Capítulo 2

Acordo na segunda-feira e fico sentada na cama fazendo um balanço de tudo que aconteceu em minha vida desde que vim embora para Nova York. Não sou daqui, na verdade, sou brasileira por parte de mãe, nasci em Minas Gerais e vim para cá aos dez anos. Meu pai é americano, da Pensilvânia, e eles ainda moram lá. Vim sozinha para cá depois que consegui uma bolsa em uma faculdade daqui. Tenho uma linha do tempo satisfatória: entrei na faculdade, me formei com honras, encontrei uma amiga que é como minha irmã, nos juntamos em uma sociedade e construímos um escritório de consultoria, arquitetura e decoração, encontramos homens perfeitos, ela se casou e eu... fiquei parada no tempo. Meu pescoço dói quando eu viro e olho para o relógio. Vejo que marcam 8h37. Não ligo para isso, pois sou dona do meu próprio negócio. Alan que segure as pontas sem Candice e eu por lá. Resolvo ir ao escritório apenas depois do almoço. Isso me faz pensar que, nesse momento, Candice deve estar enrolada em um corpo quente, masculino e cansada da farra da noite. Pulo da cama e corro para o banheiro sentindo uma ponta de inveja de Candice. Queria também poder ter um sexo tranquilo e tal... Imagino como deve ser agradável acordar aninhada a um corpo masculino. Eu nunca dormi com Ryan ou qualquer outro homem. tarde, já com o cabelo impecável, caminho até o closet de sutiã e calçola. Sim, eu uso calçola (daquelas que parecem cueca) para trabalhar. De algodão e confortável. Não vou andar o dia todo de fio dental. Com meias de lycra em tom médio, escarpin preto salto quinze e um conjunto de terninho e saia cinza, vou até o quarto e recolho alguns utensílios necessários para jogar na bolsa. Batom, BlackBerry, carregador de celular, caneta, grampos, presilhas, maquiagens em geral. Saio correndo, voltando em seguida para pegar as chaves do carro. Minha vida até que não é nada má. Sou minha própria chefe, tenho um carro bonito e casa própria. O que mais eu poderia pedir? Um homem. — Meu inconsciente reclama. Ignoro essa voz interior. Eu tenho um homem em minha vida. Ryan é meu, pronto. O que mais eu poderia querer? Transar com Ryan. Ah claro! Reviro os olhos para mim mesma. Às vezes ninguém precisa me colocar no meu lugar ou dar sermões em mim. Eu mesma me encarrego disso. Dou uma última olhada no espelho do carro enquanto espero no semáforo. Meu escritório fica em Williamsburg, Brooklin, e eu moro no Soho. Não acho muito longe e nunca trocaria quaisquer dos dois locais por ouro algum. Seria mais fácil Candice e eu encontrarmos água em Marte do que conseguir esses lugares. E isso acontecera graças aos pais dela e a Leopold. Estaciono na minha vaga. Sim, eu tenho uma vaga, afinal sou dona de quase todo um andar desse prédio. Dividimos um andar com um escritório de contabilidade, que é de um amigo nosso. Ah! Candice também é proprietária, lógico. Saio do elevador desfilando, e dou um olá contagiante para meus funcionários. Já na minha sala, meus olhos pousam imediatamente em minha bela mesa ultramoderna de pinho e noto um envelope pardo tipo ofício. O trabalho que Candice me arrumou. Aquela safada só queria se certificar de que eu não iria para um cruzeiro pelas Bahamas, só poderia ser isso. Eu já estou atolada de trabalho até depois do apocalipse e mais um serviço de última hora seria terrível para minha viagem planejada há anos. Não é todo dia que as pessoas podem conhecer as Bahamas. Nem tanto por causa do dinheiro, mas por falta de tempo, já que trabalho até durante as férias. Sento-me e olho o envelope, lacrado. Sem muita pressa, eu o abro e dentro há apenas uma folha de papel timbrado... O que é isso? Não estou acostumada a esse tipo de pedido tão formal. Olho espantada para a insígnia no cabeçalho do papel e as inscrições logo abaixo: S. Graham Psicanalista Solto a folha sem nem mesmo saber o que dizia e digito o nome na barra de pesquisa na internet. Milhões de páginas aparecem, elevo a setinha do mouse e clico em imagens. A página se abre e me deparo com um ser viril de parar o trânsito. Pego rápido meus óculos de leitura e olho mais de perto, como aquelas velhinhas que chegam bem perto e ainda franzem o nariz para visualizar melhor. Preciso ter certeza de que aquilo não é uma criação artificial, computadorizada. Clico