Arranco a camiseta e jogo-a no chão, preparando-me para o banho.
Meu olhar cai para uma das muitas tatuagens que carrego pelo tronco, e
trinco os dentes ao ver as inscrições em persa que significam honra. Não
desvio meus olhos ao puxar o celular do bolso e discar o número de
Richard, mas o faço quando ele atende, encarando o teto ao invés.
— E então? — meu irmão pergunta do outro lado da linha,
apressado. Ouço uma conversa ao fundo, que diminui após alguns
instantes quando se afasta dos demais.
Digo para ele o que aprendi nos últimos dias, nada que fosse
inédito para nós dois, mas que é pior do que antecipei.
— Vou me encontrar com Elijah amanhã — digo quando termino o
relato conciso.
— Tem certeza disso? — questiona, a insatisfação palpável na voz.
— Tenho — garanto. — Vou aproveitar a noite hoje para repassar
algumas informações. Recebi o dossiê que pedi ao nosso detetive que
preparasse sobre Madelaine, ainda não tive tempo de abrir a pasta e…
— Você vaitirar a noitede folga — Richard interrompe. Solto uma
risada seca com a sugestão absurda em um momento crítico. — Seu rei
está te dando uma ordem, general — completa, prevendo meu protesto.
— Meu rei é um pau no cu — respondo, esfregando o rosto. A
resposta malcriada arranca uma risada dele, a primeira que ouço desde
que o problema começou, e é fácil me lembrar que é isso que estou
tentando garantir.
— Vou contatarElijah e programara reunião de vocês dois.
Confirmamosos detalhesde tudo quando acordar, mas, por hoje,você e
seus homens vão se divertir um pouco.
— Sim, senhor — respondo com ironia e posso visualizar Richard
revirando os olhos.
Despeço-me, mas, antes que desligue, ouço sua voz de novo.
— Você vai ficar bem?
— Já sobrevivi a guerras, irmão. Acho que consigo sobreviver a um
casamento indesejado.
Nego o copo de bebida que é estendido na minha direção. Estou
de folga, é verdade, mas a última coisa que preciso é estar de ressaca
pela manhã quando me encontrar com o rei. O bar do hotel não está
cheio — a combinação de ser dia de semana com o fato de o
estabelecimento ser conhecido por ser um lugar discreto ideal para
figuras públicas permite isso. Não tenho qualquer interesse em ficar aqui
por muito tempo, mas vim porque sei que meus homens precisam disso.
Deus sabe que eles precisam de um descanso depois dos últimos
meses.
— O senhor tem certeza de que não quer vir com a gente? — um
deles pergunta. Por cima do seu ombro, vejo os outros quatro
conversando animados como garotinhos sobre a boate para onde
querem ir, pela primeira vez em muito tempo.
— Não a menos que eu tenha uma arma apontada para a minha
cabeça — respondo. — Divirtam-se. Estejam prontos para sair às oito
amanhã.
Ele assente e se despede, depois de conferir muitas vezes que é
uma boa ideia me deixar sozinho.
— O que você tem contra diversão?
Sentado em uma cadeira alta do bar, os antebraços apoiados sobre
o balcão, viro o rosto em direção à voz feminina que vem de algum ponto
à minha esquerda. Encontro uma mulher sentada ao meu lado, a
algumas banquetas de distância, uma taça de vinho pela metade e olhos
travessos na minha direção.
— Nada. Só tenho um conceito diferente de diversão — respondo,
tomando alguns segundos para analisá-la com atenção quando ri.
O vestido curto deixa à mostra sua perna quase inteira, em um rosa
delicado contra a pele preta. Um colar cai pelo seu colo, indicando o
caminho pelo decote. O cabelo cai em ondas pelos ombros, um sorriso
malicioso contorna os lábios quando minha inspeção finalmente alcança
seu rosto.
— E você é…? — pergunto. Um brilho de diversão cruza as íris
escuras diante da pergunta. Suas feições são familiares, mas não
consigo associar um nome ao rosto. Não é de se estranhar; é provável
que todas as pessoas hospedadas nesse hotel sejam conhecidas por
alguma coisa. Talvez seja alguma atriz ou modelo de quem
definitivamente não vou me lembrar.
Sem pressa, ela apanha a taça sobre o balcão e a leva à boca.
Demora alguns segundos antes de dar um gole minúsculo. Acompanho
com interesse o movimento da língua pescando uma gota no lábio
inferior.
