Capítulo 2

Por vinte anos, eu fui Kieran Gordon, a maior promessa do Flamengo. O presidente, a quem eu chamava de pai, sempre me disse que eu era o futuro, a lenda que ele estava a criar.

Até que Leonel Contreras, o verdadeiro "filho pródigo", voltou. Ele era o filho do melhor amigo falecido do presidente, sequestrado na infância e agora encontrado.

Tudo mudou.

Meu contrato vitalício, o amor dos torcedores, o carinho da minha "família" do clube, tudo desapareceu. O sistema que me dava uma recuperação física sobre-humana, que me ligava a esta família, agora mostrava um contador de afeto zerado. Minha missão de me tornar uma lenda do Flamengo estava acabada.

"Kieran, você é um ingrato," o presidente gritou, com o rosto vermelho de raiva. "Você só pensa em dinheiro e fama, sugando os recursos que deveriam ser de outros jovens, como o Leonel!"

Sua esposa, a mulher que eu considerava uma mãe, olhava para mim com desprezo.

"A competição com você está a matar o Leonel. A saúde frágil dele não aguenta."

Eu fiquei ali, isolado, o calor da família que eu conhecia substituído por um frio cortante. A única pessoa que parecia estar do meu lado era a minha noiva, Raegan Hayes, a fisioterapeuta mais famosa do Rio de Janeiro. Ela segurou a minha mão, mas o seu toque não tinha o calor de antes.

Ela olhou para mim, os seus olhos antes cheios de amor, agora frios e calculistas.

"Kieran, se você doar um dos seus pulmões para o Leonel, eu caso com você."

A proposta dela atingiu-me com a força de um soco. Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir. A mulher que eu amava estava a pedir-me para sacrificar a minha carreira, a minha saúde, pela vida de outro homem.

"O quê?"

"Com o seu Sistema de Legado, você pode viver bem com um pulmão só," ela disse, a sua voz calma e racional, o que a tornava ainda mais cruel. "O Leonel vai morrer sem um transplante. Pense nisso. Depois da cirurgia, o clube vai aceitá-lo de volta. A sua missão de se tornar uma lenda será cumprida. Seremos uma família feliz."

Eu olhei para o medidor de afeto dela no meu sistema. Zero. Um zero frio e absoluto. Eu ri, um som amargo que arranhou a minha garganta.

"Tudo bem. Eu faço isso."

Eu não disse isso por esperança. Eu disse isso para pagar a dívida que sentia ter com o clube que me criou. Para acabar com tudo de uma vez por todas.

O meu corpo doeu. Uma dor aguda no peito, um aviso do sistema. A missão estava a falhar, e a minha vida estava a esgotar-se. Eu percebi a verdade: o meu amor, a minha lealdade, tudo era apenas uma ferramenta para eles.

Fui para o meu quarto, o quarto que o presidente me tinha dado na sua mansão. Peguei nas fotografias. Eu, o presidente e a sua esposa, sorrindo no Maracanã. Eu e a Raegan, abraçados na praia. Memórias de uma vida que agora parecia uma mentira. Rasguei cada uma delas em pedaços pequenos, vendo o passado transformar-se em lixo nas minhas mãos.

A minha vida tinha sido um sonho. Órfão, acolhido pelo clube mais poderoso do Brasil, tratado como um príncipe. Então, Leonel apareceu. Frágil, doente, mas com um talento para a manipulação que superava o meu talento para o futebol. Ele sussurrou nos ouvidos do presidente e da sua esposa, pintando-me como um vilão ganancioso.

E a Raegan, a minha Raegan, que me prometeu apoio eterno, apaixonou-se pela fragilidade dele. Ela tornou-se a sua cúmplice.

No dia do meu aniversário, ninguém se lembrou. O presidente confrontou-me com um documento. Um termo de doação que dizia que eu estava a doar o meu pulmão por culpa e arrependimento.

"Assine," ele ordenou.

"Não. Eu não sou culpado de nada."

A sua mão voou e atingiu o meu rosto com força. Eu caí, o gosto de sangue na minha boca.

"Seu ingrato!"

O telemóvel da Raegan tocou. Era o Leonel. Ela olhou para mim, caído no chão, e depois para o telemóvel.

"Leonel? Estou a caminho."

