Capítulo 2

*Charlotte*

Eu me sinto tão ansiosa com essa mudança para cá, é como se um turbilhão de memórias estivesse voltando, mas também o medo de sair da rotina do que eu estava acostumada a viver.

Essa casa é enorme, parece até uma mansão feita de madeira da melhor qualidade, tem tudo que uma pessoa que deseja paz e lazer poderia querer, mas é estranho estar no meio de uma floresta, longe da cidade grande.

—estou literalmente no fim do mundo!— digo entusiasmada, não consigo simplesmente ficar calma, pois é um grande passo na minha nova vida.

Tem uma vila perto daqui, as pessoas não gostam muito de forasteiros, Dylan, também parece não gostar pela forma que falou sobre só poder vender a casa para alguém daqui, ou para um familiar.

Eu tenho certeza que esse lugar esconde algo, talvez que tenha até relação com a morte da minha mãe, mas tenho que ter paciência, pois pode ser perigoso ficar perguntando para as pessoas daqui, não sei quem a matou então todos serão suspeitos por enquanto.

(...)

Eu me sinto extremamente suja, não consigo parar de espirrar por causa da poeira que estou limpando o dia inteiro, minhas roupas até ficaram pretas por causa da sujeira acumulada de anos atrás. Enquanto estava a limpar notei marcas e escritas estranhas gravadas nas paredes de madeira, pareciam símbolos celtas ou sei lá, não eram coisas normais tenho certeza.

Pode ser algum símbolo de proteção, ou tradição da vila daqui, pois esse lugar é tipo uma colônia imagino. Nenhum forasteiro pode comprar uma casa para morar, então esse lugar é bem fechado.

Acho que toda minha família viveu aqui, alguns saíram da vila e nunca mais quiseram voltar, como a minha tia Cassandra, saiu daqui fugida, encontrou um marido na cidade grande e nunca mais voltou para cá, algo que minha mãe, irmã dela, não fez.

Se minha mãe tivesse ido embora desse lugar estaria viva agora, mas eu nunca iria nascer, pois meu pai é um cidadão daqui.

Saio dos meus pensamentos quando escuto batidas na porta o que me faz levantar na hora, fico travada no mesmo lugar, pois não estou esperando ninguém, tento ir para o corredor, mas como a casa está sem luz e já escureceu está difícil para se locomover em completa escuridão, pois tem partes que não tem janela.

Pego meu celular no bolso da calça, balanço ele para ligar a lanterna e me guio pela casa na completa escuridão até chegar em frente a porta de saída. Vou até o olho mágico e tento ver quem é, mas não consigo ver nada além da completa escuridão, nem mesmo a floresta estou conseguindo enxergar, parece que tem alguma coisa tampando a visão.

Parece que o clima mudou de uma hora para outra, pois estou tento calafrios, sinto que não devo abrir a porta de jeito nenhum, me afasto dela devagar, noto que as batidas voltam, dessa vez mais insistentes.

Paro de andar para trás quando escuto uma voz estranha, calma, mas ao mesmo tempo assustadora —eu sei que você está aí. Eu sinto você, e sei que seu coração está batendo de forma irregular, escuto sua respiração falhada, sei que está com medo. Seja bem vinda, coelhinha.

Quando a voz para eu corro para a escadaria que leva ao meu quarto, tranco a porta e vou para debaixo da cama, me cobro com o edredom azul que trouxe para cá enquanto fico desejando que tudo passe logo.

(...)

Eu não sei por quanto tempo fiquei acordada, apenas que em algum momento adormeci e acordei de manhã suando frio.

Demorei muito para tomar coragem e sair de dentro de casa, mas quando fiz isso não notei nada de estranho, tudo estava normal como se ninguém tivesse pisado alí.

Quando me viro para voltar para dentro olho um envelope preto preso na parte de cima da porta, pego uma cadeira para pegar já que não vou simplesmente ignorar isso.

Quando o pego, entro para dentro e fecho a porta, vou para o sofá e abro o envelope.

(Oi coelhinha, bom saber que voltou, fiquei decepcionado por não ter me atendido, estou louco para ver como você cresceu e se está tão bela quanto sua mãe era. Até logo minha noiva)

Só deixo a carta cair na última palavra escrita, noiva.. Isso só pode ser brincadeira, um trote para novos moradores, não tem outra explicação.

Esse homem conhecia minha mãe? O que diabos ele quis dizer com minha noiva?

Eu mal cheguei nesse lugar e coisas extremamente estranhas começaram a acontecer. Não devia ter voltado, minha tia tinha razão, esse lugar é amaldiçoado e completamente perigoso.

(...)

Não quero sair de casa, mas preciso comprar gasolina para o gerador de energia, não posso passar outra noite sem luz, acho que morrerei do coração se isso acontecer.

"Toc toc"

Escuto batidas leves na porta o que me faz paralisar no sofá, eu tô com medo de ir até lá, mas sei que não posso me deixar dominar por esse sentimento.

