Capítulo 2

Ponto de Vista de Alessandra Moraes:

Três dias depois, eu estava sentada no meu carro, do outro lado da rua do Santo Grão, uma cafeteria badalada no Jardins. Faltava uma semana para o prêmio que Antônio estava na cidade para receber. O tempo era um relógio em contagem regressiva, e cada segundo era uma batida no tambor do meu novo e frio propósito.

Meu celular vibrou com uma mensagem dele.

Antônio: Pensando em você. O painel desta tarde está um saco. Queria estar em casa com você. Te amo.

As palavras eram uma fumaça, sem sentido e insultantes. Observei enquanto seu sedã preto e elegante parou no meio-fio. Ele saiu, impecavelmente vestido, um sorriso charmoso já fixado no rosto enquanto falava ao celular, seus AirPods aninhados nos ouvidos.

Eu não conseguia ouvir suas palavras, mas conhecia o tom. Era sua voz pública — confiante, calorosa, envolvente. Ele provavelmente estava falando com seu sócio ou um cliente.

Então, vi sua expressão mudar. O sorriso público desapareceu, substituído por um olhar de fome impaciente. Sua voz, mesmo do outro lado da rua, pareceu baixar uma oitava, tornando-se mais íntima, mais urgente.

"Estou aqui. Onde você está?", ele disse, seus olhos varrendo a rua. "Não, eu te disse, a entrada dos fundos. A do beco de serviço. Apenas venha."

Ele desligou o celular e se moveu com um passo rápido, quase predatório, desaparecendo no beco estreito ao lado da cafeteria. O beco levava à entrada de serviço do Hotel Fasano, o hotel boutique conectado ao café. O mesmo hotel mencionado na mensagem de texto.

Minhas mãos apertaram o volante, meus nós dos dedos brancos. Um tremor percorreu meu corpo, um zumbido de baixa frequência de pura e inalterada fúria. Isso não era luto. Era algo mais duro, mais afiado. Era a sensação de estar sendo forjada em uma arma.

Saí do carro, meus movimentos deliberados. Segui seu caminho pelo beco sujo, o fedor de lixo e cerveja velha pairando no ar. Eu o vi passar um cartão-chave e deslizar para dentro de uma porta lateral discreta do Fasano. Quarto 207.

Ele nem precisou fazer check-in. Ele tinha uma chave. Isso era algo regular.

Eu não o segui para dentro. Em vez disso, voltei para a entrada principal do hotel, meu rosto uma máscara de indiferença educada. Fiquei perto dos elevadores, fingindo digitar no meu celular.

Minutos se transformaram em uma eternidade. Dez. Vinte. Trinta. Cada minuto era uma nova camada de sujeira cobrindo meu casamento de vinte anos. Imaginei o que estava acontecendo no Quarto 207. O pensamento não trouxe lágrimas. Trouxe um foco arrepiante e esclarecedor.

Eu não seria a esposa chorosa batendo na porta. Eu não criaria uma cena. Minha vingança seria fria, calculada e pública.

Depois de quarenta e cinco minutos, peguei meu celular e disquei o número dele.

Ele atendeu no segundo toque, sua voz ofegante. "Oi, querida. Tudo bem?"

O som de sua preocupação fingida, sobreposta à sua respiração irregular, era tão profundamente nojento que quase me fez engasgar.

"Antônio", eu disse, minha própria voz a de uma estranha — trêmula, fraca. Injetei uma nota de pânico nela. "Onde você está? Eu... eu não estou me sentindo bem."

"O quê? O que há de errado?", ele perguntou, a preocupação ensaiada fluindo sem esforço. "Estou apenas em uma reunião, está prestes a terminar. No escritório satélite da empresa."

Uma mentira. Tão fácil. Tão suave.

"Eu acho... acho que estou tendo um ataque de pânico", sussurrei, deixando minha voz falhar. "Meu peito dói. Preciso que você venha para casa. Por favor."

Houve uma batida de silêncio. Eu quase podia ouvir as engrenagens girando em sua cabeça, pesando suas opções. Sua esposa doente versus sua emoção barata.

"Claro, querida. Claro. Estou saindo agora mesmo. Chego aí em vinte minutos. Apenas respire, ok? Estou a caminho."

Ele desligou.

Eu me achatei em um pequeno nicho perto da saída de emergência, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. Segundos depois, a porta do Quarto 207 se abriu com violência. Antônio saiu furioso, seu rosto uma máscara de fúria, seu celular já no ouvido.

