Ponto de vista de Sebastian.
Uma sensação estranha de dormência me incomodava.
Eu fiz o que era necessário pela alcateia. Samantha tinha assinado o contrato. O problema estava resolvido.
Então, por que o meu lobo arranhava o meu peito de forma tão incômoda?
Estava de pé no escritório do meu pai quando senti o perfume adocicado de Vanessa, que me sufocava, mas, por algum motivo, meus instintos me forçavam a aceitar a presença dela ali.
— Onde está a garota? — meu pai perguntou, quebrando o silêncio. — Os guardas disseram que o quarto de hóspedes está vazio.
— Ela já assinou o documento — respondi. — Não se preocupe.
Vanessa sorriu, aproximando-se para tocar o meu braço. O toque dela me dava náuseas, mas minha mente me obrigava a permanecer imóvel.
— Avisei que Samantha aceitaria o destino dela — ela ronronou, olhando para o meu pai.
Antes que meu pai pudesse responder, a porta do escritório foi aberta. O chefe dos rastreadores entrou com a respiração entrecortada.
— Como ousa entrar dessa maneira?
Ele se ajoelhou imediatamente, sem conseguir me olhar nos olhos.
— Alfa, nós temos um problema.
— Fale de uma vez — ordenei, sentindo uma pontada súbita.
— Nós seguimos a Samantha até a estrada velha. Mas ela pegou um carro abandonado. Houve uma perseguição, mas a estrada estava escorregadia. Quando alcançamos, vimos o veículo capotar várias vezes antes de despencar pelo barranco.
— Cadê ela? — Dei um passo à frente, e uma rachadura começou a se abrir na névoa que nublava a minha mente. — Tragam a Samantha de volta!
— Não há o que trazer, Alfa — o rastreador engoliu em seco. — O carro explodiu com o impacto contra as árvores. O fogo consumiu tudo. Lamento, mas ela está morta.
No mesmo instante, um estalo violento ecoou na minha mente. Era como se uma corrente de ferro estivesse sendo partida. A névoa cinzenta que nublava meus pensamentos se desfez num segundo, até que foi substituída por uma dor dilacerante.
"Idiota! Olhe o que você fez!" A voz de Kael rugiu na minha cabeça, tão alta e furiosa que me fez cair de joelhos, pressionando as mãos contra as têmporas. Seu rosnado interno rasgava a minha sanidade. "A culpa! Você matou a nossa fêmea e os nossos filhotes!"
— Cala a boca! — sussurrei para o vazio, enquanto as memórias reais voltavam numa enxurrada esmagadora.
"Eu tentei te avisar!" Kael continuava a me atacar internamente, arranhando as paredes da minha mente, uivando pelo luto. "A culpa é toda sua, Sebastian!"
Caí de joelhos no chão, segurando a cabeça enquanto o mundo ao meu redor parecia explodir.
— Sebastian! — Vanessa gritou, tentando me segurar. — Fique calmo, olhe para mim!
— Afaste-se! — rosnei, e a força da minha aura de Alfa a jogou contra a parede.
As barreiras da minha mente ruíram e as memórias reais vieram com força.
Lembrei-me do amor que sentia por Samantha. Do calor de seu corpo. E, logo em seguida, vi a monstruosidade que cometi horas atrás. Eu a machuquei de diversas formas. Ignorei os seus gritos, o seu choro desesperado... e o sangue nos lençóis.
Olhei para as minhas trêmulas, sentindo as lágrimas transbordarem dos meus olhos. Ergui o rosto e encarei o meu pai.
Ele vinha me aconselhando junto aos anciãos desde que me entregou o manto de Alfa, assim que completei a maioridade, quando foi obrigado pelas leis da nossa profecia.
— O que foi que eu fiz? — A minha voz saiu enrouquecida antes de se transformar num rugido que fez a mansão inteira tremer. — O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO?!
Ponto de vista de Samantha.
Com o rosto coberto de sangue e o braço quebrado, usei as últimas forças divinas que Selene me deu para me arrastar para fora da janela estraçalhada, caindo na lama da ribanceira.
Segundos depois, o veículo explodiu, formando uma bola de fogo.
Olhando para aquele inferno que consumia o carro, entendi o plano do destino. Minhas joias, os pedaços do meu vestido e o meu próprio sangue estavam impregnados nos destroços que eram consumidos pelas chamas.
Naquele dia, a Samantha Hale, que todos conheciam, morreu; mas renasci como Artemis Thorne, uma magnata forjada no fogo da perda e na promessa de uma vingança que destruiria todo o império do Alfa Sebastian.
Ponto de vista de Artemis.
Nova York nunca dorme, mas lá no alto, no topo do arranha-céu da Adalwolf Global, o silêncio imperava.
Eu não precisava de silêncio para me concentrar naquele ar carregado de ambição, o mesmo que se respirava em cada canto daqueles escritórios que, muito em breve, deixariam de ser de Sebastian Adalwolf.
Cinco anos se passaram desde que Samantha morreu. A mulher que contemplava a cidade a seus pés já não era aquela Luna derrotada que fugiu da humilhação.
