Capítulo 2

O meu nome é Sofia e casei-me com o Diogo, um bombeiro.

Quando os resultados do teste de paternidade saíram, ele estava no meio de um resgate de incêndio.

Ainda me lembro do dia em que fui buscar o relatório. O sol brilhava intensamente, mas eu sentia um frio que me gelava os ossos.

O papel nas minhas mãos tremia.

O resultado era claro: o bebé não era do Diogo.

Liguei para o Diogo, mas a chamada foi direta para o correio de voz. A sua voz gravada, calma e profissional, soou: "Estou ocupado, deixe uma mensagem."

Deixei uma mensagem, a minha voz a falhar.

"Diogo, preciso de falar contigo. É sobre o bebé. Liga-me assim que puderes."

Horas mais tarde, ele finalmente ligou de volta. O barulho de sirenes e gritos ainda ecoava ao fundo.

"Sofia, o que se passa? Estou no meio de um incêndio enorme. É urgente?"

A sua voz estava tensa, cheia de urgência do seu trabalho.

"Sim, é," disse eu, a minha voz pouco mais que um sussurro. "Recebi os resultados do teste de ADN."

Houve uma pausa do outro lado da linha. O único som era o caos do seu trabalho.

"E então?" ele finalmente perguntou, a sua voz desprovida de qualquer emoção.

"Não é teu, Diogo. O bebé não é teu."

O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer palavra. Podia imaginá-lo ali, coberto de fuligem, o mundo a arder à sua volta, e agora o seu mundo pessoal também a desmoronar-se.

"Entendo," disse ele por fim. A sua voz era fria, distante. "Falamos quando eu chegar a casa."

Ele desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, para o ecrã escuro. Ele não gritou, não perguntou como, não perguntou porquê. Apenas "entendo".

Aquela calma assustou-me mais do que qualquer explosão de raiva.

Naquela noite, ele não voltou para casa. Nem na noite seguinte.

Dois dias depois, recebi uma mensagem dele.

"Encontrei-me com o meu advogado. Os papéis do divórcio estão a ser preparados. Vou deixar-te ficar com o apartamento, mas quero o divórcio o mais rápido possível."

E foi só isso. Sem perguntas. Sem acusações. Apenas um fim limpo e clínico.

Olhei para a minha barriga, que começava a notar-se. Este bebé, o meu bebé, tinha-se tornado a razão do fim do meu casamento antes mesmo de ter a oportunidade de nascer.

A ironia era dolorosa. Eu não o tinha traído. Nunca.

Mas como podia eu explicar isso agora?

Capítulo 3

Uma semana depois, a mãe do Diogo, a minha sogra, Dona Helena, apareceu à minha porta.

Ela não me cumprimentou. Entrou diretamente, os seus olhos a percorrerem o apartamento, o mesmo apartamento que ela tinha ajudado a decorar.

"Onde está o Diogo?" ela perguntou, a sua voz cortante.

"Não sei," respondi honestamente. "Ele não vem a casa há uma semana."

Ela olhou para mim, os seus olhos a estreitarem-se. "Ele contou-me. Sobre o bebé."

Senti o meu estômago revirar. Claro que ele tinha contado.

"Sofia, eu sempre gostei de ti. Sempre te tratei como uma filha. Como pudeste fazer isto ao meu filho? Ao nosso filho?"

A sua voz tremia de raiva e desilusão.

"Dona Helena, eu não..."

"Não mintas para mim!" ela interrompeu, a sua voz a subir. "O Diogo é um bom homem! Ele arrisca a vida todos os dias por estranhos, e é assim que tu o recompensas? Traindo-o?"

Ela não me deu oportunidade para falar.

"Ele ama-te tanto. Estava tão feliz com o bebé. Falava dele o tempo todo. Como pudeste destruir isso?"

As suas palavras eram golpes, cada uma a atingir-me com força. Eu não tinha resposta. Qualquer coisa que eu dissesse soaria a uma desculpa esfarrapada.

"Eu quero que saias desta casa," disse ela, a sua voz agora fria como gelo. "Esta casa pertence à nossa família. Tu não pertences mais aqui."

"O Diogo disse que eu podia ficar," murmurei, a sentir-me pequena sob o seu olhar.

"O Diogo está de coração partido! Ele não está a pensar com clareza! Eu estou. Pega nas tuas coisas e sai. Não quero voltar a ver a tua cara."

Ela virou-se e saiu, batendo a porta com uma força que fez as paredes tremerem.

Fiquei ali, no meio da sala, a tremer.

Olhei à volta para o apartamento. As nossas fotografias nas paredes, os pequenos bibelôs que tínhamos comprado juntos. Tudo parecia agora uma mentira.

O meu telefone vibrou. Era uma mensagem do Diogo.

"A minha mãe foi aí? Desculpa por isso. Fica no apartamento o tempo que precisares. Apenas assina os papéis quando chegarem."

A sua consideração era quase pior do que a raiva. Tornava tudo mais real, mais final.

Peguei numa mala e comecei a fazer as malas. A minha sogra tinha razão. Eu não pertencia mais ali.

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