"Aconteceu uma coisa", ele sibilou no telefone. "Minha esposa... ela não está se sentindo bem. Eu tenho que ir. Não, não sei quando. Apenas... saia pela frente. Te mando uma mensagem mais tarde."

Ele não esperou por uma resposta. Correu em direção aos elevadores, apertando o botão de 'descer' repetidamente.

Prendi a respiração, esperando. Um momento depois, a porta do 207 se abriu novamente. Uma figura emergiu, e o mundo girou em seu eixo.

Era uma mulher. Jovem, talvez na casa dos vinte e poucos anos, com cabelos loiros compridos e um vestido da moda, de aparência cara, que abraçava seu corpo. Ela entrou no corredor, um beicinho em seus lábios perfeitamente brilhantes. Ela puxou o braço dele.

"Não vá", ela choramingou, sua voz carregada de um direito petulante. "Ela pode esperar."

Ele puxou o braço com força, o rosto tenso de irritação. "Kátia, agora não. Eu tenho que ir."

Ele lhe deu um beijo rápido e rude, um gesto desprovido de qualquer afeto real. Era uma dispensa. "Eu te compenso", ele murmurou, antes de se virar e sair correndo.

Ela o observou ir, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto antes de se recompor, alisando o vestido. E quando ela se virou, seu rosto ficou sob a luz total do corredor do hotel.

Meu sangue gelou.

Eu conhecia aquele rosto.

Todos os pais do Colégio Bandeirantes conheciam aquele rosto.

Kátia Bernardes.

A orientadora educacional do Lucas. A orientadora "descolada", como meu filho a descrevera. Aquela com quem era "muito mais fácil conversar do que, sabe, com adultos".

A lembrança me atingiu com a força de um golpe físico. Lucas, alguns meses atrás, na mesa de jantar. "A Kátia é tão legal. Ela realmente entende as coisas. Ela disse que eu tenho uma alma velha, assim como meu pai."

Outra lembrança. Lucas, rolando o feed do celular, rindo. "Olha o TikTok da Kátia. Ela é hilária."

Ele sabia.

Meu filho sabia.

Ele não estava apenas ciente do caso; ele era um admirador da amante. A versão "descolada" e melhorada de sua mãe "velha e sem graça". As peças não apenas se encaixaram; elas se chocaram, formando uma imagem monstruosa de traição tão profunda que roubou o ar dos meus pulmões. Isso não era apenas o engano de Antônio. Era uma conspiração. Uma conspiração na minha própria casa, com meu próprio filho como participante voluntário.

A imagem do meu marido e do meu filho, duas víboras sorridentes, surgiu em minha mente. Eles estavam rindo de mim. Por quanto tempo? Meses? Anos?

A dor era uma coisa física, uma agonia branca e quente que queimava meu peito. Por um momento, não consegui respirar. Apoiei-me na parede, a textura áspera do papel de parede cravando em minhas costas. Isso era uma traição em nível celular. Era um veneno que havia sido gotejado no coração da minha família, e eu estava feliz e estupidamente inconsciente.

O gelo em minhas veias se transformou em fogo.

Afastei-me da parede, meus movimentos firmes novamente. O luto se foi, queimado por uma fúria pura e justa. Saí do hotel, não de volta para o meu carro, mas pela rua, meus saltos batendo um ritmo agudo e determinado no pavimento.

Peguei meu celular. Não liguei para uma amiga. Não liguei para minha mãe.

Liguei para minha assistente pessoal, uma mulher impiedosamente eficiente chamada Zara. "Zara, preciso que você faça algo para mim. Preciso de tudo que você puder encontrar sobre uma mulher chamada Kátia Bernardes. Redes sociais, registros públicos, tudo. E preciso disso até amanhã de manhã."

Em seguida, disquei o número da Advogata88, a advogada do Reddit.

"Sou eu", eu disse quando ela atendeu. "A mulher do fórum. Eu tenho provas. E quero incendiar o mundo dele. Mas ainda não. Quero fazer isso nos meus termos. E eu tenho o palco perfeito."

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alessandra Moraes:

Quando entrei pela porta da frente, a casa cheirava a alho e alecrim. Antônio estava na cozinha, usando um dos meus aventais sobre sua camisa cara, mexendo em uma panela de molho de macarrão. A imagem da domesticidade. O marido perfeito e atencioso, em casa de sua "reunião" para cuidar de sua esposa doente.

