A manhã chegou trazendo raios pálidos de sol que filtravam-se pelas grossas cortinas do quarto de Evangeline. Ela despertou ao som distante dos pássaros que pousavam nas copas das árvores. Após se vestir com a ajuda de Mariah e tomar o café da manhã em silêncio, seguiu para a biblioteca, como fazia todos os dias. Era sua rotina, seu pequeno refúgio longe do silêncio estranho que pairava sobre a mansão.
Enquanto caminhava pelas prateleiras empoeiradas, seus dedos deslizavam pelos lombos dos livros antigos, como se esperasse que alguma obra chamasse por ela. Então, seus olhos foram atraídos para um volume esquecido no fundo de uma estante - um diário de capa escura e textura envelhecida. A curiosidade a dominou.
Sentando-se no canto mais escondido da biblioteca, Evangeline abriu o diário com cuidado. As primeiras páginas estavam rabiscadas com letras trêmulas, como se alguém tivesse escrito em desespero. Uma entrada chamou sua atenção:
"A dívida de sangue é inevitável. Ele nos observa, nos controla, e quando chegar o momento, exigirá o que lhe pertence. Não há como fugir."
Seu coração bateu forte, mas antes que pudesse virar a página, percebeu que as mais importantes haviam sido arrancadas. Não restava nem sinal do que estava escrito ali.
Evangeline fechou o diário com força e o guardou no lugar mais profundo da biblioteca, prometendo a si mesma ignorar o que acabara de ler. Passou o dia vagando pela casa, tentando se convencer de que aquilo era apenas uma superstição antiga e sem importância.
---
À noite, durante o jantar, o silêncio familiar pairava mais uma vez. O som dos talheres ecoava pela longa mesa, e Evangeline sentia o olhar atento dos serventes observando cada movimento. A atmosfera estava ainda mais pesada do que na noite anterior. Subitamente, seus pais levantaram-se sem dizer uma palavra e saíram às pressas, deixando-a sozinha com sua irmã mais nova.
A refeição terminou em desconforto, mas Evangeline não ousou perguntar nada. Após despedir-se educadamente, começou a subir as escadas rumo ao quarto. No entanto, ao passar pelo corredor que levava ao aposento de seus pais, algo chamou sua atenção: vozes elevadas e tensas vinham do outro lado da porta.
Pressionando o ouvido contra a madeira fria, pôde ouvir a voz de sua mãe em um tom aflito:
"Ela é minha filha! Nossa filha! Você não pode permitir que isso aconteça com ela!"
A resposta do pai veio grave e hesitante:
"Eu sei... Ela é minha filha também. Mas não temos escolha. Se ela não for, ele virá e nos levará. Você sabe que não podemos escapar. Ele está em todo lugar. Ele vê tudo."
O grito da mãe cortou o ar:
"Então que vá Evangeline no lugar dela! Eu não vou permitir que minha filha seja entregue como um sacrifício. Deve haver outro jeito."
Por alguns instantes, tudo ficou em silêncio, e Evangeline recuou, temendo ser descoberta. A cada palavra ouvida, seu peito se apertava. Algo estava profundamente errado, e, no fundo, ela sabia que aquilo envolvia seu sangue, seu destino.
Ao entrar em seu quarto, ela trancou a porta e tentou se convencer de que tudo aquilo era um mal-entendido, um pesadelo prestes a acabar. Mas enquanto encarava o teto, envolta pela escuridão, sentiu a certeza crescer: algo estava por acontecer. E o que quer que fosse, não seria nada bom.
Ao trancar a porta atrás de si, Evangeline deixou-se cair na cama, encarando o teto com olhos marejados. Lá no fundo, sempre soubera que sua mãe não a amava. Sabia disso desde a infância, quando os abraços afetuosos e as palavras de consolo eram dados apenas à sua meia-irmã, enquanto Evangeline recebia o vazio do esquecimento. Ainda assim, ela havia aprendido a chamar aquela mulher de mãe, porque era a única figura materna que tinha. Sua verdadeira mãe morrera quando ela era muito jovem, deixando-a sozinha em um mundo que parecia maior e mais cruel a cada dia.
Por mais que quisesse odiá-los - tanto a mãe que a ignorava quanto o pai que parecia ceder ao destino como se fosse uma marionete -, Evangeline não conseguia. Ela era boa demais para isso, doce demais para culpar outros pelos infortúnios de sua vida.
"Talvez seja verdade," refletiu consigo mesma. "Talvez eu só esteja aqui porque preciso pagar algum preço._ disse Evangeline se curvando para deitar enquanto um sono avassalador tomava conta de si.
Tudo ao redor parecia envolto em uma penumbra sufocante. Evangeline corria pelos vastos campos que desapareciam no horizonte, suas pernas mal sustentando o peso de um desespero crescente. Atrás dela, uma figura sombria a seguia. Era alta, imponente, mas o rosto permanecia escondido, coberto pela escuridão impenetrável que parecia crescer à medida que ele se aproximava. A única coisa que Evangeline via claramente era a mão da figura, uma mão desproporcionalmente longa, com dedos tortos que pareciam prontos para alcançá-la.
