Capítulo 2

Ponto de Vista: Alina Matos

Eu podia ouvi-los do meu quarto, suas vozes subindo pela grande escadaria — uma sinfonia da família feliz da qual eu nunca fiz parte. Os gritos animados de Lucas, a risada açucarada de Helena e as respostas graves e baixas de Heitor.

Helena era uma mestra. Ela mimava Lucas, sua voz pingando afeto maternal. "Oh, meu menino doce, deixe a Helena pegar um pedaço bem grande para você. Você se comportou tão bem hoje."

"O bolo da Helena é o melhor!", Lucas declarou em voz alta, uma provocação clara para mim. Por seis anos, eu estudei meticulosamente a pâtisserie francesa, aperfeiçoando cada sobremesa, de macarons a suflês, tentando encontrar um caminho para o coração dele através do estômago. Ele nunca havia aceitado uma única mordida da minha mão.

"Você tem razão, é mesmo", a voz de Heitor afirmou, e aquela simples concordância pareceu uma ferida nova. "Alina tenta, mas a comida dela é... funcional. Falta alma."

Falta alma. Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Eu havia passado inúmeras horas elaborando refeições balanceadas e nutritivas para um menino com uma alergia severa a nozes, verificando cada ingrediente, esterilizando minha cozinha para evitar qualquer contaminação. Eu havia ficado acordada a noite toda com ele quando teve febre, segurando um pano frio em sua testa porque o som de uma sirene de ambulância — um som que ele associava à morte de sua mãe — o deixava em pânico. Esse era o meu amor "funcional". Esse era o meu cuidado "frio".

E agora, Heitor, meu marido, estava elogiando a mulher que provavelmente comprou um bolo de padaria, simplesmente porque ela se parecia com a esposa que ele não conseguia esquecer. O absurdo daquilo era quase cômico.

Minha mala estava quase pronta. Uma única mala. Nela, os poucos pertences pessoais que eu havia trazido para esta casa seis anos atrás. O resto — as roupas de grife, as joias que Heitor comprava por obrigação — eu estava deixando para trás. Eram adereços para um papel que eu não interpretaria mais.

Ouvi a voz de Helena novamente, mais perto desta vez, enquanto eles se moviam para a sala de jantar. "Heitor, você precisa provar um pedaço também. Você tem trabalhado tanto."

Um instinto estranho, uma curiosidade mórbida, me puxou para a porta. Abri uma fresta e espiei. Helena estava ao lado de Heitor, que agora estava sentado na cabeceira da mesa. Ela segurava um garfo com um pequeno pedaço de bolo, levando-o aos lábios dele.

Minha respiração ficou presa na garganta. Heitor, um homem com uma misofonia tão severa que nunca havia compartilhado um copo de água comigo, inclinou-se para frente. Ele abriu a boca e aceitou o bolo diretamente do garfo dela.

O mundo girou. Em seis anos de casamento, ele nunca havia comido nada que eu lhe oferecesse do meu próprio garfo ou colher. Ele sempre insistia em talheres separados, pratos separados, uma distância estéril entre nós. Uma vez, eu tirei uma migalha de seu lábio, e ele se encolheu como se eu o tivesse atingido, retirando-se para o banheiro para lavar o rosto imediatamente.

Eu havia dito a mim mesma que era apenas o jeito dele. Seu luto. Suas manias. Eu havia criado mil desculpas para mil cortes.

Mas, observando-o agora, aceitando um gesto tão íntimo dela sem pensar duas vezes, eu vi a verdade. Nunca foi sobre sua fobia. Foi sobre mim.

Uma clareza fria e afiada perfurou a névoa do meu esgotamento. A dor era tão intensa que parecia que meu coração estava sendo fisicamente arrancado do meu peito. Mas por baixo da dor, um novo sentimento floresceu: alívio.

Era isso. Não havia mais nada a ser salvo, nada mais a ser mal interpretado.

Eu estava livre.

"Alina, querida, não vai se juntar a nós?", a voz de Helena chamou escada acima, com um tom zombeteiro. "Tem bolo de sobra."

Eu não respondi. Não precisava.

"Não se incomode", a voz de Heitor era fria, desdenhosa. "Ela provavelmente está emburrada. Precisa aprender que esta família não gira em torno de seus humores."

