O trânsito naquele final de tarde estava péssimo. Débora teve a impressão de que jamais chegaria em casa. Mas não ficou irritada, como sempre acontecia, pois assim ganharia tempo para se acostumar com a idéia de encontrar um homem fazendo as tarefas em sua casa. Quanto mais demorasse, melhor!
De repente, ela sentiu o coração bater mais forte e as palmas das mãos ficaram úmidas, como uma adolescente tola que vai ao encontro do primeiro namorado.
Que tipo de homem seria esse tal Christopher Traig? Certamente um viúvo ou um divorciado que queria continuar aproveitando o conforto de uma casa e de uma companhia feminina, sem qualquer ligação afetiva. Uma pessoa estranha...
Mas não devia entrar em pânico, pensou. Uma vez que havia se arrependido de ter um secretário particular, tudo o que tinha a fazer era desfazer-se dele. Na manhã seguinte, ligaria para Ingrid e inventaria uma desculpa qualquer, para se livrar daquela bobagem.
Quando entrou na rua de sua casa, já estava mais calma, com a mente voltada para o dia seguinte, que seria repleto de compromissos.
Ao se aproximar dos imensos portões de ferro, olhou com orgulho a mansão que pertencia aos Dominick há séculos. Lo¬calizada num dos bairros mais nobres da cidade, destacava-se das demais por estar no topo de uma colina rodeada por um extenso gramado, muito bem cuidado.
A casa, toda revestida de tijolos aparentes, realçados pelas imensas colunas brancas, retratava bem o estilo americano de algumas épocas anteriores; por dentro, a mansão era também magnífica. O chão coberto por tapetes persas, as paredes re¬pletas de telas famosas que fariam inveja a qualquer cole¬cionador.
Débora seguiu pela alameda de ciprestes contemplando o imenso jardim de flores. Era um belo lugar mas lhe parecia gran¬de demais depois que seu pai morrera. Graças ao trabalho que lhe absorvia todo o tempo, não havia se sentido tão sozinha.
E pelo menos naquela noite não estaria sozinha. O novo "se¬cretário", na certa, estaria esperando-a com o jantar pronto e um sorriso nos lábios...
Quando entrou na sala, Débora sentiu o aroma de carne as¬sada vindo da cozinha. Notou que tudo estava limpo e no lu¬gar. "Bem, pelo menos para alguma coisa a brincadeira havia servido", pensou.
Mas, assim que chegou na cozinha, encostou-se na porta, es¬pantada e surpresa ao mesmo tempo. Ela esperava encontrar um homem atarracado, feio, nunca... O rapaz a sua frente pa¬recia ter saído das telas do cinema!
Passado o choque, Débora sentou-se numa cadeira e, respi¬rando fundo, estudou melhor seu novo empregado. Ele vestia uma camiseta listrada, azul e branca, e um jeans justo, que de¬lineava de forma provocante os músculos firmes das coxas.
— A senhorita deve ser Débora Dominíck, não? — pergun¬tou ele, com naturalidade.
— Sim... eu...
Ora, por que estava tão constrangida? Afinal ele era apenas um homem como outro qualquer.
— Eu sou Christopher Traig. Prazer em conhecê-la.
Débora sentiu-se hipnotizada por aqueles olhos azuis quan¬do estendeu-lhe a mão. Christopher tinha uma beleza rara. Os cabelos castanhos tinham, aqui e ali, um brilho dourado que destacava ainda mais o olhar e o sorriso.
— Bem, posso ver que você já está se sentindo em casa — comentou ela, puxando a mão e procurando mostrar-se natural.
— Bem... estou cumprindo minha obrigação, Débora... Devo chamá-la assim, não? Fui contratado como seu secretário par¬ticular, e, numa relação tão próxima, as pessoas costumam se tratar pelo primeiro nome.
— Eu disse a Ingrid que precisava de um funcionário que resolvesse os problemas aqui em casa. Na realidade, preciso mes¬mo é de uma... empregada.
— Pelo que entendi, você quer um secretário particular muito especial, que cuide de todas as tarefas aborrecidas de uma casa e de você — completou ele. — Não é fácil encontrar alguém assim...
Irritada, ela percebeu que ele se divertia à sua custa. Então resolveu ser tão cínica quanto ele.
— Não seria tão difícil se eu fosse um homem. Não é isso que um homem espera de sua esposa?
— Na minha opinião, um homem espera muito mais do que isso — respondeu ele, com um brilho malicioso no olhar.
Agora ele tinha ido longe demais, Havia chegado o momen¬to de por um ponto final naquela história. Afinal, ele estava ali apenas para servi-la e não para opinar.
— Já lhe disse que me expressei mal quando falei com In¬grid. Estou percebendo que para aceitar um emprego destes, você deveria ter outras coisas em mente.
— Ora, você nem me conhece e já está fazendo suposições! Não se preocupe, não estou com segundas intenções. Vim aqui para trabalhar e é só o que me interessa.
—- Sinto muito se me precipitei. Desculpe. Amigos?
— Amigos — respondeu ele, estendendo-lhe a mão. Christopher Traig provara que, além de ser muito atraente, era inteligente e misterioso. Débora ainda não se convencera de que ele estava mesmo interessado em ser seu secretário par¬ticular. Havia alguma coisa estranha nele, e a razão a aconse¬lhava a manter-se distante.
— Em que está pensando agora?
— Estava apenas imaginando o que o levou a aceitar este emprego.
— Decidi aceitar um desafio.
— E por acaso é um desafio trabalhar para uma mulher?
— Se fosse outra mulher qualquer, não, mas você é diferente.
— Eu? Como você pode saber se acabamos de nos conhecer?
