Ponto de Vista: Helena Romano
"Vou pedir ao RH para transferi-la para o departamento de arquivos no subsolo na segunda-feira de manhã. Eu prometo."
As palavras de Bernardo ecoavam na minha cabeça, uma promessa oca e zombeteira contra o pano de fundo da cena caótica que se desenrolava ao meu redor. Ele havia prometido. Ele, Bernardo Arruda, a estrela em ascensão do mundo jurídico de São Paulo, um homem cuja palavra deveria ser sua garantia, tinha olhado nos meus olhos e mentido no dia do nosso casamento.
Eu construí minha confiança nele ao longo de sete anos, tijolo por tijolo meticuloso. Eu acreditei em sua integridade, em seu caráter. Eu apostei todo o meu futuro, e o futuro do nosso filho ainda não nascido, na crença de que ele era um bom homem.
Naquele momento único e devastador, percebi que havia perdido a maior aposta da minha vida.
A cólica aguda em meu abdômen diminuiu para uma dor surda e persistente. Era uma manifestação física da ferida aberta que ele havia rasgado dentro de mim. Olhei para minha mão, aquela que ele acabara de soltar. Estava vazia.
Meu reflexo no chão de mármore polido era uma caricatura distorcida e patética de uma noiva. Uma mulher abandonada. Uma tola.
Meu celular, guardado na bolsa da minha mãe, começou a vibrar incessantemente. Eu sabia que era ele. Um fluxo interminável de mensagens tentando amenizar a situação, gerenciar a crise.
*Carla só estava desidratada. Os paramédicos estão aqui. Ela está bem.*
*Me desculpe, amor. Isso é só uma bagunça. Eu volto logo, prometo. Ainda podemos fazer isso.*
*Helena, por favor, me atenda.*
Eu não senti nada. A vibração frenética era apenas um inseto irritante que eu queria espantar. O homem que enviava aquelas mensagens era um estranho para mim agora.
Respirei fundo, o espartilho do meu vestido cravando em minhas costelas. Eu precisava respirar. Eu precisava pensar. Empurrei para baixo a onda de desgosto e humilhação, substituindo-a por uma camada fria e dura de gelo.
Endireitei os ombros, levantei o queixo e me virei para encarar a multidão atônita. Minha mãe já estava ao meu lado, seu rosto pálido de preocupação.
"O que aconteceu? Onde está o Bernardo?", ela sussurrou, seus olhos percorrendo o salão.
Antes que eu pudesse responder, caminhei até o microfone do celebrante. Minhas mãos estavam perfeitamente firmes enquanto eu o ajustava. O salão caiu em um silêncio súbito e completo. Todos os olhos estavam em mim.
"Peço desculpas por ter desperdiçado o tempo de todos vocês", eu disse, minha voz clara e uniforme, amplificada pelo grande salão ensolarado. "Parece que não haverá casamento hoje. A cerimônia está cancelada. Por favor, aproveitem o espumante e os canapés na saída."
Um suspiro coletivo, mais alto desta vez. Uma avalanche de sussurros irrompeu como fogo em palha seca.
A mãe de Bernardo, Eleonora Arruda, uma mulher obcecada por status social e aparências, abriu caminho pela multidão, seu rosto uma máscara trovejante de indignação.
"Helena! O que significa isso?", ela sibilou, agarrando meu braço. "Você enlouqueceu? Você não pode simplesmente cancelar um casamento! Pense na vergonha! O que as pessoas vão dizer?"
A preocupação dela não era comigo, a noiva deixada sozinha. Era com o nome da família Arruda. Com a imagem imaculada que eles haviam cultivado com tanto cuidado.
Minha própria mãe, Catarina, viu algo em meu rosto que Eleonora não percebeu. Ela notou o leve tremor em minha mão, a maneira como meu rímel à prova d'água cuidadosamente aplicado começava a borrar um pouquinho nos cantos dos meus olhos.
"Helena, querida, você e o Bernardo brigaram?", ela perguntou gentilmente, sua voz cheia de uma preocupação real e profunda.
A pergunta simples e amorosa foi a única coisa que ameaçou quebrar minha compostura gelada. Um nó se formou em minha garganta, grosso e doloroso. Eu queria desabar em seus braços, soluçar como uma criança. Mas eu não podia. Não aqui. Não na frente de todas essas pessoas. Não na frente de Eleonora Arruda.
"Não seja ridícula, Catarina", Eleonora retrucou. "Bernardo a adora. Isso é só a Helena sendo dramática. Onde está meu filho?"
A dor surda em minha barriga pulsou novamente, um lembrete cruel do segredo que eu guardava. Bernardo. O queridinho de todos. O confiável e firme Bernardo Arruda que nunca faria nada para causar uma cena. O homem que, naquela mesma manhã, me prometeu a eternidade.
Virei meu olhar para a mãe dele, meus olhos tão frios e duros quanto os diamantes em minhas orelhas.
"Ele se foi", eu disse, minha voz desprovida de emoção. "Ele fugiu."
Ponto de Vista: Helena Romano
No momento em que as palavras "ele fugiu" saíram dos meus lábios, uma comoção irrompeu do lado da família Arruda. O pai de Bernardo, um homem com um problema cardíaco preexistente, agarrou o peito e ofegou, seu rosto ficando num tom alarmante de cinza.
O caos que se seguiu foi uma bênção. Foi uma cortina de fumaça. Enquanto Eleonora Arruda gritava e os paramédicos eram chamados pela segunda vez em menos de trinta minutos, os convidados, farejando escândalo e drama, começaram a se dispersar. O casamento que eu passei um ano planejando se dissolveu em uma cacofonia de sirenes e sussurros mórbidos.
Acabei no hospital. Não por mim, mas pelo pai de Bernardo. Sentei-me na sala de espera fria e estéril enquanto minha mãe cuidava da logística de cancelar a festa mais cara que eu nunca teria. Uma enfermeira limpou as marcas vermelhas e raivosas em meu braço onde Eleonora me agarrou, sua força surpreendente.
Enquanto esperava por notícias, peguei meu celular. Meu próprio celular. E com os dedos trêmulos, marquei uma consulta. Uma consulta para a manhã seguinte. O primeiro horário que eles tinham. Uma consulta para desfazer a única coisa que ainda me ligava a Bernardo Arruda.
Minha mãe voltou e viu o e-mail de confirmação na minha tela. Seu rosto se desfez. "Oh, Lena. Não. Não faça isso. Não tome uma decisão tão grande quando você está tão chateada."
"Eu não estou chateada, mãe", eu disse, e o assustador era que era verdade. A dor crua e gritante havia sido substituída por uma clareza arrepiante. "Estou calma."
"É o bebê dele também, Helena. Vocês se amam. Seja qual for essa briga, vocês podem resolver. Vocês estão juntos há sete anos!", ela implorou, seus olhos se enchendo de lágrimas. Ela não entendia. Não podia. Ela e meu pai tinham uma história de amor que era simples e verdadeira. Bernardo e eu... eu pensei que também tivéssemos.
Coloquei a mão sobre minha barriga ainda lisa. "Um bebê merece um pai que o escolha. Que escolha sua mãe", eu disse, minha voz amarga. "Bernardo fez sua escolha hoje. Na frente de duzentas pessoas. Este bebê... este bebê merece mais do que um homem que deixaria sua mãe no altar por uma estagiária."
Naquele momento, meu celular tocou. Um número que eu não reconheci. Mas eu sabia quem era. Tive a sensação de que ele estaria usando um telefone emprestado.
Eu atendi.
"Helena? Graças a Deus. Meu celular morreu." Era Bernardo. Ele parecia sem fôlego, irritado, como se tivesse sido levemente incomodado. "Está tudo bem aí? Ouvi sobre meu pai. Estou a caminho. Não se preocupe, eu dou um jeito na minha mãe. Ainda podemos consertar isso."
Consertar isso. Como se nosso relacionamento de sete anos fosse uma torneira pingando.
Fiquei tão chocada com sua audácia que quase não consegui falar. Ele estava fora há mais de uma hora. Uma hora em que fui publicamente humilhada, em que o pai dele teve uma emergência médica, em que meu mundo desmoronou. E sua primeira pergunta não foi sobre mim.
O gosto de sangue encheu minha boca. Eu não tinha percebido que mordi o interior da minha bochecha.
"Onde você estava, Bernardo?", perguntei, minha voz perigosamente baixa.
Houve uma pausa. Um suspiro. "Helena, eu te disse, a Carla tem um problema de coração. Ela estava desorientada. Eu tive que garantir que ela chegasse em casa bem."
"Você teve que garantir", repeti, as palavras como cinzas na minha língua. "Você, especificamente, teve que levá-la para casa enquanto sua noiva era deixada no altar?"
"Não começa", ele retrucou, sua paciência já se esgotando. "Foi uma emergência médica. Não a arraste para isso. Isso é sobre nós."
Não a arraste para isso.
A dor que atravessou meu peito foi tão aguda, tão brutal, que pareceu física. Ele a estava protegendo. Mesmo agora, ele a estava protegendo de mim.
"Não existe mais 'nós', Bernardo", eu disse, minha voz quebrando em seu nome. "Eu te avisei. Se você fosse embora, nós acabaríamos."
Desliguei, minha mão tremendo tanto que quase deixei o celular cair. As lágrimas que eu estava segurando finalmente vieram, quentes e furiosas.
Enquanto eu as enxugava, uma notificação apareceu na minha tela. Um pedido de amizade em uma rede social que eu raramente usava. De Carla Bastos. Em minha névoa de dor, meu polegar escorregou e eu acidentalmente aceitei.
Imediatamente, uma mensagem apareceu. Uma foto. Era uma foto da mão dela, perfeitamente manicure, descansando na manga do terno de um homem. O terno de Bernardo. Reconheci as abotoaduras personalizadas que eu lhe dera em nosso quinto aniversário. Ao fundo, fora de foco, estava o interior do carro dele.
Um segundo depois, a foto foi deletada. Uma nova mensagem se seguiu.
*MEU DEUS, me desculpa MESMO! Era pra minha melhor amiga! Meu dedo deve ter escorregado! Estou morrendo de vergonha!*
Meu coração virou pedra. Era uma declaração de guerra.
Meus dedos se moveram por conta própria, navegando para o perfil público dela. Era uma galeria curada de uma vida perfeita. E lá, postada há apenas uma hora, havia uma foto dela parecendo pálida e frágil, aninhada em um sofá macio com uma xícara de chá. A legenda dizia: *Me sentindo um pouco fraca, mas tão grata por ter alguém cuidando de mim. Algumas pessoas são anjos na terra.*
O sofá era do apartamento de Bernardo. O que nós compartilhávamos. O que estava decorado com nossos presentes de casamento.
E embaixo, um comentário de uma de suas amigas: *É aquele famoso chá de gengibre com limão que ele faz? Sortuda!*
Minha respiração falhou. Bernardo não cozinhava. Ele não conseguia nem fazer uma torrada sem queimar. Era eu quem fazia chá de gengibre com limão para ele quando estava doente. Eu o ensinei como fazer. Ele nunca, em sete anos, tinha feito para mim.
A tela ficou embaçada. A guerra já tinha acabado. Eu perdi antes mesmo de saber que estava lutando.