— Isso importa? — responde por fim, apoiando a taça no balcão
antes de se voltar a mim de novo.
— Nem um pouco.
Ela sorri, levantando-se da banqueta. Alisa o vestido devagar,
concedendo-me a visão do seu corpo por completo. Tomba a cabeça
para o lado, piscando devagar. Enrosca os dedos ao redor da alça da
bolsa pendurada nas costas da cadeira. Tira os olhos de mim apenas
para mexer no celular. Ela franze o nariz, insatisfeita com o que quer que
veja na tela.
— Sentiram minha falta — diz com um suspiro, guardando o
aparelho de novo na bolsa. — Tenho alguns minutos.
— E o que você quer fazer nesses minutos? — pergunto,
desligando a voz que pergunta quem sentiu sua falta e o que vai
acontecer depois desses minutos. Estou de folga. A última para sempre,
já que amanhã serei um homem prometido a alguém.
Ela abre um sorriso de puro deleite e tomba a cabeça para o lado.
— Por que você não me mostra o seu conceito de diversão?
Solto uma risada, balançando a cabeça.
Quem é essa mulher? Sei que não vou ter a resposta para essa
pergunta quando ela vira as costas para mim, andando em direção à
saída do bar. Repreendendo-me pelo comportamento errático que não é
do meu feito, eu a sigo. Espero encontrá-la perto dos elevadores e me
surpreendo ao vê-la seguir em direção às escadas da saída de
emergência. Com a mão na porta, ela me olha por cima do ombro. Ergo
as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa, e a mulher revira os olhos.
— Está louco se acha que vou me trancar em um quarto com um
homem desconhecido — diz, condescendente.
— Certo — concordo, estreitando os olhos para o tom que diz que
me acha um idiota por precisar de explicação para isso. — E como aí é
mais seguro?
Ela dá de ombros.
— Posso sempre te empurrar escada abaixo — explica,
empurrando a porta e entrando no lugar escondido.
Sorrio, surpreso e entretido. Sigo-a sem mais perguntas, sem dizer
que ameaças aos príncipes de Delway não costumam ser lidadas com
essa leveza toda. Abraço a anonimidade oferecida e fecho a porta atrás
de nós dois. Longe do luxo ostensivo do hotel, estamos cercados de
degraus de cimento e luzes fracas. Ela solta a bolsa no chão e apoia as
costas na parede. No rosto, um convite. Um que aceito com prazer.
Cubro seu corpo com o meu, apoiando uma mão na sua cintura e a
outra na parede ao seu lado. Minha boca paira sobre a sua, sua
respiração quente contra o meu rosto, os lábios entreabertos roçando na
minha pele. Escorrego a mão pela lateral do seu corpo, sinto seu sorriso
quando enfio a mão por baixo do tecido do vestido.
Hesito, confuso pela situação tão fora do meu normal. Tão fora do
meu controle. Então ela suga meu lábio inferior, eu aperto sua coxa
quente e meu juízo tira folga por alguns minutos.
Engulo o gemido de surpresa quando tomo sua boca. Sinto as
unhas na minha pele, dolorosas em meu pescoço quando puxa meu
rosto para mais perto do seu. Não sei o que ela está buscando de um
desconhecido, mas procura com afinco na minha boca. Agradeço por não
ter raspado o cabelo de novo quando os dedos afoitos buscam pelos fios.
Imito seus gestos, entregando a ela o que tenta tomar de mim, minha
mão puxando seu cabelo, conduzindo o beijo no ritmo que ela dita.
Prenso-a contra o cimento, puxo sua coxa para cima e encaixo-me
entre suas pernas. Sorrio satisfeito na sua boca quando ofega no mesmo
instante em que me esfrego contra ela. Repito o movimento, recebendo a
mesma reação.
Solto sua boca para descer ao seu pescoço, sugando a pele macia.
Subo os dedos pela parte de dentro da sua coxa e estou a centímetros
da sua calcinha quando o toque estridente do seu celular me para.
Ela solta um palavrão e escorrega as mãos pelos meus ombros.
Solto-a devagar, apoiando seu pé de novo no chão, mas volto a boca à
sua garganta depois que pega o celular de dentro da bolsa jogada ao
chão.
