Ponto de Vista de Elisa:
O calafrio da noite anterior se transformou em um pavor gélido que me acompanhou durante toda a manhã. Davi tinha saído para o trabalho, beijando minha testa, alheio ao abismo que se abrira sob meus pés. Eu estava sentada sozinha em nossa cozinha impecavelmente limpa, o silêncio ensurdecedor, pontuado apenas pela batida frenética do meu próprio coração.
A lembrança da cicatriz, a cicatriz dele, confirmando sua identidade, foi um golpe físico. Meu estômago se contorceu. Como eu pude ser tão cega? Tão ingênua? O homem que eu amava, o homem com quem eu ia me casar, estava vivendo uma vida dupla.
Peguei meu notebook novamente, os dedos tremendo enquanto digitava "A Toca". O site ainda estava lá, um abismo digital do qual eu não conseguia desviar o olhar. Rolei pelos vídeos, uma compulsão doentia me impulsionando. Meu olhar se prendeu no registro de bate-papo, rolando infinitamente sob as transmissões ao vivo. Mensagens, datadas de dias, semanas, meses atrás. Isso não foi algo de uma vez só. Isso era um padrão.
Um suor frio brotou na minha testa. Eu tinha que saber de tudo. Eu precisava de provas, inegáveis, irrefutáveis. Minha mente, geralmente focada em paletas de cores harmoniosas e layouts funcionais, agora estava consumida por uma única e aterrorizante pergunta: Por quê?
Liguei para o meu escritório. "Não vou hoje", consegui dizer, minha voz rouca. "Piorou."
A mentira soou vazia, mas necessária. Eu não conseguia encarar ninguém, não quando meu mundo estava desmoronando. Minhas mãos, ainda tremendo, puxaram o e-mail anônimo novamente. Quem o enviou? E por que agora, apenas uma semana antes do casamento? Foi um aviso? Um ataque malicioso?
Encarei a tela, os rostos pixelados de estranhos mascarados me provocando. Repeti o vídeo do "Davi". De novo e de novo. Seus trejeitos, seus movimentos, o jeito como ele jogava a cabeça para trás. Cada detalhe gritava que era ele. A ironia doentia não me passou despercebida – eu era uma designer de interiores, treinada para notar os menores detalhes, para criar harmonia. Agora, essas mesmas habilidades estavam desmontando a desarmonia grotesca da minha própria vida.
Senti uma dor fantasma no peito, como se meu coração estivesse sendo espremido. Não era apenas a traição de Davi. Era o peso esmagador do 'porquê'. Que tipo de homem fazia isso? Que tipo de relacionamento eu achava que tinha?
A tarde se arrastou, cada minuto uma hora. Minha cabeça latejava. Tentei me distrair, limpar, ler, fazer qualquer coisa, mas as imagens de "A Toca" estavam gravadas na minha retina. Eu não conseguia escapar delas. Parecia que eu estava presa em uma caixa de vidro, assistindo minha vida se desfazer sem poder impedir.
Quando o crepúsculo chegou, lançando longas sombras pela nossa sala de estar, um novo pensamento, mais frio e mais afiado que o pavor, me atravessou. Se este era Davi, quem era a mulher? Ela estava sempre mascarada, um coelho, um gato, um cervo. As máscaras eram diferentes, mas sua linguagem corporal, sua risada...
Meu celular vibrou de novo, abalando meus nervos. Era Carina, minha madrinha de casamento, minha melhor amiga desde o jardim de infância. "Ei! O estresse do casamento está te pegando? O Davi acabou de me dizer que você faltou ao trabalho."
Meu sangue gelou. Davi contou para a Carina? Por quê? E por que a voz dela soava tão... normal? Tão inocente? Era uma interação simples, cotidiana, mas no meu estado atual, cada palavra parecia carregada de significados ocultos. De repente, vi o rosto inocente de Carina, seus olhos brilhantes, sua risada fácil, através de uma nova e arrepiante lente. Minha suspeita, antes focada apenas em Davi, agora se expandia, um crescimento canceroso em minha mente.
