Capítulo 2

Minha tia estava na cozinha e me viu descer as escadas apressada.

- Onde vai Anna?

- Preciso voltar para Taika! É urgente, acho que posso ter feito algo errado, preciso consertar, diga para o vovô e para a vovó que eu volto para buscar o resto das coisas antes das férias acabarem.

- Certo, querida, mas é algo muito grave? Precisa de ajuda?

- Não tia, acho que não, e de qualquer forma, acho que não poderia me ajudar com isso.

- Tudo bem, boa sorte então.

- Obrigada.

Saí porta a fora apressada e segui reto para o terreno baldio onde eu sempre fazia a passagem, me aproximei do lago e olhei para os dois lados antes de mergulhar, não havia ninguém olhando, para a minha sorte, aquela rua mão era muito movimentada.

Assim que cheguei a Taika meu corpo formigou sentindo toda a magia daquele lugar, respirei fundo enchendo meus pulmões de ar puro, como eu tinha sentido saudades, apressei o passo para alcançar o castelo, as meninas nem acreditariam quando me vissem chegando mais cedo.

Caminhei apressada até o castelo, paralisei ao perceber que a guarda estava com vestimentas diferentes e trazia armas de fogo em punho, me aproximei de um dos guardas sorrindo.

- Olá Aadolf, como passou esses dias?

- Muito bem senhorita Anna, porém não posso conversar com a senhorita nesse momento, serei punido se... – Ele se curvou soltando um grito de dor, me assustei e tentei ampará-lo.

- Aadolf! Aadolf! O que houve?

Hermes apareceu na porta e me puxou para o lado.

- Ele vai ficar bem senhorita, apenas se afaste dele e a dor passará!

- Do que está falando?

Fiz o que Hermes me pedia e de fato, logo ele parecia estar recuperado, fiquei ainda mais confusa.

- O que está acontecendo aqui Hermes?

- Muitas coisas mudaram no castelo senhorita, com a chegada do novo guardião e novo diretor da escola, tudo mudou! Regras de etiqueta, comportamento e até mesmo a liberdade que os serviçais tinham, os guardas não podem mais conversar uns com os outros ou com as pessoas a menos que seja referente a trabalho, caso contrário, sofrem um tipo de castigo.

- Castigo? Mas que absurdo é esse?

Hermes tampou minha boca e me puxou para o lado.

- Nunca diga isso, se alguém a houve terá problemas senhorita! Qualquer queixa que seja feita contra as novas regras também terá punição! Taika não é mais o mesmo lugar que era.

- O que? E como Kaarl permitiu isso? Onde ele está? Vou acabar com isso agora!

Ele me puxou pelo braço, enquanto eu tentava partir em busca de Kaarl.

- Kaarl não vive mais nesse castelo senhorita! Como eu disse, muita coisa mudou!

Nessa hora ouvimos alguém limpar a garganta e se aproximar com passos pesados, virei-me brutamente e vi um rapaz que nos encarava sério do alto da escada, ele analisou minhas roupas e pareceu não gostar do que via.

- Ora, ora, mas quem nos deu a honra de voltar, veja só se não é a famosa herdeira!

A arrogância com que ele falava de mim me enojou, eu o encarei no fundo dos olhos, não sei quem ele era, mas, algo me dizia que não nos daríamos muito bem.

Aleksis Antoni Vitanen era um rapaz alto, estava bem vestido e tinha certo porte de rei, o tipo de rapaz que chamava atenção por onde quer que passasse, os cabelos eram pretos, escuros como a noite, a pele extremamente clara e os olhos pareciam dois pontos de tinta de tão escuros, o corpo era forte e bem desenhado, eu estaria mentindo se dissesse que ele não era belo, sim ele era, porém também era de causar arrepios, não tinha emoção em sua voz, nem alegria, nem bondade, ele era um bloco de gelo.

- Anna Rasmus, não é?

- Isso.

- Sou... Aleksis o novo guardião do fogo e também diretor dessa escola, e assim que tudo for acertado possivelmente o novo rei.

Eu tentei esconder meu espanto, porém não pude, minha boca se abriu e fechou novamente, olhei em sua mão e vi o anel que um dia pertencerá a Kaarl como o anel poderia ter escolhido alguém tão odioso? Eu achei que o anel levasse em consideração o coração da pessoa, aquele homem na minha frente, sem sombra de dúvidas não tinha um! Diretor? Ok havia de fato uma regra, que o diretor da escola precisava ser um guardião, então por mais que Kaarl tivesse feito tudo que podia, ele não podia seguir com o cargo, mas por que escolheriam alguém tão horrendo como "Vitanen", e rei? Rei de que jeito?