Eu me tornei uma predadora e construí um império financeiro com o objetivo de desmantelar o do meu ex-marido.
— Senhora Thorne, a equipe legal já terminou a revisão final — a voz de Liam me tirou dos meus pensamentos.
Liam era o meu braço direito. Era o único humano que conhecia, mesmo que fosse um pedacinho do meu passado.
Eu me virei e fitei meu reflexo no espelho. Meu terno cinza-grafite estava impecável, igual ao meu coque.
— Alguma ponta solta, Liam?
Ele ajeitou os óculos antes de responder:
— Nenhuma. O acordo de fusão que apresentamos não tem nenhuma brecha. É uma jogada de mestre Ele vai ter que aceitar, ou vai ver a sua principal subsidiária afundar em menos de um mês. Estamos colocando a pressão certa.
Sorri de bocha fechada.
— A pressão sempre funciona, querido Liam, sobretudo quando a arrogância é o ponto fraco.
O Sebastian nunca esperaria uma jogada assim, tão silenciosa e tão inevitável. Ele jurava que só assinaríamos aquele contrato de fachada para acalmar os velhos do Conselho.
Aproximei-me da mesa e toquei o dossiê com o selo da Adalwolf Global.
Anos atrás, tinham me obrigado a assinar um papel ridículo numa mesa como essa. Um contrato sem alma que só servia para dar estabilidade a duas alcateias poderosas. Aquele documento me transformou na esposa invisível, a Luna sem voz, antes que o próprio Alfa me humilhasse e ferisse daquela maneira.
Meia hora depois, Liam e eu fomos no elevador privado em direção à cobertura da Torre Adalwolf. A reunião não era oficial, não estava em nenhuma agenda. Era uma emboscada para obrigá-lo a negociar antes da junta trimestral.
Quando as portas do elevador se abriram, olhei para o ambiente da cobertura, elegante e austera. Uma secretária pálida, que parecia saída de uma revista, olhou-me com uma mistura de surpresa e desconfiança.
— Tenho uma reunião urgente com o CEO Sebastian Adalwolf. Sou Artemis Thorne, da Thorne Acquisitions. Ele está me esperando — disse-lhe, usando um tom de voz baixo.
A moça hesitou, mas o sobrenome Thorne pesa muito neste mundo dos negócios.
— Um momento, por favor, senhora.
Mal se passou um minuto quando as portas se abriram.
E lá estava um homem alto, robusto, com aquela mandíbula quadrada e um rosto de quem nunca na vida perdeu uma batalha.
Cinco anos não tinham lhe tirado nada. Pelo contrário, os anos tinham afiado as suas feições e colocado mais frieza naqueles olhos dourados. Sua presença de Alfa era como um muro, uma força que eu recordava com uma amargura que me queimava.
— Thorne? Não tenho nada na minha agenda… — Ele resmungou.
Seus olhos se estreitaram enquanto escaneavam o meu rosto. Senti minha loba se agitar por dentro diante daquele reconhecimento antigo e selvagem.
Permaneci calma. Não me mexi nem um milímetro, apesar de tê-lo tão perto e de sentir o seu olhar em cima de mim. Tinha ensaiado minha postura mil vezes na frente do espelho para aquele momento.
— Alfa Adalwolf. É um prazer — disse-lhe, estendendo-lhe a mão com firmeza.
Ele ficou imóvel por um momento antes de me cumprimentar. Seus olhos desceram até a minha boca e voltaram a subir.
— Conheço esses olhos — murmurou num rosnado baixo, daqueles que só nós, os lobos, entendemos.
— É a primeira vez que nos vemos, senhor Adalwolf — respondi. — Aliás, muitas pessoas têm olhos azuis como os meus.
Ele soltou minha mão e se afastou para nos deixar entrar. Seu escritório era enorme, com um janelão que mostrava a cidade inteira.
— Sentem-se. — Sebastian apontou para a cadeira e olhou para o meu assistente. — Liam, certo? — falou com a mesma frialdade com que antes tinha se dirigido a mim.
Liam assentiu com um sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas Sebastian se recusou a cumprimentá-lo e olhou para mim.
Eu me acomodei no sofá de couro branco, cruzando as pernas sem nenhuma pressa, enquanto Liam colocava o dossiê sobre a mesa de centro de vidro.
— Estamos aqui pelo acordo de fusão. Sua equipe nos ignorou a semana toda, então pensei que uma visita pessoal fosse agilizar as coisas. Tempo é dinheiro, e soube que AlfaTech está perdendo muito.
Sebastian nem olhou para os papéis. Sentou-se na minha frente, recostando-se com uma calma que dava mais medo do que qualquer grito.
— A sua empresa é a minha maior concorrente em energia limpa. — Sebastian enfatizou. — Não faço negócios com quem tenta me arruinar.
— E quem disse que quero a sua ruína, Sebastian? Só busco uma sinergia. Minha subsidiária de energia eólica é a peça que falta na sua cadeia. Eu lhe dou a tecnologia e o senhor entra com a distribuição. É um trato justo.
Ele se inclinou um pouco para a frente e, por fim, vi que perdia um pouco o controle. Estava me analisando, procurando a fêmea submissa com quem tinha se casado.