"É, só uma virose", menti, minha voz tensa. "Escuta, você pode... pode vir aqui? Eu realmente preciso conversar."
Carina, abençoada seja, estava lá em vinte minutos, com uma garrafa do meu vinho favorito e um sorriso solidário no rosto. "Amiga, você parece que viu um fantasma", disse ela, servindo uma taça para nós duas. Seu toque no meu braço era quente, reconfortante. Reconfortante demais.
"Acho que o Davi está me traindo", soltei, as palavras com gosto de veneno.
Os olhos de Carina se arregalaram, uma imagem perfeita de choque. "O quê? De jeito nenhum! O Davi? Ele te adora, Elisa. Isso é um absurdo!" Ela balançou a cabeça, sua voz indignada. "Quem te disse isso? Alguma ex ciumenta?"
A reação dela foi perfeita demais, imediata demais. Meus olhos, agora acostumados a dissecar cada detalhe, notaram um sutil aperto ao redor de sua boca, um brilho em seus olhos que desapareceu tão rápido quanto apareceu. Uma nova e aterrorizante possibilidade começou a se formar nos cantos mais sombrios da minha mente. Era absurdo. Era impossível. Mas e se?
"Eu... eu vi uma coisa", disse eu, minha voz mal um sussurro. "Algo online." Hesitei, querendo mostrar a ela, precisando de sua validação, mas o medo me segurou. Medo do que eu poderia encontrar a seguir. Medo de perder tudo.
Ela zombou, tomando um gole de vinho. "Elisa, você está estressada. Este casamento te deixou no limite. O Davi te ama. Ele acabou de me dizer o quão animado ele está." Ela fez uma pausa, depois acrescentou casualmente: "Ele até tem trabalhado horas extras em uma surpresa para você, sabe. Um presente secreto de boas-vindas para a casa nova de vocês. Algo romântico."
Um presente de boas-vindas? Minha mente voltou ao homem mascarado em "A Toca" falando sobre um imóvel, sobre nossa nova casa. Minha cabeça girou. O vinho, ou o choque, estava embaçando minha visão. O cômodo parecia sufocante. Eu precisava de ar. Eu precisava de respostas.
"Preciso me deitar", disse eu, levantando-me do sofá. Carina assentiu, sua expressão ainda preocupada, ainda perfeitamente inocente. Fui para o quarto, o peso de sua presença, de sua 'preocupação', me pressionando. Senti como se estivesse me afogando em um mar de mentiras, e a traição mais profunda ainda estava por vir. O pensamento era tão frio que queimava.
Ponto de Vista de Elisa:
Acordei com um sobressalto, os últimos resquícios de um pesadelo ainda agarrados a mim. Davi não estava ao meu lado. Meu coração deu um salto, um pavor familiar e nauseante me invadindo. Eram 3 da manhã. Ele tinha sumido de novo.
Meus dedos, dormentes de medo, navegaram até "A Toca". O site carregou rapidamente, um buraco negro de depravação. E lá estava ele. O lobo. E ao lado dele, a coelha. A mesma coelha de antes.
Desta vez, meus olhos procuraram a cicatriz, aquela marca distintiva. E lá estava ela, tênue, mas inegável, uma linha branca contra a pele pálida da parte inferior de suas costas, visível logo acima do cós de sua máscara. Minha respiração ficou presa na garganta. Não havia como negar agora. Nenhuma autoilusão a que se agarrar. Era Davi.
Meu olhar se voltou para o bate-papo, os comentários rolando rapidamente. "Olha esses dois! Tão quentes juntos", dizia um. Outro: "Eles estão nisso há meses, não é? O melhor show da Toca!" Meses. Não um caso. Não um erro. Um caso de longa data.