— Acontece que Débora Dominick é uma das mulheres mais famosas no mundo dos negócios. Quando vi a chance de conhecê-la melhor, não quis perdê-la.
— Não me diga que você é um daqueles repórteres bis¬bilhoteiros.
— Não. — Christopher cruzou os dedos sobre os lábios. — Juro que não!
Débora teve vontade de perguntar: "Então quem é você?", mas antes que pudesse falar algo, ele lhe deu as costas, dizendo:
— Vou cuidar do jantar, senão acabarei sendo despedido no primeiro dia.
— Por falar em jantar, gostaria que me servisse antes um drinque no terraço.
— Um martíni seco?
— Como é que você sabe?
— Apenas intuição. Ao sair da cozinha, Débora quase tropeçou em Bosun, que estava adormecido perto do seu pratinho. Bem, mais um pon¬to a favor de Christopher. Pelo menos, ele havia se lembrado de alimentar o cão. Millie jamais teria dado um segundo de aten¬ção a ele.
Dirigiu-se, então, para o quarto e teve outra surpresa.
Seu robe verde escuro e as sandálias baixas estavam perto da cama. Como é que ele havia adivinhado seus hábitos quando chegava em casa?
Millie também deixava o robe para ela vestir e isso nunca a deixara constrangida. Mas pensar em Christopher mexendo em suas roupas não a agradava muito. Mesmo assim, agora que o conhecera, pretendia levar avante aquela idéia maluca.
Christopher preparava os drinques quando ela desceu. E não escondeu a admiração ao vê- Ia vestida mais à vontade, sem ma-quilagem e com parte das pernas bronzeadas à mostra.
— Você não me acompanha? — perguntou ela, quando ele lhe estendeu o copo.
— Obrigado. Preciso terminar os pratos. Não sabia a que horas você costuma jantar, por isso deixei tudo mais ou menos encaminhado. Posso servir às oito?
— Para mim está ótimo.
Débora teria que se habituar com isso também. Desde que seu pai falecera ela deixara de jantar, contentando-se com san¬duíches ou uma carne fria que Millie preparava. Mas não seria nada mal voltar aos velhos hábitos.
— Bem, então com licença. Vou voltar ao trabalho. Débora sentiu a sala estranhamente vazia quando ele saiu.
Estavam juntos há apenas algumas horas, mas tinha a sensa¬ção de que o conhecia há muito tempo.
"Cuidado, Débora!", disse a si mesma. Christopher era um homem surpreendente, capaz de virar a cabeça de qualquer mu¬lher. Contratara-o apenas para simplificar sua vida e não complicá-la ainda mais. Uma paixão inesperada, a essa altura dos acontecimentos, seria o caos!
— Débora, o jantar está servido.
Quando entrou na sala de jantar, viu apenas um prato à me¬sa e protestou!
— Não, senhor, faço questão que se sente à mesa comigo.
— Estava com receio de ter que experimentar minha comi¬da — brincou ele.
— Os falsos modestos são os que cozinham melhor.
Ela não acreditava nos próprios olhos quando Christopher trouxe os pratos. O principal era o seu favorito: escalope de vitela com champignon, aspargos e molho bearnaise, servidos com vinho.
— Arrependo-me de não tê-lo contratado antes — comen¬tou Débora.
— É bom cozinhar para quem gosta de comer.
— Você está sendo delicado, sou muito gulosa.
"Enquanto comiam, os dois conversaram animadamente so¬bre diversos assuntos. E Débora vibrou como uma criança na hora da sobremesa: creme zabaione com licor.
Débora convidou-o para um conhaque no terraço. Já nem se lembrava mais do dia atarefado que teria pela frente. O vi¬nho e a companhia agradável de Christopher a haviam deixado calma e relaxada.
— Diga-me uma coisa: onde aprendeu a cozinhar tão bem?
— Com a minha mãe. Ela sempre achou que eu devia estar preparado para tudo na vida.
— Você teve sorte em contar com alguém que se preocupas¬se tanto com você.
— E você não teve?
— Minha mãe morreu quando nasci e meu pai era um in¬dustrial muito atarefado. Nunca sobrava muito tempo para mim. Nas poucas horas que passávamos juntos, discutíamos os ba¬lanços, analisávamos as tendências do mercado, os investimen¬tos. Com ele, aprendi tudo que conheço hoje sobre os negócios.
— Pobre menina rica...
— Acho que você está enganado. Acho que apenas fui cria¬da de uma forma diferente que a maioria das moças — protestou.
— E você culpa seu pai por isso?
— Não, claro que não. Aliás, nem posso reclamar, sempre tive tudo que quis.
— Inclusive o prêmio Walter Burley Griffin... Débora olhou-o surpresa
— Como é que soube?
— Ora, eu estive viajando, mas nunca deixei de ler os jor¬nais. Sua idéia do Centro Empresarial foi mesmo genial.
— Ainda bem que os juizes acharam o mesmo. Parece que você entende um pouco de tudo isso. Já trabalhou em alguma indústria?
— Sou arquiteto — admitiu ele, meio relutante. Não exerço a profissão há muitos anos. Sempre trabalhei na parte mais... administrativa, digamos. Passei a maior parte da minha vida no exterior.
— Entendo. E quando voltou para a Austrália não conse¬guiu emprego no seu ramo. É isso? Talvez eu possa ajudá-lo.
— Não, obrigado. Não quero que faça nada por mim. De repente, Christopher tornara-se ríspido, mas ela preferiu ignorar aquela reação.
— Ou melhor, você quer dizer que não aceita a ajuda de uma mulher, não é?
— Pode-se dizer que sim — respondeu ele, enchendo de no¬vo os dois copos.