em "sugestões" e milhares de imagens de um homem alto, com cabelos pretos, pele bronzeada e um sorriso dilacerante me deixam hipnotizada. Em quase todas as fotos, ele exibe o mesmo sorriso safado, muito seguro de si mesmo. O cara é tão bonito que chega a ser ilegal. Não é aquela beleza bonitinha de homem riquinho bem penteado. É aquela beleza viril, com cara de homem, daqueles que fazem uma mulher tremer só de olhar. Queixo quadrado, boca hipersexy, cabelos negros e fartos. Um clichê de tão belo. Há fotos tiradas de paparazzi que mostram ele correndo no Central Park sem camisa, apenas de bermuda, óculos escuros e o cós da cueca aparecendo. Quase morro e por um motivo justo. Ele tem tatuagens! Acho que encontrei o significado personificado da palavra pecado. Isso é justo para com as mulheres, Deus? Não consigo parar de clicar em próxima página para continuar vendo. E vejo fotos dele no Red Carpet, devastador, de terno, sentado em uma poltrona perto de um divã, seminu em uma campanha de perfume, cruelmente lindo em uma propaganda de relógios. Inclusive, disfarçadamente, salvo uma ou duas fotos no computador, simplesmente não consigo resistir. Talvez coloque como papel de parede na minha área de trabalho. Chego até a página 5 e só paro quando recebo um beliscão de repreensão de mim mesma. Agora é hora de saber o que esse ser erótico faz da vida. Descubro que Sawyer Graham é terapeuta das estrelas. Por isso não o conheço, não perco meu tempo fuçando a vida das celebridades. Segundo várias matérias, ele tinha conseguido colocar no eixo mulheres que estavam à beira da loucura. Nomes de peso apareceram diante dos meus olhos, mulheres que o mundo conhece. Mas não estou interessada nelas, o cara tem uma página na Wikipédia. Isso não é tão espantoso, já que atualmente qualquer um tem uma página lá. Ele já esteve na Helen, no Jimmy e em quase todos desses talk shows populares. Nem acredito que tenho a possibilidade de trabalhar para uma celebridade. Um solteirão milionário que se dá bem à custa dos problemas das mulheres. Mas não qualquer mulher, apenas as que conseguem pagar o preço exorbitante da consulta. Minha mente para por dois segundos quando vejo o preço médio da consulta. Ele é o quê? O gênio da lâmpada? Vejo mais algumas informações, como os prêmios que o doutor ganhou como filantropo e psicanalista bem-sucedido, sua presença fiel na mídia, aparecendo sempre aparece em várias revistas. Parece que é conselheiro sexual em duas delas. Bem, sobre ele eu já sei o bastante. Desligo o computador para não ter distrações e pego o papel que Candice tinha deixado para mim. O cara precisa de uma reforma no consultório dele. Desde novos carpete e pintura à troca de persianas e móveis. É um trabalho difícil, mas, se eu aceitar, elevará o meu nome no mercado. Cifrões explodem em meus olhos igual desenho animado. É muito dinheiro em jogo. Por isso não devo recusar, principalmente porque é um amigo de Candice. Permaneço sentada na cadeira movendo-a de um lado para o outro com a haste dos óculos na boca. Pense, Marianne, pense. Em todas as minhas razões para aceitar, nenhuma fazia alusão ao dono do imóvel. Bem, eu nunca olho a aparência dos meus clientes, até porque isso é o mínimo detalhe. No caso dele não é nada mínimo. O homem é gostoso ao extremo. Aquele cara deve ter entrado duas vezes na fila da distribuição de beleza quando estava sendo criado. Eu nem sabia que existiam terapeutas novos e bonitos por aí. Se eu não aceitar trabalhar para esse homem, Candice não ficará contente... Ela com certeza já deve ter prometido a ele que eu aceitaria o serviço. Sem falar que esse deve ser o terapeuta que cuidou dela. O que eu não entendo é esse temor dentro de mim. É apenas um serviço qualquer, não é? Ir até lá, fazer um gordo orçamento e pronto. Dinheiro, Marianne, ele tem dinheiro. Dinheiro e fama. Sem titubear, pego o telefone na minha mesa e ligo para o número que está no papel. Após o terceiro toque e algumas batidas falhas do meu coração, alguém atende. Uma voz de mulher. Espero ela se identificar dizendo que se chama Eva e que aquele telefone é do consultório do Dr. Graham. — Oi, aqui é Marianne Cooper, eu recebi um pedido do Dr. Graham para um orçamento de reforma no consultório dele.