"O papai tem razão", Lucas interveio. "Ela é uma senhora má e mal-humorada. Se você não descer, a Helena vai ser minha nova mamãe para sempre!"

A raiva que vinha fervendo por seis anos finalmente transbordou. Não foi alta ou explosiva. Foi um calor silencioso e letal que percorreu minhas veias.

Voltei para o quarto, meus movimentos calmos e deliberados. Fechei o zíper da minha mala.

A voz doce de Helena flutuou novamente. "Oh, Alina, não seja tímida. Venha provar um pedaço. Talvez você possa aprender uma coisa ou duas."

"Ela não aprenderia nem se tentasse", Heitor murmurou, alto o suficiente para eu ouvir. "Agora, coma, Lucas."

De repente, ouviu-se um som metálico agudo vindo de baixo, seguido pelo suspiro exagerado de Helena. "Oh! Minha pulseira! Deve ter caído na massa do bolo. É uma peça de edição limitada, Heitor. Foi um presente." Sua voz estava carregada de uma falsa angústia.

Ouvi a cadeira de Heitor arrastar para trás. "Alina, desça aqui agora e peça desculpas à Helena. E depois você vai sair e comprar uma idêntica para ela."

Essa foi a gota d'água final e ridícula. Um pedido de desculpas? Pelo quê? Por existir no mundo perfeito e delirante deles?

Um tremor de fúria percorreu meu corpo. Eu não desci. Em vez disso, caminhei até minha penteadeira, peguei a caixa de joias que Heitor me dera em nosso primeiro aniversário e fui até a janela.

Lá embaixo, o jardim bem cuidado se estendia em direção à piscina de borda infinita. Sem hesitar por um segundo, abri a caixa e a virei de cabeça para baixo. Diamantes, pérolas e safiras choveram, espalhando-se como seixos sem valor no gramado impecável.

O grito enfurecido de Heitor ecoou da casa. "ALINA! O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO?"

Eu não olhei para trás. Apenas me virei, peguei minha mala e saí do quarto, deixando para trás seis anos de um vazio reluzente.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Alina Matos

Encontrei Heitor no pé da escada. Seu rosto era uma máscara de fúria gelada, seus olhos ardendo com uma raiva que ele raramente mostrava, uma raiva reservada apenas para quando eu perturbava seu mundo perfeitamente controlado.

"Você enlouqueceu?", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Você tem alguma ideia de quanto valiam aquelas joias?"

"E você tem alguma ideia de quanto valeram seis anos da minha vida?", retruquei, minha voz trêmula, mas firme. Eu nunca havia falado com ele assim antes. O choque em seu rosto foi quase satisfatório.

Lucas se agarrou à perna de Heitor, me fuzilando com o olhar. "Você é louca! Você é uma bruxa louca!" Ele chutou minha mala, um ato fútil e infantil de agressão. "Papai, manda ela embora!"

A raiva crua e desenfreada que eu havia suprimido por 2.190 dias finalmente explodiu. Não foi um grito. Foi uma ação assustadoramente calma. Passei por eles e entrei na sala de jantar. O bolo prestígio pela metade estava sobre a mesa, um monumento à minha humilhação. Helena estava por perto, um olhar presunçoso e vitorioso em seus olhos.

Minhas mãos se moveram antes que meu cérebro pudesse processar o comando. Agarrei o delicado suporte de bolo de porcelana e o arremessei contra a parede. Ele se estilhaçou com um estrondo ensurdecedor, porcelana branca e creme espirrando pelo caro papel de parede de seda.

Lucas gritou. Helena ofegou, fingindo medo.

Heitor agarrou meu braço, seus dedos cravando-se em minha carne como garras. "Você ficou completamente insana?"

Arranquei meu braço de seu aperto. "Insana? Você quer ver o que é insanidade, Heitor?" Passei o braço pela mesa de jantar. Taças de cristal, talheres de prata e porcelana fina voaram, caindo no chão em uma cacofonia de destruição. Cada estilhaço parecia uma libertação, a quebra das correntes invisíveis que me prenderam por tanto tempo.

"Pare com isso! Você está assustando o Lucas!", Heitor gritou, puxando o filho para trás dele protetoramente, protegendo-o de mim como se eu fosse um monstro.