Vendo-o de cabeça baixa, Débora teve uma vontade inespe¬rada de acariciar-lhe os cabelos. De repente ele parecia amar¬gurado, alguém que precisava de conforto. Agora entendia me¬lhor porque ele estava ali. Quando ficara desempregado, Chris¬topher provavelmente resolvera tentar a sorte em outro lugar. E como não dera certo, voltara ao seu país. Numa atitude im¬pulsiva decidiu aceitar o primeiro emprego que lhe ofereceram que, por acaso, tinha sido na casa dela.
Não seria isso uma obra do destino? Apesar de ele recusar a sua ajuda, pretendia encontrar uma maneira de fazê-lo vol¬tar a exercer sua profissão. Haveria, com certeza, lugar para mais um arquiteto em sua empresa.
Estranho... Era tão raro sentir uma simpatia tão grande à primeira vista! Mas Christopher parecia especial, próximo, o tipo de pessoa que desperta interesse.
Perdeu-se em seus pensamentos e, quando caiu em si, perce¬beu que ele a fitava intensamente. Sentiu as faces arderem.
— Posso saber no que está pensando?
— Estava só pensando em como as mulheres são injustiçadas — mentiu, disfarçando o embaraço. — Os homens trabalham fora e têm uma esposa para administrar a casa. As mu¬lheres, mesmo trabalhando fora, como eu, precisam ainda pensar nas tarefas de casa, o que é tão árduo e desgastante quanto pre¬sidir uma empresa. Meu pai esqueceu-se de me preparar para este lado da vida...
Ao mencionar o pai, Débora percebeu que Christopher con¬traíra o rosto, desviando o olhar.
__ Você conheceu meu pai, Christopher?
__ Sim, eu o conheci — respondeu, levantando-se quase no mesmo instante. — Acho melhor eu dar um jeito nessa bagun¬ça. Ah, ia me esquecendo, já preparei seu banho.
Débora espantou-se com a mudança brusca no comportamen¬to dele. Christopher deveria ter alguma coisa contra Andrew Dominick. Mas o quê? Se tinha, por que então ele estaria tra¬balhando para ela?
Ansiosa para descobrir o que estava por trás daquele olhar misterioso, ela o seguiu até a cozinha.
— Você tem alguma coisa contra meu pai? — insistiu.
— Seu pai? Não é claro que não. Por que a pergunta?
— Oh, esqueça. Foi só uma idéia tola que me passou pela cabeça.
Apesar da negativa, Débora sentiu que Christopher escon¬dia alguma coisa. Na manhã seguinte, telefonaria para Ingrid e obteria todas as informações possíveis sobre o misterioso Chris¬topher Traig.
No momento, não iria se preocupar com mais nada, para não estragar a hora do banho relaxante.
A suíte de Débora era a maior da casa. No primeiro cômo¬do, uma cama de casal ocupava o centro. Para completar a de¬coração havia a pequena mesa de cabeceira e uma penteadeira antiga, que pertencera à sua bisavó. Entre o quarto e o banhei¬ro, ficava um closet, com armários de portas de vidro. Os sa¬patos tinham lugar de destaque numa sapateira com divisões também de vidro.
Débora havia mandado reformar o banheiro. O ambiente moderno, com uma enorme banheira de hidromassagem e um pe¬queno jardim de inverno, contrastava com o estilo conserva¬dor do resto da casa.
Com os cabelos presos num coque, Débora deixou cair o robe no chão e foi se afundando lentamente na água espumante e cheirosa, deixando apenas os ombros de fora.
Aos poucos a tensão abandonava o corpo de Débora, que relaxava sob a ação dos jatos de água quente. Estava quase dor¬mindo, quando Christopher entrou no banheiro com uma es¬ponja e um vidro de óleo na mão.
Sem dizer nada, ele ajoelhou-se ao lado da banheira e dimi¬nuiu a intensidade dos jatos de água. Assustada, Débora abriu a boca para repreendê-lo, mas emsudeceu ao sentir a pele arder ao toque das mãos dele.
Ele lhe massageava as costas com o óleo, que escorria como água gelada na pele em chamas. Como Christopher conseguia se manter tão indiferente, enquanto ela sentia o desejo invadi-la de forma avassaladora?
— Acho que você está levando esta brincadeira longe demais — comentou ela, nervosa. — Que óleo é este?
— É um composto de ervas e serve para relaxar músculos tensos.
Débora jamais sentira sensações como aquelas. As mãos de¬le deslizavam em suas costas, despertando o prazer contido ha¬via muito tempo. Esforçou-se para permanecer indiferente àque¬les toques, mas seu corpo a traía, estremecendo por inteiro. Quando ele tomou-lhe os seios, ela não resistiu e soltou um ge¬mido de prazer, afastando-se em seguida.
— Não seja boba, estou apenas tentando fazê-la relaxar um pouco — disse e, afastando-lhe as mãos com que Débora ten¬tava proteger o corpo, continuou com a massagem.
— Este óleo não sai na água? — perguntou, para disfarçar o embaraço.
— Não, foi feito especialmente para ser usado na água. Como que hipnotizada, ela recostou a cabeça na banheira e permitiu que Christopher continuasse. Mas seria impossível re¬laxar- pelo contrário, ele a estava deixando ainda mais tensa.
Débora fechou os olhos, como se assim fugisse um pouco da situação. Mas sua atenção acabou se concentrando ainda mais naquelas mãos deslizando suavemente sobre ela, num ritmo cal¬culado, profissional.
Será que ele não sentia nada ao acariciá-la daquela forma? Perguntou-se ela, perturbada. "Claro que não" — respondeu a si mesma, compreendendo que ele cumpria o seu papel: agia como um profissional. Ela é que não estava encarando as coi¬sas com naturalidade.