Capítulo 3

— Claro, ele já me deixou a par disso. Estava esperando sua resposta. — A que horas eu posso ir dar uma olhada no lugar? — Se tiver um tempinho, nesse momento seria uma boa hora, já que ele não tem paciente agora. Penso um pouco. Abro a aba da minha agenda no computador e vejo que dá para eu arrumar uma brechinha aqui. — Estou a caminho. — Decido rápido. — Muito obrigada. Desligo o telefone e aperto um botão. — Gaby, peça a Alan para vir aqui até minha sala. Enquanto espero, guardo os óculos, visto o paletó e ele chega. — Alan, estou de saída. Sei que você está cuidando das coisas de Candice, então deixo você tomando conta de tudo. Gaby ainda não consegue sozinha. — Vai sair? Acabou de chegar. — Ele me olha com um pouco de revolta. — Não vou dar conta de dois escritórios. Alan é assistente exclusivo de Candice, é primo dela e está no último ano da faculdade de engenharia civil, vai ser um ótimo construtor. Gosto muito dele, da sua eficiência e já tentei várias vezes roubá-lo para mim. Candice é uma egoísta. Sorte a minha que Alice está chegando para ser minha assistente. — Não precisa cuidar. Gaby vai transferir as ligações importantes para meu celular, você precisa ficar apenas... gerenciando. Até mais, meu querido. — Ando depressa até ele, dou um beijinho em seu rosto lívido, pego casaco, bolsa, chaves e saio rapidamente. Passo pela sala e aviso a Gaby que estou saindo. *** Sei que aqui é vida real, mas não deixo de pensar no que posso encontrar nessa tarde. A imagem de um grande clichê que sempre encontro em livros cobre minha mente: Um homem muito rico, gostosão, que tem sérios problemas resultantes de algum trauma e agora só consegue se relacionar de modo estranho. Por que ricos não conseguem lidar com problemas e qualquer coisa os deixa traumatizados? Uma questão para ser estudada com calma. Olha só quem fala de trauma. Bem, todo mundo tem essas vozes antipáticas soprando no ouvido, né? Broadway? Essa área de Manhattan é mesmo um bom lugar para se montar um consultório para mulheres famosas e desequilibradas. Na recepção, uma jovem me informa que o consultório do Dr. Graham fica no oitavo andar. Uma placa de metal atrás do balcão dela também informa isso. Ao chegar noto que, quase como eu, o Dr. Graham é dono de um andar inteiro daquele prédio. Eu disse quase. O ponto positivo para ele é que o espaço fica no Upper West Side, o meu é no Brooklyn. Estou diante do lugar mais luxuoso e aconchegante que já vi. O homem tem muito bom gosto. E fico me perguntando, com tantas designers famosas, por que ele foi atrás justamente da minha agência, no Brooklyn? Deve ser mesmo muito amigo de Candice. Isso tudo, toda essa riqueza e opulência, combina bastante com a imagem do homem que vi na internet. Com uma análise rápida e perspicaz, pondero mentalmente que ele não precisa de muita mudança na decoração. Mas quem sou eu para discutir com uma celebridade possivelmente birrenta? Na primeira sala, bem espaçosa com sofás modernos brancos e carpete chumbo, eu encontro uma mulher muito bonita e bem vestida sentada atrás de uma mesa de vidro. Ela sorri para mim e retribuo o sorriso. — Oi, telefonei mais cedo. Sou Marianne Cooper, a designer. — Estendo a mão e a cumprimento. — Claro, o Dr. Graham já está vindo. Sente- se e aguarde. Aceita alguma coisa, Srta. Cooper? — Uma água, por favor. Ela sai com um sorriso nos lábios, eu me sento olhando tudo ao redor e faço algumas anotações mentais. Se todo o andar for redecorado, eu terei muito serviço pela frente e no fim uma boa quantia em minha conta. O que tenho que fazer agora é me concentrar para parecer muito equilibrada quando o deslumbrante terapeuta chegar. Fico me perguntando como Candice tem esses amigos gostosos e nunca me disse nada. Traidora. Acho que chegou a hora de colocar meus nervos à prova. DOIS SAWYER A reunião foi um sucesso. Tenho vontade de dar um salto mortal de alegria. Eu consegui! Meus advogados fizeram um bom trabalho e acabo de adquirir o Mercury Hotel. Foram meses de negociações, vínhamos nos reunindo e não chegávamos a um consenso, foram meses cobiçando aquele lugar. Agora é só jogar na imprensa, com certeza meu nome vai ajudar a reerguer o lugar que tem tanto valor sentimental para mim. Cumprimento os dois herdeiros, antigos donos, com apertos de mãos. Peço licença e saio rapidamente da sala, pois preciso contar as boas novas a Jill. Ela estava ansiosa como eu. Não quis vir comigo para assinar o contrato de venda, pois não gosta dessas firulas. Saio da sala de reuniões, desço de elevador, passo pelo enorme hall de entrada e saio do, a partir de agora, meu hotel. Já está tudo combinado para que o lugar seja fechado hoje e sejam iniciadas as reformas de reabertura, com um novo nome. Ainda quero manter segredo para todos.

