias depois.

A polícia veio. Eles interrogaram o Leo.

Clara disse que foi um acidente.

"Eles estavam a brincar. O Leo não sabia o que estava a fazer. Ele é apenas uma criança."

Os meus sogros concordaram.

"Não podemos culpar uma criança. A Ana devia estar a vigiá-los melhor."

Pedro abraçou-me e disse que iríamos superar isto juntos.

Ele disse que me amava.

Mas naquela noite, ouvi-o ao telemóvel com a sua irmã.

"Não te preocupes, Clara. Eu vou tratar disto. A Ana está em choque, mas ela vai acabar por aceitar. O Leo é só uma criança."

Eu não disse nada.

Apenas fiquei deitada na cama, a olhar para o teto escuro.

Agora, no funeral, Pedro apertou o meu ombro com mais força.

"Vamos para casa, Ana. Precisas de descansar."

Assenti em silêncio.

Enquanto caminhávamos para o carro, vi a Clara a observar-nos de longe.

Ela não veio ao funeral.

Disse que não queria perturbar o Leo.

O meu coração não sentia nada. Nem dor, nem raiva.

Apenas um frio profundo.

Capítulo 3

Chegámos a casa em silêncio.

A casa estava cheia de coisas do Tiago. O seu berço, os seus brinquedos, as suas pequenas roupas.

Pedro começou a recolher tudo.

"Vou guardar isto. Não precisas de ver estas coisas agora."

Ele estava a ser atencioso.

O marido perfeito.

Fui para o nosso quarto e sentei-me na cama.

Peguei no meu computador portátil e abri-o.

Comecei a procurar apartamentos para arrendar.

Pedro entrou no quarto, segurando uma caixa de cartão.

"O que estás a fazer?"

"Estou a procurar um lugar para morar," respondi, sem olhar para ele.

Ele ficou em silêncio por um momento.

Depois, a sua voz ficou tensa.

"Ana, do que estás a falar? A nossa casa é aqui."

"Não mais," eu disse. "Eu quero o divórcio, Pedro."

Ele largou a caixa. O som ecoou no quarto silencioso.

"Divórcio? Estás a brincar? Perdemos o nosso filho há dias e estás a falar em divórcio? O que se passa contigo?"

A sua voz subiu de tom, cheia de incredulidade e raiva.

"O nosso filho não se 'perdeu' , Pedro. Ele foi assassinado."

"Não digas isso! Foi um acidente! O Leo tem três anos!"

"E a tua irmã não fez nada. Os teus pais culparam-me. E tu… tu defendeste-os."

"Eles são a minha família! O que esperavas que eu fizesse? A Clara está devastada!"

"E eu? Eu não sou a tua família? O Tiago não era teu filho?"

As minhas palavras saíram calmas, mas cada uma delas era pesada.

Pedro passou as mãos pelo cabelo, frustrado.

"Claro que eras! Claro que ele era! Eu amo-te, Ana! Estamos a passar por isto juntos!"

"Não, Pedro. Tu estás a passar por isto com eles. Eu estou sozinha."

Levantei-me e olhei para ele.

Pela primeira vez em dias, senti algo.

Era desprezo.

"Eu vi as mensagens. Eu ouvi as chamadas. Tu prometeste à Clara que a protegerias. Que me farias 'aceitar' ."

O rosto de Pedro ficou pálido.

Ele tentou aproximar-se.

"Ana, ouve-me…"

"Não. Eu já ouvi o suficiente. Quero que saias."

"Esta é a minha casa!"

"Então eu saio."

Peguei na minha mala, que já tinha preparado secretamente, e fui em direção à porta.

Ele agarrou o meu braço.

"Não podes fazer isto. Não depois de tudo o que passámos."

"Foi exatamente por causa de tudo o que passámos que eu estou a fazer isto."

Puxei o meu braço com força e saí do quarto.

Não olhei para trás.

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