Capítulo 2

Ponto de Vista: Ricardo Almeida

A mulher do outro lado da linha tinha o tipo de voz que parecia ter prendido a respiração por uma década. Baixa, tensa, mas com um fio de aço por dentro. Clara Mendes. O nome soou familiar, um eco fraco de uma manchete de coluna social há muito esquecida. Construtora Mendes. Muito dinheiro. Grande escândalo.

"Já passa das dez da noite, Sra. Mendes", eu disse, girando o último gole de uísque no meu copo. O gelo batia na lateral, um ritmo solitário. "Minhas taxas dobram depois do pôr do sol. Triplicam para drama familiar."

Houve uma pausa. Esperei que ela desligasse. A maioria delas desligava. Elas queriam um salvador de liquidação, não um investimento.

"Tudo bem", disse ela, sem um pingo de hesitação. "Onde fica seu escritório?"

Dei a ela o endereço do prédio sem elevador numa parte do centro onde os edifícios, assim como as pessoas, pareciam cansados de sua própria história. Achei que seria o fim da conversa. Meninas ricas não vinham a lugares como este.

Na manhã seguinte, ela me provou o contrário.

Ela estava sentada na cadeira gasta em frente à minha mesa quando entrei com meu café. Era mais magra do que eu imaginava, com olhos escuros que guardavam uma tempestade de coisas não ditas. Usava um casaco simples e elegante que provavelmente custava mais que o meu aluguel do mês, mas o vestia como uma armadura, não como uma declaração de moda.

"Você veio", eu disse, tomando um gole do café amargo. Era uma constatação, mas havia surpresa nela.

"Eu disse que viria", ela respondeu, seu olhar firme.

Sentei-me, as molas da minha cadeira gemendo em protesto. "Certo, Sra. Mendes. Você tem minha atenção total pelos próximos cinco minutos. Meu adiantamento é de cinquenta mil reais, não reembolsável. Fale."

Eu esperava lágrimas. Esperava um monólogo emocional e confuso sobre ser incompreendida. Não recebi nenhum dos dois.

Ela enfiou a mão na bolsa e tirou um cheque administrativo. Deslizou-o pela superfície arranhada da minha mesa. Era de exatamente cinquenta mil reais.

"Dez anos atrás", ela começou, sua voz tão calma e precisa quanto a planta de um arquiteto, "a empresa da minha família, a Construtora Mendes, perdeu uma licitação de centenas de milhões de reais para o novo projeto de desenvolvimento da orla da cidade. A proposta foi vazada para nosso principal concorrente, o Grupo Vértice. Uma investigação interna descobriu que o vazamento se originou do meu computador. O pagamento, uma quantia de duzentos e cinquenta mil reais, foi rastreado até uma conta no exterior aberta em meu nome."

Ela recitava os fatos como se estivesse lendo a previsão do tempo, mas eu podia ver a tensão em seus nós dos dedos, brancos como osso onde ela segurava a bolsa.

"Fui acusada de espionagem corporativa. Fui demitida do meu cargo de arquiteta júnior. Minha carreira acabou antes de começar. Desde então, me disseram que tenho sorte de minha família não ter prestado queixa, que foram misericordiosos em me deixar ficar como assistente administrativa como... penitência."

A palavra "penitência" pairou no ar, feia e pesada.

"Você fez isso?", perguntei, recostando-me. Era a primeira e mais importante pergunta.

"Não."

Não houve hesitação. Nenhum vislumbre de dúvida. Apenas um "não" seco e sólido. Era a mentira mais convincente ou a verdade mais dolorosa que eu tinha ouvido o ano todo.

"Por que vir a mim agora? Dez anos é muito tempo para a verdade ficar enterrada."

"Porque ontem à noite, eu percebi que ela nunca esteve enterrada", disse ela, seus olhos finalmente mostrando um lampejo da tempestade interior. "Ela esteve viva e bem, morando na minha casa, comendo na minha mesa e sorrindo para mim enquanto me envenenava lentamente. Cansei de ser envenenada."

Peguei o cheque, batendo a borda contra minha mesa. Lembrei-me do caso que me transformou no desgraçado cínico que sou hoje. Um garoto, incriminado por um assalto que não cometeu. Eu acreditei nele. Trabalhei como um louco. Mas as provas eram perfeitas, a história era redonda, e eu falhei. Ele pegou cinco anos. Quando saiu, o mundo já o havia marcado, e ele morreu de overdose seis meses depois. Eu falhei em inocentar um homem inocente, e isso arrancou algo de dentro de mim.