— Pois não? — diz para quem quer que esteja do outro lado da
linha em uma voz doce que não parece pertencer a ela. Ela suspira e me
aperta por cima da camiseta, eu subo a mão pela frente do vestido em
direção aos seus seios. Aperto um, subo a boca pelo seu queixo. Encaro
os olhos escuros nublados e desejosos. — Tudo bem, me dê um
instante, chego em alguns minutos.
Com um suspiro frustrado, encerra a ligação. Morde o lábio, as íris
dançando pelo meu rosto.
— Preciso ir — diz contrariada.
— Uma pena — sussurro em resposta, roubando um último beijo
antes de soltá-la.
Descolo meu corpo do seu, sentindo a frente da calça apertada e
dolorida. Recosto-me na parede onde ela estava, braços cruzados na
frente do peito enquanto a assisto arrumar o cabelo e limpar o batom
borrado. Pendura a bolsa no ombro e vai até a porta. Para com a mão no
puxador e me olha por cima do ombro.
— Você não me disse seu nome — diz. Distraio-me da pergunta,
encarando os lábios inchados que sei que vão atormentar meus sonhos
essa noite por todas as promessas não cumpridas.
— Isso importa? — devolvo a provocação, arrancando um sorriso
dela.
É um sorriso lindo.
Ela meneia a cabeça, usa a mão livre para brincar com o colar.
Atrai meus olhos para os seios, deslizando os dedos pela borda do
decote. Respiro fundo, sentindo meu corpo esquentar ainda mais.
— Faz com que seja mais fácil te achar — responde por fim, e volto
minha atenção para o seu rosto.
Nego com a cabeça devagar, sabendo que essa não é uma
possibilidade.
Ela franze os lábios.
— Uma pena — diz também, e concordo em silêncio. — Boa noite,
estranho.
Ela não olha para trás de novo; abre a porta e sai, deixando-me
sozinho aqui.
Percorro os dedos pela minha boca, ainda sentindo seu gosto aqui.
Arrependo-me imediatamente por não ter insistido em descobrir quem ela
é.
capítulo três
Ajusto os óculos de proteção no rosto e aperto o botão
vermelho ao meu lado, que faz com que um novo alvo de papel seja
colocado na minha frente, a muitos metros de distância. Recarrego
a arma e tomo meu tempo mirando à frente antes de disparar.
Erro. De novo. Hoje o dia não está bom para mim.
O estande de tiro que existe em algum lugar dos muitos
hectares que formam o jardim do castelo não está cheio hoje,
porque escolho vir em horários em que sei que os soldados não
estão treinando. Não importa que eu venha aqui há anos, eles
nunca se acostumam com a minha presença. Há apenas meia dúzia
de pessoas aqui que sei que estão usando seu dia de folga para
fazer o mesmo que eu: descontar a raiva em um objeto inanimado.
Disparo mais alguns tiros, o suficiente para esvaziar a arma,
sentindo o impacto de cada um nos pequenos solavancos que meu
corpo dá. Com um suspiro frustrado, aceito que não vou conseguir
fazer progresso hoje.
Retiro todo o equipamento de proteção e sigo todos os
procedimentos de segurança ao travar a arma e devolvê-la ao lugar
certo. Mesmo contrariada, aceito a ajuda de um dos guardas que
sempre me seguem por todos os lugares e deixo que abra a porta
para que eu saia da área de treinamento, passe pela segurança e
siga para fora do centro de treinamento.
Sou recepcionada por um sol brilhante demais. Parece
deboche do universo, considerando o quão sombrio é o dia que me
aguarda.
Caminho sem pressa pelo jardim, em direção ao castelo.
Imponente ao longe. Opressor. Apenas para postergar ainda mais a
chegada ao meu destino, desvio o caminho pelo labirinto criado com
arbustos pelo time de paisagistas que cuida de tudo por aqui. Não
me perco por entre os corredores, já sabendo de cor onde preciso
virar a cada curva, conhecendo em detalhes esse lugar desde que
eu era criança.
— Já se perdeu? — pergunto alto, sorrindo ao não ver Liam
atrás de mim. Tenho certeza de que ele não está longe. Posso não o
ver, mas seus olhos sempre estão sobre mim. Fiz do meu guarda-
costas um dos meus melhores amigos e confidente, mas isso não o
impede de levar seu trabalho muito a sério. Então sei que a minha
implicância não vai obter resposta porque ele ainda está furioso pela
minha escapada na noite passada. — Vamos lá, Liam. Quanto
tempo você vai ficar sem falar comigo?