__ Quando ele passou a esponja em suas coxas, movendo-a com movimentos circulares bem lentos, Débora resolveu dar um basta naquilo. Não conseguiria representar mais.
— Acho que já estou mais relaxada. Podemos parar com isso.
— Você está corada! Talvez a água esteja muito quente. Christopher não era tão ingênuo a ponto de não desconfiar do que estava acontecendo. E, se aquilo era um jogo, ela não entregaria os pontos logo na primeira partida.
— Você está fazendo isso de propósito, não é?
— Não, estou só cumprindo a minha obrigação.
— Ora, não seja cínico. Você está querendo provar seu po¬der sobre mim. — Débora saiu da banheira e vestiu o robe, não se importando nem um pouco em aparecer nua diante dele. — Quer saber de uma coisa? Estou cansada de você. Saia da¬qui, por favor.
Para seu espanto, Christopher nada respondeu. Virou as cos¬tas e saiu sem dizer nada. Se ao menos ele tivesse tentado se defender, poderiam ter discutido e ela descobriria por que ele a provocava daquela maneira.
Mas o silêncio de Christopher havia sido calculado. Reafir¬mava a segurança dele e negava-lhe a chance de sair de sua po¬rção, naquele momento, vulnerável demais!
Na manhã seguinte, Débora não teve tempo de investigar a respeito de Christopher, como pretendia. E nem nas semanas seguintes, pois as obras do Centro Empresarial tomaram-lhè todo o tempo.
Durante esse período, Christopher comportou-se de manei¬ra impecável, sem criar situações embaraçosas. Agia como um simples empregado, respeitando a privacidade da patroa.
E ele provou ser tão útil que Débora não conseguia imaginar como sobrevivera tanto tempo sem ele. Christopher era perfei¬to em tudo. A casa estava sempre impecável, com rosas espa¬lhadas pelos vasos, alegrando o ambiente. E a comida era deli¬ciosa. O mais importante é que dedicava-se a ela em tempo in¬tegral. Pela primeira vez na vida, alguém se preocupava tanto com ela. Era confortante saber que, ao chegar em casa, ele a estaria esperando com um drinque antes do jantar. Freqüente¬mente ela se flagrava ansiosa por deixar o trabalho e ir para casa.
Desde a primeira noite, quando ela insistira em que ele a acom¬panhasse nas refeições, Christopher fazia-lhe companhia. As¬sim, mesmo após um dia estafante, Débora sentia-se feliz com a perspectiva de horas de agradável conversa e distração.
Naquela noite, Christopher estava muito atraente, com uma calça de linho branco e uma camiseta azul-marinho.
— E então, Débora, como foi seu dia?
— Você me pergunta isso todas as noites. É por obrigação ou quer mesmo saber?
— Mas é lógico que quero. Tudo que lhe diz respeito me in¬teressa — ele respondeu sem titubear e Débora não duvidou de sua sinceridade. Contou-lhe, então, os progressos das obras do Centro Empresarial, o maior projeto que já havia realizado. Um sonho que se tornava realidade.
De vez em quando ele a interrompia para discutir sobre um detalhe ou outro.
— Gosto de estar aqui com você — comentou ela pouco de¬pois, sorrindo. — Principalmente porque entende o que estou dizendo e não está me ouvindo apenas para ser simpático.
— Débora,preciso lhe contar uma coisa... — ele falou de repente, com expressão séria.
— Você não está em nenhuma encrenca, não é? — Ela tomou-lhe a mão, num sinal de solidariedade.
— Não é nada disso. Acontece que eu sou... Nesse momento, o telefone tocou, interrompendo-o.
— Acho melhor eu ir atender. — Instantes depois ele voltou anunciando: — É Garth Dangerfield.
— Garth, o que aconteceu? — perguntou ela impaciente que¬rendo retomar logo a conversa com Christopher.
— Estou interrompendo alguma coisa?
— É claro que não. Estava apenas... Ghristopher e eu está¬vamos conversando.
— A voz dele não me é estranha. Eu o conheço?
— Acho que não. Ele acabou de chegar da Europa e veio trabalhar para mim. Mas, o que você queria falar comigo?
Garth falou durante intermináveis minutos sobre um orça¬mento e outros assuntos, que poderiam muito bem ter sido tra¬tados na manhã seguinte. Certamente, ele havia ligado para convidá-la para um drinque, mas desencorajado com a indife¬rença dela devia ter desistido. Estava na hora de Garth parar de se iludir, decidiu ela. Davam-se muito bem profissionalmente, mas... era só.
Ainda pensando numa maneira de desencorajar o colega, vol¬tou à mesa. Christopher já estava tirando os pratos.
— Por que não deixa isto para depois? Estou curiosa para saber o que você ia me contar.
— Não era nada importante, — disse ele, dirigindo-se pa¬ra a cozinha.
Será que ele estava com ciúme? Esse seria um sinal de que começava a gostar dela, e a idéia não a desagradava de forma alguma.
Talvez ela também estivesse apaixonada por ele, embora pre¬terisse não pensar muito nisso. No entanto, tinha de admitir ele a fazia sentir-se diferente e lhe despertava sentimentos que Jamais sentira por alguém.
Minutos depois ele voltou à sala, trazendo o café, mas so¬mente uma xícara.
— Você não vai tomar?
— Não, ainda tenho muito o que fazer.
Antes que ele saísse, Débora levantou-se rápido e segurou-o pelo braço.
— Espere um minuto. Preciso lhe falar a respeito de uma festa... uma festa que pretendo dar daqui a uma semana.
Christopher sentou-se frente a ela e esperou. Seu rosto per¬maneceu impassível, enquanto ela discorria sobre os planos para a reunião.