Ela tentava gritar, mas nenhum som escapava de seus lábios. Cada passo parecia drená-la, como se o chão estivesse vivo, sugando suas forças. Tentando fugir, tropeçou e, ao levantar-se, percebeu que não estava mais no campo, mas entre as paredes altas de um castelo antigo, cujas pedras eram marcadas por símbolos que ela não reconhecia.
Vultos passavam correndo, rostos atormentados que murmuravam uma única palavra:
"Segredo, segredo, segredo..."
Ela quis perguntar o que era aquele segredo, mas as vozes cessaram subitamente, e tudo ficou quieto, exceto o som da respiração dela. Evangeline tentou encontrar uma saída, mas o corredor parecia se estreitar. O som de passos ecoou atrás dela, e quando virou-se, a figura sombria estava parada, agora a apenas poucos metros.
"Não há como fugir," uma voz reverberou no espaço como um trovão.
Antes que pudesse reagir, Evangeline acordou ofegante ao som de passos leves no quarto. Era Mariah.
"Senhorita, está tudo bem? Ouvi você murmurar enquanto dormia", disse a jovem com um olhar preocupado.
Evangeline piscou várias vezes, tentando se situar. Olhou ao redor do quarto e percebeu que tudo estava em ordem, mas o desconforto do sonho permanecia como uma sombra sobre ela. "Eu... foi apenas um sonho," murmurou, tentando convencer a si mesma.
Mariah acendeu o candelabro ao lado da cama e ajustou as cortinas para cobrir os fracos raios de luar que entravam pela janela. "Se precisar de algo, estou no meu quarto," disse antes de sair.
Mas Evangeline não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Um impulso irrefreável a fez sair da cama e abrir a porta, determinada a andar pela mansão.
O corredor estava envolto em uma penumbra fantasmagórica, iluminado apenas pelas luzes tímidas das velas ao longo das paredes. Evangeline caminhava devagar, os pés descalços no assoalho frio de madeira, enquanto os murmúrios de seu sonho ainda ecoavam em sua mente.
Ela não sabia exatamente para onde ia, mas algo parecia puxá-la para a ala antiga da mansão, uma área raramente visitada desde que sua mãe biológica falecera. As portas rangiam ao mínimo toque, e os retratos nas paredes pareciam observá-la enquanto passava.
Ao chegar à porta do último cômodo, Evangeline hesitou. As mãos tremeram ao girar a maçaneta, mas, ao abrir a porta, encontrou apenas um quarto vazio, coberto de poeira e esquecido pelo tempo. Uma corrente de ar passou, fazendo-a estremecer, como se algo invisível passasse por ela.
No caminho de volta, Evangeline cruzou com sua meia-irmã no corredor principal. A jovem, parada à frente de um dos espelhos ornamentados, observava-se com o ar de alguém que sabia seu valor. Quando viu Evangeline, lançou um olhar frio e provocativo.
"Está se divertindo com seus passeios noturnos?" disse, arqueando uma sobrancelha.
Evangeline hesitou por um momento, mas tentou manter a calma. "Só estava buscando um pouco de ar fresco," respondeu, escondendo sua inquietação.
A irmã sorriu, mas não com gentileza. Era um sorriso cortante, carregado de desprezo. "Ar fresco? Aqui? Boa sorte com isso. Esta casa já está sufocada por segredos e por... outras coisas."
Antes que Evangeline pudesse perguntar o que ela queria dizer, a irmã afastou-se com passos firmes.
De volta à penumbra do corredor, Evangeline quase gritou ao ver uma silhueta parada em frente a uma das grandes janelas. Era a senhora Mckellen, a governanta, com seu perfil austero iluminado pela luz da lua.
"Senhorita," disse ela sem se virar, como se já soubesse que Evangeline estava ali. "Há noites em que os corredores escondem mais do que o silêncio."
Evangeline tentou esconder o arrepio que percorreu seu corpo. "Eu estava apenas explorando. A senhora sabe... algo sobre os segredos dessa casa?"
A governanta se virou lentamente. Seus olhos pareciam carregar anos de memórias difíceis. "Há coisas que é melhor não perguntar, menina. A verdade tem um preço, e nem todos estão dispostos a pagá-lo."
Sem dizer mais nada, a senhora Mckellen afastou-se, deixando Evangeline sozinha novamente.
Quando finalmente entrou em seu quarto, Evangeline percebeu algo estranho. As janelas que deveriam estar trancadas estavam escancaradas, e o frio da noite invadia o ambiente. Apressou-se para fechá-las, sentindo o vento gélido contra a pele.
Sentando-se na cama, ela tentou acalmar os próprios pensamentos, mas as palavras da governanta e o rosto de sua meia-irmã não paravam de martelar em sua mente.
Talvez fosse só sua imaginação. Talvez ela estivesse ficando paranoica.
Envolvendo-se no cobertor, ela decidiu que tudo aquilo não passava de coincidência. Mas, no fundo, sabia que não era verdade.