Assim que termino de atravessar o labirinto e estou de volta
ao jardim, ele aparece atrás de mim. O semblante ainda está
fechado, a postura estoica dentro do uniforme oficial.
Imito sua pose, que aprendi há muitos anos, quando ele se
rendeu aos meus apelos e concordou em me treinar. Minha postura
é tão boa quanto a de qualquer um dos nossos soldados, e isso o
faz deixar escapar um sorriso pequeno. Liam suspira e passa a mão
pelo rosto.
— Você podia ter me avisado, Maddy — diz contrariado.
Ergo as sobrancelhas.
— Você teria tentado me impedir — aponto. Ele revira os
olhos e bufa. Ofereço o meu braço, e ele balança a cabeça em
repreensão antes de aceitá-lo e prendê-lo ao seu, conduzindo-me
pelo caminho que estou evitando cortar.
— É claro que eu teria tentado te impedir — diz, lançando um
olhar julgador sobre mim. — É meu trabalho garantir que você
continue viva.
— Eu estou viva.
— Por sorte! Francamente, Madelaine.
A repreensão está de volta à sua voz, o vinco profundo entre
suas sobrancelhas pouco tem a ver com as rugas trazidas pelos
seus quarenta anos que se aproximam. É apenas preocupação
genuína. Solto-me do seu braço e me coloco de frente para ele.
— Eu prometo que não vai mais acontecer — garanto com
uma voz doce que não me pertence.
Ele finalmente ri.
— Você está prometendo se comportar desde que completou
dezoito anos, Alteza — responde no mesmo tom. Indica com os
olhos para que eu volte a me encaixar no seu braço e retoma a
caminhada. Liam me solta apenas quando alcançamos a porta, para
abri-la e indicar o caminho para mim. — Pronta para conhecer seu
noivo?
Solto uma risada seca e aponto para mim mesma.
— Acha que o principezinho enfadonho que meu pai
encontrou para mim vai gostar de me ver vestida assim?
Liam escaneia meu corpo com os olhos e faz uma careta. Sei
o que ele está vendo: a princesa mais descomposta da história
desse país. Calça jeans, camiseta, cachos cheios e armados.
— Não — ele responde por fim.
— Ótimo — decido. Afasto-me de Liam, seguindo em direção
ao escritório onde sei que meu pai está me esperando.
— Você deveria dar uma chance a ele, ao menos — Liam diz
atrás de mim, seguindo-me pelos corredores. — Nunca se sabe,
talvez seja alguém do seu agrado.
— Vindo de Elijah Denver? — pergunto, olhando-o por sobre o
ombro. — Posso apostar que ele fez questão de escolher o homem
mais entediante do planeta para mim.
Paro em frente à porta do escritório, lábios pressionados.
Envolvo a mão na maçaneta e estou pronta para girá-la quando
ouço vozes masculinas vindo de dentro do cômodo.
Travo no lugar.
Considero me trocar, por um instante. Esse casamento é do
meu interesse, afinal. Preciso que um desconhecido qualquer
coloque um anel no meu dedo antes que eu possa assumir o trono
que um dia vai ser meu. É um preço pequeno a se pagar para
conseguir o que mais quero, para que eu pare de ter que assistir
meu pai arrastar esse país às ruínas. Para que eu possa finalmente
governar.
Seja lá quem foi o homem que Elijah decidiu ser digno da
posição de príncipe consorte de Devondale, posso tolerá-lo. Alguns
herdeiros e sorrisos forçados, é tudo que preciso oferecer a ele.
É apenas o primeiro acordo político de muitos que farei no
decorrer da minha vida. Então por que estou tão nervosa? Por que
me sinto como se estivesse indo para o abate, e não como se
estivesse dando o primeiro passo para o futuro que almejo?
Alguma coisa está errada.
Foi esse mesmo sentimento que me fez fugir desse castelo
ontem, que me fez me vestir com o vestido mais escandaloso que
encontrei no meu armário, na esperança de que qualquer paparazzi
estivesse à espreita e me estampasse em todos os jornais hoje. Na
esperança de que uma noite errática com um completo
desconhecido nas escadas de emergência de um hotel fosse o
suficiente para sabotar esse casamento por conveniência com um
homem que sequer sei quem é.
