Elara fez uma mala na manhã seguinte. Suas mãos tremiam enquanto jogava roupas em uma valise. Ela tinha que sair. Tinha que tirar Jade daquele hospital e levá-la para um lugar seguro, longe de Diana Fontenelle e do homem que seu marido havia se tornado.
Ela ligou para um advogado, um amigo da faculdade. A conversa foi breve e brutal.
— Você assinou um contrato pré-nupcial, Elara — disse o advogado, a voz tingida de pena. — Tudo está no nome do Alex. O apartamento, os carros, as contas bancárias. Se você for embora, vai embora sem nada.
— Eu não me importo com o dinheiro — disse Elara, a voz tensa. — Eu me importo com a minha irmã. Preciso tirá-la de perto deles.
— Tenha cuidado, Elara. Essas pessoas são poderosas.
Ela desligou o telefone no momento em que Alex entrou. Ele viu a mala na cama. Não pareceu surpreso. Parecia cansado.
Ele segurava uma pequena caixa de veludo.
— Não vá — disse ele. Abriu a caixa. Dentro havia um colar de diamantes, uma peça tão extravagante que parecia obscena. — Diana se sente péssima com o que aconteceu. Ela queria que você ficasse com isto.
Elara encarou o colar, depois ele.
— Você acha que isso conserta as coisas? Você acha que uma joia compensa eles quase terem matado minha irmã?
— É um gesto — disse ele, a voz baixa. — Ela quer consertar as coisas.
— Eu vou embora, Alex. Vou pedir o divórcio.
Ele pousou a caixa e caminhou em direção a ela. Ele se movia com uma graça preguiçosa que não escondia o poder contido em seus músculos.
— Você não vai a lugar nenhum.
— Você não pode me manter aqui.
— Não posso? — ele perguntou suavemente. — Você não tem dinheiro. Nem emprego. Para onde você vai? Como vai pagar pelos cuidados médicos da Jade? É muito caro, Elara. E as contas não vão parar de chegar.
Ele estava certo. Ela estava presa. Sua vida como violoncelista profissional havia sido suspensa por ele, por sua carreira. Ela era completamente dependente dele, e ele sabia disso.
— O que você quer de mim? — ela sussurrou, a luta se esvaindo dela.
— Quero que você fique. Quero que seja minha esposa. — Ele estendeu a mão para tocar seu rosto, e ela se encolheu. Sua mão caiu. A dor em seus olhos era real, mas parecia apenas mais uma ferramenta de manipulação.
— Não me toque.
— Elara, por favor. Apenas... dê um tempo. Podemos superar isso.
— Superar o quê? Você deixar os capangas da sua chefe espancarem minha irmã e depois ameaçar a vida dela?
— Diana é frágil — ele argumentou, sua voz assumindo aquele tom familiar e defensivo. — Ela sofre. Aquele tiro... mudou tudo para ela.
Elara riu, um som áspero e quebrado.
— E o meu sofrimento? E o da Jade? Isso não importa nem um pouco?
Ele desviou o olhar, incapaz de encará-la. O silêncio foi sua resposta.
No dia seguinte, a ligação veio. Era a assistente de Diana.
— A Sra. Fontenelle não está se sentindo bem — disse a voz seca. — Ela acha sua música muito calmante. Ela solicita que você venha à mansão e toque para ela.
Não era um pedido. Era uma ordem.
— Eu não posso — disse Elara. — Minha irmã...
— Alex está ciente da situação. Ele já concordou em seu nome.
Quando Elara olhou para Alex, ele apenas assentiu.
— Vá. Isso a fará se sentir melhor.
Ela foi. Não tinha escolha.
Diana estava recostada em uma chaise em sua vasta e estéril sala de estar, uma imagem de beleza trágica. Alex estava ao seu lado, a mão repousando possessivamente em seu ombro. A visão fez o estômago de Elara se contrair.
— Elara, querida — Diana ronronou, sua voz como seda e veneno. — Obrigada por vir. Tenho sentido tanta dor.
Elara não respondeu. Desembalou seu violoncelo, seus movimentos rígidos e robóticos. Suas mãos pareciam objetos estranhos.
— Toque algo para mim — ordenou Diana.
Elara começou a tocar. A música era oca, desprovida da paixão que ela antes derramava em cada nota. Era apenas som.
— Mais sentimento, querida — disse Diana depois de alguns minutos, um sorriso cruel brincando em seus lábios. — Toque como se fosse de verdade. Toque até seus dedos sangrarem.
Os olhos de Elara dispararam para Alex. Ele estava lá, o rosto impassível, uma estátua esculpida em culpa e traição. Ele deu um leve, quase imperceptível aceno de cabeça. *Faça*.
Então ela tocou. Tocou mais forte, mais rápido, as cordas cortando as pontas macias de seus dedos. Ela ignorou a ardência, a dor crescente em suas mãos e pulsos. Uma hora se passou. Depois duas.