 Lá fora, um carro preto me espera. O homem de terno ao lado dele abre a porta e eu entro. Agradeço com um rápido gesto de cabeça. Ele se afasta e eu arranco. — Jill, consegui. O hotel é oficialmente meu! — Anuncio assim que ela atende minha ligação. — Ah, Sawyer! Estou feliz por você. Mas sabe que ainda mantenho um pé atrás com essa sua decisão. — Tem que me entender, Jill. O hotel representa muito para mim e o consultório está me dando problemas. — Problemas que você criou. — Mas não se preocupe. Vou contornar esse problema e continuar com as terapias. — Poxa, Sawyer, vai virar um empresário? Logo você? — Não. Esse assunto de novo, não, já falei com você. — Tudo bem. Vem me ver? — Sim. Vou passar aí agora para almoçarmos. Mesmo Jill reprovando minha nova aquisição, estou muito feliz. Feliz demais, como nunca estive. As coisas que os homens mais adoram: mulher, bebida, farrear com amigos e um bom carro. Vou agora fazer um filtro. Disso tudo, aquilo que os homens mais amam: mulher. Eu, por exemplo, tenho o emprego que muito homem mataria para ter: sou pago, muito bem pago para comer mulheres. E não sou um garoto de programa. Sou terapeuta e uso meu pau para curar as loucuras delas. Há mais de sete anos, isso funciona perfeitamente. Nunca tive reclamações. Quero dizer, já tive. Elas reclamaram que não queriam acabar as consultas. Essa minha vida não foi planejada, aconteceu por acaso, se espalhou como câncer, a notícia correu e cada vez mais a fila de mulheres aumentava em minha porta. Em um estalar de dedos, eu estava estampando capas de revistas. Para marcar uma consulta comigo, a mulher deve passar quase por um processo seletivo. Minha secretária faz uma entrevista prévia e depois me passa os dados, com todas as informações possíveis. E aí eu decido se aceito ou não. Geralmente passo as gostosas na frente, não sou bobo. Seguindo arduamente minhas próprias regras, consegui transformar meu consultório em um dos mais famosos. Foram anos satisfatórios e muito gostosos. E o melhor de tudo, é que a maior parte da sociedade não sabe o que rola porta adentro do consultório. Às vezes fico me perguntando quantos litros de porra já gastei nesse consultório, quantas camisinhas já foram usadas e quantas lágrimas já tive que suportar. Sim, lágrimas. Algumas choram enquanto contam os problemas e outras choram por não querer se libertar do consultório. Mas jamais posso reclamar de nada, minha vida é perfeita do jeito que é. Além de tudo, sou livre, bebo quando quero, saio quando quero, sou rico, e o melhor: a cada dia traço uma mulher diferente. Algumas vezes, como duas por dia. Olhem meu sorriso largo de satisfação, enquanto analiso minha vida. Eu fiz muita coisa de procedência duvidosa até chegar onde estou, nada que tenha me deixado traumatizado, graças a Deus. Eu não tenho traumas, sou um cara tranquilo e apesar de agora ver minhas escolhas passadas como um erro, elas foram necessárias para me dar essa vida de luxo e me fazer amadurecer em relação ao ser humano. Hoje entendo melhor a mente de um ser humano — principalmente das mulheres —, não tenho vergonha ou resignação, qualquer um pode saber o que eu fui, basta saber procurar o nome certo e associar as duas pessoas. Apesar de muitos julgarem vulgar o que eu fiz, eu acho algo normal e Jill sempre me disse que se eu revelasse tudo em praça pública ajudaria a catapultar minhas novas escolhas de carreira. 

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