Olhei para Clara Mendes. Para a determinação silenciosa que parecia irradiar de sua estrutura exausta. Eu vi as inconsistências que ela estava perto demais para ver. A evidência perfeita. A história limpinha. Bodes expiatórios sempre foram convenientes.

"Quem você acha que fez isso?", perguntei.

"Não tenho certeza", ela admitiu. "Mas sei quem mais se beneficiou."

"Seu irmão, Arthur. Ele se tornou o herói que salvou a empresa de sua irmã traiçoeira."

Ela assentiu lentamente. "E a mulher que esteve ao lado dele durante tudo. Sua noiva, Camila Novaes. Ela era uma recém-contratada no departamento de marketing na época. Ambiciosa. Incrivelmente inteligente. Ela me via como uma ameaça."

Levantei-me e fui até a janela, olhando para a rua suja lá embaixo. Isso era complicado. Famílias ricas protegendo sua imagem eram mais perigosas que animais encurralados. Enfrentá-los significava desenterrar túmulos que eles gastaram uma fortuna para manter selados.

"Isso não vai ser fácil", avisei. "Se eu pegar este caso, vou despedaçar sua família. Não haverá volta. Você vai acender um fósforo e jogá-lo num galpão cheio de gasolina."

Virei-me para olhá-la. Eu esperava ver medo, hesitação.

Em vez disso, pela primeira vez desde que ela entrou, vi um sorriso pequeno e frio tocar seus lábios.

"Ótimo", disse ela, sua voz caindo para quase um sussurro. "Eu quero ver tudo queimar."

Peguei o cheque e o dobrei no bolso. O fantasma do meu fracasso passado me cutucou. Talvez desta vez fosse diferente.

"Tudo bem, Sra. Mendes", eu disse, pegando meu casaco. "Vamos desenterrar alguns corpos."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Clara Mendes

Nos dias seguintes, o escritório empoeirado de Ricardo Almeida se tornou meu santuário. Cheirava a café velho, papel antigo e um leve traço persistente de uísque, mas para mim, cheirava à verdade. Era um mundo à parte da atmosfera estéril e perfumada da mansão dos Mendes, onde mentiras eram a moeda corrente.

Ricardo era metódico, cínico e brutalmente direto. Ele não oferecia simpatia; ele exigia fatos. Começamos com o arquivo da investigação original, que eu consegui copiar do servidor da empresa anos atrás, um pequeno ato de desafio que eu nunca soube que usaria.

"Isso está limpo demais", Ricardo resmungou, espalhando os documentos impressos sobre sua mesa. Ele apontou o dedo para um extrato bancário. "Uma única transferência para uma conta no exterior? Em seu nome? Coisa de amador. Alguém cometendo um crime deste tamanho, alguém inteligente o suficiente para roubar uma proposta de centenas de milhões, seria inteligente o suficiente para fatiar os pagamentos. Isso não foi projetado para ser escondido; foi projetado para ser encontrado."

Um nó de tensão no meu peito, um que eu carregava há uma década, se afrouxou um pouco. Foi a primeira vez que alguém olhou para as "provas" e as viu pelo que eram: uma performance encenada.

"E este celular pré-pago", ele continuou, pegando uma foto do telefone barato que a investigação havia "descoberto" na minha antiga mesa. "Comprado com dinheiro vivo numa loja de conveniência a duas quadras do seu apartamento. É quase um insulto. É como o assassino deixar uma confissão assinada na cena do crime."

"Arthur disse que era prova da minha arrogância", murmurei, a lembrança de sua acusação mordaz ainda nítida. "Ele disse que eu achava que era inteligente demais para ser pega."

"Não", disse Ricardo, seus olhos afiados e focados em mim. "Seu irmão é um desgraçado arrogante, mas não é um detetive. Ele viu o que era para ele ver. O que ele queria ver."

Ele estava certo. Arthur sempre teve ciúmes da minha aptidão para o design, do orgulho de nosso pai em meu talento arquitetônico. O escândalo não foi apenas um problema de negócios para ele; foi uma oportunidade. Permitiu que ele me escalasse como a vilã e a si mesmo como o salvador, cimentando seu controle sobre a empresa e a família.