A música tornou-se frenética, dissonante. Seus dedos estavam em carne viva, a pele se abrindo. Pequenas gotas de sangue apareceram nas cordas, manchando a madeira de seu amado violoncelo.
— Pare — disse Diana finalmente, a voz tingida de diversão.
As mãos de Elara caíram ao seu lado, trêmulas e ensanguentadas. Ela não sentia as pontas dos dedos.
Diana se levantou e se aproximou, inspecionando as mãos de Elara com uma curiosidade clínica.
— Oh, querida. Olhe só. Você as arruinou. — Ela olhou para Alex. — Ela realmente te ama, para fazer isso por mim.
A mandíbula de Alex estava tensa, mas ele não disse nada. Ele observou enquanto Diana pegava um pano e limpava o sangue do violoncelo, seus movimentos lentos e deliberados.
— Eu acho — disse Diana, olhando para Elara com olhos frios e triunfantes — que este instrumento é precioso demais para você agora. — Ela passou uma unha bem-feita sobre as cordas, que haviam sido encomendadas especialmente e eram conhecidas por sua aspereza. Foram projetadas para volume, não para conforto. — Alex, seja um amor e cuide disso para mim.
Alex pegou o violoncelo do suporte. Ele caminhou até a lareira sem uma palavra e, com um único movimento violento, espatifou o instrumento contra o mármore. A madeira se partiu, o braço quebrando com um som como um osso se partindo.
Elara assistiu à morte de sua música, à morte de sua paixão, e não sentiu nada além de um vasto e frio vazio.
Alex voltou para o seu lado.
— Ela está se sentindo melhor agora — disse ele, a voz um murmúrio baixo. — Viu? Valeu a pena.
Ele pegou as mãos ensanguentadas dela nas suas, seu toque gentil agora, uma paródia grotesca de um marido atencioso.
— Vou te levar para casa. Vou limpar isso para você.
Elara olhou para suas mãos arruinadas, para os destroços de seu violoncelo na lareira. Olhou para o rosto de Alex, para o homem que acabara de assistir seu mundo ser destruído para o conforto de outra mulher.
— Por quê? — ela perguntou, a voz mal um sussurro.
— Para pagar a dívida — disse ele, como se fosse a única resposta que importasse. — Temos que pagar a dívida.
Algumas semanas depois, Diana encenou outro de seus episódios dramáticos. A notícia veio de seu médico de que sua "condição" era permanente. O ferimento da bala havia deixado cicatrizes profundas e irreparáveis. Não havia chance de que ela pudesse conceber.
Elara a encontrou no solário, chorando nos braços de Alex. Era uma performance perfeita de coração partido.
— Eu sou inútil, Alex — Diana soluçava, seu corpo tremendo. — Uma mulher que não pode ter um filho não é nada.
— Não diga isso — Alex murmurou, acariciando o cabelo dela com uma ternura que não mostrava a Elara há meses. — Você não é inútil. Eu estou aqui. Sempre estarei aqui.
— Mas não é o suficiente! — Diana chorou, afastando-se para olhá-lo, seus olhos arregalados e desesperados. — Eu queria uma família com você. Eu queria te dar um filho. É tudo que eu sempre quis.
Elara estava na porta, uma testemunha silenciosa e invisível dessa peça distorcida.
— Prometa-me uma coisa, Alex — Diana sussurrou, sua voz carregada de manipulação. — Prometa que fará qualquer coisa para consertar isso. Qualquer coisa que eu pedir.
— Eu prometo — disse Alex, sua voz crua de emoção. Ele estava completamente sob o feitiço dela. — Qualquer coisa.
Os olhos de Diana piscaram na direção de Elara por uma fração de segundo, um brilho de triunfo puro e frio em suas profundezas.
Mais tarde naquela noite, Alex veio até Elara. Ele parecia exausto, o rosto pálido e abatido.
— Precisamos conversar — disse ele.
Ele lhe contou o plano de Diana. As palavras saíram em um tom monótono e ensaiado. Diana queria um filho. Ela não podia ter um. Mas Elara podia.
— Ela quer... ela quer que usemos uma barriga de aluguel — disse Alex, incapaz de encarar Elara.
Elara sentiu um calafrio percorrer seu corpo.
— Uma barriga de aluguel?
— Não — ele se corrigiu, respirando fundo. — Ela não quer outra mulher carregando o filho. Ela quer... ela quer garantir que você também não possa ter um.
O quarto girou. Elara não conseguia respirar.
— O que você está dizendo?
— Ela acha que é justo — Alex continuou, as palavras saindo atropeladas agora. — Olho por olho. Um útero por um útero. Ela quer que você faça um procedimento. Uma histerectomia.