— Você está tremendo. — A voz de Liam me tira do meu
estupor. Derrubo os olhos à minha mão e vejo o que ele enxergou
primeiro: dedos trêmulos.
— Eu sei — respondo, abrindo e fechando a mão na tentativa
de parar. Não funciona, então trabalho com o que tenho. Sem
permitir outro momento de hesitação, abro a porta.
Quando entro no cômodo, encontro meu pai sentado à mesa,
no lugar em que pouco o vejo e onde deveria estar na maior parte
do seu tempo. Seu olhar se estreita sobre mim, a repreensão
escorrendo pelas íris escuras quando vê como estou vestida. Àsua
frente, de costas para mim, há um homem sentado. Consigo ver
apenas o cabelo castanho daqui e fico onde estou.
— Madelaine — meu pai diz, meu nome saindo da sua boca
como uma maldição. Ele força um sorriso torto; quase posso sentir a
irritação emanando da sua pele. — Finalmente se juntou a nós.
Ele cruza os dedos sobre a mesa e volta sua atenção para o
homem que não se deu ao trabalho de olhar na minha direção.
— Theodore, permita-me apresentar sua noiva.
O homem se levanta, ainda de costas para mim. Toma seu
tempo, como se fosse uma decisão deliberada me evitar. Analiso
suas costas, as tatuagens coloridas pintando a pele clara,
escapando pela gola do uniforme muito parecido com o de Liam,
apenas em outras cores. Um príncipe militar? Isso vai ser um pouco
mais interessante. Um sorriso se forma nos meus lábios com a
perspectiva. Talvez Elijah não tenha me jogado no colo da pior
opção disponível.
O sorriso morre rápido. Dura poucos segundos, somente até
que ele se vire para mim. Empertigo-me, jogando os ombros para
trás, erguendo o queixo ao reconhecer o rosto que vi ontem à noite.
Sobrancelhas grossas emolduram um rosto muito bem
desenhado. Os olhos são azuis, do mesmo tom que vi antes, mas
agora não carregam a cor de um oceano tranquilo em um dia de
verão. O azul é gélido como uma noite fria e mortal de inverno, me
arrepia a espinha, promete caos em silêncio.
Seus olhos expandem-se no que parece surpresa, mas dura
tão pouco tempo que duvido ser o caso. Estreitam-se no instante
seguinte, dando espaço para um sorriso frio. Sua postura, até então
neutra, mostra uma rigidez austera, como se estivesse pronto para
uma batalha. E o alvo sou eu.
— Posso garantir que Madelaine tem mais modos do que isso
normalmente — meu pai diz, quebrando o silêncio sufocante que se
estende do meu noivo para mim. — Ela sabe se apresentar como a
princesa que é.
O homem — Theodore — ri, seco.
— Não tenho quaisquer dúvidas de que ela sabe se
apresentar muito bem.
A frase é ácida, insinuativa. Transborda acusação. A mesma
voz que, há poucas horas, estava quente e desejosa ao pé do meu
ouvido, agora não passa de um corte afiado. Não o ofereço uma
resposta. Desesperado para preencher meu silêncio, meu pai
oferece as apresentações.
— Madelaine é minha filha mais velha, como expliquei antes,
só dois anos mais nova do que você — diz, apontando para mim.
Estende a mão na direção dele e continua: — Theodore Thompson
é o filho mais novo da família real de Delway, general do exército.
Ele vai passar alguns dias conosco. Aproveitem para se conhecer
melhor. Podemos decidir a data do jantar de noivado mais tarde —
sugere no que parece mais uma ordem.
Theodore ergue uma sobrancelha e, tomando seu tempo,
deixa os olhos percorrerem meu corpo de cima a baixo. Sinto-me
exposta sob sua avaliação cirúrgica, mas é o olhar que me destina
ao encarar outra vez meu rosto que me faz estremecer.
Não há nada além de raiva ali.
— Eu não me preocuparia com isso — ele fala, desdenhoso.
— Já sei tudo o que precisava saber sobre ela.
Meus olhos queimam com lágrimas que me recuso a
derramar. É humilhação. O sentimento que corta meu corpo, que
embrulha meu estômago e machuca minha pele, é humilhação.
Como eu sou idiota.
Acreditei mesmo que ele não sabia quem eu era noite
passada? Que estava no lugar certo e na hora certa por acaso? Que
foi por interesse desapegado que me seguiu, que foi apenas
coincidência que fosse o tipo exato que chamaria minha atenção?