Helena correu para o lado de Lucas, seus braços envolvendo-o. "Está tudo bem, querido. A mulher má está apenas tendo um chilique. Ela vai embora logo."

Parei, meu peito arfando. A adrenalina diminuiu, deixando para trás um vazio profundo. Olhando para a destruição, não senti nada. Nenhuma satisfação, nenhum arrependimento. Apenas uma sensação cansada de futilidade. Aquela bagunça era uma metáfora perfeita para o nosso casamento.

"Limpe isso", Heitor ordenou, sua voz pingando nojo. "E depois você vai pedir desculpas à Helena e ao Lucas."

"Não", eu disse, minha voz vazia.

"Ela é uma mulher má, papai", Lucas soluçou no vestido de Helena. "Eu não quero vê-la nunca mais."

Heitor acariciou o cabelo do filho, seu olhar fixo em mim com total desprezo. "Você o ouviu. Arrume suas coisas e saia da minha casa." Ele me deu as costas, concentrando toda a sua atenção em acalmar o filho, guiado pelos murmúrios gentis de Helena.

"Não se preocupe, Lucas", Helena sussurrou, seus olhos encontrando os meus por cima da cabeça dele. Eles brilhavam de triunfo. "Eu estou aqui agora. Vou cuidar de você e do seu papai."

Eu não precisei ouvir duas vezes. Virei-me sem outra palavra e subi as escadas. No meu quarto, peguei a coleira pequena e gasta da minha mesa de cabeceira. Buddy, meu golden retriever, levantou a cabeça de sua caminha, seu rabo batendo suavemente no carpete. Ele era o único pedaço da minha vida antiga que eu havia trazido comigo, o último elo vivo com um tempo antes de Heitor Bastos.

Com minha única mala em uma mão e a coleira de Buddy na outra, saí do quarto que havia sido minha gaiola dourada.

Quando desci as escadas, Heitor havia sumido. Apenas Helena e Lucas permaneciam, parados como um retrato de uma nova família no hall de entrada.

Meu celular vibrou no meu bolso. Uma mensagem de Heitor.

`A pulseira de edição limitada da H.Stern que a Helena estava usando hoje à noite. Você vai substituí-la. Mande entregar no meu escritório até amanhã.`

Olhei para a mensagem, uma risada sem humor borbulhando na minha garganta. Ele estava me expulsando, mas ainda se sentia no direito de me dar ordens.

Apaguei a mensagem, depois o contato dele, e então bloqueei seu número.

A casa estava opressivamente silenciosa naquela noite. Heitor e Lucas não voltaram para casa. Imaginei-os hospedados em um hotel, ou talvez no apartamento de Helena, criando novas e felizes memórias sobre as ruínas do meu casamento. Eu não me importava. Dormi profundamente pela primeira vez em anos, com Buddy aninhado aos pés da minha cama.

Na manhã seguinte, eu estava guardando os últimos dos meus pertences pessoais no meu carro quando um sedan preto parou na entrada da garagem. Heitor saiu, mas não estava sozinho. Gláucia Moraes emergiu do lado do passageiro, seu rosto sombrio.

Ele estava trazendo reforços. Interpretando o papel do marido injustiçado, tentando fazer Gláucia convencer sua esposa histérica e ingrata a ter juízo. Ele sempre soube quais botões apertar.

"Alina", Gláucia começou, sua voz tensa enquanto se aproximava de mim. Heitor ficou para trás, uma figura silenciosa e imponente de julgamento. "Heitor me contou o que aconteceu. Talvez possamos conversar sobre isso. Não tome uma decisão precipitada."

Olhei para minha antiga tutora, a mulher a quem eu devia tanto, e senti uma pontada de tristeza. Ela queria que isso desse certo. Mas ela, como Heitor, não tinha ideia do que isso havia me custado.

"Não há nada para conversar, Gláucia", eu disse suavemente.

Heitor finalmente falou, sua voz carregada da paciência condescendente de um homem que acredita ter todas as cartas. "Alina, você já teve seu chilique. Acabou. Agora volte para dentro. Gláucia veio de tão longe para mediar."

Eu quase ri. Mediar? Ele achava que isso era uma negociação. Ele ainda não entendia. Ele ainda achava que eu queria estar aqui. Ele ainda achava que tinha algum poder sobre mim.

Mas ele estava prestes a descobrir o quão errado estava.

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