*****—olá? Alguém em casa? Charlotte?— quando escuto a voz me acalmo na hora, tenho certeza que é Dylan.

—espera, estou indo!— digo me levantando apressada o que me faz cair no chão, me levanto rapidamente e limpo a poeira das minhas roupas antes de olhar para o olho mágico e verificar que é ele mesmo

—Deus... Não sabe como estou feliz em ver você— digo já ficando mais aliviada por não estar sozinha.

—aconteceu algo para estar assustada desse jeito— pergunta Dylan enquanto me observa com seus olhos azuis, parece preocupado.

—na verdade sim, alguém bateu na porta a noite, não consegui ver nada pelo olho mágico, acho que tapou ele com algum papel ou algo do tipo, disse coisas estranhas que me assustaram muito, que conseguia sentir meu medo, corri para meu quarto e fiquei debaixo das cobertas até desmaiar de cansaço. Quando fui olhar de manhã achei uma carta preta com algumas palavras que me deixaram ainda pior— digo pegando do meu bolso e o mostrando

Em todo momento que estava me ouvindo ficou sério, mas depois de ler a carta sua expressão mostrou preocupação.

—sabe quem ele é para estar te chamando de coelhinha?— pergunta enquanto me olha fixamente.

—não, mas o que me deixa ainda mais assustada é a forma que escreveu, como se me conhecesse, não só eu como minha mãe— digo começando a tremer ao pensar nisso.

—não fique assim, talvez seja alguma piada de mal gosto de algum dos vizinhos que moram na vila, isso explicaria como conhecem você e sua mãe, pois todos da cidade se conhecem— diz abrindo um sorriso leve, acho que está tentando me tranquilizar.

—então por que me chamaria de noiva?— digo em um tom mais alto e impaciente.

—talvez um de seus pais tenham prometido você a alguém, ou é só alguém querendo brincar contigo. Olha para mim, eu moro aqui a minha vida toda, sei que você vai ficar bem, vai se adaptar e esse vai se tornar seu novo lar, só não convide ninguém para dentro da sua casa, aqui é seu refúgio, ninguém que você realmente não tenha confiança ou conheça pode entrar, certo?— só concordo com a cabeça —ótimo, quer que eu acompanhe você até a cidade? Estou de carro e não seria problema já que irei para lá comprar alguns mantimentos.

—claro! Seria ótimo— digo de forma rápida, pois não vou andar sozinha até a vila nem ferrando.

—vai precisar se arrumar ou...— o interrompo rapidamente para falar —vamos logo, não quero ficar sozinha— digo fechando a porta para ninguém entrar.

Sei que não devo andar com quem não conheço direito, mas é melhor que andar sozinha por essa floresta, tenho certeza que o assassino de minha mãe ainda está vivo.

Capítulo 3

(Charlotte)

Entro no carro de Dylan enquanto tento ser positiva e pensar que o acontecido na noite passada pode apenas ser um trote para assustar novos moradores, mesmo que eu não sinta que seja isso.

—olha Lotte, não precisa ficar assim tão assustada, mais nenhum crime acontece nessa vila a mais de 10 anos— Dylan diz normalmente enquanto liga o carro.

—quis dizer que nenhum crime acontece desde a morte da minha mãe, certo?— digo em um tom sério, pois faz exatamente 10 anos que ela morreu.

—eu sei que isso deve ter sido muito assustador para você, mas pode ter sido os adolescentes que vivem na vila— a voz que eu ouvi não era de um adolescente, era uma voz adulta e assustadora de um homem.

—Dylan, sei que está tentando me acalmar, mas eu sei o que ouvi e senti naquele momento, a voz daquele homem era assustadora— eu não sei explicar em palavras a sensação ruim que me passou.

—tudo bem então, se tiver com medo de voltar para casa pode ir para minha, tem um quarto de hóspedes e minha família te acolheria com prazer, pois seu pai era como se fosse parte da minha família— pelo tom de voz parece estar tentando me ajudar mesmo, mas não sei se deveria aceitar, pois mesmo ele tendo sido meu amigo de infância ainda é quase um desconhecido.

—acho melhor não, não quero mesmo incomodar, mas gostaria de conhecer sua família um dia desses, não tenho lembranças deles— acho que essa é uma forma legal da gente se conhecer, aos poucos.

—que tal jantar hoje em minha casa? Tenho certeza que minha irmã amaria você— diz parando o carro, quando olho para a janela vejo que já estamos na cidadezinha.

Esse lugar é pequeno e tem uma estrada de terra, as casas são de madeira e a única coisa que parece atual são os postes de energia elétrica.

—eu não lembrava que esse lugar era tão antigo, é muito diferente de uma cidade normal— falo e ele apenas sorri antes de abrir a porta do carro para sair, faço o mesmo enquanto olho em volta.

É estranho pensar que essa vila fica no meio de uma floresta tensa, da mesma forma que dá um sentimento de liberdade também dá medo.