Theodore sabia quem eu era naquele bar. Não foi acidente,
nem um acaso infeliz que estivesse.
Mas por quê? O que ele poderia querer com isso?
Uma batida na porta me impede de perguntar. Olho por cima
do ombro a tempo de ver Liam abrindo-a, revelando outro guarda.
— Majestade, desculpe interromper. Temos um problema na
ala sul.
— Agora? — meu pai pergunta irritado. — Estou no meio de
algo importante.
Algo no rosto do homem mostra a urgência necessária para
que meu pai pragueje, mas se levante da cadeira.
— Perdoe-me pela interferência, volto logo — diz, dirigindo-se
a Theodore, porque sei que a mim não se daria ao trabalho de
justificar.
Não olho na sua direção, minha atenção ainda presa a
Theodore.
— Liam, pode nos dar um minuto, por favor? — peço assim
que meu pai sai. Ele hesita antes de obedecer, mas não demora
muito para que a porta se feche atrás de nós dois e estejamos
sozinhos aqui.
Umedeço os lábios, avaliando sua postura com atenção. Dou
poucos passos para trás, o suficiente para que eu recoste na porta,
usando-a como apoio. Cruzo os braços e espero. Não sei pelo que
estou esperando: se por uma explicação, por um ataque, por um
deboche. Mas espero. Quase um minuto inteiro se passa antes que
eu receba alguma coisa.
— Achei que falta de caráter dessa famíliase restringisse a
Elijah — diz, a voz rouca acusatória enquanto dá um passo firme na
minha direção. Não preciso conhecê-lo bem para saber que cada
traço seu externa uma irritação mal contida. — Qual é a verdade
aqui, Madelaine? Você é traiçoeira como ele ou apenas segue as
ordens do papai?
— Alteza — corrijo.
É a primeira vez que digo algo desde que cheguei aqui. Não
sei se o simples fato de eu ter respondido é o que o trava no lugar
ou se é a firmeza na minha voz que o pega desprevenido.
— A menos que não ensinem como respeitar hierarquia de
seja lá onde você vem, eu não deveria precisar lembrá-lo de se
referir a mim pelo meu título — completo.
— Madelaine… — ele quase rosna.
— Alteza — repito entredentes. — Se dê por satisfeito por eu
não exigir uma reverência, soldado.
Seus olhos pegam fogo. É com fogo que sei que estou
brincando aqui. Não conheço esse homem. Não sei nada dele.
Nada, além do fato de ter se colocado no meu caminho sabendo
quem eu era. Se esse casamento for para frente, é com ele que vou
precisar lidar ao meu lado no trono, e enquanto eu não descobrir
quais as suas intenções com aquele encontro de ontem, preciso
mantê-lo em rédea curta.
— Soldado? — pergunta e estala a língua.
Não respondo. Se sei alguma coisa sobre todos os generais
com quem tive contato, é que rebaixar sua patente é uma ótima
forma de atingir o ego frágil que o sexo masculino carrega.
Ou deveria ser assim, porque tudo o que ele faz é sorrir. Não
com o mesmo escárnio de antes, mas com uma incredulidade que
parece o divertir.
— Eu poderia me recusar a me dirigir a você a menos que
estivesse de joelhos — tento de novo, e dessa vez atinjo um nervo.
Ele respira fundo, joga os olhos para o teto e estampa um
sorriso impaciente no rosto.
— De joelhos? Para você? Nunca.
Theodore se aproxima um pouco mais, dando os passos que
precisa até me alcançar. Estamos de novo na mesma posição de
ontem, seu corpo pairando sobre o meu sem me tocar, a mão
apoiada na parede ao lado da minha cabeça. Travo os dentes
quando ele pousa a boca na minha orelha.
— Deixe-me ser claro, Alteza — diz, usando o pronome de
tratamento correto, e desejo que não o tivesse feito. O título sai
como um xingamento da sua boca, cuspido com desdém, diminuído
a uma pirraça. — Eu não sei o que você e seu pai estão planejando,
mas vou descobrir. E se você acha que tentar me seduzir…
— Te seduzir? — interrompo com uma risada involuntária pelo
ridículo que é sugerir isso.
Sua voz cai algumas oitavas, ainda mais grave quando volta a
falar.
— Preciso admitir que fizeram o dever de casa com afinco —
fala, o hálito quente correndo a minha pele.