— Acho que não comemoramos direito o recebimento do prê¬mio. Por isso, gostaria de convidar todos que colaboraram nessa nossa vitória, além de alguns amigos.
— Não tem problema. Quantas pessoas virão? Eu cuido do cardápio.
— Oh, não, você não vai precisar cozinhar. Contratei um bufê e você vai apenas supervisionar o trabalho. Aliás, gosta¬ria que participasse como meu convidado.
Débora esperou ansiosa que ele aceitasse o convite. Seria uma ótima oportunidade para apresentá-lo a alguns empresários que poderiam oferecer-lhe emprego. Além disso, gostava da idéia de estar acompanhada por um homem como Christopher Traig.
— Sinto muito, mas não vou poder ficar.
— Oh, que pena! Posso saber por quê?
— Preciso rever alguns amigos e já que você estará na festa, não vai precisar dos meus serviços.
— Entendo... Você merece uma folga, não posso forçá-lo a participar da festa.
— Obrigado por sua compreensão.
Embora tivesse apresentado um motivo plausível, Débora pro¬gramara a festa com um único intuito: apresentá-lo socialmen¬te. Será que ele tinha percebido e por isso recusara o convite?
Trabalhar para ela já era um emprego incomum, mas apare¬cer em público como uma espécie de marido contratado deve¬ria ser demais para seu orgulho.
Christopher empenhou-se com afinco para que a festa fosse um sucesso. A decoração, as listas de compras, os empregados e os outros preparativos foram meticulosamente estudados e organizados.
— Se a sua criatividade para projetos de arquitetura for igual à sua organização, não faltarão convites para trabalhar nas me¬lhores firmas. Pense nisso, acho que vou contratá-lo eu mes¬ma... — Débora comentou, ansiosa para ver se ele já havia re-considerado sua posição.
— Já sou seu empregado — Christopher respondeu, com uma expressão amarga, desviando o olhar.
Na verdade, Débora não queria mais vê-lo como seu empre¬gado. Aliás, desde os primeiros dias de convivência percebeu que gostaria de tê-lo como amigo. Claro que era delicioso deixar-se cuidar por uma pessoa tão fascinante... Era uma experiên¬cia nova. Nem mesmo seus pais foram capazes de lhe dedicar tempo e atenção como ele fazia.
— Sabe, Christopher... Eu não vejo você como meu empregado.
— Mas eu sou. Fui contratado para fazer por você tudo o que uma mulher faz por seu marido, lembra-se?
— É verdade, mas marido e mulher podem se dar muito bem sem que um deles aja com superioridade.
— Alguém tem que ter a palavra mais forte, tomar as decisões...
— Não concordo. Na minha opinião, cada momento e úni¬co e a vida está cheia deles. Às vezes, um pode dominar melhor uma situação, às vezes, outro. Não acho que os papéis devam ser predeterminados.
Ele não disse nada, mas estava claro que não concordava com aquele ponto de vista. Débora então concluiu que, se um dia Christopher se casasse, o líder seria ele. Mas se escolhesse uma companheira como ela... Não, ela não conseguiria se submeter a uma relação machista.
— Se o seu espírito de liderança é tão forte assim, não en¬tendo como é que se submeteu a trabalhar aqui em casa.
— Nós fizemos um acordo. Nunca quebrei um contrato.
— Quer dizer que tudo faz parte de um acordo? Inclusive a maneira carinhosa como me trata, as conversas, a dedicação?
Christopher encarou-a e tomou-lhe o rosto com as mãos pa¬ra em seguida beijar-lhe os lábios suavemente.
— Débora, eu...
— Sim, Christopher?
Ela jamais vira aquele brilho nos olhos dele. Havia alguma coisa, um mistério naqueles olhos azuis. Agindo como se esti¬vesse travando uma batalha contra si próprio, ele se afastou bruscamente.
— Está na hora de você se arrumar para a festa. Eu também preciso me aprontar para um compromisso.
Christopher saiu, deixando-a atônita. Agora Débora não ti¬nha mais dúvidas. Ele lhe escondia alguma coisa e aceitara o emprego por motivos que ela desconhecia.
O estranho comportamento tinha, com certeza, algo a ver com Andrew Dominick e com a maneira reticente com que admitira conhecê-lo. E se ele tivesse sido contratado como um espião in¬dustrial? Depois que a Dominick Empreendimentos ganhara o Prêmio, esta hipótese não estava totalmente fora de cogitação.
Contudo, não tinha tempo de pensar no assunto agora. Lo¬go a casa estaria cheia de convidados. E para estar deslumbrante, Débora escolheu uma roupa simples, mas perfeita para a ocasião: um vestido de cetim turquesa justo que delineava suave¬mente as curvas do corpo.
Depois que se vestiu examinou-se no espelho. Caía-lhe mui¬to bem! Agora só faltava caprichar na maquilagem e pôr um belo par de brincos. Desta vez, nenhum colunista social teria motivos para criticá-la.
Os garçons já circulavam apressados e as copeiras arruma¬vam os últimos vasos quando Débora desceu. A casa já respi¬rava um clima de festa.
Quando Débora inspecionava os últimos detalhes, a campai¬nha tocou. Ela se examinou no espelho do hall pela última vez, antes de atender a porta. Ao abri-la seu sorriso sumiu dos lábios.
— Ah, Débora querida, como vai?
— Boa noite, sr. Hedges — respondeu secamente. — Eu não o esperava...
— Eu sei que não. Aliás, sei também que depois da minha última matéria você quer me ver longe, não é? Mas o jornalista que você convidou não pôde comparecer, então eu aproveitei a oportunidade...
— O senhor sabe que tenho razões de sobra para não querê-lo aqui.
— Lamento muito se não escrevi o que você queria ler. Te¬nho porém, um compromisso com meus leitores e com a ver¬dade. Mas, não se preocupe, estou aqui para fazer uma repor¬tagem, nada mais...
Débora teve vontade de expulsá-lo dali. Como alguém con¬seguia ser tão cínico? Mas qualquer atitude drástica seria um prato cheio para ele.
Nesse instante chegaram Paul Price e a esposa, dois dos ju¬rados do Prêmio WBG. Débora respirou aliviada pela oportu¬na interrupção.
— Sr. Price, que prazer em vê-lo!
— Por favor, me chame de Paul. Agora que o julgamento terminou, espero que nos tornemos amigos.
— Lógico. E bom contar com pessoas como você, só espero que não me acusem de coação — brincou ela.
Débora contou-lhe sobre sua alegria em desenvolver o proje¬to do Centro Empresarial, falou bastante sobre o local escolhi¬do e o desenrolar das obras. Os dois passaram um bom tempo conversando.
Quando a sala já estava repleta de convidados, ela circulou entre um grupo e outro, cumprimentando a todos.
Fez questão de ignorar a presença de Inky Hedges. De um canto da sala, ele não perdia nenhum de seus movimentos. Na certa estava farejando mais um escândalo.
— Se um olhar matasse, Inky Hedges já estaria morto — co¬mentou Garth, surpreendendo-a por trás.
— Você não está tão errado assim — respondeu ela, acei¬tando a taça de champanhe que ele lhe ofereceu. — Gostaria que este sujeito sumisse da face da terra.
— Não fale assim. Não se esqueça do poder da imprensa.
— É por isso que eu ainda não o mandei embora. Mas você parece aflito. Por acaso está procurando alguém?
— Sim, seu novo empregado. Pela voz, tenho certeza de que já o conheço.
— Esta noite ele está de folga.
Mesmo com essa informação, Garth saiu direto em direção a um rapaz que ele supôs ser Christopher. Débora divertiu-se com o embaraço que iria criar para si mesmo.
Garth estava tão aflito e Débora sabia a razão. Ele a amava e não via a hora de conhecer aquele que supunha ser seu rival.
Saindo dali, Débora resolveu verificar se ainda tinha vinho branco suficiente no bar. Quando ia saindo de trás do balcão, deparou-se com Inky Hedges que quase a comprimiu contra a parede.
— Quer me dar licença, por favor? — pediu ela, evitando-Ihe o olhar.
— Oh, sinto muito, é que a sala está muito cheia.
— Bem, parece que o senhor quer conversar comigo.
— Eu tentei lhe falar durante a noite toda, querida. Gosta¬ria de saber a sua opinião sobre o jovem Monroe estar na pre¬sidência da companhia rival à sua. Creio que já sabe que Darcy Monroe deixou o cargo depois do derrame.
— Sim, eu li alguma coisa a respeito — respondeu ela, ten¬tando entender onde ele queria chegar. — Ainda não tive opor¬tunidade de conhecê-lo, portanto não posso lhe dar minha opinião.
— Ora, Débora, não me venha com essa. O boato que você e o jovem Monroe estão juntos já corre pela cidade inteira.
— Você deve estar enganado, eu...
— Raramente me engano, querida, meus espiões trabalham muito bem.
Débora deu uma risada nervosa. Mais uma palavra e ela cha¬maria o segurança para expulsar Inky dali. Mas antes que dis¬sesse qualquer coisa ele continuou:
— Eu sei que Traig Monroe está morando nesta casa. Sei tam¬bém que anda para cima e para baixo com o seu carro. Isso você não vai poder negar, minha cara.
Ao ouvir o nome de Monroe, Débora perdeu a ação. Sempre que alguém se referia àquela família não costumava chamá-los pelo nome, mas sim como o velho Monroe e o jovem Monroe. Era coincidência demais que o segundo nome de Christopher fosse o primeiro do filho de Darcy Monroe. De repente, uma luz veio-lhe à mente.
Como pudera ser tão ingênua? Se Andrew Dominick estives¬se vivo e soubesse que um Monroe estava morando com ela, ele a expulsaria de casa. Agora as coisas começavam a clarear.
Inky Hedges estudava-lhe as reações, mas ela logo se refez do choque e esforçou-se para manter a calma.
— Bem, agora que o senhor já sabe, acho que seria inútil continuar escondendo a verdade.
— Quer dizer que as suspeitas são verdadeiras?
— Eu não disse isso. Bem... não se preocupe, logo você vai ler as novidades aa coluna de Dolores Hartmann.
— Você vai dar exclusividade a ela? Não entendo. Vocês não eram inimigas mortais?
— Pois é, este é o mundo dos negócios.
— É verdade. Mas tenho o pressentimento de que esta sua história com Traig Monroe é muito mais complicada do que aparenta ser. Mesmo que Dolores tenha a exclusividade, você não pode me impedir de fazer investigações. Parece-me muito estranho que o primeiro e segundo colocados no concurso este¬jam morando juntos. Ainda mais, quando as duas famílias são rivais nos negócios.
Inky Hedges fez uma pausa para terminar o drinque, sem ti¬rar os olhos dela.
— Acho que já entendi toda a trama. Talvez vocês tenham feito um acordo. A Dominick encarrega-se das obras, mas quan¬do o orçamento ultrapassar os custos estipulados, a Monroe en¬tra como consultora e ganha sua porcentagem. Certo?
— Sr. Hedges, desta vez o senhor passou dos limites. Por favor, queira sair já de minha casa.
— Está certo... está certo. Eu já estava mesmo de saída. Bem, até logo a todos.
Depois que ele saiu, as pessoas passaram a encarar Débora em meio a um silêncio constrangedor. Maggie aproximou-se dela e puxou-a para um canto.
— Aquela víbora! O que foi que ele lhe fez desta vez?
— Ele está querendo armar um escândalo; não acredita que ganhamos o prêmio lealmente.
— Então, ele está trabalhando à toa. Estive conversando com alguns juizes há pouco e eles comentaram que a vitória da Do¬minick foi mais que merecida.
Há pouco menos de uma hora, Débora sequer duvidava da legalidade da vitória. Mas ela não sabia que um Monroe a esta¬va enganando.
Como se tivessem combinado, logo após a saída de Inky Hed¬ges, os convidados foram se despedindo um a um, deixando Débora sozinha no imenso salão. Apenas as arrumadeiras ainda circulavam, recolhendo os restos da festa.
Ao ficar sozinha, Débora sentou-se numa poltrona e com o olhar perdido na taça de champanhe tentou entender os fatos que a pegaram de surpresa naquela noite.
Christopher Traig, ou Traig Monroe, a enganara. No princí¬pio, o relacionamento deles era puramente comercial, mas aos poucos fora se transformando em algo bem mais íntimo.
Mas como acreditar que ele estivera mentindo o tempo to¬do? O interesse que ele demonstrava por ela não era falso. Não podia ser!
Débora desejou que tudo aquilo não passasse de um pesade¬lo. Agora não podia mais mentir para si mesma: havia se apai¬xonado por ele. Jamais esqueceria o dia em que sentira as mãos fortes acariciando-lhe o corpo, a sua presença fascinante preenchendo-lhe o vazio da vida.
Deus! Que plano ele estava arquitetando? Se queria prejudicá-la, já havia conseguido. Ela já estava sofrendo.
— Acorde, Débora, é melhor ir para o quarto.
Ela demorou para entender o que se passava. Estava deitada no sofá, o copo de champanhe sobre a mesinha e Christopher ajoelhado a seu lado.
— Você não está se sentindo bem?
— Estou sim — respondeu ela, ainda meio sonolenta. — Não precisa se preocupar. Traig Monroe.
— Então você já sabe? Ainda bem!
— Ainda bem? Isso é tudo o que tem a dizer?
— Eu não sabia como ia lhe contar. Faz tempo que estava ensaiando para falar sobre isso.
— Você acha mesmo que acredito no que está dizendo?
— E por que não? É a pura verdade.
— Bem, então, é a primeira vez que está sendo sincero.
— Sei que mereço ouvir isso. Teria sido simples se eu não tivesse me apaixonado por você...
— Oh, não. Por favor, não precisa fazer drama. Seu papel de marido arrependido é plenamente dispensável. Só gostaria de saber por que fez isso.
— Precisava de provas contra você...
— Provas? Ganhamos aquele prêmio porque merecemos.
— Você acha leal roubar projetos de um concorrente?
— Como assim? Onde você quer chegar?
Traig foi até a porta de vidro e ficou de costas para ela, olhan¬do para o jardim de inverno.
— Comecei a trabalhar para você para encontrar provas de que Garth Dangerfield havia sido contratado em troca dos pro¬jetos do Centro Empresarial.
Débora teve a impressão de ainda estar dormindo. Como se não bastasse ter descoberto a verdadeira identidade de Christopher, ele ainda acusava seu melhor funcionário de deslealdade.
— Isso é loucura!
— Você não sabia que Garth trabalhou para nós?
— Sim mas...
— Ele lhe contou por que foi despedido?
— Garth disse que você tinha ciúmes por que ele se dava mui¬to bem com seu pai.
— E ele também lhe falou que trabalhava em benefício pró¬prio, aproveitando-se da doença de meu pai?
— Não, claro que não — disse, confusa.
— Ele não seria tão tolo não é? Mas foi o que aconteceu. Quando voltei de viagem e fiquei a par dos negócios, descobri o jogo dele e o despedi. Resolvemos não processá-lo na época e, agora, ele me dá o troco por deixá-lo impune. Roubou meu projeto e conquistou o prêmio.
— Para mim chega, já ouvi o bastante e não acredito numa única palavra. Saia daqui, saia da minha vida para sempre!
— Você não vai se livrar de mim assim tão facilmente. Nos lemos um contrato.
— Não. Ingrid é a responsável pelo contrato. Está certo, mas ela assinou sob ordens suas.
— Por que está fazendo isso comigo? — perguntou ela, já sem forças para continuar a discutir.
— Já lhe disse, preciso encontrar as provas.
— Por que não me procurou de outra forma? Talvez tivés¬semos chegado a um acordo...
— Você não me receberia.
— É verdade, talvez não mesmo.
— Foi o que pensei. Eu estava com Ingrid, contratando umas pessoas para a firma, quando você ligou pedindo uma "pessoa muito especial". Então eu disse que me candidatava ao empre¬go e que nós havíamos combinado uma brincadeira.
— E o que pretende fazer agora? Vai pedir para os juizes reexaminarem tudo?
— É muito tarde para isso. Além do mais, Garth levou to¬das as cópias do meu projeto e não tenho como provar.
— Então pelo que pude entender, você pretende ficar aqui até conseguir todas as provas.
Traig assentiu com um sinal de cabeça.
Débora lembrou-se, então, do que Inky Hedges lhe dissera a respeito da participação da firma de Traig Monroe como con¬sultora. Mas, para inclui-la no projeto, ela teria que estourar o orçamento ou o prazo. E faria de tudo para evitar isso.
Subitamente, ela teve uma idéia que desmoralizaria qualquer Monroe.
— E se eu desistisse do projeto em seu favor?
— Não tinha pensado nisso.
— Ora, não seja cínico. É claro que tinha. Você não conse¬guiu ganhar o prêmio honestamente e agora está pensando nu¬ma forma de recuperá-lo. Pois pode ter certeza de uma coisa, sr. Christopher Traig Monroe, ou qualquer que seja o seu no¬me, o seu plano não vai dar certo.
— Por que não checa minhas informações com Garth?
— É isso que você quer, não é? Não satisfeito de ter estra¬gado minha vida com sua presença nesta casa, agora quer se intrometer na minha vida amorosa também? Meu pai tinha ra¬zão. Não se pode confiar num Monroe.
— Fugir da verdade é bem típico de um Dominick. Você não quer enfrentar Garth com medo que ele confirme tudo o que lhe disse.
Traig já ia saindo da sala quando ela o chamou, não o deixa¬ria com a última palavra.
— Aonde é que você vai?
— Vou sair antes que esta discussão tome rumos perigosos.
— Nós temos ainda um contrato como você mesmo disse, não é mesmo? Isto significa que ainda sou sua patroa. Pensan¬do bem, suas obrigações ainda não terminaram.
—- Certo — respondeu ele, procurando controlar-se — A se¬nhora precisa de mais alguma coisa? Débora disse a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Prepare-me um banho.
Assim que ele saiu, ela deixou-se cair no sofá. Precisava reu¬nir forças para continuar a enfrentar Traig. Na verdade, não queria tomar banho àquela hora da noite, mas o faria só para lhe provar quem é que estava com a palavra.
E, com tristeza, pensou mais uma vez no pai. Andrew Do¬minick tinha razão, qualquer membro da família Monroe só trazia problemas e Traig era, sem dúvida, o pior deles.
Como pudera ser tão ingênua acreditando que aquele rapaz atraente e provocante seria apenas seu empregado? Por que não seguira a sua intuição? Desde o princípio pressentira que uma situação absurda daquelas não iria dar certo.
Mas as palavras de Traig continuaram martelando na sua ca¬beça. Não tinha fundamento acusá-la de ter roubado os proje¬tos do Centro Empresarial. E certamente ele mentira ao falar sobre a saída de Garth da Monroe Investimentos. Desmorali¬zar seu melhor funcionário fazia parte do plano.
— A água já está quente — anunciou Traig.
Débora olhou para ele, entristecida com a situação. Estava se dando bem com Christopher e secretamente alimentara a es¬perança de tornar aquele relacionamento mais íntimo.
Agora, tinha de enfrentar a realidade: Traig Monroe estava ali para derrotá-la, não para amá-la. Olhando para ele, teve von¬tade de chorar e gritar toda sua raiva. No entanto, não lhe da¬ria o prazer de vê-la arrasada. Levantou-se e passou por ele de cabeça erguida.
Quando percebeu que Traig a seguira até o quarto, Débora planejou uma vingança. Faria com que ele sofresse as conse¬qüências de tê-la enganado.
Com movimentos lentos e sensuais, desabotoou o casaco, de¬pois a saia, deixando-os cair no chão. Espreguiçou-se languidamente e tirou a blusa de seda, deixando os seios à mostra.
Notou, satisfeita, que Traig estava tenso, esforçando-se ao máximo para não abraçá-la e sentir-lhe a pele macia. Ela dese¬jou ter coragem de desfazer os laços que prendiam a calcinha e ficar inteira nua na frente dele. Mas se não conseguisse man¬ter sob controle o desejo que se formava entre eles e se entre¬gasse à paixão, o seu plano de vingança de nada valeria.
Então, ela virou-se, despiu-se totalmente e sem olhar para trás entrou rápido na banheira. Quando ele aproximou-se com o óleo, ela ordenou:
— Primeiro os ombros e as costas, por favor.
Débora sentiu as mãos quentes tocarem-lhe o corpo e procu¬rou não demonstrar o efeito mágico que elas lhe causavam. Traig estava nervoso, a respiração ofegante.
— Você não está se sentindo bem? — perguntou ela, como se não soubesse que ele desejava tocar seu corpo de outra maneira.
— Ora, não se faça de boba. Você pensa que encontrou uma maneira de se vingar, não é?
— .E não encontrei?
— Pode ser. Acontece que está contando com a sorte.
— Por quê?
— Eu poderia tomá-la nos braços agora, carregá-la até a cama e amá-la durante a noite toda. E você não faria nada para me impedir.
— Você não faria isso! — respondeu ela, irritada.
— Não, você tem razão. — Traig levantou-se e enxugou as mãos'— Você pode pensar o pior de mim, mas asseguro-lhe que nunca amei ninguém à força. Sou um homem como outro qualquer. Por isso, enquanto ainda consigo me controlar, aconselho-a a sair daí e vestir o robe. Precisamos ter uma conversa.
— Vamos conversar sobre o quê?
Débora não teve resposta, pois Traig saíra deixando-a sozi¬nha. O que ele estaria planejando desta vez?
Antes da festa, pouco antes de ele sair, Traig dissera que pre¬cisava contar-lhe mais a seu respeito. Falara também que gos¬tava dela. Só de pensar nesta possibilidade, Débora sentiu o cor¬po todo estremecer. Mas era melhor não se deixar iludir. Antes de mais nada, ele era um Monroe, um traidor.
Imersa em pensamentos, ela terminou de se enxugar e, de re¬pente, sentiu uma tontura. Talvez tivesse exagerado no cham¬panhe ou talvez fosse muita emoção para uma noite só.
Mas, aos poucos, a sensação de fraqueza e mal-estar foi to¬mando conta do corpo todo. Com medo de perder os sentidos, ela tentou chegar até a porta. Foi inútil, suas pernas não obe¬deceram ao comando.
— Christopher!
Onde estaria ele? Sua visão ficou turva e ela desmaiou, cain¬do pesadamente no piso frio do banheiro.