"Ei, você voltou", ele disse, seu rosto uma máscara de preocupação gentil. "Eu já ia te ligar. Está se sentindo melhor?"

Ele enxugou as mãos em um pano de prato e correu para o meu lado, colocando as costas da mão na minha testa como se estivesse verificando a febre. Seu toque era repugnante.

"Um pouco", murmurei, dando um passo para trás. "Só fui dar uma caminhada curta para tomar um ar."

"Você deveria estar descansando", ele repreendeu suavemente. "Eu fiz seu prato favorito, arrabbiata, do jeito que você gosta, com pimenta extra. E abri aquela garrafa de vinho que você estava guardando. Vá se sentar. Eu levo um prato para você."

Ele era um ator fenomenal. Um verdadeiro artista da enganação. Ele se movia pela cozinha com uma graça fácil e praticada, cada gesto projetado para mostrar sua devoção. Se eu não tivesse visto o que vi, se não tivesse ouvido o que ouvi, eu teria acreditado nele. Meu coração teria derretido com essa demonstração de afeto.

Agora, parecia apenas assistir a um estranho atuando em uma peça para uma plateia de uma pessoa só.

Ele me trouxe uma taça de vinho, sua testa franzida com a quantidade certa de preocupação. "Você realmente me assustou, Alê. Você precisa se cuidar melhor. Talvez esteja trabalhando demais."

Bebi um gole do vinho, o líquido rico não fazendo nada para aquecer o gelo em minhas veias.

Depois de alguns minutos, ele secou as mãos e disse: "Vou só subir para ver como o Lucas está. Volto já."

Esperei até ouvir seus passos se afastarem pelo corredor do andar de cima. Então, silenciosa como uma sombra, eu o segui. Parei do lado de fora da porta entreaberta do quarto de Lucas, pressionando-me contra a parede, esforçando-me para ouvir.

"E aí, campeão. Como foram os estudos?", a voz de Antônio era casual, paternal.

"Bem", Lucas resmungou, o som de um controle de videogame clicando furiosamente ao fundo. "Você se divertiu na sua 'reunião'?"

Havia um sorriso de escárnio na voz do meu filho que fez meu estômago se contrair.

Antônio riu, um som baixo e conspiratório. "Foi... produtiva. Tive que encurtar, no entanto. Sua mãe teve um dos seus surtos."

Meu sangue congelou. Um dos seus surtos. Ele fez meu pânico fabricado soar como um drama recorrente e inconveniente.

"Sério?", Lucas soou irritado. "Ela está bem?" A pergunta foi protocolar, desprovida de qualquer preocupação real.

"Ela está bem. Só precisava de um pouco de atenção", disse Antônio com desdém. "Você sabe como ela é. Enfim, como está minha orientadora favorita?"

A casualidade disso, a maneira como ele jogou o nome dela na conversa com nosso filho, era de uma arrogância de tirar o fôlego.

Lucas riu. "A Kátia? Ela é demais. Muito mais legal que a Sra. Albright. Pelo menos a Kátia não tem, tipo, cem anos."

Um golpe direto. E veio do meu próprio filho.

"Ela é incrível, não é?", a voz de Antônio estava carregada de um orgulho presunçoso.

"Pai, só um aviso", disse Lucas, seu tom mudando. "Acho que a mamãe sabe que tem algo rolando. Ela estava me fazendo umas perguntas estranhas sobre garotas e tal outro dia. Acho que ela viu aquela mensagem no iPad."

Meu filho. Meu filho tinha visto a mensagem e seu primeiro instinto foi proteger o caso do pai.

"Não se preocupe com isso", disse Antônio, sua voz suave como seda. "Eu já resolvi. Eu disse a ela que era sobre você. Fiz ela pensar que você era quem estava se metendo em encrenca. Ela engoliu tudo, isca, linha e anzol. Mulheres como sua mãe... elas querem acreditar na família perfeita. É mais fácil do que encarar a verdade."

A verdade. A verdade era que meu marido e meu filho estavam sentados em um quarto juntos, dissecando casualmente minhas fraquezas, zombando do meu amor e admirando a mulher que os estava ajudando a destruir nossa família.

"Ela é tão... sem graça, pai", disse Lucas, e a crueldade em sua voz foi um golpe físico. "Sempre trabalhando nos seus projetinhos de design, fazendo seus jantares saudáveis. A Kátia é divertida. Ela é gata. Por que você não larga a mamãe e fica com ela? Seria bem melhor."