Nossa primeira tarefa real foi rastrear o dinheiro. Não o dinheiro que foi para a conta falsa em meu nome, mas o dinheiro que Camila poderia ter recebido.

"Ela não teria sido paga por transferência", Ricardo raciocinou, andando de um lado para o outro em frente ao seu quadro de evidências. "Muito rastreável. Ela é mais esperta que isso. Estamos procurando outra coisa. Um ganho inesperado. Um carro novo, a entrada de um apartamento, um grande 'presente' de um 'parente'."

Usando antigos registros financeiros aos quais eu tinha acesso devido à minha função administrativa, começamos a cruzar os gastos conhecidos de Camila com a folha de pagamento da empresa. Por semanas, foi um beco sem saída. Ela tinha sido cuidadosa. Seu estilo de vida melhorou depois que ela e Arthur ficaram juntos, mas tudo era explicável pela generosidade dele.

A virada veio de um lugar inesperado: minhas próprias memórias. Ricardo estava me interrogando sobre os dias que antecederam o vazamento, tentando resgatar qualquer detalhe esquecido.

"Pense, Clara. Qualquer coisa fora do comum. Alguém novo por perto? Alguma conversa estranha?"

Fechei os olhos, forçando-me a voltar àquela época. A memória estava turva com o choque e o trauma que se seguiram, mas eu insisti. Lembrei-me das longas noites que passei no escritório, finalizando os detalhes da proposta. Lembrei-me de Camila, sempre lá, me trazendo café, oferecendo uma palavra de apoio, sua presença um zumbido constante e amigável ao fundo.

"Ela estava sempre fazendo perguntas", eu disse lentamente, uma imagem nebulosa se formando. "Sobre a proposta. Ela disfarçava como curiosidade profissional. Dizia que queria entender melhor o lado da construção do negócio, para ajudá-la no marketing."

"Que tipo de perguntas?"

"Específicas. Sobre os materiais exclusivos que estávamos adquirindo, as inovações estruturais. As mesmas coisas que tornavam nossa proposta única. As coisas que o concorrente, o Grupo Vértice, de alguma forma conseguiu replicar em sua proposta final."

E então, outra memória surgiu. Uma conversa que eu tinha ouvido por acaso. Camila ao telefone, sua voz baixa e tensa. Ela estava falando sobre sua "tia doente" em outro estado, sobre precisar enviar dinheiro para "contas médicas".

"A tia dela", eu disse, meus olhos se abrindo de repente. "Ela estava sempre falando de uma tia doente. Dizia que estava mandando dinheiro para ela."

Ricardo parou de andar. Uma imobilidade de caçador tomou conta dele. "Ela tinha uma tia?"

"Eu... eu não sei. Eu apenas presumi que sim."

Levou menos de vinte e quatro horas para Ricardo descobrir a verdade. Camila Novaes era filha única de uma cidade pequena. Seus pais já haviam falecido. Ela não tinha tias, nem tios, nem parentes próximos.

A "tia doente" era uma ficção. Uma cobertura para onde seu dinheiro estava indo. Ou, mais provavelmente, de onde estava vindo.

"Ela não estava enviando dinheiro", disse Ricardo, sua voz sombria ao desligar o telefone com um contato. "Ela estava recebendo. Depósitos em dinheiro, pequenos e estruturados, em uma conta de banco regional sob o nome de solteira de sua mãe. Sempre um pouco abaixo do limite de dez mil reais que exige declaração. Em seis meses, somou quase duzentos e cinquenta mil reais."

Ele prendeu uma impressão dos registros bancários no quadro. Lá estava. O dinheiro. Não em uma transferência limpa e óbvia, mas lavado lentamente, cuidadosamente, através de um fantasma.

Minha respiração falhou. Era real. Isso não era mais apenas uma teoria. Era uma prova.

"É isso", sussurrei, minha mão se estendendo para tocar o papel, como se sua realidade pudesse ser absorvida através das pontas dos meus dedos.

"É um começo", Ricardo advertiu, seu olhar suavizando um pouco. "Isso prova que ela tinha uma fonte secreta de renda que coincide com o escândalo. Mas não prova que veio do Grupo Vértice. Para isso, precisamos encontrar a pessoa do outro lado da transação. A pessoa no Vértice que a pagou."

Ele desenhou um círculo ao redor do nome da empresa rival no quadro.

"E é aí", disse ele, virando-se para mim, um brilho de desafio em seus olhos, "que as coisas ficam perigosas."

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED