Capítulo 2

Ponto de Vista de Amanda Ávila:

O couro macio do assento do carro parecia estranho sob mim enquanto meu motorista, um homem estoico que Bento havia enviado, navegava pelas ruas familiares de São Paulo. Minha mente repassava as palavras desdenhosas de Gabriel, sua traição casual. A memória era uma dor surda, uma pulsação constante atrás dos meus olhos. Mas sob a dor, uma nova emoção estava se enraizando: uma resolução gélida.

Passei o voo praticando minha compostura. Cada respiração era um esforço consciente para manter o tremor longe da minha voz, para suavizar as linhas de luto do meu rosto. Eu tinha que parecer desapegada, inquebrável. Isso não era mais sobre ele. Era sobre mim.

Quando o carro parou em frente ao familiar prédio da AG Designs, meu estômago se revirou. Nosso prédio. Meu prédio, tanto quanto dele. O nome, "Ávila-Gabe Designs", brilhava em neon acima da entrada, um lembrete cruel das vidas entrelaçadas que havíamos construído. Empurrei a pesada porta de vidro, o zumbido familiar do escritório um eco distante.

A recepcionista, uma jovem chamada Brenda, ergueu os olhos, seus olhos arregalados de surpresa. "Sra. Ávila? Você voltou mais cedo."

Ofereci um sorriso tenso e educado. "Apenas algumas coisas para resolver, Brenda." Minha voz estava uniforme, não traindo nada.

Caminhei diretamente para o escritório de Gabriel, o centro do nosso universo compartilhado. A porta estava entreaberta. Uma onda de energia nervosa, ou talvez nojo, me invadiu. Eu a empurrei para abrir completamente.

A cena lá dentro era exatamente como eu havia imaginado: Gabriel, recostado em sua cara cadeira ergonômica, um olhar presunçoso no rosto. E ali, empoleirada na beirada de sua mesa, estava Carolina. Seu cabelo loiro, geralmente meticulosamente penteado, estava ligeiramente desgrenhado, suas bochechas coradas. Ela segurava um documento branco e nítido, agitando-o de forma brincalhona. Meus olhos se estreitaram. Era, sem dúvida, a certidão de casamento.

O olhar de Carolina encontrou o meu. Seus olhos, geralmente grandes e inocentes, agora continham um brilho de triunfo, uma satisfação presunçosa que fez meu sangue gelar. Ela não vacilou. Em vez disso, um sorriso lento e predatório se espalhou por seu rosto.

"Amanda!", Carolina cantou, sua voz doentiamente doce. Ela praticamente saltitou em minha direção, estendendo o papel. "Olha! Gabriel e eu nos casamos! Não é maravilhoso?" Ela enfatizou a palavra "casamos" com uma doçura venenosa, seus olhos me desafiando a reagir.

Gabriel, assustado com o movimento súbito de Carolina, olhou para cima. Seus olhos, geralmente tão confiantes, brilharam com algo semelhante a pânico. Minha aparição repentina o pegou claramente de surpresa. Ele engoliu em seco, sua fachada cuidadosamente construída rachando momentaneamente. Mas tão rapidamente quanto apareceu, o pânico desapareceu, substituído por sua arrogância usual, tingida de irritação.

"Amanda? O que você está fazendo aqui?" Seu tom era ríspido, impaciente, como se eu fosse uma distração indesejada. Ele nem se deu ao trabalho de esconder a irritação em sua voz. "Pensei que você ia tirar mais alguns dias."

Uma risada amarga borbulhou em minha garganta. A pura audácia. Ele havia se casado casualmente com outra pessoa, e então esperava que eu estivesse longe, fora de vista, fora da mente. A ironia foi um soco no estômago. Sete anos. Sete anos da minha vida, do meu talento, da minha lealdade inabalável.

Fechei os olhos por uma fração de segundo, respirando fundo, tentando acalmar a tempestade que se formava dentro de mim. Pensei na prestigiosa bolsa de estudos do ITA que eu havia recusado para ajudá-lo a construir esta empresa. Pensei nas inúmeras noites em claro, nos sacrifícios, nas vezes em que coloquei os sonhos dele acima dos meus. "AG Designs." Ávila-Gabe. Meu nome, metade da marca. Minha visão, metade da fundação.

Ele me prometeu o mundo. Um futuro compartilhado, uma família, uma casa cheia de risos e amor. Ele havia prometido um casamento grandioso, uma celebração da nossa união, um futuro juntos. Cada promessa, cada sonho compartilhado, agora parecia uma piada cruel.

Minha mão alcançou minha bolsa. Tirei a pequena caixa de veludo contendo as alianças personalizadas. Os olhos de Gabriel, fixos em Carolina momentos antes, agora se arregalaram em confusão, depois em alarme.

"O que é isso?", ele perguntou, um toque de inquietação finalmente se insinuando em sua voz.

Abri a caixa. As alianças entrelaçadas brilhavam sob as luzes do escritório, um símbolo gritante de um amor que eu acreditava ser inquebrável. "Isto", eu disse, minha voz clara e firme, "era para ser o nosso futuro." Estendi a caixa, oferecendo-a a ele, não com uma oferta de amor, mas com um ato de rompimento. "Considere-as devolvidas."

Gabriel olhou para as alianças, depois para mim, sua testa franzida em descrença. "Amanda, o que deu em você?" Ele olhou para Carolina, depois de volta para mim, um brilho de suspeita em seus olhos. "Você vai mesmo fazer uma cena por causa de uma aposta estúpida?"

Carolina, sempre oportunista, aproximou-se de Gabriel, colocando a mão em seu braço. Ela piscou para mim, um olhar calculado de preocupação em seu rosto. "Amanda, querida, não seja boba. Foi só uma brincadeira. O Gabriel te ama, claro." Suas palavras eram sacarinas, tingidas de triunfo.

Olhei para ela, depois de volta para Gabriel. Seu rosto era uma máscara de aborrecimento, não de arrependimento. Meu amor não era "bobo". Meus sete anos não foram "divertidos". A profundidade de seu desrespeito, a crueldade casual de sua dispensa, cristalizou tudo. A pequena faísca de desafio da noite anterior agora rugia em um incêndio devastador.

Meus dedos foram para o meu celular. Toquei rapidamente, sem desviar o olhar de Gabriel. Redigi um e-mail curto e conciso. "A quem possa interessar na AG Designs", comecei, "Por favor, aceitem este e-mail como minha demissão formal do meu cargo de Arquiteta Chefe e Cofundadora, com efeito imediato." Anexei uma carta mais detalhada, já preparada. Com um toque final e decisivo, enviei.

Os olhos de Gabriel, atraídos pela tela, me viram enviar o e-mail. Seu queixo caiu. "Amanda, o que você fez?" Sua voz era baixa, perigosa.

Uma dor aguda, quase física, atravessou meu peito. Não de amor, não de tristeza, mas do rompimento brutal de algo que tinha sido meu mundo inteiro. AG Designs. Era mais do que uma empresa; era a manifestação física dos meus sonhos, do meu trabalho duro, da minha própria identidade. Eu havia derramado minha alma em cada planta, cada proposta de cliente, cada noite em claro. Lembrei-me dos primeiros dias, do apartamento apertado que usávamos como escritório, da esperança desesperada em nossos olhos. Lembrei-me de quando Gabriel estava por baixo, quando pensou que tinha perdido tudo, e fui eu quem o puxou de volta, quem acreditou em nós. Ele me prometeu um futuro, e eu o construí com ele, tijolo por tijolo doloroso.

Agora, à beira do nosso maior sucesso, com um IPO no horizonte, ele havia trocado tudo por uma "aposta estúpida" e uma estagiária. Meu nome, Ávila, para sempre gravado no orgulhoso título da empresa, era agora um monumento à sua traição. A ironia era um gosto amargo na minha boca.

"Eu me libertei, Gabriel", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas ecoava com uma força recém-descoberta. "E a partir deste momento, você e eu não somos nada além de estranhos."

Virei nos calcanhares, deixando a caixa de veludo e as alianças na mesa de Gabriel como uma relíquia esquecida. A dor era imensa, uma dor surda que ameaçava me consumir. Mas era uma dor que eu havia escolhido. Uma dor que abriria um novo caminho.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Amanda Ávila:

Carolina Santos. O nome agora tinha gosto de cinzas na minha boca. Quando ela se juntou à AG Designs como estagiária do Gabriel, parecia inofensiva. Jovem, ansiosa, com olhos grandes e inocentes que escondiam a víbora por baixo. Eu não tinha lhe dado a menor atenção, segura demais em meu relacionamento de sete anos com Gabriel, ocupada demais construindo nosso império. Eu acreditava que nosso amor era uma fortaleza impenetrável, um vínculo forjado em sonhos compartilhados e inúmeros sacrifícios. Como eu fui tola. O amor, como tudo mais, está sujeito à entropia. Ele decai se não for nutrido, se for dado como certo. E Gabriel, meu Gabriel, havia tomado tudo como certo.

Lembrei-me dos primeiros dias, quando ele trabalhava até tarde, sua paixão pela arquitetura o consumindo. Eu costumava fazer o jantar para ele, algo simples, mas nutritivo, e depois levava para o escritório. Era minha pequena maneira de nutrir não apenas ele, mas nós.

Uma noite, cerca de seis meses atrás, a memória era uma ferida fresca, o cheiro da massa esfriando ainda vívido. Eu tinha parado em frente ao prédio da AG Designs, as luzes da cidade começando a brilhar ao meu redor. Meu coração estava leve. Eu estava levando a lasanha favorita do Gabriel. Ao me aproximar de seu escritório, uma risada suave e melódica veio de trás da porta ligeiramente entreaberta. A risada de Carolina. Era leve, arejada, totalmente encantadora.

Meu sorriso, já no lugar para Gabriel, vacilou. Parei, uma estranha premonição se contorcendo em minhas entranhas. O que era tão engraçado? Empurrei a porta apenas uma fresta.

A cena que me saudou me congelou no lugar. Carolina estava sentada na beirada da mesa de Gabriel, um pequeno recipiente de comida para viagem na mão. Ela segurava um garfo, alimentando Gabriel com um pedaço de sushi de forma brincalhona. Ele se inclinou para trás, seus olhos brilhando, aceitando o bocado com um sorriso que eu nunca tinha visto antes. Não era apenas um sorriso; era um olhar cheio de uma ternura, uma suavidade profunda que fez meu estômago se contrair. Uma ternura que ele reservava para mim, eu pensei. Mas não. Ele estava dando a ela.

Meu mundo inclinou. A lasanha em minhas mãos de repente pareceu pesada, fria. Meu coração se contraiu, uma dor aguda e lancinante. Fiquei ali, enraizada no lugar, observando-o devorar o sushi, observando-o olhá-la com aquele olhar. Um grito silencioso rasgou através de mim, mas nenhum som escapou dos meus lábios.

Fechei a porta silenciosamente, minhas mãos tremendo tanto que quase deixei a comida cair. Afastei-me, a lasanha ficando mais fria a cada passo, assim como meu coração. Fiquei do lado de fora na chuva torrencial, a comida esquecida, seu calor se infiltrando na embalagem de papelão, esfriando, esfriando, esfriando.

Mais tarde naquela noite, eu voltei. A chuva havia parado. Entrei em seu escritório, os restos da refeição de Carolina ainda em sua mesa.

"Amanda? O que há de errado?", Gabriel perguntou, fingindo preocupação, sua voz tingida de aborrecimento. "Você está encharcada. Esqueceu seu guarda-chuva de novo? Você é tão desastrada às vezes."

Ele não perguntou por que eu voltei. Ele não perguntou se eu tinha visto alguma coisa. Ele apenas reclamou. "Sabe, Amanda, às vezes você é um pouco... grudenta", disse ele, esfregando as têmporas. "Eu preciso de espaço para trabalhar. Você precisa entender isso."

Grudenta. A palavra ecoou em meu coração vazio.

Depois disso, as pequenas traições começaram a se acumular. Coisas pequenas. Carolina se oferecendo para ficar até tarde com ele, "para ajudar". Gabriel sempre concordando. Carolina sugerindo ideias de design que eu havia proposto meses atrás, mas agora, vindo dela, eram "brilhantes". Gabriel ignorando meus avisos sutis sobre a ambição de Carolina, sua falta de limites. Ele até alocou uma parte significativa do nosso orçamento de marketing para uma campanha frívola de mídia social que Carolina havia projetado, uma campanha que no final rendeu resultados mínimos, só porque ela "tinha uma ótima visão".

Eu tentei ignorar. Tentei me convencer de que Gabriel estava apenas ocupado, que ele estava cego para as manipulações dela. Mas uma suspeita roedora começou a me consumir. Uma noite, incapaz de suportar mais, eu o confrontei, seu escritório ainda cheirando fracamente ao perfume barato dela.

"Gabriel", eu disse, minha voz tremendo apesar dos meus melhores esforços para mantê-la firme. "Você está apaixonado pela Carolina?"

Ele bateu a mão na mesa, o barulho repentino me fazendo pular. "Que tipo de pergunta ridícula é essa, Amanda?", ele retrucou, seu rosto contorcido de raiva. "Você está louca? Por que você está sempre tão paranoica?"

Ele não perdeu o ritmo. Ele nem sequer vacilou. Seus olhos, geralmente tão expressivos, estavam frios, duros e desprovidos de qualquer culpa. Apenas impaciência. Apenas aborrecimento. Ele me fez sentir como se eu fosse o problema, eu fosse a louca. Fiquei ali, sem palavras, a acusação pairando pesada no ar, me sufocando. O homem que eu amava, o homem a quem eu havia dado tudo, havia se tornado um estranho. Um estranho cruel e indiferente.

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