Aí estava. A traição mais profunda. Não apenas cumplicidade, mas um desejo pela minha substituição.

Antônio suspirou, um som de falsa dignidade. "Não é tão simples, Lucas. Sua mãe é uma boa mulher. Uma boa mãe. Ela... ela cuida das coisas."

Ele estava me defendendo. Mas não era por amor ou lealdade. Ele estava defendendo um ativo. Uma gerente doméstica. Um eletrodoméstico que mantinha a engrenagem de sua vida perfeita funcionando sem problemas.

"Tanto faz", Lucas zombou. "Só estou dizendo. A Kátia seria uma madrasta muito mais legal."

Eu não conseguia ouvir mais. Senti-me tonta, minha visão se afunilando. Cambaleei para longe da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Cheguei ao nosso banheiro principal bem a tempo do meu estômago se revoltar, e vomitei o vinho caro e o gosto amargo da traição na porcelana branca e imaculada do vaso sanitário.

Eu estava de quatro, tremendo, quando Antônio me encontrou.

"Alê! Meu Deus, querida, o que foi?" Ele estava ao meu lado em um instante, suas mãos esvoaçando ao meu redor, tentando tocar minhas costas, alisar meu cabelo.

"Não me toque", cuspi, as palavras cruas e guturais.

Ele congelou, suas mãos pairando no ar. "O que... o que há de errado? Alê, você está me assustando."

Levantei-me, meu corpo tremendo com uma fúria tão profunda que parecia que poderia rasgar minha pele. Eu o empurrei, minha palma conectando com seu peito com mais força do que eu sabia que possuía.

"Saia", murmurei. "Apenas... saia. Preciso ficar sozinha."

Confusão e medo lutavam em seu rosto bonito. Ele não via uma parceira em dor, mas um problema que não conseguia resolver imediatamente. "Alê, por favor, fale comigo. Nós éramos tão felizes. Eu não entendo."

Felizes. A palavra era uma zombaria.

"Eu só preciso de um pouco de espaço", eu disse, minha voz estranhamente calma agora. Eu estava olhando para ele, mas estava vendo o palco da cerimônia do Prêmio IAB de Arquitetura. O grande salão de festas, as telas enormes de cada lado do palco, as centenas de rostos — seus sócios, seus clientes, a elite da cidade.

Ele parecia genuinamente aterrorizado. Provavelmente pensou que eu estava tendo um colapso nervoso. De certa forma, eu estava. Um avanço.

"Ok", ele disse, recuando lentamente, as mãos levantadas em um gesto apaziguador. "Ok, o que você precisar. Me desculpe. Não sei o que fiz, mas me desculpe." Ele soava tão sincero. Um mestre em sua arte.

Ele parou na porta, o rosto gravado de preocupação. "O Prêmio IAB é na próxima sexta", ele disse suavemente. "É a noite mais importante da minha carreira. Eu preciso de você lá, Alê. Nós deveríamos... eu ia fazer um brinde a nós. Aos nossos vinte anos." Ele estava tentando recentralizar a narrativa, me puxar de volta para o roteiro.

Ele ia fazer um brinde a nós. A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado.

Uma ideia fria e brilhante começou a se formar nos destroços do meu coração. Um brinde. Uma celebração. Uma declaração pública.

Ele estava certo. Era o palco perfeito.

Olhei para ele, minha expressão suavizando. Deixei uma única lágrima calculada rolar pela minha bochecha. "Você está certo", sussurrei. "Me desculpe. Estou apenas... sobrecarregada. Claro que estarei lá. Não perderia por nada no mundo."

O alívio inundou seu rosto, tão puro e completo que era quase cômico. Ele tinha seu eletrodoméstico de volta em funcionamento. A crise foi evitada.

Ele sorriu, aquele sorriso charmoso e devastador. "Essa é a minha garota."

Ele veio em minha direção, para me abraçar, para selar o acordo.

Levantei uma mão. "Só... me dê alguns minutos, ok?"

Ele assentiu, respeitando meu estado "frágil". Enquanto ele saía do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si, encontrei meus próprios olhos no espelho. A mulher que me encarava era uma estranha. Seus olhos não estavam cheios de lágrimas de luto, mas com a luz dura e brilhante de um diamante. A luz de uma lâmina sendo afiada.

A cerimônia de premiação. A maior noite dele.

Ia ser uma noite para recordar. Eu ia lhe dar uma homenagem que ele nunca esqueceria.

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