Capítulo 2

Na noite em que recebi o prémio de Melhor Novo Arquiteto, o meu marido, Pedro, não apareceu.

Eu estava no palco, a segurar o troféu de cristal pesado, a luz a brilhar nos meus olhos.

Agradeci ao comité, aos meus mentores, mas quando o meu olhar percorreu a primeira fila, o assento dele estava vazio.

O meu sorriso congelou por um momento.

Depois da cerimónia, recusei o banquete e saí apressada. O ar frio da noite atingiu-me, e eu apertei o meu casaco.

Liguei ao Pedro.

O telefone tocou durante muito tempo antes de ele atender, a sua voz misturada com o som de pratos a tilintar e risos.

"Ana? O que foi? Estou ocupado."

"Ocupado?", a minha voz tremeu um pouco, "Pedro, hoje é a cerimónia de entrega dos prémios."

"Oh, isso. Parabéns. Desculpa, esqueci-me completamente. A Sofia não está a sentir-se bem, o pai dela pediu-me para vir e cozinhar para ela."

A Sofia era a minha meia-irmã.

Do outro lado da linha, ouvi a voz fraca e mimada da Sofia.

"Pedro, obrigada por teres vindo. O meu estômago dói tanto. Se não fosses tu, eu nem saberia o que fazer."

Depois, a voz do meu padrasto, Ricardo, soou, cheia de satisfação.

"Pedro, és mesmo um bom rapaz. A nossa Sofia tem sorte em ter-te."

Um bom rapaz.

O meu marido esqueceu-se da noite mais importante da minha carreira para ir cozinhar para a minha meia-irmã porque ela tinha uma dor de estômago.

"Pedro," disse eu, a minha voz subitamente calma, "vamos divorciar-nos."

Houve um silêncio, depois a raiva do Pedro explodiu através do telefone.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Ana, porque é que te tornaste tão insensível? A Sofia está doente! Ela está sozinha, a vida dela é difícil. Só vim fazer-lhe uma refeição, e tu queres o divórcio por causa disso?"

A vida dela é difícil?

A minha mãe e eu fomos expulsas de casa pelo Ricardo quando eu tinha dez anos. Foi a minha mãe que trabalhou em dois empregos para me sustentar na faculdade de arquitetura.

Agora, a filha dele tem uma dor de estômago, e a minha carreira, os meus anos de trabalho árduo, não significam nada?

"Ela não está sozinha," respondi friamente, "O pai dela está lá. Tu não és o marido dela."

"És inacreditável! Ela vê-me como um irmão! Não sejas tão mesquinha! Pensei que fosses diferente das outras mulheres, mas és tão ciumenta e irracional!"

Ele desligou.

Tentei ligar de volta, mas a chamada foi diretamente para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.

Olhei para o troféu na minha mão. Parecia gelado.

O prémio que eu sonhara ganhar desde criança, o reconhecimento pelo qual lutei tanto, de repente parecia sem valor.

A verdade é que a casa da Sofia não ficava "a caminho" de lado nenhum. Ficava do outro lado da cidade, longe do centro de convenções e da nossa casa.

Ele não se esqueceu. Ele escolheu.

Ele escolheu-a a ela em vez de mim.

Enquanto eu estava ali, paralisada, o meu telefone tocou novamente. Era a minha mãe.

Atendi, tentando manter a minha voz firme.

"Mãe."

"Ana, querida! Vi-te na TV! Estavas tão linda! Estou tão orgulhosa de ti!"

A sua voz calorosa e animada fez um nó formar-se na minha garganta.

"O Pedro está aí contigo? Digam-lhe que estou a fazer o seu prato favorito para celebrar amanhã!"

Não consegui responder.

"Ana? Está tudo bem?"

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ouvi um barulho do lado dela, e a chamada foi abruptamente interrompida por uma voz masculina zangada.

Era o Ricardo. Ele devia ter-lhe tirado o telefone.

"Ana! A tua mãe não te ensinou boas maneiras? Como te atreves a incomodar o Pedro com um divórcio por uma coisa tão pequena? Ele só estava a ajudar a Sofia! És tão egoísta e ingrata como o teu pai!"

Capítulo 3

A voz do Ricardo era como óleo a ser derramado sobre um fogo.

Ingrata. Egoísta.

Estas eram as palavras que ele usava para me descrever desde que eu era criança.

"Devolve o telefone à minha mãe," disse eu, a minha voz gelada.

"Ela não precisa de falar com uma filha que não tem respeito pela família! O Pedro é um bom homem, demasiado bom para ti! Devias estar de joelhos a agradecer por ele te aturar!"

Ele desligou-me o telefone na cara.

Fiquei a olhar para o ecrã escuro, o meu peito a apertar.

A minha mãe. Ele estava a magoar a minha mãe por minha causa.

Entrei no meu carro, joguei o troféu no banco do passageiro e conduzi para casa.

O apartamento estava escuro e silencioso. O lugar do Pedro na garagem estava vazio.

Ele ainda não tinha voltado.

Fui para o nosso quarto e comecei a fazer as malas. Roupas, livros, os meus esboços de arquitetura.

Cada item era uma memória. O nosso primeiro encontro, o nosso casamento, as promessas que ele me fez.

Promessas de que me apoiaria sempre, de que o meu sonho era o sonho dele.

Mentiras. Eram todas mentiras.

Enquanto eu estava a dobrar uma das suas camisas que tinha ficado no meu lado do armário, o meu telefone vibrou.

Era uma mensagem de um número desconhecido.

Abri-a. Era uma foto.

Pedro e Sofia na cozinha dela. Ele estava atrás dela, as suas mãos a cobrir as dela enquanto cortavam legumes juntos. A cabeça dela estava inclinada para trás, a rir para ele. A expressão no rosto do Pedro era terna, um olhar que ele não me dava há muito tempo.

Abaixo da foto, uma legenda simples: "Família".

O meu coração parou de bater por um segundo.

Depois, o meu telefone tocou. Era o mesmo número. Hesitei, depois atendi.

"Olá?"

"Então, gostaste da foto?" A voz era da Sofia, doce e venenosa. "O Pedro é tão atencioso. Ele disse que o teu prémio não era assim tão importante. Apenas um pedaço de metal."

"O que é que tu queres, Sofia?"

"Eu? Eu não quero nada. Eu já tenho tudo. Tenho o meu pai, e agora tenho o teu marido. Ele ama-me, Ana. Ele sempre me amou. Tu foste apenas um erro conveniente."

"Tu és a mulher dele," continuou ela, a sua voz a pingar falsa simpatia. "Não devias ser tão egoísta. Ele só está a cuidar de mim. Não é isso que a família faz?"

Senti o meu estômago a revirar.

"Nós não somos família," cuspi eu.

"Oh, mas em breve seremos. O Pedro vai divorciar-se de ti e casar-se comigo. Vamos ter a nossa própria família, uma família de verdade."

Desliguei o telefone e atirei-o para a cama.

O ar no apartamento parecia pesado, sufocante.

Abri a janela, a precisar de ar fresco. O troféu no banco do passageiro do meu carro brilhou sob a luz da rua.

Um pedaço de metal.

Talvez eles tivessem razão.

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