Ela saiu, deixando-me ali, ferido e sozinho. Ela correu para a festa de aniversário surpresa do Leonel, onde ele recebeu as chaves de um apartamento de luxo na Barra da Tijuca como presente dos meus "pais".

Eu, ferido e esquecido, peguei no meu telemóvel e liguei para uma ambulância.

"Sistema," eu disse em voz baixa, enquanto a dor se espalhava pelo meu corpo. "A missão falhou. Encontre-me um novo objetivo."

A voz do sistema respondeu na minha mente. "Analisando... Novo objetivo definido: Tornar-se o maior jogador do mundo."

Mesmo que fosse noutro lugar. Longe daqui.

Capítulo 3

No carro a caminho do hospital, o sistema confirmou o inevitável.

"Fracasso na missão principal. A saúde do hospedeiro começará a deteriorar-se. Tempo estimado até à morte: 30 dias."

"Tanto faz," murmurei, encostado à janela fria da ambulância.

O meu telemóvel vibrou. Uma chamada de vídeo do presidente. Atendi. A imagem tremia, mas eu podia ver tudo claramente. A Raegan, o presidente e a sua esposa estavam a cantar "Parabéns a Você" para o Leonel, que sorria, rodeado de presentes caros.

"Kieran, olha só o apartamento que o pai me deu!" A voz do Leonel era triunfante. "A Raegan disse que vai ajudar a decorar. Não é fantástico?"

Eu não respondi. Apenas observei a minha noiva a sorrir para ele, a minha família a celebrar o homem que me destruiu.

A dor no meu peito intensificou-se. Não era apenas a lesão. Era a dor da exclusão, de ser apagado. Eles tinham-se esquecido. Hoje era o meu aniversário.

Desliguei a chamada.

A minha condição piorou rapidamente no hospital. A febre subiu, a minha respiração tornou-se difícil. Os médicos correram, alarmados. Fui resgatado a tempo, estabilizado, mas sentia-me oco por dentro.

O telemóvel vibrou de novo. Mensagens do Leonel. Fotos dele com o presidente. Vídeos dele a abrir presentes. Uma foto dele e da Raegan, muito próximos, a sorrir para a câmara. Ele queria uma reação. Queria ver-me sofrer.

Mas eu já não sentia nada. Apaguei as mensagens sem responder.

Depois de alguns dias, deram-me alta. Voltei para a mansão. Eles estavam todos na sala de estar. Leonel, Raegan, o presidente e a sua esposa. O ar estava pesado.

"Kieran, que bom que voltou," disse a Raegan, a sua voz sem emoção. "O Leonel vai ficar no quarto ao lado do seu. Pode, por favor, ajudar a arrumar as coisas dele?"

Eu olhei para ela. Ela queria que eu preparasse o quarto do meu substituto.

"Estou cansado," foi tudo o que eu disse.

"Kieran, não seja rude," disse o Leonel, com uma voz fraca e ofegante. "Eu só pensei que... poderíamos ser amigos." Ele deu um passo na minha direção, fingindo preocupação.

Eu ignorei-o e comecei a subir as escadas.

De repente, ouvi um baque. O Leonel estava no chão, a gemer.

"Ai, a minha perna!"

A Raegan correu para ele, o pânico no seu rosto.

"O que você fez?" ela gritou para mim. "Peça desculpa agora!"

Eu olhei para a cena. A atuação barata do Leonel, a reação exagerada da Raegan. Antes, eu via o cuidado dela como amor. Agora, via apenas cegueira. Uma cegueira perigosa.

"Não," eu disse calmamente.

Virei-me e continuei a subir as escadas, deixando-os para trás. Fui para o meu quarto e fechei a porta.

Eu podia ouvi-los lá em baixo. A voz suave da Raegan a consolar o Leonel.

Mais tarde, ouvi passos. A porta do meu quarto abriu-se. Era o Leonel. Ele entrou, o seu rosto já não mostrava fragilidade, mas um ódio mal disfarçado.

"Ela ainda se preocupa com você," ele sibilou, o ciúme a brilhar nos seus olhos. "Mas não por muito tempo."

Ele aproximou-se, invadindo o meu espaço pessoal.

"Eu vou tirar tudo de você, Kieran. O seu lugar, o seu nome, a sua noiva. Tudo."

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