- Estou bem confusa com a parte que disse sobre ser o futuro rei, esse reino já tem herdeiros da coroa suficientes!

Ele soltou uma gargalhada alta.

- Quem? Você? Kaarl? Porque se forem essas as opções só vejo cartas fora do baralho, você é mulher, ninguém aceitaria ser governado por uma mulher, e Kaarl... Kaarl é herdeiro do reino norte, ele que vá pegar a coroa da mãe dele, aliás, falando na rainha má, você não me parece tão poderosa quanto eu ouvi falar... É mesmo verdade que a derrotou e quebrou essa maldição de séculos sozinha?

Estreitei os olhos.

- É o que dizem, por acaso está me desafiando?

Novamente ele soltou uma gargalhada.

- Que isso! Guarde suas garras princesa, quem seria eu se ousasse desafiar a herdeira! – Ele voltou a rir e então se afastou olhando para Hermes. – E quanto a você, acho que deixei claro que não quero conversas pelo corredor, então trate de encontrar algum serviço.

Eu olhei para ele com ainda mais raiva e então me virei para Hermes.

- Precisamos conversar, eu preciso saber o que aconteceu, onde está Parvii? E Aila? Para onde Kaarl foi?

- Parvii teve que entregar seu quarto, alunos com pais do ministério não poderão dormir na escola, então acredito que ela esteja em casa, assim como Aila que agora vive na cidade, eu a tenho ajudado a pagar por uma pensão em um bairro afastado, mas é perigoso, não vá lá sozinha, peça para Olli a acompanhar, ele é um guardião e seu irmão, ninguém ousará falar.

- E Kaarl?

- Na floresta, Kaarl possuí uma propriedade lá, costumava viver lá antes de se mudar para o castelo, ainda quando sua vó era viva.

- Achei que ele sempre tinha vivido no castelo.

- Não, na verdade ele se mantia distante, nem todos o aceitavam naquela época, muitos duvidavam de suas intensões, afinal era o filho da rainha má.

- Vou procurá-lo.

Capítulo 3

- Senhorita Anna?

- Sim...

- Se me permite um conselho, volte antes do sol se pôr, as regras mudaram e estão muito mais rigorosas, e tem mais, não deixe ninguém saber que foi buscar por Kaarl.

- Mas ele é meu noivo...

- Ainda assim, eu não sei do que Aleksis é capaz, precisamos ficar atentos e não provocá-lo até termos uma boa arma contra ele.

- Certo.

Eu subi as escadas correndo e entrei no meu quarto, logo percebi que tudo ali estava diferente, soltei a bolsa em cima da cama e abri meu closet vendo que todas minhas roupas tinham sumido e que agora aquele lugar estava cheio de vestidos pomposos e luxuosos, estremeci, não aquilo não podia estar acontecendo, olhei em volta vendo que meus livros novos já tinham chegado junto com as disciplinas a serem estudadas, nas grades curriculares, porém, além das aulas de magia estavam inclusas, "postura", "etiqueta" "dança" "artes domesticas" e é claro... Nada de lutas para mulheres, meu sangue ferveu aquilo era regredir! Eu não poderia aceitar isso!

Peguei minhas coisas e saí apressada, optei por sair pelos fundos, não queria que ninguém dos superiores me visse, assim que escapei pela cozinha e atravessei o pátio entrando no estabulo, me choquei contra alguém forte.

- Onde pensa que está indo Anna?

Olhei para as mãos que me seguravam e respirei aliviada vendo que era meu pai, sem pensar eu o abracei, agora ele era uma das poucas pessoas que eu podia contar.

- Pai... Que saudade...

- Também senti. – Ele respondeu o abraço me puxando para si com carinho. – Onde estava indo, saindo fugida como uma gata?

- Preciso ver o Kaarl, preciso saber o que está acontecendo, o castelo está um caos, tudo mudou! Estou perdida!

- Acredite, o horror está só começando, eu nunca vi um ditador como este, não sei o que faremos se ele convencer o ministério a entrar como rei!

- Eu ainda estou viva! A lei é clara, enquanto alguém de sangue real existir, não é possível que outra pessoa seja nomeada!

- Eu sei querida e por isso estou temendo tanto por sua segurança!

- Acha que Aleksis seria capaz de alguma coisa contra mim?

- Não sei querida, mas não podemos subestimá-lo, talvez seja bom fingirmos estar do lado dele, para o conhecermos melhor...

- Não sei se vou suportar tudo nele me irrita, suas regras, seu machismo, sua arrogância, ele exterminou minhas roupas! Quer que eu aprenda etiqueta! Isso é voltar no tempo!

- Concordo com você, e daremos um jeito de encontrar uma solução, porém por hora precisamos nos manter frios, ele precisa confiar em nós, para assim o derrubarmos.