Então, uma voz. A voz dela. A mulher com máscara de coelha. "Nossa, Davi", ela ronronou, seu tom tingido com um choramingo familiar. "Essa cicatriz sempre atrapalha."
Meu mundo girou. Aquela voz. O jeito que ela disse "Davi". O jeito que ela choramingou. Era Carina. Minha melhor amiga. Minha madrinha de casamento. A mulher para quem eu tinha acabado de confessar minhas suspeitas.
O chão pareceu ter desaparecido sob meus pés. Um grito agudo ficou preso na minha garganta, vibrando contra minhas cordas vocais, mas nenhum som escapou. Era impossível. Carina, minha Carina, que tinha sido minha sombra, minha confidente desde que tínhamos cinco anos? A garota que sabia todos os meus segredos, que tinha chorado comigo por joelhos ralados e corações partidos? Aquela em quem eu confiava implicitamente?
Lembrei-me de seu "choque" quando lhe disse que suspeitava de Davi. Sua "preocupação". Sua menção casual do "presente surpresa de boas-vindas". As palavras ecoaram na minha cabeça, zombando de mim. O presente de boas-vindas era nossa casa de casados, a que Davi e eu tínhamos escolhido juntos. A que eles estavam profanando.
Minha infância, meu passado, meu presente — tudo parecia uma frágil boneca de porcelana espatifada em um milhão de pedaços. O ar ficou denso, pressionando-me, tornando impossível respirar. Agarrei meu peito, um grito desesperado e animalesco rasgando meu silêncio.
Triiim! Triiim! Meu celular, esquecido na mesa de cabeceira, vibrou. Era Davi. Minha mão disparou, derrubando-o no chão. O som de seu toque encheu o quarto, depois parou abruptamente.
Na tela, o lobo e a coelha continuavam sua dança, alheios. O bate-papo rolava, um fluxo constante de adoração pela dupla. "Melhor casal da Toca!" "Eles têm tanta química!"
Meus olhos ardiam, mas nenhuma lágrima veio. Estava além das lágrimas. Era uma dor fria e oca que se espalhou por todo o meu ser. Meu corpo parecia pesado, desconectado. Eu era uma marionete, e minhas cordas haviam sido cortadas.
Eu sabia com uma clareza arrepiante o que tinha que fazer. A dor era insuportável, mas uma determinação de aço se solidificou dentro de mim. Não havia volta. Não havia perdão para isso.
Encontrei meu celular, a tela rachada pela queda. Abri meu aplicativo do banco, depois procurei por "detetive particular". Uma ligação rápida, uma breve explicação — o suficiente para ele começar. O nome dele era Sr. Montenegro. Ele prometeu discrição. E rapidez.
Então, abri meu e-mail pessoal. Redigi uma mensagem para uma mentora em Florianópolis, uma aclamada designer de interiores que eu sempre admirei. "Interessada em uma parceria... me mudando... novas oportunidades." Era um tiro no escuro, um mergulho desesperado em direção a um futuro que de repente estava completamente em branco.
O sol estava apenas começando a pintar o céu quando Davi finalmente voltou. Ele cheirava levemente ao perfume barato de Carina, mascarado por uma colônia mais forte. Ele se moveu silenciosamente, com cuidado, como se para não me acordar. Ou talvez, como se para não perturbar a frágil ilusão que ele havia construído.
Ele se deitou na cama, seu corpo quente contra o meu. Ele me abraçou de conchinha, um conforto familiar que agora parecia o abraço de uma víbora. "Tudo bem, anjo?" ele murmurou, sua voz grossa de sono, ou de inocência fingida.
Fiquei imóvel, meu coração uma pedra no peito. O "porquê" ainda ecoava, mas agora era acompanhado por uma nova e mais potente emoção: uma fúria absoluta e avassaladora. Fechei os olhos, imaginando o lobo e a coelha. Carina. Davi. Eles haviam orquestrado isso. Eles haviam tentado me destruir. Mas não conseguiriam. Não mais. O jogo tinha apenas começado.