—não lembra desse lugar? A gente corria por essas ruas quando brincávamos de faz de conta— o olhar dele parece nostálgico enquanto fala, provavelmente está a lembrar, mas quase tudo se tornou um borrão para mim quando minha mãe morreu, acho que foi o trauma, não sei bem.

—não lembro dos detalhes para ser sincera, mas lembro de você, do meu pai, algumas memórias da minha mãe, e a memória de um cachorro branco e preto, acho que era meu, se chamava hunter— abro um sorriso ao lembrar do cachoro branco que sempre me acompanhava quando eu andava por aí.

—lembro dele, costumava seguir você para todo lugar, sempre estava em nossas brincadeiras. Vamos caminhando? Preciso passar em um mercado.— apenas concordo com a cabeça, deixo ele andar em minha frente para poder segui-lo, pois não lembro onde é esse mercado.

Não demora muito para chegar em uma lojinha de comida, mas o cheiro de ferro me deixa meio incomodada, tem um açougue de carne bovina e suína no lado da loja.

—parece incomodada com o cheiro, se quiser pode ficar aqui enquanto vou no açougue escolher algumas carnes para o jantar— só concordo, pois não quero seguir ele, vejo que pega uma lista de produtos junto com algumas notas de dinheiro e me entrega.

—quer que eu faça as compras?— quando digo isso ele concorda com cabeça —mas eu não sei qual marca de produtos prefere, posso comprar errado.

—minhas irmãs que escreveram e elas colocam as marcas no lado, não vai errar— só concordo com a cabeça enquanto vejo ele sair.

Vou até às pratileiras procurando os produtos, mas noto que enquanto coloco no cesto a atendente fica me observando o tempo todo. Será que ela acha que vou roubar? Ela não está vendo que estou segurando dinheiro e que vou pagar?

Quando termino de pegar todos os produtos vou até a caixa passar, ela continua me observando em silêncio.

—desculpa, mas tem algo com meu rosto ou cabelo? Está me olhando bastante— digo, pois não tenho vergonha nenhuma de perguntar, a mulher que parece ter uns 40 e poucos anos me encara por um tempo.

—você só me lembra alguém, é nova na cidade né? É namorada do Dylan, imagino, parecem bem próximos, meu nome é Anabela, é um prazer conhece-la, é bem difícil ver forasteiros por aqui hoje em dia, nem sei se essa cidade se encontra no mapa hoje em dia— diz abrindo um sorriso e ficando simpática, é uma cidade extremamente pequena então todos devem se conhecer e ser próximos.

—é um prazer, meu nome é Charlotte, me mudei faz pouco tempo— digo estendendo a mão para comprimentar ela, mas ela apenas olha minha mão fixamente, mas não aperta o que é estranho, pois pode ser apenas um costume daqui.

—desculpa, mas só temos algum contado físico se conhecermos a pessoa bem, como é nova na cidade não vai entender esse costume— se é um costume tudo bem então —deu 98 e 70 centavos, diz colocando as compras em uma bolsa, apenas coloco o dinheiro em cima do balcão, ela pega e coloca o troco no mesmo lugar.

—obrigada— falo pegando as bolsas e saindo do lugar, fico mais tranquila, pois foi estranho interagir com ela.

Vou para o outro lado da rua esperar Dylan, pois nem ferrando entro no açougue, o cheiro de sangue me faz ter náuseas, queria muito virar vegetariana as vezes.

Enquanto fico a esperar noto os olhares de todos que passam, é como se fosse anormal ver pessoas diferentes andando por aí, me pergunto a quanto tempo não vêem um rosto novo nesse lugar. Deve ser por causa dessa regra que não permite que pessoas de fora dessa cidade comprem casas aqui.

Vejo um homem de cabelos pretos ondulados passar, sua pele é branca, seus traços são bem marcantes como seu cabelo e sobrancelha que são bem escuros, seu nariz é fino, seus olhos são castanhos um pouco fechados, seus lábios finos e rosados, parece ter uma expressão séria naturalmente. O que também chamou a minha atenção além da sua beleza inegável é as suas roupas que parecem caras de mais para quem vive em uma vila como essa, parece a vestimenta daqueles nobres de antigamente que até usavam eespartilho, inclusive acho homens nesse estilo gatos demais.

Apenas suspiro enquanto o observo caminhar, noto que ele apenas para e se vira para mim, parece estar me olhando, mas voltou a andar e foi embora.

—parece distraída, tudo bem?— tomo um susto ao ouvir a voz de Dylan atrás de mim, estava tão fixada naquele homem que perdi até o foco..

—estou sim, já comprei tudo, vamos para sua casa?— ele apenas concorda e pega as bolsas da minha mão —quem diria que meu amigo de infância seria tão cavalheiro assim.

—eu sempre fui cavalheiro tá, você que sempre agia como um menino dizendo que não precisa de ajuda ou cavalheirismo— pior que eu era assim mesmo.

Apenas caminhamos até o carro sem presa, pois quero curtir um pouco a caminhada.

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