A ideia de meu pai era muito inteligente eu tinha que concordar, porém, eu não sabia se eu conseguiria aquilo, ia contra quem eu era e se eu visse alguma injustiça acontecendo eu certamente não iria me calar.

A casa de Kaarl era bem diferente do que eu havia imaginado, fiquei parada atrás de uma das árvores admirando enquanto ele regava as plantas próximas dali, a casa era grande, porém muito pequena se comparada a um castelo, nada de exuberância ou luxo, apenas uma casa muito antiga e extremamente bela, levantada a pedra, ela tinha uma arquitetura encantadora, os pilares eram altos e havia uma varanda com vista para o castelo, no canto esquerdo uma flor trepadeira dava toda uma graça ao local, eu me aproximei devagar, mas Kaarl pareceu sentir minha presença e se virou assustado.

- Tiina...

Paralisei como ele podia se lembrar daquele nome? Sua memória tinha sido completamente apagada, ele tinha nascido de novo, por que ia se lembrar dela?

- Como se lembra desse nome?

Ele parou piscando algumas vezes e então veio em minha direção analisando minhas roupas.

- Não, desculpe, é Anna, você é a Anna.

- Sim, sou a Anna. Sua noiva. – Recuei um pouco receosa.

Ele abaixou a cabeça sem graça e então olhou para os lados observando se não havia ninguém por perto.

- Venha comigo, aqui não é seguro, ninguém pode ver que veio até aqui sozinha.

Ele me puxou até dentro da casa e fechou a porta atrás de si, assim que eu entrei, porém fiquei paralisada ao ver a quantidade de pinturas que havia ali, todas... Todas dela.

- São quadros da Tiina?

- É o que parece, ou pelo menos é o nome que está nas telas, assim como a minha assinatura em baixo, o que me leva a crer que fui eu que pintei, mas como posso ter pintado uma mulher exatamente igual a você, mas que claramente não é você porque estes quadros tardam de 1800, ou seja, muito antes de você ter vindo aqui.

Soltei o ar de forma pesada, o que dizer a ele? Que eu tinha um clone?

- Bom, de fato não sou eu. – Voltei a puxar o ar com dificuldade. – Tiina, existiu.

- Tenho muitos quadros dela, alguns bastante insinuadores, íntimos, por que eu pintaria esses quadros de alguém igual a você.

Mordi meu lábio, eu não era a pessoa certa para contar essa história, talvez Hermes fizesse isso melhor que eu.

- Acho que deveria perguntar ao Hermes, eu não convivi com você nessa época, aliás, nessa época eu nem existia...

Ele me segurou pelos ombros.

- Tem sido muito difícil para Hermes vir até mim agora com as novas regras, por favor, Anna, estou enlouquecendo, preciso saber quem é essa mulher!

Desviei-me dele e caminhei até uma das telas, não era eu, porém eu não podia deixar de admirar aquele trabalho, Kaarl tinha muito talento, aquela pintura estava intacta, como se tivesse sido pintada há pouco tempo.

- Você e Tiina tiveram um breve relacionamento, ela era minha avó tecnicamente.

- Avó? Isso pode explicar a semelhança, mas vocês não são apenas semelhantes, são iguais!

- Eu não sei como te explicar essa parte, apenas sei que por algum motivo, nos parecemos muito.

- Eu era apaixonado por ela?

Eu não queria responder aquela pergunta, doía admitir.

- Sim.

- Quão apaixonado?

- Muito.

Meus olhos estavam húmidos e virei-me para que Kaarl não percebesse, mas ele percebeu mesmo assim.

- Me desculpe por isso Anna, foi grosseiro e impróprio da minha parte lhe fazer essas perguntas, porém eu precisava saber...

- E não tinha ninguém para quem perguntar.

- Exatamente. – Ele tocou meu ombro me fazendo me virar para ele, à luz do sol batia em seus olhos os deixando claros como esmeraldas. – Quero que saiba, que eu não faço a menor ideia de quem essa mulher foi, então nada disso importa, na verdade eu já devia ter me livrado desses quadros.

- Não precisa se livrar de nada por minha causa, querendo ou não ela fez parte da sua história, é normal querer saber sobre ela.

Ele tocou meu rosto de leve e com carinho.

- Fez, não faz mais... Vamos esquecer isso, tudo bem? Vou me livrar dessas velharias. – Ele sorriu e me abraçou com carinho. – Senti saudades.

- Sentiu mesmo?

- Sim, gosto do seu cheiro, algo em você me acalma, me senti muito mal quando vi esses quadros, parecia você, mas, não podia ser a pessoa nesses quadros não tem a sua energia, é algo ruim, pesado.

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