— Não — Elara ofegou, recuando dele. — Não. Você está louco. Ela está louca.
— Ela acha que isso lhe trará paz — ele suplicou, sua voz quebrando. — Elara, esta é a única maneira de pagar a dívida. Uma vez que isso for feito, acabou. Podemos ser livres.
— Livres? Você quer me esterilizar para apaziguar sua chefe psicótica e chama isso de liberdade? — Ela estava gritando agora, sua voz crua de incredulidade e horror. — Isso não é uma dívida, Alex. Isso é um sacrifício. E você não está se sacrificando. Você está me sacrificando!
— Eu não tenho escolha! — ele gritou de volta, sua compostura finalmente se quebrando. — Eu dei a ela a minha palavra!
— E a sua palavra para mim? Os votos que fizemos? 'Na saúde e na doença.' Isso não significa nada?
— Ela não pode ter meus filhos — disse ele, sua voz caindo para um sussurro arrepiante. — Então você também não vai ter.
A finalidade em seu tom a aterrorizou. Foi então que ela soube que ele iria em frente. Ele deixaria isso acontecer.
Ela se lançou contra ele, suas mãos arruinadas cerradas em punhos, batendo em seu peito.
— Eu te odeio! Eu te odeio!
Ele apenas ficou lá e aguentou, seu rosto uma máscara de miséria. Ele não revidou. Nem sequer se encolheu. Quando ela estava exausta, seus soluços sacudindo seu corpo, ele agarrou seus braços.
— Vai acabar logo — ele prometeu, sua voz oca. — Eu juro. Então podemos ir embora. Só nós dois. Podemos recomeçar.
Dois dias depois, seus homens vieram buscá-la. Eles não bateram. Usaram uma chave. Arrastaram-na do apartamento, seus gritos ecoando no corredor vazio. Alex ficou parado na porta e observou. Ele não se moveu. Não disse uma palavra.
Levaram-na para uma clínica particular, um lugar limpo e estéril que parecia mais um laboratório do que um hospital. Não era uma clínica de verdade. Diana era a dona. O "médico" era um homem de olhos frios e um histórico de fazer favores para os ricos e poderosos, sem fazer perguntas.
Diana estava lá, esperando. Estava vestida com um jaleco branco impecável, interpretando o papel de uma cirurgiã.
— Olá, Elara — disse ela, seu sorriso afiado e predatório. — Você está linda hoje. Um pouco pálida, talvez.
Ela circulou Elara, que estava amarrada a uma cadeira médica.
— Ele sempre foi tão encantado por você. Seu corpo. A maneira como você podia criar vida. Eu nunca consegui entender. Você é tão... comum.
— Você é um monstro — Elara cuspiu, a voz trêmula.
— Eu sou uma sobrevivente — Diana a corrigiu. — E estou simplesmente nivelando o campo de jogo. Ele não pode ter o que quer comigo, então também não terá com você. Ninguém que pertence a Alex Braga jamais terá algo que eu não possa ter.
Elara lutou contra as amarras, um terror cru e animal subindo por sua garganta.
— Alex! Alex, não a deixe fazer isso!
Diana riu.
— Ele não está aqui, querida. Ele não suportaria assistir. Ele é um covarde.
O "médico" se aproximou com uma seringa.
— Sem anestesia — disse Diana, sua voz leve e casual. — Quero que ela sinta tudo. Quero que ela se lembre do que acontece quando você pega algo que me pertence.
A dor era inimaginável. Era uma agonia branca e incandescente que a rasgava, despedaçando-a por dentro. Ela gritou até sua garganta ficar em carne viva, sua visão embaçando, o mundo se dissolvendo em um vórtice de dor e escuridão. Ela desmaiou, acordou com mais dor e desmaiou novamente.
Através da névoa, ela podia ouvir a voz de Diana, calma e conversadora, narrando o procedimento para a sala vazia.
— Viu? Estamos apenas removendo o problema. Uma extração simples e limpa. Agora ela é como eu. Quebrada. Incompleta.
A última coisa que Elara se lembrou antes que a escuridão a tomasse completamente foi Diana se inclinando, seu hálito quente na orelha de Elara.
— Agora — Diana sussurrou, sua voz cheia de alegria triunfante — ele é finalmente todo meu.
Quando Elara acordou, estava em um hospital de verdade. A dor era uma constante surda e latejante. Alex estava sentado em uma cadeira ao lado de sua cama, olhando pela janela.
Ele olhou para ela, seu rosto gravado com uma culpa tão profunda que parecia ter esculpido linhas em sua pele. Ele não conseguia olhá-la nos olhos.
Ele abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu. O que ele poderia dizer?
— Você está feliz agora? — Elara sussurrou, sua voz um som seco e rouco. — A dívida está paga?
Uma única lágrima traçou um caminho por sua bochecha. Ele não respondeu.